Ubuntu Yoga, grupo de mulheres pretas encontra acolhimento no ioga

Conheça o Ubuntu Yoga, grupo de apoio e cuidado que nasceu durante a solidão do isolamento social
PAOLA DEODORO

juJntas, em sentido Anti-horário: Tayla Cândido, Priscilla Mesquita, Tati Cassiano, Regina Ferreira, Taís Ramos, Aline Inocêncio, Karol Camargo, Jheniffer Batista, Jaque Coelho Mota e Cassandra Velloso (Foto: Maira Azzy)
juJntas, em sentido Anti-horário: Tayla Cândido, Priscilla Mesquita, Tati Cassiano, Regina Ferreira, Taís Ramos, Aline Inocêncio, Karol Camargo, Jheniffer Batista, Jaque Coelho Mota e Cassandra Velloso (Foto: Mayra Azzi)

Imagine 40 mulheres pretas, de diversos lugares do Brasil, com diferentes históricos, perfis e corpos, lançando olhares sobre uma prática cheia de reflexões e significados que nunca pareceu feita para elas. Grupo de prática virtual que nasceu na pandemia, o Ubuntu Yoga poderia ser mais uma história entre as milhares de turmas online que surgiram durante o isolamento social, mas se revelou uma maneira nova e democrática de se relacionar com a ioga.

A atriz e produtora cultural Priscilla Mesquita (Foto: Maira Azzy)
A atriz e produtora cultural Priscilla Mesquita (Foto: Mayra Azzi)
a professora de pilates mais cool de São Paulo, Karol Camargo, apoiada no black poderoso de Tayla Cândido (Foto: Maira Azzy)
a professora de pilates mais cool de São Paulo, Karol Camargo, apoiada no black poderoso de Tayla Cândido (Foto: Mayra Azzi)
 Verdadeira tradução da palavra ubuntu (Foto: Maira Azzy)
Verdadeira tradução da palavra ubuntu (Foto: Mayra Azzi)

O projeto nasceu da sensibilidade de Tati Cassiano, bailarina e modelo que se formou instrutora de ioga em 2019. “O início da quarentena foi um período bastante desafiador, com pouco  trabalho e muita angústia. Percebi isso no grupo da Hutu Casting, agência de profissionais negros, entre os muitos relatos de insônia, ansiedade, pânico”, diz Tati. Ferramenta poderosa para minimizar esse tipo de dano, a prática ainda tem um perfil elitista no Brasil. “Os estúdios são caríssimos, os professores, todos brancos, e a identificação é pequena. Precisávamos de uma rede de fortalecimento, de nos aquilombar”, completa a instrutora durante nossa primeira conversa.
Corta para uma semana depois, com dez mu­lheres negras, lindas, praticando ioga ao ar livre. Todo mundo que passou pela Praça Vinícius de Morais, em São Paulo, no dia se virou para olhar. Era a sessão de fotos que ilustra esta repor­tagem. Também foi o primeiro encontro presencial de parte da turma que tanto se apoia, mas que só se conhecia de maneira remota e, claro, todas quarentenadas previamente. Adicione, então, à cena uma onda de amor e gratidão. Pura emoção.

Pose da Árvore, que diz muito sobre esse coletivo (Foto: Maira Azzy)
Pose da Árvore, que diz muito sobre esse coletivo (Foto: Mayra Azzi)
Soltando o corpo e trocando energia com o mundo para começar a aula. a instrutora tayla cândido no destaque (Foto: Mayra Azzi)
Soltando o corpo e trocando energia com o mundo para começar a aula. a instrutora tayla cândido no destaque (Foto: Mayra Azzi)
A energia da troca pelas mãos da maquiadora Cassandra Velloso  (Foto: Mayra Azzi)
A energia da troca pelas mãos da maquiadora Cassandra Velloso (Foto: Mayra Azzi)
A leveza e a potência da instrutora tati cassiano partem do mesmo lugar (Foto: Mayra Azzi)
A leveza e a potência da instrutora Tati Cassiano partem do mesmo lugar (Foto: Mayra Azzi)
Expandir e conquistar espaços (Foto: Maira Azzy)
Expandir e conquistar espaços (Foto: Mayra Azzi)

Formado com convites pessoais das instrutoras, o grupo é baseado em trocas. Pilates, capoeira, escrevivência, dança afro e reiki são algumas das habilidades compartilhadas – mas há também quem contribua com a presença e a energia. Além de Tati, outras duas professoras se revezam nas facilitações, que acontecem seis vezes por semana: Aline Inocêncio, de São Paulo, e Tayla Cândido, do Rio de Janeiro (que, graças a uma ação colaborativa, conseguiu viajar para estar presente no ensaio). “O grupo se transformou em uma reunião de pessoas das quais a gente gostaria de cuidar. Eu fui convidando pessoas aqui do Rio, e a Tati foi incluindo gente do Brasil inteiro. Temos mulheres de Brasília, da Bahia, do Maranhão, de São Paulo. É lindo porque, como é online, não existe a barreira física”, conta Tayla, produtora cultural que, durante a pandemia, redirecionou sua carreira e trabalha exclusivamente com ioga.

NamASè (Foto: Maira Azzy)
NamASè (Foto: Mayra Azzi)
A jogadora de basquete Aline Inocêncio (Foto: Maira Azzy)
A jogadora de basquete Aline Inocêncio (Foto: Mayra Azzi)
A bailarina Jheniffer Batista (Foto: Maira Azzy)
Silhueta de Cassandra (Foto: Mayra Azzi)
Silhueta de Cassandra (Foto: Maira Azzy)
A bailarina Jheniffer Batista (Foto: Mayra Azzi)

Ressignificando
No cronograma, as práticas estão divididas entre vinyasa e hatha, os estilos de formação das instrutoras. Mas há muito mais. “Na ioga somática, é o ásana que precisa se acomodar na pessoa, e não o contrário. Isso evita que as pessoas se afastem por achar que não têm corpo para isso”, ressalta Tati. E os ajustes vão mais longe. As posturas ganham tratamento feminino e, durante a prática, não são recitados sutras. “Tenho vários questio­namentos a respeito desses textos, compilados por Patanjali por uma óptica antiga, machista. Me formei com Micheline Berry, uma mulher que fala sobre justiça social. Me deu ainda mais vontade de levar a ioga para mulheres pretas”, conta.
O sentimento de dividir e receber é comparti­lhado pelas instrutoras. Aline, personal trainer e jogadora de basquete, queria estar próxima de seus pares. “Dar aula para mulheres parecidas comigo é um grande respiro. As trocas são muito mais intensas”, afirma. Isso sem falar que a relação com a prática é muito parecida com a das alunas. Quando me interessei pela ioga, a mensalidade era um terço do meu salário”, conta Tayla. “Comecei a seguir a Juliana Luna no Instagram, uma das primeiras instrutoras negras que conheci, e ela me incentivou a praticar so­zinha, pela internet. Fui da prática caseira à formação sem nunca ter passado por uma aula presencial”, completa.

Eu sou porque nós somos
Ubuntu, expressão de origem zulu que quer dizer  algo como “eu sou porque nós somos”, é um nome sob medida para batizar o coletivo, permeado por trocas. O grupo nasceu como Yoga Black, mas uma iniciativa com laços tão profundos merecia um nome mais representativo. “Sempre vivi a filosofia do ubuntu, mas esse nome já foi tão explorado por pessoas que nada têm a ver com sua origem que peguei um pouco de ranço”, diz Tati. Depois, pensando com calma, entendeu que mais justo seria se apropriar da expressão banalizada e resgatar seu sentido do que abandoná-la. “Temos essa filosofia de suporte, que também diz respeito à nossa história.” Nada mais ubuntu. 

BELEZA: Carlos Rosa e Anderson Ayres (Capa MGT), com produtos M.A.C e Truss Hais
PRODUÇÃO-EXECUTIVA: Vandeca Zimmermann

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