Alfredo Volpi e seus herdeiros artísticos em exposição conjunta

Galeria Millan abre mostra com obras do pintor e dos contemporâneos Elizabeth Jobim e Paulo Pasta
Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

Exposição reúne Volpi e seus herdeiros
O pintor Paulo Pasta posa ao lado de sua tela, de uma fachada de Volpi e das pedras de Elizabeth Jobim Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A Galeria Millan abre nesta quinta-feira, 12, em parceria com a Galeria Raquel Arnaud, no espaço da primeira, a exposição Transições entre Passagens, que reúne o principal pintor moderno brasileiro, Alfredo Volpi (1896-1988), e dois pintores contemporâneos, Elizabeth Jobim e Paulo Pasta. Embora não fosse a intenção original da curadora Gisela Gueiros, o título da mostra remete à fragmentária obra de Walter Benjamin (Das Passagen-Werk/Passagens) em que o pensador berlinense, refletindo sobre as bruscas alterações na fisionomia arquitetônica da Paris de sua época, cita uma frase de Maxime Du Camp em que o escritor e fotógrafo francês compara a história a Janus, a mítica figura de duas faces: “quer olhe o passado, quer olhe o presente, ela vê as mesmas coisas”. Pode-se dizer o mesmo de Paulo Pasta e Elizabeth Jobim: o olhar de ambos parece convergir para a maneira de Volpi ver o mundo, que, evidentemente, não era nostálgica nem futurista.

É tão evidente a proximidade entre as obras dos dois com a do mestre Volpi que a palavra “passagem” faz todo sentido nessa exposição conjunta. Benjamin, comentando como a construção em ferro na Paris de sua época ocupava uma posição híbrida que permitia certa analogia com a da igreja barroca – e não só pela cobertura (Halle) em abóbada –, concluiu ser possível dizer que permanecia algo de sagrado nessa construção, um “resquício de nave de igreja”.

Não é demais lembrar que as atuais pinturas de Pasta evocam igualmente algo de sagrado na história da pintura. Mais precisamente, o retábulo da Anunciação criado por Ducio para o altar-mor de Siena, do qual Pasta extraiu as figuras do arcanjo Gabriel e da Virgem, reinterpretando a estrutura original e tornando equivalentes o espaço sagrado e o profano, antes separados por uma coluna.

Exposição reúne Volpi e seus herdeiros
Tela de Paulo Pasta que usa cores atmosféricas e sugere passagem virtual Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Alegoria

Essa “passagem” não eleva nem a pintura de Volpi nem a de Pasta à condição de alegoria. Nenhum deles é um crente, no sentido tradicional. Pasta faz uma pintura antinarrativa. Ela não “conta” uma história. Antes, revela. Colocadas lado a lado, uma pequena tela vertical com uma fachada de Volpi e uma pintura de um rosa renascentista de Pasta revelam que a estrutura construtiva que sustenta as duas obras remete à ideia benjaminiana da transformação como reafirmação de uma ordem primordial. Volpi e Pasta pintam, enfim, a passagem do tempo, apresentam um mundo sujeito à destruição e imediata reconstrução na hora em que o espectador está diante da tela, no intervalo entre a epifania e a desilusão.

Há poucas obras (10) na exposição, um acerto da curadora Gisela Gueiros, que, convidada pelo curador Gabriel Pérez-Barreiro, da plataforma digital Preview, pensou numa exposição virtual – que virou física – a partir de um conceito formulado pelo pintor alemão Josef Albers em seu livro Interação da Cor, de 1963. Albers defendia que nossa percepção das cores deveria ser relativizada. Até mesmo o contexto em que estão pode afetar a maneira como vemos a construção cromática – Volpi usava a artesanal técnica da têmpera, Pasta usa óleo e Elizabeth Jobim impregna blocos de concreto com pigmentos. Ou sejam, os três recorrem a procedimentos antigos, mas num contexto moderno e contemporâneo.

Concreto

Lembrando que a lição de Albers ensina haver uma discrepância entre fato físico e efeito físico na percepção visual, a pintora Elizabeth Jobim revela que os pigmentos usados para interagir com os blocos são os mesmos de suas telas (vermelho-veneziano, siena) com pequenas variações. A curadora vê pontos de contato entre essas pequenas estruturas esculpidas de Jobim e as soluções estruturais das superfícies descontínuas de Volpi em sua passagem pelo concretismo. Pasta, aproximando-se do neoconcreto Hélio Oiticica dos metaesquemas, define sua pintura atual como uma forma de promover a passagem ao espaço tridimensional, em alguns casos por meio de cores atmosféricas (azul da Prússia, azul-ultramarino).

Exposição reúne Volpi e seus herdeiros
Obra de Elizabeth Jobim: o lugar onde cor e forma são sinônimos Foto: Daniel Teixeira/Estadão

É um mundo no limite do desaparecimento, que se esvai no infinito, como a coluna brancusiana de Volpi (de 1957) exposta ao lado da mais recente tela de Pasta, que sugere um confronto entre o espaço ilusório e a superfície concreta. A curadora da exposição chama a atenção para essa coluna volpiana em forma de ampulheta estática, que sugere a suspensão do tempo. Pasta comenta que a ideia do vazio presente na exposição remete à situação de isolamento provocado pela pandemia, cujo efeito positivo é conduzir o espectador de novo à contemplação.

Elizabeth Jobim confirma que Volpi tinha essa vocação de estabelecer um vínculo afetivo com o espectador por meio da cor. “Sua pintura é um espetáculo de simplicidade e despojamento, que tem a ver com arquitetura”, diz a pintora. “Ele foi ao mesmo tempo assertivo e intimista”, conclui. “Volpi é o pintor menos neurótico que eu conheço”, completa Paulo Pasta.

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