Conheça as Irmãs Brasil, dupla de artistas que usa travestilidade para passar suas mensagens: ‘Fazemos arte para estarmos vivas’

Elas fora apadrinhadas por coreógrafo famoso por ter assinado turnês da Madonna
Lívia Breves

Performance “Travestis, a palestina do mundo” Foto: Idra Maria Mamba Negra

Viní Ventania e Vitória Jovem, de 26 anos, nasceram na cidade de Amparo, no interior de São Paulo, em uma família de peões de rodeio. Sempre se sentiram diferentes naquele ambiente. “Nosso pai, apesar de ser palhaço, não se via como um artista. Em contraste, tínhamos a nossa mãe, que era rainha de bateria <de escola de samba e nos incentivava a sair dali para explorar nossa criatividade”, conta Vitória, formada em Dança na UFRJ. Foi nesse ambiente heteronormativo que a dupla se percebeu afeminada. “Nos sentíamos ‘corpes estranhes’ na cidade. Andávamos na rua e recebíamos olhares. Tivemos que fugir de ‘desamparo’, como apelidamos a cidade”, completa Viní, formada em Teatro no Conservatório Dramático de Tatuí.

Inicialmente, elxs se batizaram Irmãos Brasil, mesmo nome do grupo de palhaços do pai. “Afinal, éramos a nova geração. Só que nos transfiguramos e transcendemos quando nos entendemos como irmãs. Trabalhamos em cima da nossa subjetividade, memórias e travestilidade”, conta Vitória.

A trajetória artística das duas começa na cultura Ballroom, quando foram apadrinhadas pelo coreógrafo Jose Gutierez Xtravaganza, famoso por ter assinado turnês da Madonna. Depois, se apresentaram no Galpão Bela Maré e no Museu de Arte do Rio. Este ano, foram indicadas ao Prêmio PIPA pelo conjunto da obra. “Fazemos arte para estarmos vivas. E isso não é uma maneira romântica de se expressar. A arte é a nossa possibilidade de existir”, conta Viní.

Nesta terça, às 20h, as Irmãs Brasil se apresentam no festival de arte sonora Novas Frequências (novasfrequencias.com), que completa uma década. “Há muito tempo eu não experienciava uma união tão perfeita entre estética e discurso. Como não se emocionar com a história delas, que buscam criar estratégias de defesa a partir da violência estrutural contra mulheres, trans e travestis no país? Sabendo que correm risco de vida, produzem arte alucinadamente para gerar um legado”, comenta Chico Dub, idealizador e curador do festival. Elas vão apresentar a instalação audiovisual “Pink”, que projeta narrativas de lugares onde os direitos humanos são violados. “É um trabalho de denúncia, uma resposta travesti à perseguição”, finaliza Vitória.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.