Organize sua casa em 4 etapas e chegue a 2021 livre de tralhas

Especialistas dão dicas práticas para redenção de bagunceiros e acumuladores
Danae Stephan

Catarina Pignato

Organizar a casa para começar o ano novo com o pé direito já virou tradição. Com a pandemia e o isolamento, a necessidade de “destralhar” ambientes e tornar o lar mais amigável e prático ficou ainda mais premente.

“Essa organização periódica tem muita relação com a cultura de renovação, definição de metas e encerramento de ciclo”, diz a personal organizer Talita Melo, da Kiiro – Organiza e Simplifica, de São Paulo. “O calendário de folgas entre o Natal e o Ano-Novo também ajuda a reforçar essa cultura.”

Mas arrumar e organizar são coisas diferentes, de acordo com os especialistas. “Quando você arruma, o ambiente fica estético e funciona para você. Já a organização é mais estrutural, e serve para você e para todos que convivem na casa”, afirma Talita.

Como o feriado coincide com a chegada do verão, também é um bom momento para limpar peças que exigem lavagem anual ou semestral, como cortinas, lustres e tapetes, lembra a organizadora Nina Braz, de São Paulo.

Os métodos de organização variam, mas há uma regra comum: não tente fazer tudo de uma vez. A depender do tamanho da casa —e da bagunça—, pode ser necessária até uma semana.

Nina Braz sugere começar do fundo para a frente da casa. “No caminho, você vai levando as coisas que não têm um lugar certo. Se chegar à entrada sem encontrar um local adequado para guardar os itens acumulados, é preciso avaliar se eles são mesmo necessários”, diz.

Já as organizadoras Talita Melo e Melissa Rodrigues, de São Paulo, sugerem começar pelo ambiente que mais incomoda os moradores. “A sensação de recompensa ao terminar a arrumação do cômodo mais difícil dá ânimo para ir até o final”, afirma Talita. “Também é um jeito de pegar o ritmo, e os outros cômodos vão parecer bem mais fáceis”, diz Melissa.

Ainda assim, é preciso ir por partes. “Quando um profissional vai organizar um guarda-roupas, por exemplo, ele tira tudo, separa, cataloga e arruma. Mas, para quem vai fazer sozinho, recomendamos organizar uma gaveta por vez, depois o armário, e assim por diante”, diz Melissa.

Depois de decidir por onde começar, siga o roteiro sugerido pelas organizadoras:

1. Cada um na sua

Tire tudo do armário, gaveta ou prateleira e separe as peças por categoria. No guarda-roupas, junte calça com calça, regata com regata, camisa com camisa etc. Divida por estação e, por fim, por uso.

Na cozinha, tire todos os jogos de pratos, talheres, copos, taças, toalhas e jogos americanos, inclusive os que estão fora de uso. Separe por categoria, dividindo os de uso diário e os reservados para ocasiões especiais. É importante deixar tudo à vista, para ter uma ideia do volume.

Aproveite esse momento para limpar bem tanto a parte interna dos móveis como os cantos do ambiente, lustres, tapetes e cortinas.

2. Hora do desapego

Com todos os itens à sua frente, é hora de desapegar. “Geralmente tiramos cerca de dez sacos de 200 litros das casas que organizamos. Em média, isso representa cerca de 20% do volume total. Esse é um bom número para se ter em mente”, diz Talita.

Pegue três caixas de cores diferentes, sacos ou cestos (vale usar etiquetas coloridas), e nomeie com verbos como “resolver”, “arrumar” e “doar”. Evite criar muitas categorias, para facilitar a tomada de decisões. “Na Kiiro, definimos os verbos ‘vender’, ‘resolver’ e ‘doar’. Não usamos mais o verbo ‘ficar’, porque percebemos que as pessoas tendem a manter mais itens quando usam essa categoria”, afirma Talita.

Na categoria “resolver” entram tanto peças que irão para algum parente ou amigo quanto itens que precisam de conserto ou manutenção.

Para as categorias “vender” e “doar”, comece a sessão de desapego por itens que não tenham muito valor afetivo. “Assim, quando chegar nos objetos pelos quais você tem apego, já vai estar no ritmo, o que facilita o processo”, diz Nina.

Na dúvida do que ainda vai ou não usar, vale o truque de guardar em uma caixa ou mala de viagem. Anote a data em uma etiqueta e se programe para dar uma olhada depois de um ano. “Se você nem olhou para esse item no ano todo que passou, é pouco provável que vá usá-lo novamente”, diz Melissa. “Isso vale para tudo, mas principalmente para roupas e sapatos.”

3. Tudo no lugar

É preciso encontrar um lugar para cada item, de acordo com seu uso. Se um objeto não tem um local adequado, deve ir para uma das caixas de triagem. E nada de criar uma caixa genérica para deixar os cacarecos. “Tralha não se organiza”, diz Melissa.

Roupas do dia a dia e de trabalho devem ficar mais acessíveis, e todas agrupadas de acordo com sua subcategoria: regatas com regatas, calças com calças etc. Roupas e sapatos de festa podem ir para o maleiro ou box da cama.

Já na cozinha, lavanderia ou banheiro, separe os itens por uso. Coloque as coisas do café da manhã juntas, em uma parte do armário ou em uma bandeja. Talita sugere dividir mentalmente os espaços da cozinha em áreas de “servir”, “cozinhar” e “embalar”.

Utensílios, louças e eletrodomésticos menos utilizados podem ir para o alto dos armários. Jogos de prato, copos e talheres restritos a festas e ocasiões especiais podem ir para caixas, se não houver espaço suficiente nos armários. Coloque etiquetas nas caixas, para facilitar sua localização.

Na lavanderia, acondicione os produtos de uso frequente, como álcool, água sanitária e limpador multiúso, em um balde próprio para isso. Os produtos de limpeza pesada podem ficar mais ao fundo da lavanderia ou despensa. Sabão em pó e amaciante de roupas devem ficar em um lugar fixo na lavanderia, de preferência em um cesto.

Aproveite para conferir datas de vencimento e necessidade dos produtos menos usados. O mesmo vale para banheiros, nécessaire de maquiagens e caixa de remédios.

Na hora de arrumar os brinquedos das crianças, é fundamental que elas façam parte do processo, para ajudar na triagem e também na manutenção da arrumação do quarto. Separe os brinquedos por tamanho e por uso: bicicletas e patinetes devem ficar fora do quarto, em uma área externa. Jogos, quebra-cabeças e brinquedos que exijam acompanhamento de um adulto podem ficar em locais menos acessíveis.

4. Doar e vender

Com as caixas separadas, é hora de decidir o que irá para doação ou ser vendido.

Hoje é muito fácil encontrar grupos de troca ou venda nas redes sociais e no WhatsApp, o que estimula a abrir mão de peças que normalmente não doaríamos. “Quando começamos a propor a venda, percebemos um aumento considerável no volume de desapego dos clientes”, diz Talita Melo, que inclui o serviço de venda em seus pacotes.

Há ainda aplicativos específicos para isso, como o Popsy, que oferece da criação do anúncio à entrega do produto. Gratuito, atende atualmente a 21 cidades brasileiras.

Esse mercado vem ganhando força com a onda do consumo consciente, e deve crescer 69% até 2021, segundo relatório da ThredUP, uma das maiores lojas online de roupas usadas do mundo, e da GlobalData, de análise de varejo.

OS CAMPEÕES DA BAGUNÇA

Coleções e bibelôs
Os itens mais complicados de organizar são aqueles sem função, como lembrancinhas, bibelôs e coleções de bonecos ou miniaturas, de acordo com Nina Braz. Ela sugere usar uma bandeja para reunir os objetos e facilitar a limpeza. Estantes ou nichos protegidos por vidro também são boas opções

Potes plásticos
Sempre que for comprar potes tipo Tupperware, dê preferência a peças de mesmo formato, que possam ser encaixadas umas nas outras. ”As pessoas compram potes de formatos diferentes, ganham de brinde e dificilmente se desfazem dos que estão feios, tortos, manchados…”, afirma Nina. Descarte os recipientes tortos, manchados e sem tampa e encaixe um dentro do outro, da melhor forma possível. Coloque as tampas em uma caixa separada, da maior para a menor

Livros e revistas
O ideal é organizar em estantes fechadas, para evitar o acúmulo de pó. Na falta delas, é preciso tirar o pó a cada dois meses e folhear cada volume pelo menos uma vez ao ano. Se for armazenar em caixas, prefira as de plástico e coloque junto um antimofo

Papéis
Evite o acúmulo de contas, notas fiscais e boletos; opte por recebê-los por email sempre que possível. Guarde apenas notas fiscais de produtos que estejam dentro da garantia e manuais importantes


Pecinhas de brinquedo
Reúna as peças de cada jogo, e separe os blocos de montar por tamanho ou kit. Coloque etiqueta nos cestos ou caixas usados para reunir os brinquedos por tema ou idade, caso tenha mais de uma criança

EMBALAGENS SALVA-ESPAÇO

Sacos a vácuo
Eles diminuem o volume de edredons, travesseiros, cobertores e roupas de inverno. Para que as peças brancas não fiquem amareladas, embrulhe-as em um papel celofane azul

Colmeias
Queridinhas das organizadoras, são ideais para guardar peças pequenas em gavetas ou prateleiras de closet. Calcinhas, meias, cuecas, sutiãs e até roupas de ginástica ficam mais organizadas e acessíveis

Cestos
Podem organizar desde produtos de higiene no banheiro até alimentos abertos na despensa. Para roupas e produtos volumosos, dê preferência aos modelos quadrados, que têm melhor aproveitamento de espaço

Comida processada era a nossa linguagem do amor

Para me sentir perto de meu pai, que não conheci bem, eu devoro a comida que nos unia
C Pam Zhang, The New York Times – Life/Style

Brian Rea/The New York Times.

É outono de novo [no hemisfério norte], o oitavo desde que meu pai morreu, e estou louca para comer nuggets de frango. Quando a pandemia começou, eu só queria alimentos que parecessem mais virtuosos. Era cliente assídua de pedidos para viagem de restaurantes locais de São Francisco, todos sob risco econômico: sopa de macarrão com carne, feijões fritos de uma taquería, costeleta de porco no amado restaurante de Divisadero.

Cada ação vinha carregada com a ideia de fazer o bem. Comprei pilhas de livros em livrarias independentes, pesquisei luvas de jardinagem, fiz doações, baixei um aplicativo de treino, comecei a ler Guerra e Paz. Aí veio a depressão, a fadiga de Zoom, um grande marco da vida passando sem a chance de celebrá-lo, as mortes de figuras públicas, as mortes de trabalhadores da linha de frente, a morte do paide um amigo, as mortes de migrantes detidos na fronteira, a morte do pai de uma amiga, a morte do pai de outro amigo.

Seis meses depois, eu estava viajando 1.300 quilômetros na tentativa de escapar da sufocante sensação de ruína, dirigindo através das fronteiras estaduais, cada parada como um exercício de ansiedade por causa do ar compartilhado e das inconsistentes políticas de uso de máscara, e tudo que eu queria era a facilidade de um drive-thru para comer nugget de frango.

Meu paiteria entendido. Não me lembro dele jamais ter dito “eu te amo”, que não é uma frase comum em mandarim, sua língua preferida. Sempre tivemos um pequeno problema de comunicação. Mas sua linguagem de amor era o prazer simples da comida processada.

Tenho uma foto de nós dois, tirada quando eu tinha dois anos, no reluzente McDonald’s de Pequim. A franquia tinha acabado de chegar à China e na época seu “M” era um sinal de luxo, um marcador da classe média alta cosmopolita em que meus jovens pais esperavam entrar. Na foto, estou dando uma batata frita para o meu pai. Por toda parte, a luz incide, tão dourada quanto os arcos.

Meu paiera o divertido do casal, o indulgente. Ele me apresentou as batatas fritas, os refrigerantes, o sorvete direto do pote. Depois que emigramos para os Estados Unidos, onde as franquias do McDonald’s eram onipresentes e não luxuosas, certa vez ele dirigiu por uma hora no fim de semana só para nos levar, triunfante, a um buffet genérico tipo coma-tudo-que-você-quiser, com caranguejos de verdade em bandejas de prata riscadas.

Já tomei casquinha atrás de casquinha até vomitar. Meu pai nunca me repreendeu por excesso de indulgência, diferente da minha mãe. Ele dava risada. Na época, não parecia importar que seu inglês não fosse fluente, nem que meu mandarim já estivesse escapando.

Nossa linguagem de junk food evoluiu para uma linguagem de segredos. Um McLanche Feliz secreto na nossa viagem para pescar sozinhos. Dois litros de Coca-Cola juntos antes de minha mãe voltar para casa. Eu me sentia honrada, mas aí comecei a entender que meu paiguardava segredos também de mim. Na terceira série, voltei para casa recém-evangelizada sobre os perigos dos cigarros e joguei fora os maços de meu pai. Ele se enfureceu e prometeu parar, mas continuei sentindo o cheiro de fumaça em suas roupas e no carro.

Meu pai não era virtuoso. Era um homem de vícios e prazeres rápidos. Alimentos processados, nicotina, filmes bobos de ficção científica, jogos de azar, adultério. Doses de dopamina, açúcar correndo no sangue. Eu não perguntava por que ele recorria a essas coisas – não era assim que nossa família funcionava e, de todo jeito, o idioma continuava sendo uma barreira. Em vez disso, comecei a me distanciar.

Na época em que me formei na minha universidade da Ivy League, diplomada no saber e nas suas armadilhas, conheci a pessoa que queria ser. Essa pessoa não se refletia no meu paide inglês fragmentado, meu pai viciado em jogos de azar, meu pai divorciado e operário.

Ele se tornara um artefato vergonhoso para mim, algo que eu queria deixar para trás. Enquanto me concentrava na minha nova vida, com a insensibilidade impessoal da juventude, fui ficando cada vez mais distante. Meu paimorreu dois anos depois da minha formatura. Ele tinha 49 anos. Eu, 22.

Sua morte veio como uma flechada do céu, marcando a tragédia central da minha vida. Chorei sua morte e depois chorei o fato de nunca o ter conhecido totalmente. Havia perguntas que eu nunca tinha pensado em perguntar, nuances que não fora capaz de articular, nem na minha língua, nem na dele. Posso ver agora que a morte de meu pai foi uma tragédia, mas não uma surpresa.

Se ele não tivesse morrido em 2012 de uma provável insuficiência cardíaca, teria morrido em outro ano de diabetes, ou colesterol, ou covid-19. Eu sempre o culpava pelo corpo enfraquecido que o matou – o produto, pensava eu, de sua virtude enfraquecida. Havia uma espécie de consolo na linguagem rígida: “bom” ou “ruim”.

Mas, quanto mais velha fico, mais me vejo ceder. Aos trinta anos, vivo com menos perfeição do que imaginava que viveria quando tinha dez. O mundo é difícil e implacável, para uns muito mais que para outros. E assim, a cada outono, acabo pensando: agora tenho a idade que meu paitinha quando cuidava de sua filha recém-nascida. Agora estou com a idade que ele tinha quando partiu com sua esposa para um país cuja língua ele não falava. Agora tenho a idade que ele tinha quando foi demitido e aceitou um emprego de salário mínimo. Agora estou com a idade que ele tinha quando, triste e deprimido, encontrou seu primeiro site de jogos de azar on-line, tão irresistível para ele quanto os jogos idiotas do meu celular são para mim.

Amigos meus, quando adultos, passaram a conhecer seus pais como pessoas com quem trocam intimidades e verdades. Não posso ter isso. As únicas intimidades que tenho são os anos da minha vida que se sobrepõem aos anos da vidado meu pai e, a cada intersecção, penso: a idade que tenho é muito pouca para as responsabilidades que ele carregou.

Como posso ficar ressentida com meu pai por ser produto de um mundo tão incrivelmente injusto, que sistematicamente sufoca algumas pessoas mais do que outras? Posso imaginar, também, a vertigem que meu pai deve ter sentido ao se mudar para os Estados Unidos nos anos 1990, quando descobriu que o McDonald’s agora era só uma coisa corriqueira.

Mais barato que peixe, mais acessível que frutas frescas, mais simples que um telefonema de longa distância para Pequim, no qual ele se sentia obrigado a esconder suas dificuldades, sua solidão e seu isolamento. Posso imaginar o bálsamo que era a carne processada sobrenaturalmente lisa para uma língua que a tradução deixara desajeitada.

Posso imaginar como o açúcar podia afagar um ego machucado pela rejeição, pelo racismo e pela a necessidade de perguntar se o lugar aceitava vale-refeição. Posso imaginar que, diante de uma linguagem difícil, era mesmo mais fácil entregar um nugget dourado à sua filha – gesto que vinha como uma promessa de abundância e prazer, por mais curta que fosse. O outono é uma época em que a pele do mundo parece mais fina, quem sabe até permeável.

É a época em que meu painasceu e morreu. Neste outono, estamos há meses sob uma pandemia que muitas autoridades públicas, entre elas o atual presidente americano, chamaram de “vírus chinês”, uma caracterização perigosa que brilha de acusação e xenofobia. Provo um gostinho da incerteza que meu pai, com seu sotaque forte e visto vencido, conhecia muito bem.

Nenhum número de anos vividos neste país, nenhum diploma, nenhuma boa ação pode me proteger da ansiedade de ter um rosto chinês neste ano que viu um aumento de crimes de ódio contra ásio-americanos. Sob tais condições, a demanda pela virtude perfeita parece impossível, até cruel. Então maratono séries ruins quando não consigo lidar com livros bons. Fumo um cigarro por semana. E, de vez em quando, devoro os malditos nuggets de frango.

Há vícios que devemos nos permitir, mesmo que teoricamente encurtem nossas vidas em alguns dias, algumas semanas, alguns anos – porque primeiro temos que superar este dia, esta semana, este ano. É errado comparar meu paia um pedaço de comida frita e processada, àquela criação profana que é como uma galinha traduzida inúmeras vezes até alcançar uma nova forma de existência? Porque penso nele sempre que mordo um nugget.

Se isso soa esquisito, tudo bem. É uma representação mais fiel do que aquelas metáforas de sempre que falam de pais como portos seguros, rochas ou professores. Nada disso soa verdadeiro quando se trata de meu pai. Nugget de frango, então. Afinal, algumas religiões pensam que Jesus Cristo está num pedaço de pão.

Da próxima vez que sentir vontade e o ar parecer particularmente rarefeito, vou comer mais um nugget – ou dois, ou quatro. Sentirei a torrente de aditivos, o golpe de prazer e – embora eu saiba que não posso compreender um morto em todas as suas contradições, embora admita que imaginar as motivações de meu paié não as conhecer – naquele momento, numa comunhão através da crosta dourada, vou entender meu pai completamente. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Pós-pandemia: como será o futuro dos escritórios?

Empresas buscam projetos para se adaptar à nova realidade; mesas serão compartilhadas e salas de reuniões, abertas
Texto: Renée Pereira

As mesas personalizadas, com porta-retrato, bonecos e plantinhas, estão com os dias contados. No escritório do futuro, no pós-pandemianão há espaço para acumulação nem para objetos amontoados. Os mobiliários, separados por acrílicos, serão compartilhados e terão espaço apenas para o computador, na maioria laptops. Objetos pessoais, como bolsas e até material de escritório usado no dia a dia, ficarão armazenados em lockers (armários com cadeado), instalados em espaços distantes da área de trabalho.

As salas de reuniões terão sua capacidade reduzida e, em alguns casos, serão abertas para permitir maior ventilação no ambiente. Até mesmo janelas, inexistentes em alguns prédios, podem voltar a ter seu espaço. A ideia é criar alternativas para melhorar a circulação do ar e evitar que os vírus se propaguem no escritório.

ACESSO

COMO É: Muitas empresas converteram seus controles de acesso para identificação por digital.ACESSO

COMO SERÁ: Dispositivos de controle de acesso e de presença deverão ser substituídos por QR Code ou leitor facial ou de íris.


PORTAS

COMO É: Algumas empresa ainda têm controle manual para abertura das portas de entrada.

PORTAS

COMO SERÁ: Os acessos serão automatizados, com controles de temperatura e equipamentos de higiene para prevenção.


ÁREA DE TRABALHO

COMO É: O adensamento dos escritórios é grande, com mesas uma ao lado da outra e individualizadas.

ÁREA DE TRABALHO

COMO SERÁ: Mesas deverão obedecer distanciamento mínimo de 1,5 metro e receber proteção extra com  divisores de acrílico ou outros materiais. Além disso, devem ser compartilhadas.


SALAS DE REUNIÕES

COMO É: As salas foram feitas para receber várias pessoas ao mesmo tempo, umas ao lado das outras.

SALAS DE REUNIÕES

COMO SERÁ: Na mesma área, será permitido um menor número de pessoas, garantindo distanciamento de 1,5 metros a 2 metros entre os ocupantes.

REUNIÕES

Reuniões presenciais serão menos frequentes; reuniões virtuais serão incentivadas mesmo que os usuários estejam dentro do mesmo escritório.


OBJETOS PESSOAIS

COMO É: Mesas têm gaveteiros para guardar materiais de escritórios e objetos pessoais do funcionário.

OBJETOS PESSOAIS

COMO SERÁ: Empresas devem apostar em armários instalados em áreas mais afastadas para armazenar objetos pessoais vindos da rua e materiais de escritório que cada funcionário vai usar durante o dia.


NOVOS AMBIENTES

AMBIENTES AREJADOS: Novos espaços para reuniões serão criados no interior dos escritórios, sem paredes. Ambientes terão janelas ou varandas para permitir a ventilação natural.Studio BR Arquitetura

NOVOS AMBIENTES

REFEITÓRIOS: Áreas para refeições serão mais amplas, com menos assentos e preferencialmente com ventilação natural.

FONTE: STUDIO BR ARQUITETURA

Essas são algumas das propostas que vêm sendo feitas por arquitetos às empresas que querem mudar o layout dos escritórios ao fim do isolamento social. “Temos verificado uma demanda grande das companhias que buscam soluções para voltar ao trabalho nesse cenário desafiador”, afirma Douglas Enoki, gerente de arquitetura da IT’S Informov.

Ele conta que a preocupação dos clientes é reduzir o adensamento dos escritórios. E isso só é possível com espaçamento entre as mesas e maior rotatividade dos funcionários. Com o bom desempenho dos trabalhadores em home office durante a crise, as empresas entenderam que devem manter o trabalho remoto, pelo menos, por alguns dias da semana. Ou seja, o revezamento de trabalhadores nos escritórios será maior e exigirá menos mesas nos espaços.

Enoki diz que demanda para novos layouts cresceu nas últimas semanas.FOTO: MARCELO DONATELLI

“Experimentamos uma nova forma de trabalhar que está dando certo e vamos continuar com o desenvolvimento dessa cultura”, diz Antonio Carlos Duarte Sepúlveda, presidente da Santos Brasil, empresa que administra um dos maiores terminais de contêineres do País. A companhia contratou uma arquiteta para fazer mudanças no escritório, em São Paulo. “Estamos estudando um novo layout que, em função do home office, contemplará o compartilhamento de estações de trabalho, além de mais salas de reunião com equipamentos para videoconferência.”

Esse tem sido um pedido recorrente. A sócia do Studio BR Arquitetura, Bruna de Lucca, conta que está fazendo um projeto, neste momento, em que vai reduzir de 130 para 65 o número de mesas instaladas num escritório. “A empresa quer que, além do espaçamento, coloquemos divisórias de acrílico para separar as mesas e, assim, proteger os funcionários.” A área de café será ampliada de 70 metros quadrados (m²) para 100 m², e as salas de reuniões serão abertas.

SALAS DE REUNIÕES E JANELAS NO PÓS-COVID-19

A arquiteta Liana Tessler Szyflinger, do escritório Liana Tessler Arquitetura e Interiores, diz que as salas de reuniões têm sido uma grande preocupação das empresas no retorno pós-Covid-19. Em seus projetos, ela tem buscado criar salas com mesas em “U”, que permitem distância de 2 metros entre as pessoas. “Muitos escritórios estão mudando. Alguns, 100% do layout; outros, uma parte menor, pois o futuro ainda é muito incerto.”

Para a arquiteta Thaisa Bohrer, o escritório do futuro será mais pé no chão, com mais janelas, aberturas e ventilação. Na avaliação dela, o ambiente de trabalho no pós-pandemia será mais aconchegante e mais agradável. Haverá também mais espaços de descompressão para as pessoas se encontrarem quando não estiverem em home office. “Teremos um rompimento de tudo aquilo que vinha sendo adotado até agora”, diz a profissional. “Vamos eventualmente para o escritório e não teremos mais um porta-lápis e bonequinhos nas mesas, que serão multifuncionais e de multiusuários.”

Thaisa diz que haverá um rompimento de tudo que vinha sendo adotado até agora.FOTO: DIVULGAÇÃO

É o que a XP Investimentos deve fazer no pós-pandemia. A ideia é transformar os escritórios atuais em escritórios-conceito, que servirão de apoio para demandas específicas de treinamento, dinâmicas presenciais, recepção de clientes e parceiros. “Vamos valorizar ambientes mais rotativos, mais comunitários”, diz o sócio e responsável pela área de Gente & Gestão da XP, Guilherme Sant’Anna. A empresa decidiu estender o home office até dezembro, mas mesmo depois muitos funcionários continuarão no trabalho remoto.

O arquiteto Roberto Loeb acredita que, no pós-pandemia, os encontros presenciais em escritórios serão em ocasiões específicas, como definir projetos, metas de trabalho ou treinamento. Para ele, os escritórios serão menores, com forte organização de espaços sociais e culturais para receber os funcionários nesses momentos. “Serão locais para o encontro de reforço dos laços entre colaboradores e diretores. A distância física será um processo a ser desenvolvido através de treinamento e orientações para que o trabalho seja eficiente e criativo.”


Tecnologia e maior higienização farão a diferença nos escritórios do futuro

Os escritórios do pós-pandemia terão muita tecnologia para evitar toques. Desde a porta de chegada até os banheiros, a ideia é criar sistemas de acionamento automático que evitem que os trabalhadores toquem nas peças. No controle de acesso dos funcionários, as empresas devem passar a adotar o QR Code (código de barras bidimensional) ou leitor facial ou de íris.

Nos banheiros, alguns projetos já preveem acionamento pelo pé para válvulas de descarga e automático para torneiras, saboneteiras e secadores de mãos. “Também há o acionamento por sensores de iluminação das salas para evitar o contato com os interruptores”, diz a arquiteta Liana Tessler Szyflinger.

Toda essa tecnologia terá de vir acompanhada de um novo protocolo em relação à higienização das áreas comuns. “A limpeza comum e periódica será substituída por rotinas diárias de higienização de ambientes e superfícies com produtos especiais, além de todos os materiais que adentrarem ao escritório”, destaca a arquiteta Bruna de Lucca.

Para Bruna, limpeza comum terá de ser substituída por rotinas diárias de higienização.FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Por isso, os projetos de novos layouts preveem bancadas externas para lavar as mãos, espaços para higienização dos calçados e totens com álcool gel, máscaras e luvas. Tudo isso na recepção das empresas, antes de entrar nos escritórios. “Após esse momento, muitas coisas terão de mudar. Além das rotinas de limpeza e mudança nos espaços, faremos a medição de temperatura para dar mais segurança aos funcionários que estarão no escritório”, diz Gabriela Aguiar, gerente geral de Operações da Plug and Play Brasil, plataforma de inovação que vem fazendo mudanças no layout da empresa. Segundo ela, a expectativa é reduzir em 50% a ocupação do escritório e salas de reunião.

“A dinâmica vai mudar, os espaços serão transformados e haverá redução das áreas de trabalho”Renato Dal Pian, arquiteto

Outro ponto que deve merecer atenção é o sistema de higienização de ar condicionado. “A cada dois meses, é preciso fazer a limpeza dos aparelhos, mas hoje muitas empresas não cumprem essa determinação”, diz Bruna. No pós-Covid-19, esse tipo de postura terá de mudar, para não expor os funcionários a riscos de contaminação. “A dinâmica vai mudar, os espaços serão transformados e haverá redução das áreas de trabalho”, diz o arquiteto  Renato Dal Pian, do escritório Dal Pian.


‘Vamos abrir janelas no prédio para melhorar a circulação do ar’

A Associação Paulista de Supermercados (Apas) estava em plena reforma de seu escritório quando a crise do coronavírus chegou ao País. Para liberar o prédio, localizado na Lapa, na capital paulista, os 120 funcionários foram para um espaço de coworking e, depois, para o home office, com o início do isolamento social. O projeto, que já previa uma série de mudanças, teve de passar por novos adaptações, diz o superintendente da Apas, Carlos Correa.

Sede da Apas, em São Paulo, passa por reformas para se adaptar à nova realidade.FOTO: DIVULGAÇÃO

Segundo ele, uma das mudanças será a abertura de janelas no prédio para melhor circulação do ar. “Nosso edifício é todo em vidro e não tem aberturas. Mas queremos ter essa opção para que, em alguns momentos, possamos abrir e deixar a brisa entrar.” Ele afirma que o imóvel tem uma área externa, que receberá melhorias para ser usada durante as refeições.

Na associação, o home office continuará no pós-isolamento social em alguns dias das semana. Além disso,  outras medidas para reduzir a aglomeração de pessoas serão adotadas. Haverá flexibilização dos horários de entrada e saída e escalonamento durante as refeições. Na volta do pós-pandemia, o escritório da associação não terá computadores desktop, apenas laptops. O sistema telefônico foi substituído pela tecnologia voIP. “Assim, eliminamos o aparelho fixo e podemos atender as ligações pelo celular ou pelo computador”, diz Correa. “Aprendemos muito nesses últimos 45 dias e perdemos a relação com o espaço físico.”


EXPEDIENTE

 Editor executivo multimídia: Fabio Sales / Editora de infografia multimídia: Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia: Adriano Araujo, Carlos Marin, Glauco Lara e William Mariotto / Designer multimídia: Danilo Freire / Editor de Economia: Alexandre Calais / Reportagem: Renée Pereira

Per Florian Appelgren for Glamour Germany with Laura Schuller

Photographer: Per Florian Appelgren. Fashion Stylist: Natalia Witschke. Hair & Makeup: Julia Ziegler. Retouch: Elena Misjuk. Model: Laura Schuller.

Anastasia Fursova for L’Officiel Ukraine with Erica Amiri

Photographer: Anastasia Fursova. Fashion Stylist: Julia Terentyeva. Hair Stylist: Natasha Eremina. Makeup Artist: Angelica Baklaga. Model: Erica Amiri at NAGORNY Model Management.

JACQUEMUS: That Show in the Field! feat. Lena Situations! By Loic Prigent

As férias chegaram e você ainda não sabe como aproveitá-las? Vamos naquele campo de trigo para o show do Jacquemus! Vamos respirar por alguns minutos! Natacha Morice entrevista as modelos um minuto antes de elas descerem pela passarela! Simon Porte Jacquemus dedica tempo para quebrar as inspirações da coleção. Como isso foi desenvolvido durante medidas severas de bloqueio, as roupas parecem caseiras de muitas maneiras diferentes. Há também uma ótima linha de casamento. Visitamos a Casa dos Jacquemus, os ateliers!
Espero que isso coloque um sorriso em seu rosto e que você tenha as mais tranquilas celebrações de fim de ano! Fique seguro!

Editing: `Konstantin Maslakov
Hosted and produced by Natacha Morice for DERALF (Divertissant Et Révoltant A La Fois)
Filmed with Julien Da Costa
Post : Sellia Nemassoa
Contact : deralfproduction@gmail.com
Music : Audionetwork!

Givenchy | Haute Couture Fall Winter 2018/2019 | Full Show

Givenchy | Haute Couture Fall Winter 2018/2019 by Clare Waight Keller | Full Fashion Show in High Definition. (Widescreen – Exclusive Video/Multi Camera – Detailed/1080p – Paris/France)

Elenco de ‘A Voz Suprema do Blues’ relembra clima das gravações do poderoso filme

A história de Ma Rainey’s Black Bottom, August Wilson sobre o orgulho negro e o blues da Chicago de 1927, é tão incendiária hoje quanto no dia em que foi escrita
Reggie Ugwu THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

Gravação. Viola Davis e Chadwick Boseman em ação, sob o comando do diretor George C. Wolf Foto: DAVID LEE/NETFLIX

Uma nação dilacerada pela violência racial, uma indústria com histórico de exploração da cultura negra, executivos brancos querendo se passar por aliados e artistas negros no centro de tudo, lutando com um sistema que os cumprimentava com uma mão e limpava seus bolsos com a outra.

A história de Ma Rainey’s Black Bottom, a aclamada peça de 1982 de August Wilson sobre o orgulho negro, o poder dos brancos e o blues da Chicago de 1927, é tão incendiária hoje quanto no dia em que foi escrita. Uma nova adaptação para o cinema na Netflix (A Voz Suprema do Blues) revive a narrativa histórica de Wilson num tempo contemporâneo em que muito mudou – e muito pouco mudou.

Segunda obra das dez peças de seu Ciclo do Século Americano, no qual narra a experiência negra em cada década do século 20, Rainey ganhou três Tonys por sua edição original na Broadway. A adaptação para o cinema já é candidata a prêmios para o ano que vem, graças a uma atuação marcante de Viola Davis e uma aparição poderosa de Chadwick Boseman, em seu último papel no cinema antes de morrer de câncer, em agosto.

Davis interpreta Ma, uma artista indomável baseada na vida real da “Mãe do Blues”, cujo estrelato sem precedentes a levou dos shows nas tendas de Barnesville, Geórgia, a uma sessão de gravação em Chicago. Os homens brancos que supervisionam a sessão, com cifrões dançando nas cabeças, temem e respeitam Ma, assim como todas as outras pessoas de sua órbita gravitacional, entre elas sua namorada, Dussie Mae (Taylour Paige) e o experiente quarteto de músicos de apoio: Levee (Boseman), Cutler (Colman Domingo), Toledo (Glynn Turman) e Slow Drag (Michael Potts). Mas, quando as ambições de carreira de Levee o colocam em confronto com o grupo, sua frágil infraestrutura ameaça implodir.

George C. Wolfe, vencedor do Tony (Angels in America), dirigiu o filme a partir de um roteiro adaptado por Ruben Santiago-Hudson. Numa recente mesa-redonda por chamada de vídeo, Wolfe, Davis, Domingo, Turman e Potts discutiram o trabalho com Boseman, o poderoso legado de Rainey e a afirmação de seu valor num mundo construído sobre sua desvalorização. Estes são alguns trechos editados (e sem spoilers) de nossa conversa.

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Última atuação. Chadwick Boseman morreu em agosto Foto: NETFLIX

O filme é dedicado a Chadwick Boseman, que tem uma atuação inesquecível como Levee. Quais são suas memórias de trabalhar com ele? O que ele trouxe para o filme que vocês viram como seus colaboradores e que nós, como espectadores, talvez não consigamos ver?

George C. Wolfe: Eu me lembro de uma vez, quando a banda estava só esperando no ensaio, ele começou a se lançar a um de seus monólogos finais. Tudo estava muito casual. Aí, num certo momento, não era mais casual – foi um momento totalmente engajado, cheio de energia, intensidade e verdade. Só me lembro de ter pensado: “Oh, é agora que vamos embarcar?”. E ele embarcou. Estávamos todos metade personagem e metade quem éramos, e então, naquele momento, a metade personagem assumiu o controle. E foi um negócio glorioso.

Glynn Turman: Eu adorava o jeito como ele tinha seu trompete sempre por perto. Ele estava sempre fazendo alguma coisa com o instrumento, se familiarizando com ele, descobrindo a maneira como um músico e seu instrumento se tornam uma coisa só. Sempre que ele o pegava, estava na posição certa. Sempre que o deixava em algum lugar, estava na posição certa. Sempre que o colocava na boca, estava na posição certa. Ele se tornou um músico. Foi maravilhoso testemunhar isso. Todos nós meio que pegamos essa deixa para não ficarmos para trás, é uma coisa que os atores sempre fazem.

Colman Domingo: É verdade.

Wolfe: Quem? Nós aqui? Fiquei confuso (risos). 

Eu fico me perguntando, quando vocês olham para a atuação dele agora ou quando vocês assistem ao filme, ela é diferente para algum de vocês, por causa do falecimento? O significado dessa atuação mudou para vocês, de alguma maneira?

Domingo: Com certeza. Eu assisti outra noite e ouvi a linguagem de Chad de um jeito diferente. Você vê sua força e seu humor. Fiquei com lágrimas nos olhos desde o começo, por saber o que sabemos agora. E sabendo que estávamos todos bem saudáveis e estávamos fazendo um trabalho incrível, dando um passo à frente e enfrentando a linguagem de August. Este cara estava enfrentando uma outra luta enorme em cima de tudo isso. Não sei como ele conseguiu. Fiquei pensando comigo mesmo por uns bons 15 minutos depois de assistir ao filme e chorei um pouco, principalmente quando vi a dedicatória. Aí me bateu de verdade que ele não está mais conosco. Eu sabia que ele não estava aqui, mas ver a dedicatória escrita na tela meio que acabou comigo.

Viola Davis: Tinha alguma coisa transcendente na atuação do Chad – e precisava ter mesmo. É um homem que está furioso com Deus, que perdeu até mesmo sua fé. Então (Boseman) tem que ir até o limite da esperança, da morte e da vida para fazer esse personagem funcionar. Claro, você olha para trás e vê que é o lugar onde ele próprio estava. É o que sempre digo: um carpinteiro, ou qualquer outra pessoa que trabalhe, essas pessoas precisam de certas ferramentas para criar. Nossa ferramenta somos nós. Temos que usar a nós mesmos. Não há como juntar tudo o que você está passando e deixar no quarto do hotel. Você tem que trazer isso com você e precisa de permissão para fazer isso. E ele fez isso, fez mesmo.

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Ma Rainey. Viola Davis no papel da cantora indomável Foto: NETFLIX

George e Viola, ‘Ma Rainey’s Black Bottom’ é a única peça do ‘Ciclo do Século Americano’ de August Wilson que é inspirada numa figura pública da vida real. Por que você acha que a história dela foi propícia para o teatro?

Wolfe: Acho que uma das razões pelas quais August se sentiu atraído por ela é que ela vivia fora das regras. E quando alguém vive fora das regras, fica muito claro quais são as regras. Eu amo que ela sempre luta a luta, sem pensar nas consequências. E luta a luta porque é o que deve fazer. Ela me lembra… minha avó era assim. Se você fosse uma mulher negra e ficasse esperando que alguém reconhecesse seu poder, isso nunca iria acontecer. Então você tinha que reivindicar seu poder. Ela tem aquela qualidade que todo mundo que é artista tem que desenvolver e ponto final. E, se você é uma artista negra, ainda mais. Esta é a verdade e este é o meu talento, e isto é o que estou disposta a fazer e isto é o que não estou disposta a fazer. Acho que ela viveu sua vida muito puramente assim. E se você situar tudo isso em 1927, você vai ter muito drama, porque o mundo não está reconhecendo nada disso.

Davis: Uma das coisas que adoro em August é que ele nos dá uma coisa que não tínhamos em muitas narrativas, principalmente nos filmes: autonomia. Sempre somos mostrados pelo filtro de um olhar branco. É como Toni Morrison fala sobre O Homem Invisível, de Ralph Ellison. Ela fica tipo, “invisível para quem?”. August nos define de um jeito particular. Se você perguntar a qualquer um de nós que estamos aqui nesta teleconferência por Zoom se conhecemos alguém como Ma Rainey, que podia acabar com você na quinta e ir à igreja no domingo, que não pedia desculpas por seu próprio valor, você vai ver que nós crescemos com pessoas assim. E com certeza acho que é um ótimo começo para uma narrativa, ter uma mulher que era conhecida por sua autonomia, que não abria mão de seu valor, e os homens que estavam ao seu redor.

Glynn, Colman e Michael,  grande parte da eletricidade  do filme vem das interações entre os rapazes da banda. Existe uma espécie de jocosidade e camaradagem entre vocês, mas também existe uma corrente de tensão e rivalidade. Falem um pouco sobre como vocês trabalharam juntos para criar essa dinâmica.

Turman: Começa de um ponto em que realmente podemos desfrutar da companhia um do outro. Acho que jantamos uma noite depois do ensaio, todos nós saímos logo depois de nos conhecermos. Nossa amizade foi construída em cima dessa base. Assim como na vida real, as dores e o desconforto vêm do quão bem vocês se conhecem, porque as pessoas que você conhece são as únicas que podem realmente chegar até você. Então, todos sofremos muito nisso de tentar nos conhecer dentro do prazo que tínhamos. Assim, ficamos à vontade zoando, xingando e falando bobagem. E isso aconteceu na tela e fora dela (risos).

Michael Potts: A zoeira não acabava. A gente estava no set com um bando de caras sem noção. Sem a mínima noção (risos).

Domingo: Lembro que um dia o Chad apareceu, foi logo no início dos ensaios, ele entrou com o chapéu inclinado para o lado e o trompete. Ele entra na sala silenciosamente, de um jeito muito elegante. E eu não sei se é o Cutler em mim também, mas aí eu falei algo do tipo, ‘Oh, então você acha que vai entrar aqui e não vai falar com ninguém? Você chega aqui e não fala com ninguém?’ (risos). Ele disse: ‘Ah, não, não!’. A gente tirava sarro desse jeito. Mas, a partir daí, ele fez questão de chegar todas as manhãs e dar um salve para os irmãos e mostrar respeito. Porque o sentimento era: não podemos ficar dentro das nossas próprias cabeças. Nós temos que entrar e nos entregar uns aos outros. E foi isso que fizemos.

Uma das principais questões apresentadas pelo filme é como você encontra seu lugar no mundo – como artista e cantora, mas também como uma pessoa negra na base de uma hierarquia racial rígida. Estou curioso para saber se havia elementos das histórias dos personagens que ressoaram em qualquer um de vocês, em suas próprias jornadas artísticas e profissionais.

Davis: Acho isso exaustivo. Acho mesmo. Acho muito necessário, mas exaustivo. Você está lutando para conquistar seu lugar. Você está lutando para ser vista. Você está lutando para ser ouvida. É sempre uma luta. E é uma luta pelas coisas mais simples que as outras pessoas ganham sem dar nada em troca. Meu grande problema é quando tenho que lutar por minha competência. Não suporto isso. Essa parte de mim é a parte que passou dez anos na escola de atuação, que fez todo aquele teatro, off-Broadway, Broadway, TV e tudo mais. E então você entra numa sala em Hollywood e vê que, quando você é uma pessoa negra, tem uma vida útil curta. É isso que me irrita. Não gosto quando as pessoas questionam minha capacidade. Mas sinto que é disto que tratam todas as peças de August: lutar por um lugar no mundo. E tem mais outra coisa: você não precisa ser rei ou rainha. Você não tem que ser alguém lá no alto. Ele infundiu importância nas nossas vidas, mesmo que não o tenhamos colocado nos livros de história. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Animação ‘Soul’ ganha lugar na história com protagonista negro e muita música

Embalado por muito jazz, filme da Pixar é tudo menos infantil com roteiro recheado de discussões filosóficas e existenciais
Thales de Menezes

Cena da animação “Soul”, da Pixar Divulgação

SOUL

  • Onde Disponível no Disney+
  • Produção EUA, 2020
  • Direção Pete Docter e Kemp Power

De um modo simplificado, a definição de um desenho animado para crianças poderia ser esta: cor, barulho, personagens fofos, músicas divertidas e trama movimentada. Nesses parâmetros, “Soul” poderia ser uma animação infantil. Mas isso não é verdade.

nova produção dos estúdios da Pixar é qualquer coisa, menos infantil. Claro que deve entreter os pequenos, mas não será surpresa se os pais ficarem de olhos grudados na tela enquanto os filhos perdem o foco para brincar.

“Soul” conta a história de Joe, o primeiro protagonista negro de um desenho da Pixar, ineditismo que já bastaria para eternizar o filme. Resumindo: ele é um professor de música que sonha em ser uma estrela do jazz. Aí ele morre, assume uma forma etérea e vai parar num lugar repleto de criaturas parecidas.

Por acidente, Joe entrou na dimensão em que as almas, antes de nascerem em corpos humanos, aprendem lições e desenvolvem as personalidades que terão na Terra. Ele quer voltar à vida e, na tentativa, acaba se envolvendo com 22, uma alma que ainda não está convencida a nascer.

Colocando lado a lado um personagem que deseja voltar à vida e outro que não quer começar a viver, o roteiro é um prato cheio para discussões filosóficas e existenciais. E isso se desenrola embalado por muito jazz. Entre papo cabeça e música, mesmo bons momentos de comédia e emoção não fazem o filme ter uma ligação direta com as crianças menores, mas isso não é um problema.

O desenho tem muito de “Divertidamente” (2015), dirigido pelo mesmo Pete Docter que assina “Soul” ao lado do roteirista Kemp Powers. Os filmes são exemplos de uma vertente cada vez mais intensa nas animações: mundos imaginários que existiriam em paralelo ao real.

Em “Soul”, são as almas, num ambiente que lembra uma escola. Em “Divertidamente”, são as emoções, transformadas em personagens que comandam cada pessoa de dentro do cérebro, em uma sala de controle.

Outro filme dirigido por Docter bebe na mesma fonte: o estupendo “Monstros S/A” (2001), em que os seres que assustam criancinhas são operários de fábricas de sustos.

Mas a origem da proposta certamente veio de “Toy Story” (1995), que buscou seus personagens no fundo do armário de brinquedos.

Dentre os filmes citados, “Soul” é o mais abertamente dirigido aos adultos e os que adoram jazz vão se encantar.

Nas vozes originais do desenho, os produtores acertaram com a escalação de Jamie Foxx, ótimo como Ray Charles na cinebiografia do músico. Além do DNA musical, o Joe dublado por Foxx tem ótima química com Tina Fey, que faz a voz do 22.

Assistir a “Soul” é mais do que diversão. O espectador tem a sensação de que não está vendo apenas mais uma animação. É um desenho com lugar na história do cinema.