Cultura do cancelamento levará à radicalização, diz jornalista Bari Weiss que se demitiu do NYT

Para Bari Weiss, geração de fanáticos em Redações impede que imprensa retrate a verdade
Fábio Zanini

Bari Weiss, photographed in New York City. Trench coat by Max Mara; dress by Valentino; shoes by Manolo Blahnik.PHOTOGRAPH BY MARTIN SCHOELLER; STYLED BY NICOLE CHAPOTEAU.

SÃO PAULO – Para a jornalista Bari Weiss, 36, veículos tradicionais de imprensa como o New York Times fazem mais realismo socialista do que retratam o mundo como ele é.

A referência à escola artística do período soviético pode parecer exagerada, mas é própria do estilo combativo de Weiss, que causou barulho em julho deste ano ao publicar uma carta de renúncia de seu emprego como articulista do NYT.

No texto, endereçado ao publisher, A.G. Sulzberger, ela acusa o jornal de ser editado com base no Twitter e menciona um macartismo de sinal invertido, referência à caça aos comunistas nos anos 1950.

Crítica a movimentos como Black Lives Matter, ela havia sido contratada em 2017 pelo jornal, bastião da esquerda progressista americana, para ampliar o espectro ideológico de vozes oferecidas aos leitores.

Mas disse ter percebido que isso seria impossível depois da demissão do editor de Opinião do NYT, James Bennet, após pressão da Redação, sobretudo pessoas mais jovens. A seção havia publicado um artigo do senador Tom Cotton, em que pedia a ação de tropas federais contra manifestações violentas contra o racismo.

Desde que deixou o jornal, Weiss tem se dedicado a palestras e a escrever um livro. Judia e com visões pró-Israel, ela participou no mês passado da conferência anual da Conib (Confederação Israelita do Brasil).

Morando em Los Angeles, diz que tem aproveitado o isolamento da pandemia para também aperfeiçoar seus dotes culinários para o noivo, repórter do jornal que ela deixou.

Em sua carta de demissão, a sra. fala que o Twitter tornou-se o editor do NYT. A mídia capitulou às novas formas de comunicação? Antes da internet, o chefe era o anunciante. Esse modelo se desintegrou. Agora é o assinante, o leitor, e os que são estridentes em lugares como o Twitter têm influência desproporcional. O público do NYT é formado por liberais ou democratas, mais de 90%. O incentivo passa a ser dar aos leitores o que eles querem. Toda pressão empurra para publicar mais um artigo sobre como Trump é um monstro ou um palhaço. Há um desincentivo para contar verdades inconvenientes contra noções pré-concebidas. Cada vez mais, o NYT e outros veículos mostram uma pequena faixa do país, um mundo como os editores ou os leitores gostariam que fosse. É mais realismo socialista do que relatar as notícias.

Quando o NYT a contratou, a razão foi tornar o jornal mais diverso. Acha que era um desejo genuíno? As pessoas que dirigem o NYT sentiram, após a eleição de Trump, que haviam errado numa grande história. Você pode me chamar de ingênua, mas acho que eram genuínas no desejo de expor seus leitores a um espectro mais amplo. O problema é que muitas das pessoas mais jovens que contrataram têm uma visão diferente. Entraram no jornalismo para advogar coisas, estar do lado certo da história. Era inevitável que isso fosse resultar em algum tipo de conflito.

É algo geracional? Em grande medida, sim. Essas pessoas jovens, inteligentes, estudaram nas faculdades mais respeitadas do país. Mas essas faculdades são o ponto de origem desta nova ideologia. E as pessoas levam suas ideias para empregos em editoras, museus, jornais. Em vez de essas instituições transformarem os jovens, são os jovens que as transformam. Esse pequeno grupo fanático e moralmente justo maneja as mídias sociais e faz acusações de intolerância com total descaso. Aterroriza os que acreditam nos métodos tradicionais.

Universidades de esquerda sempre existiram. O que mudou agora? É a internet? Se eu quero ir à mídia social e ganhar pontos com meus amigos, é muito fácil, não leva dois segundos e não custa nada. Funciona quase como um movimento religioso. É capaz de, como muitas religiões em seus estágios iniciais, queimar muita coisa para conseguir o que quer. Essas ideias, tenham o nome que tiverem —política identitária, teoria racial crítica, justiça social— estavam contidas em departamentos periféricos de universidades. Mas como disse Andrew Sullivan [escritor britânico], todos nós vivemos num campus agora. Estamos vivendo no mundo dos departamentos de estudos de gênero.

O que a imprensa deveria fazer? A primeira coisa é empregar pessoas sem diploma universitário, que venham de lugares fora de Califórnia e Nova York. Pessoas com diferentes perspectivas do mundo, que não acham loucura ter eleitores de Trump em suas famílias. Há uma enorme abertura para esse tipo de jornalismo, mas não estou certa de que vai acontecer na imprensa tradicional. Pode ocorrer em newsletters mais independentes, podcasts etc, ou em novas instituições.

A sra. critica muito a mídia liberal, mas a conservadora não faz a mesma coisa? Claro. Conheço gente que olha para Fox News, Breibart ou OAN [veículos conservadores] como principal fonte de notícias, assim como conheço gente que lê o NYT ou vê a MSNBC [órgãos progressistas]. Eles vivem em diferentes universos epistemológicos. Talvez seja nosso futuro. Espero que não, porque não sei como uma democracia pode sobreviver se nós temos diferentes ideias sobre fatos básicos. Mas ainda tenho muita esperança na grande maioria que fica entre Rachel Maddow [apresentadora de esquerda] e Tucker Carlson [âncora conservador].

A demissão de James Bennet como editor de Opinião do NYT é a vitória do neomacartismo que a sra. aponta? Há centenas de exemplos. Uma diretora de escola em Vermont foi demitida porque disse que vidas negras importam, mas que não apoiava a organização Black Lives Matter [Vidas Negras Importam]. Os pecados que levam as pessoas a serem canceladas são ideias de senso comum, como de que há diferenças entre homens e mulheres. Dizer isso faz de você transfóbico?

cultura do cancelamento é a grande ameaça hoje para o debate de ideias? Há duas grandes ameaças. Uma é que nós estamos vivendo em um mundo pós-moderno e da pós-verdade, no qual Trump é um enorme exemplo. Mas também acho que esse estreitamento do que é aceitável no debate público não vai fazer o que seus defensores desejam. O que eles esperam é que o progresso reine, a justiça social vença e todos os que já tiveram um pensamento intolerante em suas vidas sejam transformados. O que na verdade isso vai fazer é radicalizar as pessoas.

É possível vencer essa cultura? Claro que é. Diga: foda-se. Desculpe, não é para dizer isso. Diga que há coisas mais importantes do que ser convidado para a festa certa, ou conseguir uma promoção, ou mesmo manter o emprego. Essas coisas são não abandonar amigos à própria sorte, contar a verdade, lutar pelo espírito do liberalismo, ter tolerância à diferença, generosidade.

A sra. se sente cancelada? Não. Com certeza houve uma tentativa de me cancelar. Tenho pessoas que eu considerava amigas e me deixaram. Eu poderia ter ficado no NYT e tornar-me uma versão pela metade de quem eu sou. Minha decisão de sair foi porque não conseguia exercer o tipo de trabalho que eu queria. Não me importo com o que uma cabala fanática de ideólogos iliberais pensa sobre mim, meu trabalho ou minha vida.

Qual sua opinião sobre movimentos como Black Lives Matter e Me Too? Minha opinião é… [pausa de 5 segundos]. Estou pensando na melhor forma de dizer isso [pausa de mais 7 segundos]. Sou a favor de qualquer movimento que tente expandir a noção do que é possível, que mostre que pessoas foram excluídas do contrato social, que diga que temos de entender uns aos outros. O que acho perigoso em muitos dos atuais movimentos é que dizem algo muito niilista. Basicamente, que todos estamos condenados, ou restritos, ao modo como nascemos, que não há motivo para entender as outras pessoas, que estamos presos num tipo de luta de poder de soma zero de um contra o outro. É medieval dizer que alguns de nós nasceram em algum tipo de pecado original, pelas circunstâncias, ou a cor de nossa pele.

Como a sra. vê a maneira como Trump é retratado pela imprensa? O princípio para muitos é: homem laranja mau. É fácil ceder a isso, porque houve muita coisa ruim. O problema com isso é que desprezamos coisas positivas. Não é porque Trump diz que o céu é azul que eu vou dizer que é preto. Trump conseguiu o maior número de votos de minorias entre todos os candidatos republicanos desde 1960 na última eleição. Todos esses eleitores de minorias eram supremacistas brancos no armário? Ou talvez haja outra razão que os atraiu a Trump?

Alguma coisa vai mudar com Biden? Se você está perguntando se a polarização e o tribalismo vão embora, certamente não. A imprensa aprendeu as lições? Certamente não. A boa notícia é que acredito que haja uma abertura para a maioria. O dentista em Dallas ou o contador em Cleveland que não vivem no Twitter são as pessoas que estou interessada em alcançar. Há muitas coisas em que as pessoas podem concordar, como a falência do sistema de saúde, justiça criminal, salários mínimos, educação, ameaça de big techs e monopólios. Por que não começamos com elas?

A sra. se considera conservadora? Sempre me identifiquei como liberal, mas não sei o que isso significa hoje. Eu me considero centrista. Para ser honesta, não penso mais no que me considero. As definições para as coisas estão mudando muito. Estou concordando com Glenn Greenwald [jornalista de esquerda] em algumas coisas, então quem sabe?


RAIO-X

Bari Weiss, 36
Graduada em jornalismo pela Universidade Columbia, trabalhou nos jornais The Wall Street Journal (2013-17) e The New York Times (2017-2020) e escreveu o livro “How to Fight Anti-Semitism” (2019)

As cores de 2021

O amarelo iluminado e o cinza sólido serão os tons de 2021, segundo a Pantone, líder mundial em ciência e tecnologia da cor
Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

União de cores: Encontro do cinza com o amarelo-vibrante expressa uma mensagem de positividade apoiada pela força  Foto: Pantone

Em todo o mundo, é tradição associar nossos desejos para um novo ano a uma cor. No Brasil, as apostas normalmente são no rosa, amarelo, verde e branco durante a noite de Réveillon. Com isso, as pessoas visam atrair paz, amor, prosperidade e sorte no novo ciclo que se inicia.

A cor também faz parte da tradição na moda global e é motivo de expectativa para os experts em tendências, que aguardam a cada ano, em meados de dezembro, o anúncio da Pantone, empresa americana considerada autoridade em cores no mundo. O tom apresentado pela companhia normalmente será o protagonista na moda, na decoração e no design no ano seguinte.

Há mais de 20 anos, os especialistas da empresa mergulham, anualmente, em uma gama de referências de cores que inclui a moda, o mundo do entretenimento, as redes sociais, a arte e também dados socioeconômicos dos países. Agora no final de 2020, depois de muita pesquisa, o destaque foi para uma dupla de cores na verdade. As apostas da Pantone para o ano que vem recaem sobre o Illuminating, tom de amarelo-vivo e solar, e o Ultimate Gray, cinza sólido e robusto.

“A união do resiliente Ultimate Gray com o amarelo-vibrante Illuminating expressa uma mensagem de positividade apoiada pela força e moral. Prático e sólido como uma rocha, ao mesmo tempo caloroso e otimista. Essa é uma união de cores que nos passa resiliência e esperança. Precisamos nos sentir encorajados e encantados. “Isso é essencial para o espírito humano”, afirmou Leatrice Eiseman, diretora executiva do Pantone Color Institute, durante o anúncio anual da empresa.

Ter uma dupla de tons como cores do ano não é algo comum para a Pantone. A última vez que isso ocorreu foi em 2016, quando a empresa apontou o Rose Quartz e o azul Serenity como as cores para 2017, aposta que se mostrou certeira. Na época, a dupla de tons foi tendência máxima e o rosa-claro se tornou a cor principal associada à geração dos Millennials. Agora, o duo de amarelo e cinza chega para 2021 como representação dos desejos de um mundo fragilizado pela pandemia, que anseia por resiliência e positividade.

Pela análise do Feng Shui, estudo que nasceu na China e existe há mais de 3 mil anos, a cor é um dos principais canais de energia na Terra. A cidade de Hong Kong, por exemplo, uma das áreas mais povoadas do planeta, é construída majoritariamente sob as regras de harmonização das cores da prática do Feng Shui.

Segundo a especialista em Feng Shui Martine Monios, as cores escolhidas pela Pantone fazem todo sentido também na visão de harmonização para o ano de 2021. “O amarelo é alegria, divertimento, prazer. É uma cor que traz motivação, criatividade e motivação. O cinza é um tom de recolhimento, tem uma vibração forte, leva à introspecção. São duas cores complementares, por isso, combinam muito bem. O amarelo está ligado à terra. O cinza é relacionado ao metal”, analisa a especialista. “O elemento metal é o que estamos vivendo, rígido que exige fibra, força, disciplina e recolhimento, mas ao lado do amarelo traz alegria, motivação e emoção”, explica Martine.

Felicidade mais força e disciplina com alegria são desejos do imaginário coletivo, que agora se expressam nos dois tons da Pantone para 2021. Seja pela psicologia das cores, estudo da energia baseada no Feng Shui, ou em pesquisas de tendência globais, o amarelo iluminado e o cinza chegam como ótimos regentes do próximo ano.

WandaVision | Poderes da Feiticeira Escarlate são destaque em teaser

WandaVision teve um novo teaser divulgado pelo perfil oficial da série no Twitter, que mostra os poderes de transformação da Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen). Veja abaixo:

A série, protagonizada por Elizabeth Olsen e Paul Bettany, terá ligação direta com Doctor Strange in the Multiverse Madness, novo filme do Doutor Estranho, atualmente com lançamento marcado para 25 de março de 2022.

Wandavision estará disponível no Disney+ em 15 de janeiro.

Aos 300 anos, Caffè Florian, o mais antigo de Veneza luta para não fechar as portas na pandemia

Antigo ponto de encontro de artistas e intelectuais, Caffè Florian não está conseguindo sobreviver à crie
AFP

Frequentadores do Caffè Florian aproveitam as mesas ao ar livre na Praça São Marcos, em Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Frequentadores do Caffè Florian aproveitam as mesas ao ar livre na Praça São Marcos, em Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP

O lendário Caffè Florian, o mais antigo de Veneza e ponto de encontro de intelectuais, artistas e políticos, ameaça fechar para sempre após 300 anos de funcionamento por causa da crise gerada pela pandemia e pelas inundações de 2019.

— Se morrermos é por problemas econômicos — admitiu Marco Paolini, gerente do célebre e sofisticado estabelecimento veneziano, que completa este mês três séculos desde a sua fundação. — O Caffè Florian vai fechar se não tiver as condições técnicas e econômicas para continuar aberto.

Assim como o Florian, na Praça de São Marcos, conhecido por sua ornamentação romântica, seus medalhões, alegorias e concertos ao ar livre, outros cafés históricos venezianos tiveram que fechar as portas, como o Caffè Quadri, o Caffè Lavena e o Caffè Todaro.

— A covid atingiu o tecido turístico e cultural italiano. Veneza está de joelhos — lamentou Paolini.

A cidade, que já tinha sofrido um revés importante quando as marés alcançaram níveis históricos, em novembro de 2019, causando graves inundações, começava a se recuperar quando o novo coronavírus começou a se espalhar pela Europa, acertando-lhe um duro golpe.

Desde então, a ausência de turistas, principal fonte de renda da cidade, transformou Veneza em uma cidade fantasma e a mergulhou em um dos anos mais sombrios de sua história recente.

— Denunciamos a miopia do Etado. Veneza está fechada. Todas as lojas da praça de São Marcos estão fechadas. Temos que pagar aluguéis milionários, parte ao Estado e parte aos particulares. Os particulares os reduziram em 70%, enquanto o Estado e o governo, nada. Querem 100% do pagamento do aluguel! — protestou Paolini.

Fundado em 29 de dezembro de 1720 por Floriano Francesconi, o Caffè Florian teve entre seus clientes personalidades como Gabriele d’Anunzio, Giacomo Casanova, Richard Wagner, Stendhal, Johann Goethe, Percy Shelley, Lorde Byron, Marcel Proust, Charles Dickens, Friedrich Nietzsche, Charles Chaplin, Andy Warhol e Jean Cocteau, entre muitos outros.

Fechado pela República Veneziana por ser um ponto de encontro dos jacobinos após a Revolução Francesa, em suas mesas conspiraram os patriotas venezianos que enfrentaram o Império Austríaco em 1848.

— Permaneceremos abertos pelo tempo que pudermos, mas mais do que isso não podemos — explicou o empresário, que representa um grupo de sócios proprietários do café, que tem investimentos no exterior, particularmente em Taiwan. — Esperamos até hoje, estávamos certos de que o governo nos levaria em consideração. E não só a nós, mas a todos, aos outros cafés e lojas históricas”, insistiu Paolini.

Os cerca de 80 funcionários, entre eles os míticos garçons, vestidos com fraque branco impecável e que atendem em vários idiomas, estão em desemprego técnico. Receberam seus salários, apesar de o dinheiro prometido pelo Estado ainda não ter chegado, explicou o empresário.

— Deixamos de faturar 7 milhões de euros (US$ 8,5 milhões) este ano. Uma tragédia —  disse Paolini.

Os donos de outros cafés e lojas históricas pedem novas regras para as chamadas “cidades de arte”, como Veneza e Florença, que perderam este ano cerca de 34 milhões de turistas estrangeiros por causa da pandemia, segundo um estudo publicado em novembro pela Confesercenti, a associação italiana de comerciantes.

— Não nos interessa só que o turismo volte como antes, mas que seja um turismo melhor —comentou à agência de notícias AFP Guido Moltedo, ex-assessor de imprensa da prefeitura veneziana e morador há anos na cidade dos canais.

Para Moltedo, é preciso impulsionar novas iniciativas, aproveitar para reativar um renascimento cultural e tecnológico e, deste modo, descobrir outra forma de viver na cidade de Marco Polo com apenas 50 mil habitantes, abandonando o modelo de turismo em massa de um dia, que é devastador para a cidade.  

Garçom no famoso Caffè Florian, o mais antigo em Veneza Foto: ALBERTO PIZZOLI / AFP
Garçom no famoso Caffè Florian, o mais antigo em Veneza Foto: ALBERTO PIZZOLI / AFP
Funcionários do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionários do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionário do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionário do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Garçom arruma mesa na área externa do Caffè Florian, que fica na Praça São Marcos, em Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Garçom arruma mesa na área externa do Caffè Florian, que fica na Praça São Marcos, em Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Garçom do histórico Caffè Florian, em Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Garçom do histórico Caffè Florian, em Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
O interior do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
O interior do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionários do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionários do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Frequentadores em frente ao Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Frequentadores em frente ao Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionário do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP
Funcionário do Caffè Florian, o mais antigo de Veneza Foto: ANDREA PATTARO / AFP

Mercado financeiro atrai jovens com onda de investimentos e salários altos

Setor demanda, porém, jornadas exaustivas e longas horas de trabalho; especialistas também alertam para ‘visão utópica’ vendida por youtubers e influenciadores digitais
Pedro Hallack, O Estado de S.Paulo

XP
Para Bianca Juliano, da escola de MBAs da XP, é preciso ter veia empreendedora para ser assessor de investimentos.  Foto: Matheus Detoni

As carreiras ligadas ao mercado financeiro sempre ocuparam um lugar especial no imaginário de jovens em busca de profissões bem remuneradas. Contudo, a própria timidez do mercado de capitais brasileiro sempre atuou como uma barreira psicológica para muita gente, que via o mundo das finanças como algo restrito e exclusivo para as grandes fortunas.

Ultimamente, essa visão tem mudado com uma série de avanços tecnológicos e mudanças estruturais na economia brasileira. Por um lado, as plataformas abertas de investimentos contribuem para a democratização do mercado de capitais. Por outro, a queda da taxa básica de juros do País, que começou ainda em 2016, ampliou o interesse em classes de ativos fora de renda fixa, dando mais dinamismo ao mercado.

Com o assunto entrando cada vez mais nas redes sociais e começando a fazer parte das rodas de conversas entre amigos e famílias de classe média, é natural que o interesse não fique restrito apenas aos investimentos pessoais. Diante do quadro atual, uma quantidade cada vez maior de pessoas começa a olhar o mercado como oportunidade para seguir carreira, seja o jovem que acabou de ingressar na faculdade ou aquele profissional em busca de novas áreas.

Enquanto alguns tentam a sorte como day trader, operando de casa em busca de ganhos rápidos, outros pensam com foco no longo prazo e planejam seguir carreira em uma grande instituição financeira. Considerando essa demanda, o Estadão/Broadcast conversou com professores de finanças e profissionais do mercado para entender quais são as funções mais promissoras e bem remuneradas neste momento.

De acordo com o guia salarial para 2021 da Robert Half – empresa de recrutamento executivo -, a remuneração média de um analista no começo de carreira é de R$ 13,85 mil mensais. Enquanto um profissional mais experiente pode chegar a ganhar em torno de R$ 27,75 mil, o salário de um diretor de análise pode variar entre R$ 26,15 mil e R$ 46,8 mil.

Além de analista e day trader, outros profissionais da área são assessor de investimentos e broker, além de gestor e investment banker. O assessor de investimentos, por exemplo, é o profissional que atua como agente autônomo (AAI) ligado às corretoras. Na XP, maior corretora do País, estão 77% dos assessores do mercado, segundo a consultoria AAWZ.

Segundo Bianca Juliano, responsável pela escola de MBAs da XP, a empresa repassa mensalmente à sua rede de AAIs cerca de R$ 20 mil por assessor, por meio das comissões.

Mas para exercer a função é necessário ter uma veia empreendedora e gostar de se relacionar, aponta ela. “É um trabalho que também envolve educação financeira, uma vez que o assessor acaba sendo uma espécie de professor para o investidor iniciante, apresentando o mercado e explicando diferentes estratégias de alocação.”

Youtubers e influenciadores no retrovisor

Apesar de as posições mais cobiçadas remunerarem bem, é ilusória a visão de que o profissional vai ficar milionário e se aposentar para curtir a vida em poucos anos. Contra soluções mágicas vendidas por youtubers e influenciadores digitais, os especialistas garantem que são necessários anos de trabalho duro para ser bem sucedido. O alerta se faz ainda mais necessário num contexto de forte influência das redes sociais

Segundo pesquisa divulgada pela B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, na última segunda-feira, 14, 60% dos novos investidores da Bolsa acompanham influenciadores para obter informações sobre o mercado, enquanto 32% confiam nas recomendações deste grupo.

“Viver do mercado financeiro não é ficar tomando champanhe e esquiando em Aspen (EUA) toda hora”, afirma Michael Viriato, professor de Finanças do Insper. “Quantas horas a pessoa está disposta a trabalhar e estudar? Quantos fins de semana está disposta a sacrificar? Nem todo mundo tem essa disposição, existe um trabalho exigente por trás do glamour que vendem.”

De fato, as posições de destaque no mundo das finanças também são conhecidas pela carga horária puxada, com jornadas que às vezes superam 12 horas diárias ou vão madrugada adentro. A resiliência e a habilidade de trabalhar num ambiente de pressão constante também são vistas como indispensáveis.

B3
B3, a Bolsa de Valores de São Paulo Foto: Werther Santana/Estadão-30/11/2018

O CEO da Trevisan Escola de Negócios, VanDyck Silveira cita o caso do indiano Aswath Damodaran, famoso professor de finanças da Universidade de Nova York, para exemplificar como cada um precisa conhecer o próprio perfil antes de escolher uma carreira. Ele explica que Damodaran recusou vários convites de instituições financeiras depois de concluir seu PhD, preferindo ganhar menos na academia. “Respeito muito a sua escolha, porque mostra autoconhecimento. Não adianta ganhar muito dinheiro se você tem uma vida infeliz.”

Uma forma de não se decepcionar é fazer uma pesquisa prévia detalhada sobre cada carreira. Além de aproveitar artigos online, a pessoa também pode fazer cursos introdutórios sobre o mercado, que apresentam um panorama geral sobre diferentes áreas. Por mais que alguns materiais nesse sentido estejam disponíveis gratuitamente na internet, algumas instituições também oferecem cursos de pós-graduação mais generalistas (leia mais abaixo).

“Para os estudantes, também é recomendável fazer estágio em bancos ou corretoras, para conhecer melhor as diferentes áreas”, comenta José Guilherme Chaves, coordenador da pós-graduação virtual em Mercado Financeiro e de Capitais da PUC-Minas.

Com o mercado mapeado, o passo seguinte é fazer um plano de carreira e entender quais são os certificados, especializações e habilidades exigidas para a profissão escolhida. “Aqui, é sempre importante ver a reputação da faculdade. É natural que as empresas olhem com mais atenção para os profissionais formados nas melhores escolas”, destaca Joelson Sampaio, coordenador do curso de Economia da FGV-EESP.

Em relação à graduação, também é normal que o mercado privilegie formados em áreas como Engenharia, Economia e Administração. No entanto, o coordenador do MBA Banking da FIA, Roy Martelanc, vê espaço para profissionais oriundos de outros segmentos. “É um mito que você precisa ser PhD em matemática para trabalhar no mercado financeiro. É necessário ter essa área bem resolvida, mas não é uma barreira intransponível.”

Cursos de qualificação

Para quem tem interesse em se aprofundar no tema e está em busca de cursos, instituições como FGVInsperEscola TrevisanFIA e PUC-Minas oferecem especializações, pós-graduações e MBAs em finanças. 

Alaia Eve | Resort 2018 | Full Show

Alaia Eve | Resort 2018 | Full Fashion Show in High Definition. (Widescreen – Exclusive Video/1080p – Miami Swim Week) #Throwback

Amer Mohamad for Grazia Magazine with Alina Mikheeva

Photographer: Amer Mohamad. Fashion Stylist: Cake. Hair & Makeup: Zhenya Bazhenova. Model: Alina Mikheeva.

Laptops trazem pandemia de lesões do trabalho durante o home office

Em março, as pessoas achavam que permaneceriam em casa apenas poucas semanas, por isso não haveria problema em trabalhar sentadas no sofá
Por Jeff Wilser – The New York Times

Notebooks viraram os vilões do home office, causando lesões 

Elizabeth Cuthrell, produtora cinematográfica residente em Manhattan, trabalhava em um escritório ergonômico, com mesa e cadeira confortáveis, monitor na altura dos olhos, teclado externo. Depois veio a covid-19. E ela passou a trabalhar em casa em um laptop, sentada em uma poltrona de vime, ou, às vezes,  sobre um sofá com “almofadas moles como marshmallow”. Um mês mais tarde, começou a sentir dores fortes no pescoço, no pulso e nos ombros a ponto de ter que procurar uma quiroprata.

“É difícil quantificar, mas este é realmente um grave problema para muitos dos meus pacientes”, disse Karen Erickson, uma quiroprata que tratou de Elizabeth Cuthrell. Segundo os quiropratas, tem havido um aumento das lesões e do desconforto decorrentes da pressão para aderir ao home office em todo o país, quando milhões de trabalhadores passaram meses digitando sobre sofás, camas e desconfortáveis balcões de cozinha. Nada de exercícios ergonômicos, agora todos terão de debruçar-se sobre os laptops.

Segundo uma pesquisa realizada em abril pelo Facebook, com a Associação Americana de Quiropraxia, 92% dos profissionais do ramo (entre os 231 que responderam ao questionário) disseram que os pacientes se queixam mais de dores no pescoço, nas costas ou de outros transtornos músculoesqueléticos desde que começaram a seguir as recomendações para não sair de casa.

A situação típica agora é esta: em março, as pessoas achavam que permaneceriam em casa apenas poucas semanas, por isso não haveria problema em trabalhar sentadas no sofá. Ou talvez porque um dos cônjuges ou a colega de quarto, tendo também de trabalhar em home office, se apoderou da única mesa disponível.

Inicialmente, elas só sentiram um leve desconforto. Depois, gradativamente, a dor aumentou. Mais comumente trata-se da lesão provocada por “excesso de uso” decorrente de traumas repetitivos, afirmou o dr. Michael Fredericson, professor de cirurgia ortopédica da Universidade Stanford. Ele acrescentou:“É como um pneu que fura. Não se trata necessariamente de um acidente; mas de algo que foi se desgastando com o tempo”.

Embora alguns escritórios tenham sido reabertos, a solução que muitos julgavam temporária, tornou-se a regra. E com muitas escolas e faculdades abrindo remotamente neste final de ano, o problema é ainda maior.

Veredito: culpados

Os laptops são os grandes culpados. Somos obrigados a olhar para baixo para ver a tela ou, (se ela está mais alta) a levantar as mãos para digitar. Ambas as opções são péssimas. O olhar para baixo crônico, disse Erickson, obriga a ficar “de cabeça para frente”, o que aumenta a pressão sobre os discos e as juntas da coluna vertebral, além de causar o desequilíbrio dos músculos do pescoço.

Depois, há a questão da cadeira. Quando transformamos os bancos da cozinha ou os sofás em cadeiras de escritório, na maioria das vezes a sua altura é inadequada, impedindo que sentemos numa postura neutra, como a define uma consultora de ergonomia, ou “orelhas sobre os ombros sobre quadris”, quadris ligeiramente mais altos do que os joelhos, braços relaxados ao lado do corpo, pescoço relaxado e reto, antebraços paralelos ao chão, e pés descansando sobre o chão.

Muitos não só mudaram o local de trabalho; como também mudaram a maneira de trabalhar. Deixamos de caminhar pelo corredor para uma reunião, de dar uma fugida até o outro lado da rua para tomar um café, ou mesmo andar até o metrô para fazer baldeação, nós simplesmente ficamos sentados.

“A minha estação de trabalho é no quarto de dormir. Levanto da cama – e para ser honesto, às vezes sequer me preocupo em tomar banho – então literalmente me transfiro para a cadeira, e fico sentado na maior parte do dia”, disse Ryan Taylor, engenheiro de software de Nova York, que agora sente dores na parte posterior do ombro.

“O corpo precisa de movimento”, afirmou Heidi Henson, quiroprata de Oregon, e, como outros profissionais entrevistados, acrescentou que a falta de atividade devido à pandemia acabou causando lesões e dores. “Mesmo que você tenha uma ergonomia perfeita, se permanecer na mesma posição por um período de tempo excessivo, o seu corpo não reagirá bem”.

O aumento do tempo passado diante da tela do celular – consumindo uma quantidade perniciosa de notícias no Twitter – só intensifica a falta de atividade. “Os celulares são um enorme problema”, afirmou Karen Erickson, explicando que, para olhar o celular, tendemos a dobrar o pescoço. Ela, ao contrário, recomenda que seguremos o celular na altura dos nossos olhos, descansando o cotovelo no corpo para servir de suporte. Scott Bautch, presidente do Conselho da Associação Quiroprática Americana sobre Saúde Ocupacional, afirma que como o tempo diante de uma tela aumentou dramaticamente, também aumentou o risco de adquirir a de síndrome do “pescoço de texto” e do “cotovelo provocada pela selfie”.

Grupos de risco

Estudantes universitários, adolescentes e até mesmo crianças também estão no grupo de risco.

“Os adolescentes já são propensos a ficar diante de suas telas muito tempo”, observou Henson. “Além disso, nós retiramos tudo o que há de bom para eles em termos de movimento – os esportes acabaram, a ginástica acabou”. Ela chama os adolescentes e os estudantes universitários de “a população esquecida” de uma perspectiva de saúde.

Karen Erickson concorda, e acrescenta que os estudantes universitários são “indubitavelmente de risco”, particularmente pela tensão do pescoço, dores no ombro e dores de cabeça. Na grande maioria, os alunos do ensino fundamental até a idade de ir para a universidade, afirma Erickson, “fazem suas tarefas na cama, numa postura enrolada como Linus tocando piano, pendurados no laptop ou no celular horas a fio.

Com o aumento das horas na frente das telas, e da inatividade, as crianças também se queixam mais frequentemente de dores de cabeça e desconforto. “Não é normal uma criança de 8 anos ter dores no pescoço”, afirmou Erickson, mas agora ela constata este fato na sua prática.

Soluções

Mas há algumas boas notícias: As soluções podem ser simples e baratas. Para os usuários de laptop, a única compra que os especialistas recomendam com insistência é a de um teclado e de um mouse externos; e além disso colocar o laptop sobre uma pilha de livros, levantando o monitor até a altura dos olhos. Se a sua cadeira for alta demais para os seus pés repousarem confortavelmente sobre o chão, use um banquinho para os pés; se for baixa demais, ponha almofadas sobre o assento.

Duas outras importantes soluções gratuitas: mais intervalos de descanso e uma maior movimentação. Bautch sugere programar um despertador para tocar a cada 15, 30 minutos para lembrar-lhe de se mexer, e recomenda três tipos diferentes de pausas: frequentes “micropausas”,de apenas cinco segundos, em que você muda a sua postura na direção oposta àquela em que estava (se você olha para baixo para a tela, por exemplo, olhe para o teto por cinco segundos); depois “macropausas periódicas de três a cinco minutos, para respirar profundamente ou endireitar os ombros; e, finalmente, o exercício mais importante, de pelo menos 30 minutos de duração (de preferência em uma única sessão), seja pedalando ou no elíptico.

“Nem sempre leva todo esse tempo”, disse Fredericson, acrescentando que se o aumento do stress acelera o risco de uma lesão, devemos fazer o possível para relaxar. “Na realidade, trata-se de coisas simples. Saia. Faça uma caminhada”.

Cuthrell acabou se convertendo. Agora, ela tem um alarme no seu telefone que toca a cada 30 minutos lembrando-a de ficar de pé ou de andar. Procura caminhar uma hora todos os dias. E põe o laptop sobre uma caixa de jogos, para levantá-lo até a altura dos olhos. “É incrível a mudança”, afirmou. “Eu sentia muitas dores. Agora não mais”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Fernanda Montenegro e Fernanda Torres retomam delicada parceria em ‘Gilda, Lúcia e o Bode’

Após sucesso em ‘Amor e Sorte’, mãe e filha voltam a interpretar personagens em especial que vai ao ar no dia 25; veja vídeo com trechos da entrevista com as atrizes
Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

Fernanda Torres
Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, com o bode, apelidado nos bastidores de Zequinha Montenegro. Foto: João Faissal/Globo

Metódica, Lúcia só quer proteger a mãe que, com 90 anos, está enquadrada no grupo de risco na pandemia. Gilda, por sua vez, com seu estilo hippie herdado dos anos 1970, só quer viver sua vida livremente, sem regras. Na quarentena, elas invertem os papéis de quem cuida e de quem é cuidada. Mas quem realmente cuida de quem? A jornada das duas, confinadas na serra, reconecta a relação de mãe e filha. Reaproximam-se, pelo amor e pelo afeto, mesmo tão diferentes no modo de pensar e agir. De bônus, ganham a companhia de um bode, arrematado por Gilda numa rifa. Essa é a história central do episódio Gilda e Lúcia, interpretadas por Fernanda Montenegro e Fernanda Torres na série Amor e Sorte, que foi ao ar em setembro – mas que pode ser (re)visto no Globoplay e, no dia 23, às 22h, no GNT. 

Corta para o especial de Natal Gilda, Lúcia e o Bode, que será exibido no dia 25, na Globo, após A Força do Querer. O Brasil está na fase pós-vacina. Mãe e filha voltam para o Rio, levando o bode Everi a tiracolo. Lúcia está desempregada e volta a morar com a mãe. Executiva do mercado financeiro em São Paulo que recebeu a missão de fazer demissões na pandemia, ela própria entrou na lista de demitidos. As finanças estão em colapso. Elas precisam alugar a casa na serra para ter uma fonte de renda. 

Mas Gilda segue com sua filosofia de vida. “A mãe nunca se apavora com coisa nenhuma, porque sempre tem uma saída no mundo. O negócio é não entrar na estrutura. Isso é uma herança dos anos 70: vamos pra vida, vamos gozar a vida, vamos dar ao corpo o prazer que ele quiser ter, porque a vida vai resolver o impossível desse momento”, diz Fernanda Montenegro, aos 91 anos, sobre sua personagem Gilda, em entrevista ao Estadão por Zoom, com a filha, Fernanda Torres. “É muito interessante esse diálogo, que não é feito de uma forma profunda, mas é jogado dentro da comédia de costumes”, ela continua. “A filha fala uma hora: ‘mãe, essas dívidas são impagáveis’. Aí a mãe fala: ‘ué, dívida impagável você não paga (risos)”, complementa Fernanda Torres, uma das roteiristas do especial com Jorge Furtado e Antônio Prata

Nessa nova realidade em que se encontram, o embate entre as duas acontece em outro campo. “Elas tinham uma diferença ideológica, e aqui, na relação do dinheiro, uma aposta na solução pelo jogo do azar e a outra aposta em algo supostamente seriíssimo, que é o mercado financeiro, que também é um cassino louco”, comenta Fernanda Torres. 

Gilda, Lúcia e o Bode promete mais doses de ternura e humor. Foi o único episódio de Amor e Sorte a ganhar continuação. E agora as Fernandas dividem os holofotes com o bode, apelidado de Zequinha Montenegro, “o melhor ator de todos”, brinca Fernanda Torres. “A gente está batalhando por um prêmio de revelação de ator do Zequinha Montenegro.” Numa dobradinha bem-humorada com a filha, Fernanda Montenegro emenda: “Deve ser o meu bisneto”.

Para falar sobre Gilda, Lúcia e o Bode, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres conversaram com o Estadão pelo Zoom, separadas fisicamente, a partir de suas respectivas casas, no Rio. Mas nem mesmo a distância digital abala a sintonia entre as duas. Há um respeito, uma admiração mútua, de duas grandes atrizes, mãe e filha, que se enveredaram por caminhos diferentes na carreira, mas que, vez por outra, se cruzam profissionalmente em produções como Casa de Areia, com ambas em cena; O Juízo, com filha assinando roteiro e mãe atuando; e na TV, no episódio Gilda e Lúcia, da série Amor e Sorte e, seu derivado, o especial Gilda, Lúcia e o Bode, que vai ao ar no dia 25, em que voltaram a contracenar. 

Em Amor e Sorte – que trazia episódios independentes com outros atores confinados juntos –, elas comoveram o público reproduzindo a relação que têm na vida real, de mãe e filha, mas no campo ficcional, na pele de outras pessoas. Há, claro, o fator identificação em relação ao eterno conflito entre pais e filhos. Mas existe uma cumplicidade em cena tocante entre as duas. O episódio delas repercutiu. 

Fernanda Torres conta que esse sucesso foi uma surpresa: “Acho que as pessoas se identificaram muito com as relações de família, porque as pessoas na pandemia estão confinadas com suas famílias. Acho que nunca conviveram tanto com a própria família. Os filhos tendo de ser meio pais dos pais, tendo de cuidar, porque há o tal do grupo de risco. Os pais danados da vida que têm 90 anos como a mamãe, com saúde, nessa hora que era para estar usufruindo do mundo, da vida, vira grupo de risco. Todas essas tensões e diferenças, tanto ideológicas quanto políticas, acho que o especial um pouco falava disso, de como resolver essas diferenças através do afeto”. 

Fernanda Montenegro
Fernanda Montenegro em cena no especial com o neto Joaquim. Foto: João Faissal/Globo

Logo após a boa repercussão do episódio, elas lembram, Silvio de Abreu, então ainda diretor de Dramaturgia da Globo, lançou a ideia de uma continuação, com Gilda e Lúcia no Rio – e com o bode. “Estávamos confinados lá em Petrópolis, já de três para quatro meses. A família unida ali. E, quando veio a ideia, da qual a Nanda participou também como autora, foi uma festa no sentido de uma terapia boa, ocupacional. A gente deixou de pensar o que fazer, para onde ir, quando vem vacina, só na conversa sem parar, sem parar… Quando veio a possibilidade do trabalho, desligamos todos os piores momentos de ausência de nossa casa no Rio, ou do nosso trabalho em estúdio ou nos palcos”, diz Fernanda Montenegro. “Aí começamos a fazer o nosso programa ocupacional. Graças a Deus, não falamos mais do tal do vírus maldito, ou numa situação qualquer política deste país sempre confuso, e brincamos como se nós fôssemos crianças criadoras. E deu certo.” 

Naquele momento, em Amor e Sorte, a produção do episódio foi resultado de uma força-tarefa familiar, todos isolados no sítio do clã: as atrizes; o diretor artístico Andrucha Waddington, marido de Fernanda Torres; os filhos do casal, Antonio e Joaquim; o enteado de Fernanda Torres e filho de Andrucha, Pedro; além do amigo deles, o fotógrafo João Faissal. Agora, em Gilda, Lúcia e o Bode, novamente com direção artística de Andrucha e direção de Pedro Waddington, a equipe é “profissional”, como diz Fernanda Torres.

“Uma equipe reduzida, mas profissional, que se quarentenou uma semana, testou, todos confinados num hotel em Santa Teresa, de onde saíam para gravar. A gente se testava de três em três dias. Aula com infectologista sobre os perigos de como pegar”, afirma a atriz. Joaquim Waddington ganha mais espaço na história como Dimas, que ajuda Gilda e Lúcia a levar o bode de volta à serra. O elenco conta ainda com agregados, incluindo nomes como Arlete SallesFabiula Nascimento, Muse Maya e Kelzy Ecard. “Acho interessante, porque nos unimos à moda arcaica, a família da commedia dell’arte, dos grupos familiares que vêm pelos anos, pelos séculos afora. E mesmo quem se junta vira família”, ressalta Fernanda Montenegro.

O episódio retrata um País na fase pós-vacina – em Amor e Sorte, a história já dava indícios disso quando Gilda escondeu de Lúcia que a vacinação contra o coronavírus já havia começado, para poder ficar mais tempo com a filha no isolamento. “Isso foi uma questão muito discutida com Andrucha, com Jorge (Furtado), que é: tinha de resolver esse período pós-vacina. Ao mesmo tempo que a gente está com a curva aumentando, do jeito que está, há uma segunda onda, provavelmente uma mutação desse vírus, porque as pessoas estão se reinfectando”, diz Fernanda Torres. “No Natal, fazer um especial onde não existe mais isso… então, a gente discutiu de ter um mundo pós-vacina, mas que também ainda não é inteiramente livre da máscara. A Lúcia, quando vai ao centro da cidade, usa máscara, há ainda uma ameaça.” 

E como estão as expectativas delas em relação à vacinação no Brasil? “Confesso que passei um ano administrando a ansiedade”, responde Fernanda Torres. “Quando vier, eu vou tomar. Se não vier, vou continuar vivendo assim. Estou controlando essa ansiedade, porque está durando mais do que o suportável.” Fernanda Montenegro diz ter esperança. “A gente tem que ter o que eu chamo de uma esperança ativa, porque há uma esperança passiva: ‘ah se Deus quiser’. Deus só vai querer se você se mexer e chegar lá. Não é só uma invocação. Digo que é esperança ativa. Temos de ter isso na consciência e nos posicionar. Não é possível, diante de tanta morte, de tanto horror. O País está descalibrado, sem cabeça, sem união, sem propósito de atendimento social, de atendimento humano, humanista. É uma coisa que nunca vi. Não conheço ninguém que não viva ansioso, há um perigo geral com esse vírus”, diz. “Se tem uma vacina, tem que ter uma coordenação em torno do fenômeno da salvação do ser humano.”

De volta a Gilda e Lúcia, elas não mereceriam ganhar uma série própria? Fernanda Torres conta que se chegou a falar sobre o assunto, mas que, com esse formato, há uma sensação de que as personagens entrariam numa “espécie de mecânica de seriado”. “Eu já fiz dois seriados, mamãe já fez seriados. Existe uma espécie de mecânica que talvez perca esse lado impressionista do Gilda e Lúcia, para a gente transformar numa coisa semanal, coisas acontecem. Aí a gente brinca que talvez seja um especial para acontecer em momentos festivos, em datas comemorativas: o Dia das Mães, a Páscoa, o carnaval.”

A conversa com as atrizes também passou por outro tema: as denúncias de assédio sexual e moral contra Marcius Melhem, ex-chefe de Humor da Globo, feitas por Dani Calabresa e outras mulheres, na emissora. “Acho que por um lado se demitiu alguém que estava criando um ambiente tóxico de trabalho. Fiquei até surpresa, porque não tenho essa experiência em nada do que eu fiz nos últimos 20 anos na Globo, não tive nenhuma experiência assim lá. Foi demitido, mas acho que o que as pessoas que estiveram envolvidas nisso tiveram necessidade foi de explicitar a razão, porque acho que é uma hora em que essas questões de gênero, de respeito ao outro estão precisando ser explicitadas, para que fique claro que nem toda cantada é um elogio. E nisso a imprensa é um braço importante nesse sentido”, diz Fernanda Torres que, assim como a mãe, sai em defesa de Monica Albuquerque e Jazette Guedes – que receberam as denúncias internamente na emissora –, por, segundo a atriz, contribuírem “para uma humanização dentro da empresa”. 

“Acho que a cada minuto se ganha, o movimento feminista ganha. Acho que, se não foi no ideal em torno do processo de reivindicação da verdade do acontecimento, ao menos caminhou. Caminhamos. A Dani tem todo o direito de se posicionar, contestar e exigir uma atitude clara de defesa dos direitos existenciais da mulher. Não foi ainda resolvido nesse caso, de uma forma ideal, mas a verdade é que o Marcius foi para a rua. Ficou pendurado esclarecer já agora, mas talvez a partir deste momento o próximo que acontecer já vai ser esclarecido dentro de uma realidade de reivindicação feminista”, opina Fernanda Montenegro. “Acho que o movimento ganhou, mas ganhou muito.” 

Veja trechos da entrevista com as atrizes: