‘Moletom fashionista’ vai dominar a moda no pós-pandemia

Trabalhadores devem levar para a vida profissional o conforto que experimentaram nos meses de home office
Isabela Bolzani

Peças de vestuário no Centro de Distribuição da C&A, situado no Parque Ipê em São Paulo.
Peças de vestuário no Centro de Distribuição da C&A, situado no Parque Ipê em São Paulo. Eduardo Knapp/Folhapress

A diferença fica por conta da vestimenta: a bermuda toma o lugar das calças de alfaiataria. Na parte de cima, uma camisa bem passada para enfrentar as reuniões por vídeochamada ao longo do dia –ou mesmo uma camiseta, caso a agenda permita.

A demanda por roupas mais confortáveis ganhou força nos canais digitais durante o isolamento social e looks de malhas e materiais mais leves devem passar a ter uma participação maior nas vendas do varejo de moda mesmo com a volta gradual das atividades cotidianas.

O movimento acompanha a maior adesão das companhias por modelos de trabalho híbridos, nos quais parte dos dias da semana são trabalhados de casa.

Centro de distribuição da C&A, no Parque Ipê, em São Paulo; vendas online de roupas mais confortáveis ganharam força na pandemia – Eduardo Knapp/Folhapress

Segundo Fernando Pimentel, presidente da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), apesar de o segmento de vestuário ter sofrido durante a pandemia do novo coronavírus, as vendas que aconteceram partiram de segmentos não tão comuns: calças e blusas de moletom, roupas de malha ou de academia, meias, chinelos e pantufas.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sobre o varejo apontam que as vendas do segmento de vestuário subiram 30,5% em agosto contra julho. O comércio em geral subiu 3,4% no mesmo período.

“As pessoas começaram a ficar mais em casa, trabalhar de um jeito diferente, se exercitar de outra maneira. Tudo isso foi demandando um tipo de produto diferente daquele que era necessário quando se trabalha no escritório, pegando condução. Houve uma procura por roupas mais confortáveis, mas que permitissem reuniões. O consumo com o vestuário caiu nesse período [de pandemia], mas tivemos uma mudança de mix nos produtos vendidos”, afirmou Pimentel.

Foi nessa mudança de cenário, do escritório para o home office, que Danielle Fortunato, 28, percebeu que precisaria fazer mudanças em seu guarda-roupa. Ela, que é coordenadora da área de projetos de uma seguradora e estava acostumada a trabalhar de traje social todos os dias, precisou comprar roupas mais confortáveis para conseguir trabalhar remotamente.

“Chegou a um ponto em que eu fui para o sítio dos meus pais de casaco social porque não tinha uma jaqueta de moletom para usar. Também precisei comprar uma calça de moletom, pijamas e até tênis porque eu só tinha scarpins [modelos de sapatos de salto alto fechados]”, afirmou.

Entre as grandes varejistas de moda, a maior demanda dos consumidores por roupas mais confortáveis também exigiu uma adaptação nos modelos e estilos.

Segundo o diretor de marketing da Riachuelo, Elio Silva, o momento exigiu uma transformação do produto oferecido nas lojas da marca, mais integrada ao desejo dos clientes. Ele afirma que, em um primeiro momento, a empresa viu um boom na venda de pijamas –de cada 10 compras, 8 continham o produto.

Em seguida, pantufas, chinelos e itens que aparecem em uma rotina doméstica ganharam força, além de produtos confeccionados para a casa –como cama, mesa e banho– e toda a linha de conforto da companhia, com itens de algodão, moletom e tecidos leves.

“O cliente começou a demandar outros modelos. Fizemos várias pesquisas para entregar uma proposta que contemplasse o que o consumidor queria e começamos a criar coleções específicas para o período, tentando trazer a inovação da moda para os itens mais confortáveis”, disse Silva, usando de exemplo a linha de tie dye [técnica de tingimento de roupas no estilo “faça você mesmo”], da companhia, que envolvia camisetas e moletons.

“O consumidor não queria mais comprar roupas com cores de inverno, mais sóbrias. Então tudo o que foi criado durante a pandemia foi mais leve e divertido.

Funcionários identificam peças de roupa destinadas para vendas no e-commerce em área do galpão no centro de distribuição da C&A, no Parque Ipê, em São Paulo – Eduardo Knapp/Folhapress

Para o presidente da Marisa, Marcelo Pimentel, outro efeito característico do isolamento social que acabou moldando as vendas do setor foi o aumento de consumo de “tops” (parte de cima das roupas, como camisas) mais sociais.

“É o chamado ‘efeito videoconferência’, já que é exatamente o que aparece na imagem da câmera em uma chamada de vídeo. Além disso, também pela demanda dos clientes, começamos a ajustar a nossa coleção futura com um lounge wear [roupas com tecidos mais finos e leves], também adaptados com conteúdos de moda, como cortes e estampas, principalmente em calças”, disse.

Os executivos do setor afirmaram, ainda, que apesar de a demanda por moletons e malhas ter se sobressaído durante o isolamento social, consumidores continuaram comprando calças jeans – ainda que em menor quantidade.

O movimento é diferente do que foi observado em outras partes do mundo. Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, grandes marcas de jeans como True Religion, Lucky Brand e G-Star RAW entraram com pedidos de recuperação judicial desde abril. A Levi’s, outra grande marca, reportou queda de 62% nas receitas do segundo trimestre, para US$ 498 milhões (R$ 2,8 bilhões).

“O nosso jeans continua muito forte. Houve um aumento de participação na venda desses itens, principalmente porque a maioria deles já vem com elastano. Criamos uma calça em maio, por exemplo, que veste até cinco tamanhos e foi sucesso de vendas. E essa tendência deve se estender para o pós-pandemia, já que os modelos híbridos de trabalho serão mais adotados pelas empresas”, afirmou o diretor de produtos da Renner, Henry Costa.

A expectativa é que apesar de a reabertura da economia acontecer e de o consumidor voltar para as lojas físicas gradativamente, esses modelos híbridos de trabalho ainda tendem a ditar as vendas de vestuário.

Mesmo entre consumidores mais adaptados às roupas casuais, os trajes mais confortáveis também ganham peso na decisão de compra. É o caso de Beatriz Bebiano, 24, que faz tradução de artigos científicos em um centro universitário. Ela afirma que deve levar as roupas confortáveis com ainda mais frequência para o ambiente de trabalho.

“Com certeza isso muda porque acabamos nos acostumamos com conforto. Vestir uma calça de alfaiataria nunca mais será a mesma coisa depois de passar meses vestindo moletom. Principalmente agora, que as estampas estão mais coloridas, dá para fazer looks interessantes”, disse.

Beatriz Bebiano, 24, tradutora, na casa dela em Santo André; ela comprou roupas mais confortáveis para aproveitar o home office
Beatriz Cecilio Bebiano, 24, tradutora, na casa dela em Santo André; ela comprou roupas mais confortáveis para aproveitar o home office – Mathilde Missioneiro/Folhapress

“Para mim, que tenho uma deficiência física e dificuldade de locomoção, conforto é ainda mais essencial. Ainda tenho dificuldades de achar roupas adeptas de uma moda inclusiva, que pense em designs que facilitem para quem tem alguma deficiência física. Nesse sentido, panos que esticam, mais fáceis de vestir, fazem muita diferença”, afirma.

Para o presidente da Abit, a demanda por roupas mais confortáveis deve se equilibrar um pouco mais em relação aos produtos sociais e casuais.

“Há a perspectiva de que essa adaptação das roupas mais confortáveis siga trazendo estilo e designs diferentes conforme a moda se transforme ao longo do tempo. Inclusive em relação à máscara, que passa a ser um acessório importante. O jeans e a malha compõem um uniforme muito característico da sociedade brasileira e isso deve continuar”, disse Pimentel, da Abit.

A gerente sênior de marketing da C&A Brasil, Mariana Moraes, afirma, ainda, que transformações feitas nos canais de venda e na forma de consumo dos clientes ao longo da pandemia também devem se estender.

“Toda essa mudança de produto também veio acompanhada de uma mudança dos canais de venda. O consumidor brasileiro ainda não tem maturidade de consumo online em confecção, mas foi um processo que se acelerou nos últimos meses e que deve trazer mudanças definitivas na forma de comprar. Modelos de drive thrus, autopagamento e as máquinas de autocompra [semelhantes às máquinas de refrigerantes em estações de metrô e trem] são iniciativas nas quais continuamos a apostar”, disse.

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