‘Quando levantei da mesa, no susto, vi de relance pelo espelho que eu estava pegando fogo’, diz modelo Antônia Marcondes Ferraz

A modelo Antônia Marcondes Ferraz, de 33 anos, conta como superou o acidente com um réchaud, que deixou 35% do seu corpo queimado
Em depoimento a Joana Dale

Antônia Marcondes Ferraz | Produção: Marcelo Feitosa | Beleza: Walter Lobato Foto: Brunno Rangel
Antônia Marcondes Ferraz | Produção: Marcelo Feitosa | Beleza: Walter Lobato Foto: Brunno Rangel

Desde que me entendo por gente, domingo sempre foi dia de praia. Ainda criança, em Niterói, onde nasci e fui criada, jogava vôlei na areia com a minha mãe ou fazia windsurfe com meu pai. Quando casei (com o empresário Luiz Eduardo Marcondes Ferraz, o Luly, de 41 anos) e tivemos a Maria Olívia, a rotina à beira-mar só mudou de endereço, de Camboinhas para a Praia de São Conrado. No dia 11 de novembro de 2018, como era de costume, corri na areia por volta das 10h, peguei minha filha em casa para um mergulho antes do almoço. No começo da tarde, voltei para a praia com o meu marido e, no corredor do prédio, cruzamos com uns vizinhos, que nos convidaram para almoçar no apartamento deles.

O menu era uma carninha feita na pedra, esquentada por um réchaud. O que eu não podia imaginar era que a vizinha havia colocado álcool de posto de gasolina dentro do fogareiro, o que é ilegal. No meio do almoço, ela veio do meu lado com uma garrafa de álcool gel para dar mais potência. E o réchaud explodiu em cima de mim! Quando levantei da mesa, no susto, sem entender direito o que estava acontecendo, vi de relance pelo espelho que eu estava pegando fogo. Meu cabelo foi lambido — só não perdi as sobrancelhas pois havia feito micropigmentação. Os vizinhos não tiveram reação. Meu marido me jogou no chão, de costas, e subiu em cima de mim para apagar o fogo.

Na descida para a garagem, não tive coragem de me olhar no espelho do elevador. Mas, pela dor que estava sentindo e pela expressão do faxineiro que encontramos pelo caminho, sabia que tinha sido grave, muito grave. Pedimos a ele para avisar à babá de nossa filha que havia acontecido um acidente e, sem sapato, sem carteira e sem documentos, fomos para o hospital. Era cerca de 17h30, aquele horário de volta da praia, e estava muito trânsito no túnel. O jeito de andar mais rápido foi parar um carro da polícia e pedir escolta. Eu urrava. E olha que tive parto normal, que dizem ser a dor mais forte. Que nada.

“Descobri que o sol, que tanto amava, seria o meu maior inimigo” ANTÔNIA MARCONDES FERRAZmodelo

Paramos no Miguel Couto, onde fui atendida por um cirurgião de plantão e recebi os primeiros socorros. Ele me deu um analgésico e me acalmou. Pedi um celular emprestado, liguei para minha mãe, que ligou para a minha sogra. Em instantes, estavam todos no hospital em busca de um cirurgião especialista em queimadura. Fui transferida para a São Vicente, onde o doutor Marco Aurelio Pellon me aguardava para exame. Resultado: estava com 35% do meu corpo queimado. Quase todo o colo, os braços, as mãos e o pescoço. Logo, descobri que o sol, que tanto amava, seria o meu maior inimigo.

Foram 26 dias de internação, anestesias, raspagens, dores e muito medo. Muitas pessoas que sofrem queimaduras graves como a minha ficam em coma induzido, mas meu médico achou melhor eu ficar acordada e tentar me mexer, para facilitar a recuperação. Meu banho era no centro cirúrgico, onde ia diariamente fazer raspagens. A anestesista lavava o meu cabelo. Era um alívio acordar no quarto com o cabelinho lavado. Um fisioterapeuta também ia todos os dias me esticar, pois havia perdido o movimento dos braços. Era uma dor enorme, mas valeu o esforço: 12 dias depois, consegui me alimentar sozinha.

Antônia fazendo a primeira refeição sozinha, 12 dias após o acidente Foto: Arquivo pessoal
Antônia fazendo a primeira refeição sozinha, 12 dias após o acidente Foto: Arquivo pessoal

No 26º dia, implorei para voltar para casa. Precisava ver a minha filha, que não foi me visitar no hospital. Conversei com vários psicólogos e com o pediatra dela, que foram unânimes: o trauma de ela me ver totalmente enfaixada no hospital poderia ser maior do que ficar um tempo sem me ver. Ela tinha acabado de fazer dois anos, e crianças dessa idade ainda não têm plena noção do tempo. O Luly passava o dia em casa com ela, e à noite ia para o hospital dormir comigo. Tentamos fazer algumas ligações de vídeo, totalmente fracassadas, pois ela ficou muito estressada.

Saí do hospital em dezembro, com algumas partes do corpo ainda abertas e uma cirurgia de enxerto marcada para janeiro. Tiraram uma parte da pele da minha cabeça e colocaram no braço. Em fevereiro, no entanto, peguei uma bactéria de pele e precisei voltar a ser internada. O enxerto, graças a Deus, ficou intacto. Porém, foram mais 12 dias no hospital e mais um momento muito difícil.

Quanto mais profunda é a queimadura, maior é o queloide. Quando meus braços cicatrizaram, então, havia áreas muito altas na minha pele. Por isso, precisei usar uma malha especial, feita sob medida e muito apertadinha, para tentar reduzir a altura das cicatrizes espalhadas pelo meu corpo. Além da roupa, precisava usar uma pescoceira e luvas 23 horas por dia — só tirava na fisioterapia. Quando saía de casa, amarrava um lenço e usava gola rolê para tentar, em vão, dar uma disfarçada, mas todo mundo na rua me olhava com estranheza. Foram pelo menos 8 meses com esse look à la ‘A pele que habito’ (filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar).

Antônia com a pele cicatrizada e a pescoceira Foto: Arquivo pessoal
Antônia com a pele cicatrizada e a pescoceira Foto: Arquivo pessoal

Minha mãe costumava dizer que todo aquele aparato era a minha armadura. Coloquei isso na cabeça e nenhum olhar me desanimou mais. Eu sabia que uma hora a batalha ia acabar e eu ia vencê-la. Minha mãe foi muito importante para mim: no dia em que fui à casa dos meus pais, depois de tudo, ela me recebeu com o vestido branco de alcinha que eu estava usando no acidente, disse que tinha lavado e que ele tinha ficado perfeito. Assim como eu ficaria. Chorei muito.

“Minha filha não gostava de olhar para as minhas cicatrizes. Cada vez que ela fechava os olhos para não me ver, era bem difícil para mim”ANTÔNIA MARCONDES FERRAZ Modelo

Chorei muito inúmeras vezes. No começo, minha filha não gostava de olhar para as minhas cicatrizes. Cada vez que ela fechava os olhos para não me ver, era bem difícil para mim. Eu ia chorar no chuveiro. Mas precisava ensinar para ela que esta é minha nova pele, então pedia ajuda para passar meus cremes. Foi um processo de meses e meses para ela me aceitar.

Comecei a trabalhar como modelo aos 16 anos, então tinha obrigação de ser vaidosa. Mas, na recuperação, a estética ficou em segundo plano. O que eu mais queria era poder voltar a dar banho na minha filha, segurá-la no colo, ir à praia com ela. Quando engravidei, aos 29, parei de trabalhar para me dedicar à Maria Olívia. Passava os dias fazendo atividades com ela. Interromper essa rotina foi um baque para nós duas. Em dezembro de 2019, enfim, fomos juntas à praia pela primeira vez desde o acidente. Fiz um biquíni de manga longa, me cobri de protetor solar e lá fomos nós, às 18h. Difícil dizer quem estava mais feliz.

No casamento, com Luly e a filha Maria Olívia Foto: Arquivo pessoal
No casamento, com Luly e a filha Maria Olívia Foto: Arquivo pessoal

Já o meu marido foi praticamente um enfermeiro. Sabe tudo aquilo que a gente tenta esconder no início do relacionamento? Acabou. Ele, assim como meus pais e minha sogra, me deu muita força. E só me botou para cima. Claro que me deu insegurança, mas meu marido foi o primeiro a me incentivar a botar biquíni sem medo.

 A primeira vez que usei um biquíni ‘normal’ foi há poucas semanas, especialmente para este ensaio. Estas fotos, feitas pelo Brunno Rangel, um antigo parceiro de trabalho, foram libertadoras. Eu estava completamente enferrujada. Foi tudo muito rápido, estou fazendo as pazes com o sol, mas ainda não posso abusar.

CONFIRA ENSAIO DE FOTOS COM A MODELO ANTÔNIA MARCONDES FERRAZ, DE 33 ANOS, QUE TEVE 35% DO CORPO QUEIMADO

Antônia Marcondes Ferraz | Produção: Marcelo Feitosa | Beleza: Walter Lobato Foto: Bruno Rangel
Antônia Marcondes Ferraz | Produção: Marcelo Feitosa | Beleza: Walter Lobato Foto: Bruno Rangel
Antônia Marcondes Ferraz | Produção: Marcelo Feitosa | Beleza: Walter Lobato Foto: Brunno Rangel
Antônia Marcondes Ferraz | Produção: Marcelo Feitosa | Beleza: Walter Lobato Foto: Brunno Rangel
Antônia Marcondes Ferraz | Produção: Marcelo Feitosa | Beleza: Walter Lobato Foto: Brunno Rangel
Antônia Marcondes Ferraz | Produção: Marcelo Feitosa | Beleza: Walter Lobato Foto: Brunno Rangel
Antônia Marcondes Ferraz | Produção: Marcelo Feitosa | Beleza: Walter Lobato Foto: Brunno Rangel
Antônia Marcondes Ferraz | Produção: Marcelo Feitosa | Beleza: Walter Lobato Foto: Brunno Rangel
Antônia Marcondes Ferraz | Produção: Marcelo Feitosa | Beleza: Walter Lobato Foto: Brunno Rangel
Antônia Marcondes Ferraz | Produção: Marcelo Feitosa | Beleza: Walter Lobato Foto: Brunno Rangel

No mesmo dia, postei uma das imagens no Instagram e tive um retorno incrível. Muitas pessoas me procuraram para compartilhar histórias parecidas. Descobri aí que a minha experiência poderia ser útil. Quando me acidentei, procurei freneticamente por informações que pudessem me ajudar, mas tive dificuldade de encontrar. O número de queimados no Brasil é superalto, mas as pessoas se escondem. É muito duro.

Nesses últimos dois anos, tive inúmeras crises. Ainda não sei ao certo o que mudou em mim. Acho que o momento de olhar para trás e agradecer por esse acidente ter acontecido ainda vai chegar. Lembro-me muito do meu sofrimento. Mas, com certeza, já sou uma pessoa muito mais forte. E mais paciente”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.