Operadora digital Fluke levanta aporte e inicia expansão nacional

Fundada em São Carlos, empresa se inspira na transformação que bancos digitais causaram para revolucionar telecomunicações; startup utiliza redes da Vivo para apoiar seu serviço

Marcos Antônio Oliveira Jr, fundador da operadora digital Fluke
Marcos Antônio Oliveira Jr, fundador da operadora digital Fluke

Nos últimos anos, os brasileiros se acostumaram a contratar planos de dados para poder usar a internet no celular. Há sempre um limite mensal: se ele fosse estourado, é preciso pagar mais. Caso contrário, porém, o usuário não pode acumular os bytes que não foram utilizados. Mas há quem acredite que não precisa ser assim: ativa desde março, a operadora digital Fluke, de São Carlos (SP), quer mudar essa regra e criar uma “postura mais amigável” com os consumidores, como diz seu fundador, Marcos Antônio Oliveira Jr. 

“Queremos fazer com as telecomunicações o que fintechs como Neon e Nubank fizeram com os bancos”, diz ele, em entrevista ao Estadão. A citação não é fortuita: cofundador do Neon, Pedro Conrade está entre em um grupo de investidores-anjo que acabou de fazer um aporte na Fluke. Ao lado dele, há nomes como Paulo Silveira (Alura) e Diego Marrara, sócio da empresa de inovação Distrito, bem como o grupo de investimento-anjo de ex-alunos da Faculdade de Economia, Contabilidade e Administração da USP, o FEA Angels. 

Com o aporte, a empresa pretende financiar sua expansão para além de sua terra natal e chegar a até seis Estados no fim de 2020. Além disso, está aumentando seu time: antes do aporte, concretizado em julho, a Fluke tinha 16 pessoas. Hoje, tem 23 e deve chegar a 27 funcionários até o final do ano. A meta é que esse grupo ajude a empresa a chegar à casa “das dezenas de milhares de clientes” até o final do ano que vem. 

Como funciona o serviço

Fundada em 2017 por Oliveira junto a outros três sócios, a Fluke oferece aos usuários um serviço de telefonia e internet que pode ser contratado conforme a demanda. Depois de comprar o chip no site da empresa, o usuário paga uma assinatura base de R$ 2 por semana, para manter a linha ativa. 

Além disso, pode comprar múltiplos de 500 MB para internet por R$ 6 – 2 GB de dados, por exemplo, custam R$ 24 – e pagar 10 centavos por minuto de ligação. “Se você não usar todos os dados, o saldo é acumulado para o período seguinte”, explica Oliveira. “Outra vantagem é não precisar sempre pagar: é possível desativar o serviço caso o usuário vá viajar, por exemplo.” 

Após dois anos de testes, a empresa começou a funcionar em março, apenas na região de São Carlos. Em outubro, chegou ao resto do Estado de São Paulo, ao Distrito Federal e a Goiás – este último é o Estado onde Oliveira nasceu e estudou até o Ensino Médio. Ele diz que a escolha não é coincidência: “vamos continuar nossa expansão pelos locais onde há maior demanda de pré-cadastros no nosso site”, explica. 

O desenvolvimento da empresa fez Oliveira largar a faculdade de Engenharia Elétrica na USP São Carlos. “Achamos que se criássemos uma empresa e tocássemos a faculdade junto, íamos fazer mal as duas coisas. Preferimos aproveitar a oportunidade do que ficar chorando no futuro de não ter apostado”, brinca o executivo. A aura jovem faz parte do estilo da empresa. “A gente brinca que Fluke é uma operadora de estimação com nome de cachorro.” 

Inicialmente, por conta da proximidade com universidades como a USP São Carlos e a Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), o foco da empresa era atender o público universitário, com foco em comunidade. Com a pandemia – e muitos estudantes voltando para suas cidades –, a empresa mudou o foco para jovens de 18 a 30 anos, entusiastas de tecnologia, antenados. “Ainda não oferecemos economia de escala, mas sentimos que são usuários com menos resistência a testar um serviço digital”, diz Oliveira. 

Comprovar que modelo digital funciona é desafio

Além de convencer o público, a Fluke também precisa convencer o mercado de que o modelo de operadora digital pode dar certo no Brasil. Conhecido pela sigla MVNOs, as operadoras digitais utilizam infraestrutura de uma empresa tradicional – no caso, a Vivo – e cuidam apenas do atendimento ao cliente na ponta. 

Em países como a Inglaterra, o modelo é popular, mas atende principalmente a nichos específicos. Aqui no Brasil, o serviço é oferecido por algumas empresas e até pelos Correios, mas nenhuma deslanchou a ponto de chamar atenção. Para Oliveira, o que faltou foi o foco no usuário. “As MVNOs no Brasil não conseguiram ser empresas tecnológicas, atendendo à demanda dos clientes”, diz. 

Questionado sobre o fato do modelo de negócios da Fluke poder ser copiado por grandes operadoras, deixando a empresa “obsoleta”, Oliveira vê a questão com clareza. “Nosso sistema não tem tantas burocracias e consegue ser mais enxuto”, diz. “Além disso, as operadoras podem até criar novas ofertas, mas antes de fazer isso, elas vão ter que explicar porque o que elas fizeram por duas décadas não fazia sentido. Vai dar um nó.” 

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