Dívida da Ancine em fundo internacional põe em risco coproduções brasileiras

Programa Ibermedia, uma das mais importantes fontes de fomento no setor, ainda não recebeu cota referente a 2019. Agência brasileira se reúne nesta terça (1) para debater imbróglio

Ancine não repassou sua cota ao Programa Ibermedia em 2019 Foto: Adriana Toffetti / Agência O Globo

RIO — A cultura brasileira pode sofrer mais um duro golpe no já difícil ano de 2020, alertam produtores do audiovisual brasileiro. Nesta terça-feira (1), a Diretoria Colegiada da Ancine deve decidir sobre o cumprimento das cotas de 2019 e 2020 do Programa Ibermedia, um dos mais importantes fundos internacionais do audiovisual, que a agência deixou de pagar no último ano.

O fundo tem a participação de 22 países ibero-americanos e a Ancine é a autoridade cinematográfica que representa o Brasil. Mas, como não fez o aporte, os selecionados brasileiros na convocatória de 2019 não puderam ter acesso aos recursos do programa ao longo de todo este ano.

O não-pagamento prejudica iniciativas como o BrLab, evento de referência para o desenvolvimento de projetos de formação técnica, uma das três frentes de fomento do Ibermedia — ao lado de desenvolvimento de roteiros e coproduções.

Diretor do BrLab, Rafael Sampaio conta que o evento participa do programa desde 2011 e nunca enfrentou este tipo de situação, sempre recebendo os repasses em dia. Para ele, a inadimplência da Ancine trata-se de uma “vergonha internacional”.

— Fomos contemplados pelo Ibermedia no fim de 2019. Desde junho, o programa nos diz que não pode repassar a verba por causa da falta de pagamento da Ancine. Teoricamente, a agência quitaria tudo em outubro, mas, até agora, nada — lamenta Sampaio — Esse imbróglio coloca o Brasil na contramão do mundo.

Circuito de festivais

Mas não é só o mercado brasileiro que sai prejudicado desse contexto. A postura da Ancine afeta também empresas de outros países, como a argentina Dar a Luz Cine, parceira da brasileira Valkyria Filmes na coprodução “Ladrilleros”.

A preocupação dos produtores é ainda maior porque nesta quinta-feira acontece a reunião anual do Comitê Intergovernamental, quando autoridades dos países que formam o Ibermedia definirão os projetos selecionados de 2020.

— O temor é abrir um precedente de dois anos sem pagamento da cota, o que potencialmente tira o Brasil da Ibermedia. Pode abrir a lacuna séria de uma interrupção da participação nacional num programa de significado tão importante, que garante acesso a festivais de categoria A, como Veneza, Cannes, Berlim. O não-pagamento tira as empresas selecionadas deste circuito — explica Angelisa Stein, da Valkyria Filmes.

O Ibermedia foi criado em 1998 e faz parte da Conferência de Autoridades Audiovisuais Ibero-Americanas (CAACI). Em 22 anos, esta foi a primeira vez que a Ancine deixou de pagar sua cota — os valores anuais que cada membro aporta variam de acordo com o país, e a cota brasileira é significativa.

— Em dezembro de 2019, as nove empresas selecionadas receberam comunicação oficial, da Ancine e da Ibermedia, inclusive com os valores determinados. Em fevereiro acendeu um sinal amarelo, pois até os projetos de desenvolvimento de roteiro, que são menos complexos, estavam sem receber. Em abril, entendemos que a cota brasileira não havia sido paga. E, pelo regimento da CAACI, se um país não paga, o programa não pode contratar empresas daquele país — conta Stein.

22 anos de coproduções

Entre os filmes que foram produzidos com o apoio de recursos do Programa Ibermedia ao longo dos últimos 22 anos, estão os brasileiros “O grande circo místico”, de Cacá Diegues, “Os silêncios”, de Beatriz Seigner, e “Quase dois irmãos”, de Lucia Murat, “Kamchatka” e “Plata quemada”, do argentino Marcelo Piñeyro,  ou “O banheiro do Papa”, dos uruguaios Enrique Fernández e César Charlone — todos coproduções internacionais com participação, majoritária ou não, brasileira. 

— De abril até agora, só obtivemos da Ancine que o Programa Ibermedia é importante para a agência, e que ela reconhecia a importância do Brasil dentro dessa estrutura — diz Angelisa Stein, que também é advogada e ex-funcionária da Ancine. — O Brasil sempre jogou atuou num papel fundamental dentro das articulações e das políticas audiovisuais, seja aproximando mercados internacionais e abrindo territórios para os filmes, seja abrindo caminho para os talentos brasileiros serem mais e melhor conhecidos.

Na última sexta-feira,  foi entregue uma carta à Diretoria Colegiada da Ancine reforçando a urgência na deliberação do pagamento da cota brasileira do programa.  O documento é assinado pela ABRACI — Associação Brasileira de Cineastas, pela APACI — Associação Paulista de Cineastas, pela API — Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro, pela Bravi — Brasil Audiovisual Independente, pela Conne — Conexão Audiovisual Centro-Oeste, Norte e Nordeste, pelo Fames — Fórum Audiovisual Minas, Espirito Santo e Sul e pelo Sicav — Sindicato Interestadual da Industria Audiovisual.

A reunião da Diretoria Colegiada da Ancine acontece nesta terça-feira (1), às 14h. Às 15h30, o caso do Programa Ibermedia será debatido. Procurada pela reportagem, a Ancine preferiu não se manifestar sobre o assunto.

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