Grávidas e exaustas: as dificuldades enfrentadas por gestantes latinas em busca de asilo nos EUA

Os novos controles de imigração colocados em prática sob o governo de Donald Trump tornaram mais difícil para os migrantes cruzarem a fronteira ao sul do país, mas tem sido particularmente difícil para mulheres grávidas, que após viagens árduas, chegam à fronteira exauridas
Lynsey Addario, do New York Times

Imigrantes da América Latina em uma doação de rooupas feita na ponte internacional que conecta Matamoros, no México, com Brownsville, no Texas (18/09/2019) Foto: Lynsey Addario para o New York Times

MATAMOROS, México — Griselda estava com 38 semanas de gravidez quando atravessou o Rio Grande sorrateiramente para os Estados Unidos tarde da noite no ano passado. Ela começou a ter contrações em uma instalação da Patrulha de Fronteira em McAllen, Texas, e foi levada a um hospital onde a equipe médica aplicou uma injeção para acalmar sua dor e impedi-la de entrar em trabalho de parto prematuro.

Dois dias depois, Griselda estava em um ônibus lotado de volta ao México, mudando-se para um acampamento com centenas de outros imigrantes que aguardavam permissão para entrar nos Estados Unidos. Quando finalmente deu à luz, dez dias depois, sua filhinha juntou-se a ela até que um abrigo local abriu espaço para as duas.

Os novos controles de imigração colocados em prática pelo governo de Donald Trump tornaram mais complicado cruzar a fronteira ao sul dos EUA, mas tem sido particularmente difícil para mulheres grávidas, que, muitas vezes, chegam à fronteira após viagens árduas, em estado de exaustão. 

Anteriormente, muitas dessas mulheres teriam permissão para fazer um pedido de asilo e dar à luz em segurança nos Estados Unidos enquanto seus casos estavam sendo considerados. Mas, agora, a maioria, como Griselda, é enviada rapidamente de volta ao México para se arriscar em abrigos lotados e acampamentos de tendas imundos. Algumas são mantidas em centros de detenção nos EUA por meses. 

Em uma petição aos tribunais federais no ano passado, a American Civil Liberties Union (União Americana pelas Liberdades Civis; ACLU, na sigla em inglês) disse que entrevistou 18 mulheres migrantes que foram detidas pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP, na sigla em inglês) e retornaram ao México. Todas enfrentavam sérias preocupações sobre como dar à luz com segurança e manter seus bebês saudáveis.

Uma mulher disse que foi informada por um agente da CBP que “Trump não queria que houvesse mais grávidas aqui”, de acordo com a queixa judicial da ACLU. 

Quando começaram a surgir relatos sobre o que estava acontecendo com as mulheres na fronteira, Lynsey Addario viajou até lá para documentar. Em seu trabalho como fotojornalista, ela passou uma década investigando a saúde materna em todo o mundo. Estava claro para ela que uma potencial crise de saúde, do tipo que ela havia visto em países muito menos desenvolvidos, estava se desdobrando diretamente nas portas da América. 

Addario foi acompanhada por Caitlin Dickerson, uma redatora nacional de imigração do “New York Times”. As duas jornalistas encontraram Griselda em um abrigo em Matamoros, no estado mexicano de Tamaulipas, em uma das várias viagens que fariam à região no próximo ano. 

Seu trabalho levou a um relatório sobre a situação de mulheres que vivem ilegalmente nos Estados Unidos e que estão renunciando aos cuidados pré-natais e dando à luz em casa por medo de serem deportadas. Mas seus relatórios revelaram uma gama muito mais ampla de problemas enfrentados por mulheres grávidas na fronteira. A maioria delas pediu que seus sobrenomes não fossem publicados para não comprometer suas chances de obter residência legal nos Estados Unidos. Seus rostos, porém, falavam muito.

Xiomara Quintanilla, 26, estava grávida de sete meses quando chegou à fronteira perto de McAllen, Texas, com seus dois filhos pequenos, Brianna, 3, e Dylan, 1. A família fugiu de El Salvador, cruzando o Rio Grande para os Estados Unidos e pedindo asilo. Ela gastou US$ 9 mil na viagem de 15 dias, pagando contrabandistas ao longo do caminho. 

Muitas vezes, as famílias eram separadas pelas autoridades de imigração dos EUA na fronteira naquela época, mas Quintanilla decidiu correr o risco de viajar durante a gravidez avançada e a possibilidade de ser separada dos filhos. “Vim por causa da falta de segurança em El Salvador e das gangues”, disse ela. “Não há trabalho lá. Tenho que pensar no futuro dos meus filhos ”. 

Em Austin, Texas, Addario fotografou Lisbeth, 29, que fugiu da gangue MS13 em El Salvador depois que seu marido foi visado pelo grupo. Ela chegou aos Estados Unidos perto de Tijuana e se entregou à Patrulha da Fronteira.

Ela havia sido mantida em um centro de detenção em Otay Mesa, Califórnia, por dois meses, durante seu segundo trimestre de gestação, sem nunca ter feito um exame pré-natal. Ela contou histórias angustiantes de outras mulheres grávidas que tiveram graves problemas de saúde no centro de detenção. 

“Vi tantas mulheres grávidas sofrendo abortos espontâneos e tentei ser forte, porque não queria que isso acontecesse comigo”, disse ela. 

Lisbeth acabou indo para Austin, onde conseguiu um apartamento e encontrou um emprego em uma pizzaria, ganhando US$ 13 a hora. 

Gabriela tinha viajado de Choluteca, Honduras, e estava esperando o final de sua gravidez em um estado de purgatório. Ela havia feito um exame pré-natal com uma parteira na alfândega de Matamoros, mas não tinha ideia do que aconteceria com sua crescente família. 

“Estou preocupada com meus filhos”, disse ela. “E se eles ficarem doentes? Onde vamos dormir? Comer?” 

Entre as centenas de pessoas em busca de asilo que esperavam no campo de Matamoros para apresentar seus casos nos Estados Unidos, mais de uma dúzia estava, como Gabriela, grávida. Muitos moravam ali há meses, com poucas possibilidades de voltar para casa, seja porque o dinheiro havia acabado ou porque era ainda mais perigoso no lugar de onde vieram.PUBLICIDADE

As condições no acampamento eram péssimas, às vezes congelante à noite e sufocante durante o dia. Houve um surto de COVID-19 durante o verão. 

Algumas gestantes, como Griselda, conseguiram encontrar espaço em um abrigo, com camas quentes e protegidas das intempéries. 

Mas algumas mulheres se cansaram de esperar e tentaram atravessar o rio. Algumas delas têm a sorte de ser apanhadas por agentes da Patrulha de Fronteira e liberadas em um abrigo para migrantes nos Estados Unidos. 

Mas para muitas outras, o veredicto é rápido e duro: uma viagem de ônibus de volta ao México. 

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