O que acontece quando as startups vão para a garagem ou para a sala de estar

Muitas vezes fundadas dentro de um cômodo em casa, empresas inovadoras tiveram que descobrir como era trabalhar sem ter um escritório em meio à pandemia
Por Cade Metz – The New York Times

A bancada de trabalho na garagem onde David Packard e Bill Hewlett começaram a Hewlett-Packard

No Vale do Silício, é bastante comum a história da startup que nasce em uma garagem e desponta com um produto inovador. O que muita gente não esperava em 2020 é que uma pandemia forçaria as empresas a voltarem para a garagem para seguir de pé. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Colin Wessels, fundador e CEO da Natron Energy, uma startup que almeja construir um novo tipo de bateria. 

Em março, quando as ordens de distanciamento social levaram ao fechamento dos escritórios de sua empresa em Santa Clara, Califórnia, ele e seus engenheiros não podiam mais usar o laboratório onde testavam as baterias. Então, ele embalou o máximo de equipamento que pôde, colocou em uma picape, levou tudo para casa e recriou parte do laboratório em sua garagem. “Era apenas uma parte do equipamento de teste”, disse Wessells. “Mas poderíamos, pelo menos, realizar alguns novos experimentos.”

Projetar e criar novas tecnologias – tarefas nunca fáceis – tornaram-se muito mais difíceis durante a pandemia. Se no mundo do código de software já é difícil, a complexidade aumenta para empresas que fabricam baterias, chips de computador, robôs, carros autônomos e qualquer outra tecnologia que envolva mais do que algumas linhas de programação. 

Embora muitos trabalhadores americanos possam sobreviver com um laptop e uma conexão à internet, os engenheiros de startups que montam novos tipos de hardware também precisam de placas de circuito, peças de automóveis, ferros de solda, microscópios e, no final de tudo, uma linha de montagem.

Mas o Vale do Silício não é o lar da engenhosidade à toa. Quando a pandemia bateu, muitos engenheiros de startups na área, como Wessells, levaram seus equipamentos para as garagens de suas casas para que pudessem continuar inovando. E se não era a garagem, então era a sala de estar.

“Movimentamos milhões de dólares em equipamentos apenas para que as pessoas pudessem continuar trabalhando”, disse Andrew Feldman, CEO da Cerebras Systems, uma startup em Los Altos, Califórnia, que está construindo o que pode ser o maior chip de computador do mundo. “Era a única maneira de continuarmos fazendo essas coisas físicas.”

Para continuar o desenvolvimento do chip da Cerebras – um equipamento do tamanho de um prato raso – mesmo quando o escritório estava fechado, um dos engenheiros da companhia transformou sua sala de estar em um laboratório de hardware. Em meados de março, Phil Hedges preencheu a sala de 12 metros quadrados com chips e placas de circuito. Também havia monitores, ferros de solda, microscópios e osciloscópios, que analisam os sinais elétricos que viajam pelo hardware.

Para acomodar o equipamento, Hedges montou três mesas dobráveis. Ele colocou metade do equipamento nas mesas e a outra metade no chão, debaixo delas. Havia tanto aquecimento de hardware de computador funcionando dia e noite que ele também instalou resfriadores enormes para evitar que o laboratório improvisado esquentasse demais.

Em julho, ele devolveu parte do equipamento aos escritórios da Cerebras, onde agora trabalha às vezes, quase sempre sozinho. Apenas sete outras pessoas têm permissão para entrar no escritório de mais de 3 mil metros quadrados, com a maioria das outras ainda em casa com seus próprios equipamentos. O arranjo funciona bem o bastante, disse Hedges, embora ele nem sempre tenha o equipamento de que precisa, porque tudo está espalhado pelas residências de muitas pessoas.

Se tudo mais falhasse, sempre haveria a garagem

No Vale do Silício, a garagem há muito tempo tem uma espécie de aura mítica. Na década de 1990, Larry Page e Sergey Brin desenvolveram o Google em uma garagem. No final dos anos 1930, Bill Hewlett e David Packard criaram a Hewlett-Packard em outra. Hoje, o local permanece bem preservado, é conhecido como HP Garage, em Palo Alto, e às vezes é chamado de “local de nascimento do Vale do Silício”.

Agora, na pandemia, a garagem do Vale do Silício se tornou uma metáfora para o uso de qualquer espaço disponível para fazer o que precisa ser feito, disseram os engenheiros. Hedges, o engenheiro da Cerebras, disse que só levou os equipamentos para a sala porque não tinha uma garagem. “Se tivéssemos uma garagem, minha esposa me colocaria lá junto com os resfriadores”, disse ele.

Na garagem para um carro do CEO da Natron Energy, a recriação do laboratório do escritório permitiu que ele testasse baterias dentro de “câmaras ambientais” do tamanho de minifrigoríficos, que controlam temperatura e umidade. Ele disse que havia tomado conta da garagem com sua mesa de trabalho e todo o equipamento.

Em julho, novos decretos do governo permitiram que a Natron – considerada um negócio essencial porque atendia a redes de telefonia celular – levasse alguns engenheiros de volta ao laboratório, em horários alternados.

A startup também instalou softwares nos computadores que permitiram aos engenheiros acessar os equipamentos do laboratório de casa. O arranjo não era o ideal. Não era como ter o equipamento na frente das pessoas, mas funcionou, disseram os engenheiros da Natron. “É como se eu estivesse sentado lá”, disse Aaron Loar, engenheiro da Natron que ajuda a escrever o software que opera as baterias. “Mas estou um pouco cerceado.”

A Natron também voltou a fabricar baterias em uma unidade em Santa Clara, onde reorganizou a linha de montagem de modo a respeitar o distanciamento social. Ela instalou barreiras de plástico entre cada trabalhador na linha e reconstruiu o sistema de fluxo de ar do edifício. Embora a linha de montagem esteja mais lenta, ninguém testou positivo para o novo coronavírus, disse Wessells. “A equipe de engenharia não está tão rápida. A linha de fabricação não está tão rápida”, disse ele. “Mas isso é apenas o custo dos negócios durante a covid-19.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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