A nova geração de defensoras do direito ao aborto está no TikTok

Mulheres da geração Z formam um grupo de ativistas pró-escolha mais informado, engajado e com novas estratégias de ação
Jessica Grose, do New York Times

Confronto: manifestantes contra e a favor do aborto do lado de fora de uma clínica de direitos reprodutivos na Carolina do Norte, nos Estados Unidos (28.11.2020). Uma nova geração de ativistas pelo direito ao aborto tem usado de forma frequente e eficiente o Tik Tok Foto: CLARK HODGIN/NYT

NOVA YORK. Em um vídeo no TikTok, filmando em agosto do lado de fora de um centro de saúde da mulher na cidade de Charlotte, na Carolina do Norte, nos EUA, o rap usado em uma propaganda de barbeador nos anos 1990, ecoa: “Homem pequeno, pequeno”. A câmera foca um homem branco de meia idade que usa óculos de sol e segura um pôster com a imagem de um feto e a palavra “aborto”. A legenda do vídeo diz:  “não se preocupem, o volume foi colocado no máximo para que ele pudesse ouvir.”

Este é um de uma série de vídeos de Alex Cueto, 19 anos, defensora do aborto legal e parte da organização Charlotte for Choice (Charlotte pela Escolha). Ela costuma postar vídeos de seus confrontos com manifestantes contrários ao aborto na conta @alexthefeminist para uma grande audiência no TikTok. O vídeo do “homem pequeno”, que foi filmado em frente a um centro de saúde feminina, tem mais de 4 milhões de visualizações.

Mais conhecido é o vídeo em que Cueto recita a letra do hit “Wap”, de Cardi B e Megan Thee Stallion, enquanto um opositor do aborto lê a Bíblia do lado de fora da clínica.

— Nós tratamos esses manifestantes como se eles fossem uma piada. Não damos a eles um sentido de moralidade superior.”

Cueto, que cresceu na Carolina do Sul e agora live em Charlotte, é uma entre as muitas ativistas pró-aborto da geração Z, que usa as redes sociais para estimular suas companheiras.

— Eu posto todos os dias sobre ser a favor do direito de escolha – diz Michaela Brooke, 19 anos, aluna da Universidade do Alabama e ativista de uma instituição sem fins lucrativos que organiza jovens em torno da saúde reprodutiva. Ela diz que posta informação educativa e também oportunidades de organização para as ativistas.

Muitas dessas ativistas cresceram em estados americanos onde existem restrições significativas ao aborto. Katie Greenstein, de 17 anos, que usa pronomes sem gênero e vive em no Missouri, diz que se envolveu com uma isntituição pró-escolha em seu estado natal depois que o Missouri criminalizou a interrupção da gravidez depois de oito semanas (essa legislação foi depois bloqueada por um juiz federal).

Mesmo assim, Katie diz que o aborto está fora de alcance por causa de várias barreiras no Missouri. Estas incluem um período de espera de 72 horas e a proibição do uso de serviços de saúde telefônicas a quem busca aconselhamento sobre medicamentos abortivos. “Isso me fez querer lutar”, diz Katie.

De acordo com uma pesquisa feita em agosto pela Associação Americana de Psicologia, 64% das mulheres da geração Z dizem que um mudança na legislação sobre aborto é uma fonte de estresse para elas. A confimação da juíza conservadora Amy Coney Barrett na Suprema Corte dos EUA fez muitas defensoras do aborto legal temerem que a legislação americana conhecida como Roe v. Wade esteja em risco.

Katie diz que acordou “com raiva e determinada” no dia seguinte à confirmação de Barrett. Seu estado tem pronta uma legislação que imediatamente baniria o aborto no caso de a lei Roe v. Wade seja anulada. “Há muito em jogo”, diz ela.

Desde que a pandemia começou, “temos visto um aumento do assédio e de tentativas de invasão de clínicas e de pessoas aparecendo para gritar e protestar sem máscaras”, diz Katherine Ragsdale, 62 anos, presidente e chefe executiva da Federação Nacional do Aborto nos EUA.

É aqui que as jovens ativistas da geração Z entram em cena, com suas táticas mais agressivas e em volume alto. Ativistas mais velhas já fizeram algo parecido, mas elas estão em número maior.

Existem evidências de que um percentual maior de americanas da geração Z apoia o direito ao aborto em compração com gerações anteriores, e as apoiadoras atuais têm convicções mais fortes sobre o tema, diz Natalie Jackson, diretora de pesquisa no Instituto de Pequisa Religião Pública, uma entidade sem fins lucrativos.

De  acordo com a mais recente pesquisa analisada por ela, de 2019, 59% das americanas entre 18 e 29 anos dizem que o aborto deveria ser legal em todos, ou em quase todos, os casos. Em 2014, esse percentual correspondia a 57%. “Os outros grupos etários não mudaram muito desde 2014”, diz Natalie.

Além disso, algumas ativistas hoje rejeitam a ideia de “seguro, legal e raro” que moldou as campanhas pelo direito ao aborto nos anos 1990. A geração Z realmente tem empurrado o tema dos direitos reprodutivos para uma discussão interseccional. Sua raça, gênero, sexualidade e idade são identidades que impactam o acesso aos cuidados e de saúde e direitos reprodutivos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.