Ações de diversidade podem levar a mudanças na Folha, diz pesquisador Wellington Geraldo Silva

Jornalista apresentou a tese ‘Folha de S.Paulo e a possibilidade de um jornalismo plural’ na UFRJ
Guilherme Botacini

A ombudsman da Folha, Flavia Lima, no evento de 99 anos do jornal – Keiny Andrade/Folhapress

Duas iniciativas recentes da Folha foram objeto de estudo do jornalista Wellington Geraldo Silva, 53, em sua pesquisa de mestrado: a criação da editoria de Diversidade e a presença de Flávia Lima no cargo de ombudsman —é a primeira mulher negra nessa função.

A dissertação de Silva, intitulada “Folha de S.Paulo e a possibilidade de um jornalismo plural”, foi apresentada e aprovada por unanimidade na última sexta (18) para obtenção do título de mestre em comunicação e cultura pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Tomadas pelo jornal em 2019, ambas as ações têm como missão ampliar a perspectiva crítica sobre diversidade na Redação e sugerir mudanças que sejam refletidas na produção diária.

O estudo do jornalista analisou os espaços de opinião e entrevistas, como a seção Entrevista da 2ª.

“São espaços nobres e quase sempre demarcadamente de pessoas brancas, em que o emissor tem a liberdade de expor seu pensamento e onde sua visibilidade está mais presente, com fotos e nomes expostos no jornal”, afirmou Silva durante a defesa.

Para a pesquisa, ele entrevistou o diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila, a ombudsman do jornal, Flávia Lima, a primeira editora de Diversidade, Paula Cesarino Costa, e a atual, Alexandra Moraes.

Silva também ouviu colunistas negros do jornal, como Thiago Amparo, e blogueiros negros, como Denise Mota, do blog Preta, preto, pretinhos.

Silva graduou-se em 1990 pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem pós-graduação em marketing e gestão pela UFRJ e hoje é consultor de comunicação empresarial em São Paulo. Entre 2012 e 2014, ele foi secretário de comunicação do ministro Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal.

A orientação do trabalho foi do escritor e professor emérito da Escola de Comunicação da UFRJ, Muniz Sodré. A banca recomendou que o texto fosse publicado.​

“Em geral, a mídia brasileira fala pouco de si e de seus problemas, principalmente de um tema incômodo como o racismo. Mas tive uma abertura grande na Folha”, diz Silva.

Foi a partir da conexão entre a análise crítica do presente e a presença e silenciamento do negro na imprensa desde o movimento abolicionista que Silva avaliou possíveis impactos dessas iniciativas.

“Jornalistas negros sempre foram colocados em lugares de pouca visibilidade e muito perigo na imprensa brasileira, como a reportagem de polícia”, afirmou, citando o caso de Tim Lopes, jornalista da TV Globo morto enquanto fazia reportagem sobre traficantes no Rio de Janeiro, em 2002.

Para Silva, ainda é cedo para avaliar impactos estruturais das ações, embora ele já enxergue mudanças no jornalismo praticado pela Redação, ainda que ela seja majoritariamente branca.

Exemplo disso, segundo o pesquisador, foi o destaque dado às cotas raciais e de gênero em candidaturas nas eleições deste ano e a cobertura do Dia da Consciência Negra.

Entre os próximos passos sugeridos pelo pesquisador para o aprofundamento das mudanças, estão a abertura de maior espaço para diversidade no processo de contratação e a rediscussão de questões como as cotas raciais –nos editoriais, o jornal defende as cotas sociais.

“Um jornal precisa ter vários olhares, não pode dar as costas a mais de 50% da população. Não vejo outra maneira de os jornais sobreviverem”, afirma.

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