Autora Cecily von Ziegesar de ‘Gossip Girl’ está preparada para encarar um público mais adulto

‘Cobble Hill’ tem uma pegada mais madura do que a obra mais famosa de Cecily von Ziegesar, mas ainda há espaço para o drama
Alisha Haridasani Gupta, The New York Times – Life/Style

Cecily von Ziegesar no Brooklyn, bairro onde se passa seu novo romance, Cobble Hill. Foto: Tonje Thilesen/The New York Times

A inspiração para o último romance de Cecily von Ziegesar? Piolhos.

Cerca de oito anos atrás, quando seus dois filhos estavam no ensino fundamental no Brooklyn, ela não conseguia afastar a ideia de que o cabelo deles, e o dela, estavam infestados desses insetos hematófagos. “Eu ia até a enfermeira e dizia: ‘Você pode olhar minha cabeça?’ Eu penteava o cabelo dos meus filhos toda noite. Ouvi dizer que passar maionese no cabelo e enrolar a cabeça com filme plástico afoga os piolhos, de modo que eu fazia isso no meu cabelo todo dia”, disse von Ziegesar em uma entrevista.

Um encontro semelhante com piolhos dá início a seu livro, Cobble Hill, exceto pelo fato que, em vez de uma mãe com dois filhos tendo um esgotamento emocional, é Stuart Little, uma estrela do rock cuja esposa Mandy, logo se revela, finge ter esclerose múltipla para ficar na cama e fugir de seus deveres familiares, como deixar as crianças na escola e pagar impostos.

Se esse comportamento parece maniacamente egocêntrico, é o tipo de personagem em que von Ziegesar, a autora da série best-seller para jovens adultos Gossip Girl, se especializou – e que defende quando necessário. “Adoro Mandy. Eu a admiro por ter a coragem de agir, tipo: ‘Isso é o que preciso fazer agora'”, afirmou a autora, com um tom carinhoso em sua voz.

Chame-se isso de coragem ou egoísmo, ou egoísmo corajoso, esses traços podem ser encontrados na maioria de suas personagens femininas, observou von Ziegesar, desde a intrigante Blair Waldorf e os traidores que a cercaram em “Gossip Girl” até as quatro personagens femininas de Cobble Hill. Além de Mandy, há uma britânica expatriada trabalhando em uma revista no estilo Condé Nast, uma enfermeira do ensino médio apaixonada pelo pai de um aluno e por um artista ambíguo. “Eu não queria que elas fossem personagens que você ama odiar”, comentou von Ziegesar.

Essas mulheres e sua família se sentem como as personagens que as fãs adolescentes de Gossip Girl podem ter se tornado. Afinal, desde que seu primeiro livro foi lançado, em 2002, e a adaptação para a televisão começou a ser exibida em 2007, essas fãs agora estão atingindo a idade adulta, considerando mudanças de carreira, comprando casa e trocando suas inseguranças juvenis por outras mais maduras. Isso pode incluir, como é o caso dessas personagens, desistir de paixões para priorizar uma carreira insatisfatória que paga as contas, conseguir um emprego em que não sabem como atuar, mas fingem que sabem, ou aprender que talvez não amem tanto seu cônjuge como costumavam amar – tudo isso enquanto sofrem com o que as pessoas pensam delas.

“Eu não poderia escrever os livros Gossip Girl agora, mas não poderia ter escrito Cobble Hill antes. Espero ter progredido como escritora”, disse von Ziegesar, de 50 anos.

Ela própria é um produto do mundo do Upper East Side, onde Gossip Girl se passa: embora tenha crescido no Upper West Side, frequentou a escola no primeiro bairro e lá teve “pequenas experiências divertidas, como virar a esquina da escola e ir para a casa de um amigo – eu tinha alguns amigos cujos pais eram um pouco relutantes em deixá-los vir à minha casa”, lembrou.

A ideia de Gossip Girl surgiu quando von Ziegesar era editora da empresa de livros por encomenda Alloy Entertainment, agora uma divisão do Warner Bros. Television Group. Na época, o mercado de livros para jovens adultos estava cheio de séries como Aí Galera, que apresentava locações inventadas. “Aquilo era muito estranho para mim. Por que não escrever sobre um lugar real? Acontece que o lugar real que conheci foi o Upper East Side”, comentou.

O número preciso de exemplares vendidos de Gossip Girl é difícil de obter porque o primeiro da série chegou antes que o rastreamento fosse disponibilizado, mas algumas estimativas sugerem que vendeu mais de quatro milhões de cópias. A série de TV durou seis temporadas e ajudou a transformar membros do elenco em celebridades, como Blake Lively, Leighton Meester, Penn Badgley e Ed Westwick. Um reboot no HBO Max está em andamento.

Em 2002, quando o livro de estreia de von Ziegesar foi lançado, ela teve seu primeiro filho. Quando a série de TV estava chegando ao fim, em 2012, tinha dois filhos com idade suficiente para estarem ligados no tema. “Assistíamos ao programa juntos como uma família. Eu me lembro de que uma vez, quando pus meu filho na cama, ele me disse: ‘Acho que não consigo dormir.’ Perguntei por que não, e ele me respondeu: ‘Estou muito preocupado com o Chuck'”, contou ela no quarto recentemente desocupado de sua filha, que está começando o primeiro ano na faculdade.

A lente voyeurística que von Ziegesar aplicou a habitantes do antigo Upper East Side, explorando a tensão entre sua vida interior nervosa e a aparência exterior perfeita, foi o que ela procurou trazer para Cobble Hill, que leva o nome do caro bairro do Brooklyn onde ela e os personagens vivem. Só que esse livro é mais identificável, mais normal: em vez de abrir caminho para as escolas da Ivy League ou dar festas na Park Avenue, essas personagens estão tentando encontrar uma babá para que possam curtir uma noite de bebedeira em um karaokê.

“Foi corajoso e real”, disse o agente literário e autor Bill Clegg por e-mail. Ele trabalhou com von Ziegesar nas edições e nos feedbacks do livro, mas observou que não foi preciso fazer muito. “Acho que só pedi que ele fosse mais longo”, acrescentou. (Mandy, ao que parece, também é sua personagem favorita.)

Von Ziegesar publicou vários livros desde a última edição de Gossip Girl, incluindo Cum Laude, sobre alunos de uma pequena faculdade no Maine, e It Girl, um spin-off de Gossip Girl cuja modelo na capa era a jovem Hope Hicks, agora uma das conselheiras do presidente Donald Trump. Embora tenham usado a mesma fórmula de mergulhar nas provações e nas aflições da adolescência, não tiveram o impacto de Gossip Girl.

Cobble Hill é um ponto de partida maior para von Ziegesar. E ela mencionou que já há rumores iniciais de transformá-lo também em uma série de TV.

Nos anos em que trabalhou no livro, von Ziegesar – que admitiu que seu processo de escrita nunca foi organizado ou metódico – anotava flashes de inspiração, ideias e eventos da vida real em post-its que ela espalhava pela casa. “Ao contrário de Gossip Girl, que era uma série da qual eu fazia dois livros por ano, isso realmente é o ápice de muitas coisas. Trabalhei nesse livro muito esporadicamente por um longo tempo”, declarou ela. Neste ano, enquanto limpava um de seus armários, von Ziegesar encontrou uma caixa de post-its antigos. “Dei uma olhada e disse ao meu marido: ‘Ah, meu Deus, tudo entrou no livro'”, concluiu a escritora.

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