Movimento de mulheres na China distribui absorventes gratuitamente em escolas e universidades

Para combater a falta de acesso a itens de higiene e o constangimento enfrentado por mulheres durante seus períodos menstruais, campanha distribui absorventes em caixas e sacolas espalhadas por banheiros femininos de instituições de ensino chinesas
Tiffany May e Amy Chang Chien, do New York Times

Sacos de absorventes embalados individualmente surgiram do lado de fora dos banheiros da Universidade de Guangxi em Guangxi, China. “Pegue um e coloque outro de volta depois. Acabe com period shaming (constrangimento menstrual, em tradução livre)”, dizem as instruções Foto: NYT

HONG KONG — Tudo começou quando uma única caixa de absorventes higiênicos apareceu em uma sala de aula numa escola de ensino fundamental em outubro. Em seguida, um recipiente de plástico com absorventes foi preso às paredes de quatro banheiros em uma universidade de Xangai.

Até a primeira semana de novembro, caixas e sacos contendo absorventes embrulhados individualmente teriam aparecido do lado de fora de banheiros em pelo menos 338 escolas e faculdades em toda a China. Cada um trazia uma versão das mesmas instruções: “Pegue um e coloque outro de volta depois. Acabe com period shaming (constrangimento menstrual, em tradução livre).”

Os absorventes foram parte de um esforço mais amplo para aumentar o acesso ao produto, que nem todas as alunas podem pagar, e para eliminar a vergonha em torno de uma função corporal natural que há muito foi estigmatizada, de acordo com os organizadores de uma campanha popular chamada Stand by Her. 

Fundada por Jiang Jinjing, uma defensora dos direitos das mulheres, a campanha visa colocar o assunto da pobreza menstrual — o que as Nações Unidas descrevem como a luta financeira que mulheres e meninas de baixa renda enfrentam para comprar produtos menstruais —  para o primeiro plano no debate nacional. Jiang, que ganhou destaque em março após mobilizar as entregas de absorventes higiênicos para hospitais em Wuhan, na China, durante o surto de coronavírus, começou a campanha para combater a pobreza menstrual este ano.

Sacos de absorventes embalados individualmente surgiram do lado de fora dos banheiros da Universidade de Guangxi em Guangxi, China. Alunos e professores estão colocando os produtos fora dos banheiros como parte de uma campanha popular para combater a pobreza menstrual e remover o estigma em torno da menstruação Foto: FIONA FEI / NYT
Sacos de absorventes embalados individualmente surgiram do lado de fora dos banheiros da Universidade de Guangxi em Guangxi, China. Alunos e professores estão colocando os produtos fora dos banheiros como parte de uma campanha popular para combater a pobreza menstrual e remover o estigma em torno da menstruação Foto: FIONA FEI / NYT

Em uma entrevista publicada em setembro por uma revista online de Xangai, Sixth Tone, Jiang disse que costumava acreditar que os produtos menstruais eram inacessíveis apenas nas províncias ruarias chinesas mais empobrecidas, mas logo percebeu que o fenômeno era generalizado.

“Essa é a chamada pobreza feminina”, disse Jiang, mais conhecida por seu pseudônimo, Liang Yu. “Quando falamos sobre pobreza, as necessidades das mulheres se tornam automaticamente invisíveis.”. Ela recusou um pedido de comentário desta reportagem.

Seu grupo arrecadou 126 mil dólares em uma campanha de financiamento coletivo em outubro para enviar absorventes para 2.000 adolescentes em áreas rurais e fornecer informações sobre menstruação e educação sexual. Uma professora do ensino fundamental se inspirou nos esforços de Jiang e colocou uma caixa com absorventes gratuitos em sua sala de aula, dizendo às alunas para pegar um e substituí-lo mais tarde. 

Jiang postou fotos enviadas pela professora não identificada no Weibo, uma plataforma de mídia social chinesa. Ela encorajou outras a fazerem o mesmo e a campanha em torno do que ela chamou de “caixas de ajuda mútua” disparou. 

Caixas com absorventes começaram a aparecer nas entradas de banheiros femininos em escolas e faculdades de todo o país. Alunas da Universidade de Ciência Política e Direito do Leste da China, em Xangai, anexaram caixas do lado de fora de quatro banheiros femininos no campus. 

Fiona Fei, uma estudante de 23 anos de pós-graduação da Universidade de Guangxi, no sul da China, se inspirou a pendurar bolsas com zíper em torno dos banheiros do campus em outubro. Ela disse em uma entrevista por telefone que o pensamento patriarcal e as aulas incompletas de biologia nas escolas ensinaram as meninas a ver suas funções corporais como indecentes. “Muitas pessoas ao meu redor sentem vergonha”, disse ela, “e por isso queremos romper essa vergonha juntas”.

A impossibilidade de comprar produtos menstruais é comum em muitos países, e essa inacessibilidade costuma ser agravada por costumes sociais que consideram a menstruação um tabu. Mulheres e meninas no Nepal são banidas de suas casas para cabanas durante seus períodos menstruais. Pelo menos uma ou duas mulheres morrem nas cabanas a cada ano por exposição a condições adversas, mordidas de animais ou inalação de fumaça após acender fogueiras para se manterem aquecidas.

Um estudo publicado em julho pelo Centro Maple de Aconselhamento Psicológico de Mulheres em Pequim descobriu que quase 70% das entrevistadas disseram que tentam esconder os absorventes higiênicos que carregam, e mais de 61% usam eufemismos para se referir à menstruação.

Embora a campanha Stand by Her na China tenha recebido apoio nas redes sociais, também foi criticada e ridicularizada. Alguns disseram que as caixas com absorventes deveriam ser colocadas dentro dos banheiros para dar mais privacidade às pessoas. Em um incidente amplamente divulgado, caixas de pedidos de doações para lenços de papel foram colocadas do lado de fora dos banheiros masculinos na Universidade da China de Ciência Política e Direito, em Pequim, como referência grosseira à masturbação.

Mas a campanha também encontrou apoiadores entre os homens. Conor Yu, um estudante de 22 anos da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai, disse que nunca aprendeu sobre menstruação na escola, mas foi influenciado por amigas feministas a prestar atenção no assunto. Ele montou caixas do lado de fora dos banheiros femininos no campus e pediu permissão para colocar pôsteres informativos na biblioteca, mas o pedido foi negado.

Nos últimos anos, o assunto tornou-se menos tabu na China. Em 2016, a nadadora olímpica Fu Yuanhui quebrou barreiras com uma entrevista à beira da piscina, na qual revelou que havia menstruado antes da disputa.

Neste verão, o tema da pobreza menstrual passou a ser examinado novamente na China porque absorventes baratos, sem marca, que não foram embalados individualmente, foram colocados à venda por um comerciante não identificado em uma plataforma de comércio eletrônico. Algumas pessoas questionaram por que alguém compraria esses absorventes potencialmente insalubres. Dois compradores online sugeriram que haviam adquirido os itens porque não podiam pagar por produtos mais caros.

Em agosto, uma garota de 17 anos em Chengdu arrecadou quase 200 mil dólares em uma campanha online para enviar absorventes para duas escolas secundárias em Liangshan, uma região na província de Sichuan que tem uma das maiores taxas de pobreza do país. 

Jiang, fundador da Stand by Her, disse em um post online: “O processo de ter discussões altas e frequentes removerá o estigma da menstruação. Isso vai libertar milhares de mulheres que têm vergonha disso.” Ela observou que “absorventes” e “menstruação”, antes palavras tabu, estavam sendo mais comumente discutidas no país. “Isso já é um marco e um grande avanço”, disse.

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