Sofia Steinberg & Simona Kust – Vogue Russia December 2020 By Vito Fernicola

Shiny Group   —   Vogue Russia December 2020   —   www.vogue.ru
Photography: Vito Fernicola Model: Sofia Steinberg & Simona Kust Styling: Katherina Zolototrubova Hair: Kalle Eklund Make-Up: Partrick Glatthaar  Set Design: Sylvain Cabouat

Send Nudes – Nylon March 2017 By Shxpir

Send Nudes
Nylon March 2017

www.nylon.com Photography: Shxpir
Model: Emma Surmon,Estelle Frigenti, Yaris Cedano, Leaf Zhang, Selina Khan, Kaylyn Kanta, Alysia Beckford, Olantha Moran, Rachel Sykes, Gabi Kniery, Ya Jagne and Nyamuoch Girwath
 Styling: Joesph Errico & Shiona Turini Hair: Ted Gibson Make-Up: Porsche Cooper Manicure: Yuko Wada

Morre Jan Morris, escritora britânica e pioneira transgênero

Best seller com seus livros de viagem e testemunha privilegiada da conquista do Everest, ela relatou sua transição do corpo de um homem para um de mulher na páginas de “Conundrum”, de 1974

A escritora Jan Morris 

Jornalista, escritora de livros de viagens, historiadora e pioneira transgênero, a britânica Jan Morris morreu esta sexta-feira, aos 94 anos, segundo informou seu filho, Twm Morys, em um comunicado: “Esta manhã, às 11h4, no Hospital Bryn Beryl, em Llyn (Norte do País de Gales), a escritora e viajante Jan Morris começou sua maior jornada. Ela deixa para trás sua parceira de longa data, Elizabeth.” A causa da morte não foi divulgada.

Como jornalista, Morris publicou em primeira mão notícias como a da conquista do Monte Everest por Edmund Hillary e Tenzing Norgay, e a do envolvimento francês no ataque israelense ao Egito na guerra de Suez. Ela publicou mais de 30 livros, entre alguns muito populares relatos de viagens (a lugares que vão de Veneza a Oxford, e de Hong Kong a Trieste) e a elogiada trilogia “Pax Britannica”,  sobre o Império Britânico.

Seu livro mais comentado, porém, foi “Conundrum”, diário de sua transição de um corpo de homem para um de mulher, em 1972, uma sensação internacional quando publicado, dois anos depois. Nascida James Morris em Somerset, em 1926, a escritora disse de ter percebido, aos três ou quatro anos de idade, que tinha vindo “no corpo errado e que deveria realmente ser uma menina”. No início, ela guardou essa certeza como um segredo. Mas, durante toda a infância, sentiu “um anseio por não sei o quê, como se faltasse uma peça.”

Em 1949, Morris casou-se com Elizabeth Tuckniss, filha de um plantador de chá. Eles tiveram cinco filhos, entre os quais o poeta e músico Twm Morys. Mesmo após a transição, eles continuaram a viver juntos, na zona rural do Norte do País de Gales até a morte da escritora. Em uma entrevista de 2008 agência à Reuters, Morris disse que há anos estava “preocupada com a própria morte”: “Cerca de 30 anos atrás, preparei nossa lápide. Tem meu próprio epitáfio, que é ‘Aqui estão duas amigas – Jan e Elizabeth Morris – no fim de uma vida.'”

Homenagens à vida e ao trabalho de Jan Morris foram publicadas nas redes sociais na sexta-feira. “Que vida e que escritora!”, disse o escritor e jornalista Sathnam Sanghera no Twitter. “Muito triste ao ouvir a notícia do falecimento de Jan Morris. Sua bela escrita tocou muitos dos meus mundos. Um ser humano muito especial e adorável”, tuitou Paul Jenkins, executivo-chefe da Tavistock e da Portman NHS Foundation Trust, umas das principais clínicas de identidade de gênero da Grã-Bretanha.

O último livro de Jan Morris, “Think again”, reunião de escritos dos seus diários, foi publicado em março. Um segundo volume está programado para sair em janeiro de 2021.

All That She Loves | Spring Summer 2021 | Full Show

All That She Loves | Spring Summer 2021 | Full Fashion Show in High Definition. (Widescreen – Exclusive Video/1080p – Gran Canaria Swim Week by Moda Cálida)

Carolyn Jordan – No Love Letter
Damien Lefevre – Love Is In The Air

Ubuntu Yoga, grupo de mulheres pretas encontra acolhimento no ioga

Conheça o Ubuntu Yoga, grupo de apoio e cuidado que nasceu durante a solidão do isolamento social
PAOLA DEODORO

juJntas, em sentido Anti-horário: Tayla Cândido, Priscilla Mesquita, Tati Cassiano, Regina Ferreira, Taís Ramos, Aline Inocêncio, Karol Camargo, Jheniffer Batista, Jaque Coelho Mota e Cassandra Velloso (Foto: Maira Azzy)
juJntas, em sentido Anti-horário: Tayla Cândido, Priscilla Mesquita, Tati Cassiano, Regina Ferreira, Taís Ramos, Aline Inocêncio, Karol Camargo, Jheniffer Batista, Jaque Coelho Mota e Cassandra Velloso (Foto: Mayra Azzi)

Imagine 40 mulheres pretas, de diversos lugares do Brasil, com diferentes históricos, perfis e corpos, lançando olhares sobre uma prática cheia de reflexões e significados que nunca pareceu feita para elas. Grupo de prática virtual que nasceu na pandemia, o Ubuntu Yoga poderia ser mais uma história entre as milhares de turmas online que surgiram durante o isolamento social, mas se revelou uma maneira nova e democrática de se relacionar com a ioga.

A atriz e produtora cultural Priscilla Mesquita (Foto: Maira Azzy)
A atriz e produtora cultural Priscilla Mesquita (Foto: Mayra Azzi)
a professora de pilates mais cool de São Paulo, Karol Camargo, apoiada no black poderoso de Tayla Cândido (Foto: Maira Azzy)
a professora de pilates mais cool de São Paulo, Karol Camargo, apoiada no black poderoso de Tayla Cândido (Foto: Mayra Azzi)
 Verdadeira tradução da palavra ubuntu (Foto: Maira Azzy)
Verdadeira tradução da palavra ubuntu (Foto: Mayra Azzi)

O projeto nasceu da sensibilidade de Tati Cassiano, bailarina e modelo que se formou instrutora de ioga em 2019. “O início da quarentena foi um período bastante desafiador, com pouco  trabalho e muita angústia. Percebi isso no grupo da Hutu Casting, agência de profissionais negros, entre os muitos relatos de insônia, ansiedade, pânico”, diz Tati. Ferramenta poderosa para minimizar esse tipo de dano, a prática ainda tem um perfil elitista no Brasil. “Os estúdios são caríssimos, os professores, todos brancos, e a identificação é pequena. Precisávamos de uma rede de fortalecimento, de nos aquilombar”, completa a instrutora durante nossa primeira conversa.
Corta para uma semana depois, com dez mu­lheres negras, lindas, praticando ioga ao ar livre. Todo mundo que passou pela Praça Vinícius de Morais, em São Paulo, no dia se virou para olhar. Era a sessão de fotos que ilustra esta repor­tagem. Também foi o primeiro encontro presencial de parte da turma que tanto se apoia, mas que só se conhecia de maneira remota e, claro, todas quarentenadas previamente. Adicione, então, à cena uma onda de amor e gratidão. Pura emoção.

Pose da Árvore, que diz muito sobre esse coletivo (Foto: Maira Azzy)
Pose da Árvore, que diz muito sobre esse coletivo (Foto: Mayra Azzi)
Soltando o corpo e trocando energia com o mundo para começar a aula. a instrutora tayla cândido no destaque (Foto: Mayra Azzi)
Soltando o corpo e trocando energia com o mundo para começar a aula. a instrutora tayla cândido no destaque (Foto: Mayra Azzi)
A energia da troca pelas mãos da maquiadora Cassandra Velloso  (Foto: Mayra Azzi)
A energia da troca pelas mãos da maquiadora Cassandra Velloso (Foto: Mayra Azzi)
A leveza e a potência da instrutora tati cassiano partem do mesmo lugar (Foto: Mayra Azzi)
A leveza e a potência da instrutora Tati Cassiano partem do mesmo lugar (Foto: Mayra Azzi)
Expandir e conquistar espaços (Foto: Maira Azzy)
Expandir e conquistar espaços (Foto: Mayra Azzi)

Formado com convites pessoais das instrutoras, o grupo é baseado em trocas. Pilates, capoeira, escrevivência, dança afro e reiki são algumas das habilidades compartilhadas – mas há também quem contribua com a presença e a energia. Além de Tati, outras duas professoras se revezam nas facilitações, que acontecem seis vezes por semana: Aline Inocêncio, de São Paulo, e Tayla Cândido, do Rio de Janeiro (que, graças a uma ação colaborativa, conseguiu viajar para estar presente no ensaio). “O grupo se transformou em uma reunião de pessoas das quais a gente gostaria de cuidar. Eu fui convidando pessoas aqui do Rio, e a Tati foi incluindo gente do Brasil inteiro. Temos mulheres de Brasília, da Bahia, do Maranhão, de São Paulo. É lindo porque, como é online, não existe a barreira física”, conta Tayla, produtora cultural que, durante a pandemia, redirecionou sua carreira e trabalha exclusivamente com ioga.

NamASè (Foto: Maira Azzy)
NamASè (Foto: Mayra Azzi)
A jogadora de basquete Aline Inocêncio (Foto: Maira Azzy)
A jogadora de basquete Aline Inocêncio (Foto: Mayra Azzi)
A bailarina Jheniffer Batista (Foto: Maira Azzy)
Silhueta de Cassandra (Foto: Mayra Azzi)
Silhueta de Cassandra (Foto: Maira Azzy)
A bailarina Jheniffer Batista (Foto: Mayra Azzi)

Ressignificando
No cronograma, as práticas estão divididas entre vinyasa e hatha, os estilos de formação das instrutoras. Mas há muito mais. “Na ioga somática, é o ásana que precisa se acomodar na pessoa, e não o contrário. Isso evita que as pessoas se afastem por achar que não têm corpo para isso”, ressalta Tati. E os ajustes vão mais longe. As posturas ganham tratamento feminino e, durante a prática, não são recitados sutras. “Tenho vários questio­namentos a respeito desses textos, compilados por Patanjali por uma óptica antiga, machista. Me formei com Micheline Berry, uma mulher que fala sobre justiça social. Me deu ainda mais vontade de levar a ioga para mulheres pretas”, conta.
O sentimento de dividir e receber é comparti­lhado pelas instrutoras. Aline, personal trainer e jogadora de basquete, queria estar próxima de seus pares. “Dar aula para mulheres parecidas comigo é um grande respiro. As trocas são muito mais intensas”, afirma. Isso sem falar que a relação com a prática é muito parecida com a das alunas. Quando me interessei pela ioga, a mensalidade era um terço do meu salário”, conta Tayla. “Comecei a seguir a Juliana Luna no Instagram, uma das primeiras instrutoras negras que conheci, e ela me incentivou a praticar so­zinha, pela internet. Fui da prática caseira à formação sem nunca ter passado por uma aula presencial”, completa.

Eu sou porque nós somos
Ubuntu, expressão de origem zulu que quer dizer  algo como “eu sou porque nós somos”, é um nome sob medida para batizar o coletivo, permeado por trocas. O grupo nasceu como Yoga Black, mas uma iniciativa com laços tão profundos merecia um nome mais representativo. “Sempre vivi a filosofia do ubuntu, mas esse nome já foi tão explorado por pessoas que nada têm a ver com sua origem que peguei um pouco de ranço”, diz Tati. Depois, pensando com calma, entendeu que mais justo seria se apropriar da expressão banalizada e resgatar seu sentido do que abandoná-la. “Temos essa filosofia de suporte, que também diz respeito à nossa história.” Nada mais ubuntu. 

BELEZA: Carlos Rosa e Anderson Ayres (Capa MGT), com produtos M.A.C e Truss Hais
PRODUÇÃO-EXECUTIVA: Vandeca Zimmermann

O aborto saiu do armário e a Argentina avança para legalizá-lo

Em artigo, integrantes da Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito da Argentina contam como a mobilização para legalização foi construída e falam da importância do assunto voltar a ser debatido no parlamento argentino: ‘é necessário e urgente’
Maria Alicia Gutiérrez, Martha Rosenberg e Elsa SchvArtzman*

Uma ativista segura uma placa que diz “É urgente #AbortoLegal2020” durante uma manifestação a favor da legalização do aborto, em frente ao Congresso Nacional, em Buenos Aires, Argentina, no dia 18 de novembro de 2020 Foto: Agustin Marcarian / Reuters

Em 17 de novembro, o presidente da Argentina, Alberto Fernández, apresentou à Câmara dos Deputados do Parlamento Nacional o projeto que legaliza a interrupção voluntária da gravidez, uma promessa de campanha, ratificada em 1º de março de 2020, na abertura das sessões ordinárias do Congresso. Para o presidente este se coloca como um grave problema de saúde pública que compromete a vida e a saúde das mulheres e pessoas gestantes.

A Covid-19 e a declaração sobre Isolamento Social Preventivo (ISP) de 20 de março impediram a apresentação desse projeto de lei naquele mês, pela exigência de uma estratégia de fortalecimento do sistema de saúde para enfrentar a pandemia. Da mesma forma, foram estabelecidas políticas para setores em situação de maior vulnerabilidade, bem como ajuda a empresas para minimizar o desemprego.

Por sua vez, o Programa de Saúde Sexual do Ministério da Saúde Nacional acatou as diretrizes da OMS, declarando essenciais os serviços de saúde sexual e reprodutiva e o acesso à interrupção legal da gravidez.

Essa nova oportunidade para debater o tema foi gerada pela convicção por parte da presidência e pela existência de um movimento feminista — a Maré Verde —  que vem demandando a legalização do aborto há muitos anos.

Um aspecto chave é a existência, desde 2005, da Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal Seguro e Gratuito, construída horizontal e democraticamente com a inclusão das e dos jovens e um frutífero intercâmbio coletivo e intergeracional que gerou seis projetos de descriminalização e legalização apresentados oito vezes.

Em 2018 viabilizou-se o debate na Câmara de Deputados, com mais de 700 intervenções (a favor e contra), com resultado positivo e rejeição, por pouquíssimos votos, na Câmara de Senadores. A enorme quantidade de pessoas nas ruas durante os debates evidenciou o processo de “descriminalização social”.

O aborto saiu do armário e o lenço verde, com o slogan “educação sexual para decidir, anticonceptivos para não abortar, aborto legal para não morrer” se expandiu globalmente. Em 28 de maio de 2019, a Campanha apresentou novamente seu projeto, que será debatido, junto com todos os outros projetos que se apresentem, inclusive o recém-enviado pelo presidente.

Estão dadas as condições sociais e políticas para saldar uma dívida histórica da democracia. O Executivo considerou ser este o momento propício, junto com outras leis econômicas e do meio ambiente. Paralelamente, ocorre a renegociação da dívida com o FMI os e fundamentalistas e conservadores estão à espreita.

Sempre existem justificativas de “força maior” para atrasar a legalização do aborto em um sistema capitalista e patriarcal. Uma vez mais, as feministas argentinas, em histórica aliança com múltiplas interseccionalidades, estão dispostas a sair às ruas para conquistar o voto positivo.

*Maria Alicia Gutiérrez,  Martha Rosenberg e Elsa SchvArtzman fazem parte da Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito da Argentina

E se o que é local e orgânico for melhor do que o interconectado e global?

Helena Norberg-Hodge tem defendido o localismo desde os anos 1970, mas a pandemia está tornando as ideias da estudiosa ativista australiana mais relevantes do que nunca
Damien Cave, The New York Times – Life/Style

Helena Norberg-Hodge no Mullumbimby Farmers Market, que ela ajudou a fundar, em Mullumbimby, Austrália. Foto: Natalie Grono/The New York Times

MULLUMBIMBY, AUSTRÁLIA — Helena Norberg-Hodge perambulava pelo mercado de agricultores locais que ajudou a criar bem antes desse tipo de mercado entrar na moda. Ela chegou ali para fazer compras, mas também para visitar amigos – especialmente os agricultores que vivem no dia a dia os seus ideais sobre privilegiar o que é local e rejeitar a globalização com vistas à saúde do meio ambiente e a felicidade da humanidade.

Andando pelo mercado, que fica perto da costa de New South Wales, ela encontrou Andrew Cameron, de 38 anos, pecuarista com sua barba espessa e que vende uma carne de gado criado em pasto. Ele disse que a covid-19 tornou a mensagem de Helena Norbert-Hodge ainda mais vital.

“Estamos vendo o quão frágil e tão pouco resiliente é tudo isto”, disse Cameron, referindo-se às cadeias globais de fornecimento que propagam o coronavírus para o mundo todo e depois lutam para fornecer os suprimentos médicos. “Nossa resiliência agora, vem dos produtores locais”, disse Helena. “Estamos vendo uma mudança enorme em termos de tomada de consciência”, disse ela, os olhos azuis expressando energia.

O que ambos falaram captura perfeitamente como Helena, ativista e estudiosa que passou a promover o localismo há algumas décadas – se tornou uma espécie de estrela-guia, hoje mais do que nunca, para pessoas em todo o mundo que vêm demandando uma alternativa para o sistema global de comércio.

Aos 74 anos, ela ainda intervém com a urgência de um estudante ávido, determinada a convencer os céticos e ampliar sua mensagem junto aos convertidos. E ela já conseguiu juntar uma multidão. Entre seus apoiadores estão o Dalai Lama, o comediante britânico Russel Brand, a chefe Alice Waters a Iain McGilchrist, estudioso de literatura e psiquiatra em Oxford.

“Se nossa civilização vai sobreviver ou não, o fato é que o trabalho de Helena é de suprema importância”, disse McGilchrist, cujo livro revolucionário de 2009, The Master and His Emissary [O Mestre e seu Emissário, em tradução livre], defende que cada metade do cérebro gera uma maneira de vivenciar o mundo fundamentalmente diferente. “Encorajar as comunidades locais é um antídoto vital para o globalismo universal”. “E se a civilização deve desmoronar, esta será a única esperança de sobrevivência. Precisamos agir agora com base nas ideias dela”.

Essas ideias são encontradas em livros e documentários, como também conferências e palestras regulares associadas à sua organização sem fins lucrativos chamada Local Futures, com escritórios na AustráliaGrã-Bretanha e Estados Unidos. E que podem ser resumidos em dois conceitos que parecem simples, mas têm implicações profundas.

Em primeiro lugar, distâncias mais curtas são mais saudáveis do que as longas para o comércio e a interação humana; em segundo lugar, a diversificação – o cultivo pelo agricultor de uma dezena de produtos, por exemplo, é muito mais saudável do que a monocultura, que a globalização tende a criar, tanto no caso das bananas como dos aparelhos celulares. “O mais importante para mim é ajudar para que esta ideia cresça em todo mundo”, disse Helena, apontando para os compradores e os agricultores conversando sobre os produtos.

Linguista que estudou com Noam Chomsky nos anos 1970, Helena chegou a Byron Bay há 20 anos, para residir uma parte do tempo, por causa do clima favorável para seu marido, John Page, advogado. A casa em que moram é modesta, cercada por árvores, repleta de tapetes persas e livros. Sob muitos aspectos ela se integrou a Byron Bay, onde ajudou a criar todos os quatro mercados de agricultores locais.

Embora conhecida como um local frequentado por celebridades, a cidade é um refúgio de surfistas, defensores da terra e mochileiros desde a década de 1960. Não que Helena, apesar dos cabelos grisalhos, se considere uma hippie. Ela nasceu em Nova York, mas seus pais eram suecos e ela cresceu em Estocolmo, onde estudou e viajou, e aos 30 anos falava seis línguas. Em 1975, por causa das suas habilidades linguísticas, sua vida mudou completamente quando uma equipe de filmagem alemã a convidou para ir a Ladakh, um enclave montanhoso budista no noroeste da Índia, que começava a se abrir para o turismo e a economia internacional.

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).
Helena Norberg-Hodge tem defendido o localismo desde os anos 1970.  Foto: Natalie Grono/The New York Times

Ela foi um dos primeiros visitantes a conhecer Ladakh, o que a ajudou a ver como a busca incontestável do crescimento econômico corroía a capacidade e a coesão da localidade. O caminho para o “desenvolvimento”, para a população da região significava aniquilar séculos de autonomia, onde encontravam tudo o que necessitavam no seu entorno, exceto o sal, que negociavam à base da troca. E também aceitar políticas que favoreciam produtos que não eram da sua escolha. A Índia subvencionava combustíveis fósseis, por exemplo. Mas Ladakh tinha uma luz solar incessante.

Helena tentou contra-atacar. Iniciou um programa piloto para se ter energia solar. E procurou manter a autoestima dos jovens locais procurando fazê-los ver que as imagens de Hollywood que eles devoravam não retratavam a realidade do consumo, enfatizando que a vida no Ocidente também incluía depressão, divórcio e luta social. Seu primeiro livro, Ancient Futures [Futuro Antigos, em tradução livre], e um filme com o mesmo título, foram traduzidos para 40 línguas.

Equivalem a um cri de coeur sobre Ladakh, alertando o mundo para parar de supor que o progresso é igual para todos. “Ela teve a oportunidade de ver um mundo diferente e foi bastante inteligente para compreender que não estava olhando uma relíquia, mas ter uma visão de um futuro que funcionasse de maneira adequada”, disse Bill McKibben, autor e fundador do grupo de defesa ambiental 350.org.

“E ela tem mantido essa visão há décadas, ajudando a todos nós a vermos que as medidas que usamos para o PIB, por exemplo, não são as únicas possibilidades”. Segundo ela afirmou recentemente, o PIB, que é a referência da produção econômica de um país, deve ser redefinido.

“O PIB é uma medida da decomposição da sociedade e dos ecossistemas”, afirmou. “Se a água é tão poluída que fornecemos água engarrafada, isto beneficia o PIB. Se fazemos uma horta e dizemos, coma o máximo ou a metade das verduras e legumes que plantamos, o PIB vai cair. Se você e eu permanecemos saudáveis, o PIB cai. Se você precisar de uma quimioterapia todo o ano o PIB aumenta”.

Para Helena Norberg-Hodge, a pandemia do coronavírus pode ser uma força revolucionária que levará as pessoas a um estilo de vida “mais mediano” em comunidades menores, mesmo dentro das cidades grandes. Seus contatos em todo o mundo, da Ásia à Europa, já vêm reportando um retorno das pessoas às prioridades locais.

Na Austrália, “comprar local” se tornou um mantra ainda mais popular à medida que os tempos de entrega dos produtos importados se estendem. “Acho que este momento vem sugerindo que muitas pessoas desenvolveram um desejo de ter um pouco mais de tempo, ficar um pouco mais em casa, aprender o nome dos seus vizinhos, passaram a ter interesse em saber de onde vem sua comida e até desenvolverem uma vontade de realmente cultivarem aquilo que comem”, disse ela em uma palestra. E por um momento, fez uma pausa, e afirmou, “Para mim, é muito alentador ver isto”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Carrefour é desligado de Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial

Forma como empresa lidou com caso ‘é inaceitável’, diz coordenador da organização
Bruna Narcizo

Manifestantes em frente ao Carrefour em Porto Alegre protestam pelo assassinato de João Alberto. Guilherme Gonçalves/FotosPublicas

A Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, que reúne 73 organizações signatárias, informou neste sábado (21) que desligou o Carrefour da lista de empresas parceiras.

Entre as signatárias, estão Ambev, Coca-Cola, GPA e Petrobras.

Na noite de quinta-feira (19), João Alberto Silveira Freitas, homem negro de 40 anos, foi morto por dois seguranças da rede de supermercados após fazer compras em uma unidade localizada em Porto Alegre.

“A grande questão da exclusão do Carrefour tem a ver com fato de serem reincidentes”, disse Raphael Vicente, coordenador da iniciativa, uma plataforma de articulação entre empresas e instituições que se comprometem a melhorar a inclusão, promoção e valorização da diversidade étnico-racial.

O Grupo Carrefour Brasil anunciou, em nota (leia íntegra abaixo), que romperá o contrato com a empresa responsável pelos seguranças, além de demitir o funcionário responsável pela loja na hora do ocorrido. Na noite de sexta, exibiu comunicado após a novela das 21h, na Globo.

Procurado pela reportagem para comentar a exclusão da iniciativa, a empresa não se manifestou até a publicação do texto.

Vicente diz que a forma como a empresa lidou com o ocorrido “é inaceitável”.

“Eles emitiram uma nota se eximindo da culpa e da responsabilidade. Vamos continuar conversando para que tenhamos uma resposta clara e objetiva do Carrefour”, afirmou.

Segundo ele, o presidente do grupo no Brasil deveria ter feito o que o presidente global fez: ir a público e dizer que tomariam medidas drásticas para evitar esse tipo de tragédia novamente.

No início da noite desta sexta-feira (20), o presidente do Grupo Carrefour, Alexandre Bompard, se manifestou em sua conta no Twitter sobre o assassinato.

O francês pediu a revisão do treinamento de funcionários e de terceiros, “no que diz respeito à segurança, respeito à diversidade e dos valores de respeito e repúdio à intolerância”.

“Está explícito que tem um problema, que não é do gerente, da loja, do vigia ou da empresa terceirizada. O presidente tinha que ter vindo a público e afirmar que os processos seriam revistos, medidas duras seriam tomadas”, afirma Vicente.

Qualquer empresa pode ser signatária da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, diz o coordenador. “É preciso apenas que ela se comprometa publicamente com os compromissos da iniciativa”, afirma.

O caso brutal na unidade gaúcha é o mais recente de uma sequência de relatos sobre discriminação, descaso e violência sob diferentes aspectos no Brasil, com alguns casos obtendo grande repercussão.

Em 2009, um vigia e técnico em eletrônica, também negro, foi agredido por seguranças de uma unidade em Osasco (SP), acusado de tentar roubar o próprio carro no estacionamento da loja.

Em dezembro de 2018, também em Osasco, um cão foi envenenado e espancado por um segurança da rede, causando enorme comoção na comunidade.

No caso mais recente, um promotor de vendas terceirizado da rede morreu enquanto trabalhava em uma unidade do grupo, em Recife, em agosto deste ano. O corpo foi coberto com guarda-sóis e cercado por caixas enquanto a loja seguiu em funcionamento. O IML (Instituto Médico Legal) só fez a remoção após quatro horas.

Ainda assim, a rede segue como destaque em alguns indicadores que são utilizados como atestado de boas práticas corporativas em questões sociais e ambientais.

ÍNTEGRA DA NOTA DO CARREFOUR

Após a lamentável e brutal morte do senhor João Alberto Silveira Freitas na loja em Porto Alegre, no bairro Passo D’Areia, o Carrefour informa que:

– Definiu que todo o resultado de lojas Carrefour no Brasil nesta sexta-feira, 20 de novembro, será revertido para projetos de combate ao racismo no país. O valor será destinado de acordo com orientação de entidades reconhecidas na área. Essa quantia, obviamente, não reduz a perda irreparável de uma vida, mas é um esforço para ajudar a evitar que isso se repita;

– amanhã, 21/11, todas as lojas do Grupo em todo o Brasil abrirão duas horas mais tarde para que neste tempo possamos reforçar o cumprimento das normas de atuação exigidas pela empresa a seus funcionários e empresas terceirizadas de segurança;

– estamos buscando contato com a família do senhor João Alberto para dar o suporte necessário neste momento difícil;

– a loja do bairro Passo D’Areia será mantida fechada;

Todas essas ações complementam as decisões já anunciadas de rompimento de contrato com a empresa que responde pelos seguranças envolvidos no caso e de desligamento do funcionário que estava no comando da loja no momento do ocorrido.

Reiteramos que, para nós, nenhum tipo de violência e intolerância é admissível, e não aceitamos que situações como estas aconteçam. Estamos profundamente consternados com tudo que ocorreu e acompanharemos os desdobramentos do caso, oferecendo todo suporte para as autoridades locais.