Detestar o Facebook é fácil, difícil é sair dele

Teia social formada pelos Grupos dentro da rede social impede que muitas pessoas desistam de usar a plataforma, mesmo não concordando com as posturas políticas da empresa de Zuckerberg
Por Heather Kelly – The Washington Post

Dos 2,74 bilhões de usuários em todo o mundo que abrem o Facebook pelo menos uma vez por mês, dois terços costumam usar o recurso dos Grupos

Antes da pandemia, Andrea Norrington mal acessava o Facebook. Essa professora de Letchworth, Inglaterra, se dizia preocupada com a desinformação a respeito do Brexit que se espalhou pela rede social sem que a empresa tomasse providências. Ela pensava seriamente em abandonar a plataforma de Mark Zuckerberg de vez. Então, no fim de março, Andrea contraiu a covid-19. Quando continuou se sentindo mal depois de duas semanas com a doença, ela começou a procurar na internet relatos de outras pessoas que também apresentavam os mesmos sintomas. 

Foi então que ela descobriu um grupo no Facebook para pessoas sofrendo com a covid no longo prazo, pessoas que ainda apresentam sintomas da doença depois de um mês.“Quando comecei, não havia muitos membros, cerca de dois mil, mas foi muito útil saber que eu não estava sozinha”, disse ela.

O grupo e outros do tipo se tornaram uma parte importante do seu cotidiano e sua recuperação. Os integrantes conversavam com médicos, trocavam detalhes a respeito dos sintomas e acompanhavam juntos os tratamentos para descobrir o que tornava as coisas melhores ou piores. Como muitos usuários do Facebook, Andrea se deu conta de que abandonar a maior rede social do mundo não é tão fácil quanto apertar um botão, especialmente quando fazemos parte de suas comunidades online. É difícil convencer as pessoas a sair, aprender a usar uma nova ferramenta e recriar a facilidade de reunir uma gama tão variada de pessoas.

Dos 2,74 bilhões de usuários em todo o mundo que abrem o Facebook pelo menos uma vez por mês, dois terços usam o recurso dos Grupos pelo menos uma vez por mês, em busca de interesses que vão da saúde e dos hobbies até a organização política.

O Facebook diz que houve um aumento no número de pessoas usando o recurso dos Grupos durante a pandemia. Com as alternativas de sociabilidade presencial limitadas para desacelerar a disseminação do novo coronavírus, as pessoas se voltaram para comunidades virtuais como os Grupos em busca de companhia ou simplesmente para passar o tempo.

Mas os meses mais recentes também mostraram uma nova onda de justificativas para se abandonar o Facebook. Faz tempo que as pessoas criticam a empresa por não fazer o bastante ao reprimir os grupos que difundem teorias da conspiração sem nenhum fundamento como a QAnon, e em seguida por anunciar que todas as contas ligadas ao QAnon seriam banidas. Por não agir com suficiente firmeza contra publicações do presidente Donald Trump contendo informações falsas e mentiras, e por marcar como falsas as publicações dele declarando vitória na eleição.

Nas semanas mais recentes, forças conservadoras – incluindo vários políticos e especialistas – se frustraram com a crescente moderação do Facebook em relação ao conteúdo eleitoral, pedindo às pessoas que procurassem uma rede social alternativa chamada Parler. Na semana seguinte à eleição, essa empresa, que se orgulha de manter a “liberdade de expressão” e excluir checagens de fatos, viu sua base de usuários saltar de 4,5 milhões para 7,6 milhões de contas. Ainda não se sabe ao certo quantos desses novos usuários realmente abandonaram o Facebook e nem quanto tempo permanecerão afastados.

As ondas de apelos para que o Facebook seja abandonado pelos usuários costumam ser motivadas pela controvérsia que trouxer a empresa aos holofotes no momento. E não faltaram polêmicas nos 16 anos da empresa, desde as questões envolvendo a Cambridge Analytica e a privacidade dos dados até a forma de combater a desinformação.

Por causa do tamanho maciço do Facebook, os efeitos dos eventuais êxodos foram indetectáveis até o momento, como arremessar sementes contra um tiranossauro. A rede é tão grande que nem mesmo a partida de anunciantes a afeta. Em julho, mais de 1 mil empresas participaram de um boicote ao Facebook por causa de sua forma de lidar com os grupos de disseminação do discurso de ódio, tirando da plataforma sua verba de publicidade. Isso atraiu bastante atenção da imprensa, mas não afetou significativamente a receita de publicidade da empresa.

Grupos são vistos como futuro da rede social desde 2017

A empresa promove os Grupos como sendo o futuro do Facebook desde 2017, quando o interesse dos usuários em seu feed de notícias tradicional estava diminuindo. Investiu-se pesado no recurso, tornando o Grupos uma parte central das campanhas de publicidade, e a empresa começou até a organizar um evento anual chamado “cúpula das comunidades”.

“Minha única razão para não abandonar o Facebook agora mesmo são os grupos. Tudo mais pode ser substituído”, disse Julia Pfeil, de 23 anos, que mora no norte da Flórida e participa de 55 grupos do Facebook.

Ela interage em grupos do bairro para receber notícias locais, grupos que falam de jogos e conspirações, tem um grupo dedicado ao artesanato sob o efeito de drogas e outro que reúne apenas reações furiosas ao milho (com mais de 150.000 membros). Os grupos favoritos dela são o de identificação de cães e um para pessoas que tiveram uma doença específica da qual Julia também sofreu. Atualmente, ela calcula que passa cerca de duas horas por dia no Facebook, mesmo passando um tempo ainda maior no Twitter.

Mas, nas semanas mais recentes, ela tem se preocupado cada vez mais com as políticas adotadas pelo Facebook e acredita que a rede está censurando as pessoas, frequentemente sem explicar por quê. Para ela, o principal problema é o diretor executivo Mark Zuckerberg: “Não gosto da influência dele, não gosto de suas decisões, não gosto do que ele diz”.

Algumas pessoas conseguem se afastar do Facebook enquanto continuam usando o Instagram ou o WhatsApp – seja por não saber que esses aplicativos pertencem à mesma empresa e compartilham dados entre si, seja por não estarem dispostos a abandoná-los. Outros tentam medidas mais temporárias para se distanciar da empresa, como desabilitar suas contas em vez de apagá-las, deixando assim a porta aberta para um retorno. Podem apagar o aplicativo para limitar seu tempo de uso, ou deixar de compartilhar informações pessoais e olhar passivamente para o seu feed.

Sem a possibilidade de exportar o histórico de um grupo ou transferir seus usuários para uma alternativa externa, não há opção perfeita para suas comunidades. “Não acho que a questão seja o Facebook em si. Não é difícil imaginar uma plataforma melhor, mas não sei como fazer para transferir sequer uma fração do público”, disse Robyn Tevah, de 63 anos, organizadora comunitária da Filadélfia.

Robyn é moderadora de um grupo do seu bairro de Germantown, com mais de 7.000 membros. Os integrantes usam o grupo para tudo: encontrar animais de estimação perdidos, pedir recomendações de encanador, divulgar campanhas de distribuição de alimentos. São pessoas de todas as idades e perfis, algo que seria difícil de reproduzir imediatamente em outro site. Como a maioria dos grupos, este demanda um considerável volume de trabalho não remunerado dos moderadores e administradores.

O Facebook oferece maneiras de exportar os dados do seu perfil para que tenhamos uma cópia deles, e até uma ferramenta para transferir as fotos para serviços concorrentes. Mas não há configurações de exportação para os grupos, e nenhuma maneira fácil de transferi-los para outro site. E, mesmo que houvesse, seria quase impossível convencer uma centena de membros a migrar para outro app e aprender a usá-lo – que dirá centenas de milhares de usuários. Sem uma maneira sistemática de transferir os grupos para fora do Facebook, esses grupos teriam que se reconstruir do zero.

Alternativas existem, mas ainda são nichadas (e têm problemas parecidos)

Se houver interesse, há alternativas de grupos em fóruns públicos e privados, incluindo Slack, Reddit, Twitter e Discord, e pode-se criar grupos privados de bate-papo em ferramentas como Signal e iMessage. E o Vale do Silício está criando startups para grupos, como a Mighty Networks, além de aplicativos de redes sociais com viés político específico, como o Parler, que não oferece o recurso dos grupos. Mas mudar de uma empresa de tecnologia para outra pode não ser uma panaceia.

“Para solucionar esse problema, precisamos de uma mudança estrutural, uma mudança nas políticas”, disse Andrea Downing, pesquisadora de segurança e defensora do direito à privacidade que fundou a ONG Light Collective para ajudar comunidades online voltadas para a saúde.

Em 2018, Andrea encontrou uma brecha no Facebook permitindo que terceiros baixassem listas de membros de grupos fechados usando uma extensão do Chrome. Subsequentemente, o Facebook fechou a brecha. Administradora de um grupo de pessoas com uma mutação no gene BRCA que aumenta o risco de câncer de mama e no ovário, Andrea quer que seu grupo e outros possam fazer backup do seu histórico, transferi-lo para outra plataforma e apagá-lo do Facebook. Ela segue usando a rede social, ao mesmo tempo em que defende que a empresa seja subdividida e investigada por reguladores.

O Facebook não quis comentar a respeito das configurações dois grupos nem de seus planos futuros para o recurso. “Eu adoraria dizer que as pessoas deveriam evitá-los, mas sei que, para alguém do grupo com sintomas prolongados de covid ou para alguém que acaba de ser diagnosticado com câncer, eles farão todo o possível para encontrar outras pessoas que as orientem nessa jornada”, disse Andrea. “Só vou sair quando todos puderem sair juntos.”

As pessoas que permanecem no Facebook e trabalham – de graça – administrando os grupos não o fazem pela empresa. Seu compromisso é com as comunidades que eles criaram e às quais aderiram – elos que pesam mais do que as preocupações com a empresa. “Não sinto nenhum tipo de lealdade especial em relação a eles, pois me parece que trabalhei bastante e gratuitamente”, disse Sandy B., advogada de Los Angeles que falou sob condição de preservar seu sobrenome.

Sandy administra um punhado de grupos e difunde a educação antirracista no Facebook. Ela investe horas do seu tempo tentando combater o racismo em espaços públicos e privados do Facebook, denunciando grupos que usam termos depreciativos no nome e lidando com as mensagens ameaçadoras e racistas que recebe na caixa de entrada do Messenger. Ela valoriza as conexões que criou graças ao site e diz que, graças à rede social, conheceu pessoas que normalmente não teria encontrado. Mas o tempo de trabalho que ela investe no Facebook é cansativo.

“É como um relacionamento abusivo”, disse Sandy. “Quantas vezes teremos que nos queixar das mesmas coisas e escrever artigos a respeito dos mesmos temas até que mudanças sejam feitas?”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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