Erika Lust, a diretora que converteu os filmes pornôs em ‘revolução feminista’ e império comercial

ANGELO ATTANASIO

Diretora e produtora sueca Erika Lust tornou-se referência em pornografia feminista e alternativa
Diretora e produtora sueca Erika Lust tornou-se referência em pornografia feminista e alternativa – BBC News Brasil/Mònica Figueras

“Você tem que dizer que sou muito legal e que eu ando de skate.” “E o que mais?”, pergunto. Lara me lança um olhar desconfiado. Seus olhos verdes escuros me espreitam por baixo dos fios de cabelo ruivo que coroam sua cabeça e caem, desgrenhados, sobre sua testa.

“Que a minha mãe é a melhor, a mais moderna e a mais legal de toda Barcelona!”, diz ela, escondendo-se atrás do sorvete de morango que acaba de comer. “Ahhh…”, suspira a mãe, a cineasta Erika Lust, sem tirar os olhos da filha.

“Só de Barcelona?”, provoca o pai, Pablo Dobner. Lara move o skate com o pé. No fundo, a cerca de 20 metros de distância, uma dezena de adolescentes como ela fazem piruetas na praça.

“Bem… do mundo!”, grita ela, convencida. “E o que você acha do trabalho da sua mãe?”, pergunto. “Eu concordo”, responde ela, séria. “Sei que ela faz filmes eróticos não machistas que são focados no prazer das mulheres. E isso está bom para mim!”

Lara mal termina a frase quando, no skate, alcança as amigas rapidamente. “Juro para você que não a doutrinamos”, diz, orgulhosa, sua mãe, a mulher que há 15 anos quer “fazer a revolução” com a pornografia.

ENTRE O ESTIGMA PÚBLICO E O PRAZER PRIVADO

Poucas expressões culturais são tão universais quanto a pornografia. Na América, Ásia ou Europa, as pessoas se comunicam em centenas de línguas distintas, suas culinárias usam ingredientes diferentes e até se amam ou se odeiam por sentimentos tão únicos quanto os seus. Mas é muito provável que a grande maioria dos adultos que habita o planeta tenha em comum o fato de terem visto pela menos uma vez na vida alguma imagem pornográfica.

Ao mesmo tempo, poucas manifestações culturais geraram reações tão mistas em relação ao que a Real Academia Espanhola (RAE), instituição cultural dedicada à regularização linguística do mundo de língua espanhola, descreve como a “apresentação aberta e crua do sexo que busca produzir excitação”.

Na linha milenar e acidentada da história humana, a pornografia representou para alguns o atalho mais conveniente para o paraíso do prazer, enquanto para outros tem sido uma movimentada avenida de corrupção moral.

Foi e é considerada uma fonte inesgotável de escândalos e perversões e, ao mesmo tempo, o nutriente de baixo custo do desejo sexual; a principal causa da depravação adolescente, mas também o lubrificante das práticas prazerosas dos adultos; a forma moderna e aceita de objetificar o corpo da mulher e, ao mesmo tempo, o símbolo de sua libertação e emancipação do patriarcado.

Sem mencionar que, entre o ying do estigma público e o yang do prazer privado, a pornografia deu vida a um negócio nem sempre transparente avaliado em vários milhares de milhões de dólares. Mas mesmo nessa linha milenar, acidentada e contraditória da história humana, não faltam pontos cardeais a confiar para não se perder. Dois, especificamente.

Iván Rotella, porta-voz da Associação Estadual de Profissionais de Sexologia (AEPS) da Espanha, me explica o primeiro. “A pornografia sempre fez parte da nossa cultura. Sobreviveu a todas as ditaduras, todas as épocas e todas as religiões. E enquanto as relações sexuais tiverem algo a ver com seres humanos, vamos assistir à pornografia.”

E o segundo é ilustrado pela arqueóloga Caterina Serena Marcucci enquanto caminhamos pelos corredores do Gabinete Secreto de Nápoles, na Itália. Nessas salas do Museu Arqueológico (MANN) da cidade italiana, os reis da dinastia Bourbon coletaram os artefatos de tema erótico ou sexual que a partir de 1748 vieram à tona nas escavações de Pompeia e Herculano.

Nas paredes e prateleiras do que também foi chamado de “Gabinete de Objetos Obscenos”, destacam-se enormes falos de argila, jarras decoradas com cenas sexuais e murais nos quais homens, mulheres e animais mitológicos se contorcem, muitas vezes nus, em poses às vezes imaginativas, às vezes previsíveis.

Os monarcas concederam-lhes acesso apenas a “pessoas maduras de moralidade reconhecida”, ou seja, para homens ricos e poderosos. Eles salvaram os pobres, os jovens e especialmente as mulheres da perdição que tal visão traria. “Em todas as representações do acasalamento sexual, o protagonista é o homem. A mulher era apenas um objeto de prazer”, diz Marcucci. “O prazer feminino nunca foi contemplado.”

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“O homem sempre teve o direito de desfrutar da sua sexualidade”, diz Erika Lust quando nos encontramos no enorme terraço de uma enorme casa modernista no bairro Eixample de Barcelona. É aqui, no andar nobre de um edifício do século 19, para onde ela e o marido decidiram mudar os escritórios da ErikaLustFilms, sua produtora de filmes pornôs feministas, há um ano e meio.

“Mas nós (mulheres) temos nossos próprios impulsos sexuais, nossos desejos. Nossos corpos na sociedade são hipersexualizados, mas, ao mesmo tempo, nos disseram que deveríamos ter vergonha de ser abertamente sexuais e de ser donas de nossa sexualidade se ela não estiver próxima de um homem”, diz.

Sentada atrás de uma mesa de jardim, as mãos sacudindo no ar, o sotaque escandinavo de Erika golpeia as consoantes de seu excelente espanhol.

Ela me conta que, nos últimos 15 anos, o objetivo de seus filmes tem sido acabar com o estigma associado ao corpo feminino, que ela quer mostrar que o prazer feminino é importante, que “a única resposta ao pornô ruim é fazer pornô melhor”. Mas o que isso significa?

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PORNOGRAFIA PODE SER DIFERENTE

A primeira vez que viu um filme pornô, Erika Lust se chamava Erika Hallqvist, tinha a mesma idade de sua filha Lara –13 anos– e morava na mesma cidade onde nasceu, em 1977, Estocolmo. “Ugh! Que feio!” Com a memória dessa experiência, seu rosto se contorce como o de uma criança rejeitando algo. “Achei que o que estávamos vendo não era nada interessante. Que era até ridículo.”

Na segunda vez, tinha 19 anos. A experiência foi proposta pelo namorado da época e ela aceitou, intrigada. Dessa vez, não se sentiu enjoada, mas sentiu algo que ainda não conseguia descrever.

“Senti meu corpo reagir”, diz. “Obviamente, ver imagens sexuais poderosas deixa você excitada, e eu queria gostar disso. Mas também me lembro de que meu cérebro discordava. ‘Por que sinto que gosto de algo de que não gosto?’

“Vi claramente que meus amigos homens se sentiam confortáveis com a pornografia, que era algo que eles consumiam e que não lhes causava nenhum conflito, ao passo que para mim e muitas de minhas amigas, a sensação era oposta”, diz. “Queríamos entender e ver se poderíamos mudar um pouco.”

Mas a “revelação” –como ela chama– foi quando viu a obra de Candida Royalle, que Erika define em seu livro Pornô para mulheres como “a pioneira dos filmes eróticos dirigidos sob a ótica feminina”. “Até então, pornografia para mim era um gênero feito por homens para homens”, explica Erika. “Mas de repente entendi que não tem que ser necessariamente assim”.

Ela entendeu que as protagonistas não precisam necessariamente ser lolitas seduzidas por professores lascivos ou donas de casa que fazem sexo com o encanador, que não há necessidade de silicone, que as cenas não precisam terminar após a ejaculação masculina, que pode posteriormente haver beijos, carícias e até promessas de amor eterno.

Ela estava estudando Ciência Política na Universidade de Lund e sua leitura era focada em estudos de gênero, ou seja, nas relações de poder na sociedade entre homens e mulheres.

Mas Erika Hallqvist ainda era “a típica aluna um pouco nerd e muito tímida para pensar em fazer filmes pornôs” e não conseguia imaginar que o que ela acabara de descobrir se tornaria a base para os filmes da futura Erika Lust.

O que Erika Hallqvist ainda não tinha era uma consciência de qual poderia ser seu destino, um punhado de encontros decisivos e um lugar que se tornaria importante para o restante de sua vida.

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TRÊS DESCOBERTAS INESPERADAS

Além dos estudos de gênero, Erika Hallqvist era apaixonada pela cultura espanhola e se colocava à prova em situações inusitadas, como passar um verão inteiro a bordo de um navio da Marinha sueca. Finalmente, em 2000, decidiu morar em Barcelona, cidade que naqueles anos era o destino de uma geração de jovens europeus por sua atraente mescla de modernidade cultural e sua invejável qualidade de vida.

Lá, nas margens do Mediterrâneo catalão, três eventos decisivos mudariam para sempre a vida de Erika. O primeiro foi o que ela chama de “processo libertador”: a exploração de sua feminilidade. “A Suécia é uma sociedade com moral dupla”, explica. “Por um lado, a sexualidade e a nudez são amplamente aceitas, mas, por outro lado, a prostituição e a pornografia costumam ser muito malvistas.”

Nesse processo, conheceu Pablo Dobner, um argentino alguns anos mais velho do que ela e que se tornaria seu sócio, pai de suas duas filhas e atual CEO da empresa ErikaLustFilms. A segunda foi a descoberta um tanto acidental de um talento para a organização.

Barcelona era naqueles anos o cenário preferido de muitos diretores para fazer filmes e propagandas, e Erika começou a trabalhar como assistente em várias produtoras audiovisuais. Mas provavelmente o evento mais importante foi a produção de seu primeiro filme pornô.

A ideia surgiu na primavera de 2004, durante “uma noite de muito álcool” com um amigo que trabalhava para uma conhecida empresa na área de entretenimento adulto. Erika estava terminando um curso de fotografia e decidiu que seu trabalho final seria um curta-metragem com cenas de sexo explícito: The Good Girl.

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‘É AQUI QUE A MÁGICA ACONTECE’

Alex, uma mulher de negócios inteligente e bem-sucedida, retorna a seu apartamento após um dia intenso de trabalho. Ela tira os sapatos, se serve de uma taça de vinho e decide pedir uma pizza. Quando chega o entregador, um moreno atraente, o filme se concentra nas efusivas relações sexuais dos dois protagonistas.

Após a relação sexual, os dois, aninhados na cama, começam a brincar e rir. “E, além disso”, explica Erika, “ela paga a pizza”, dando uma longa gargalhada. É o enredo do The Good Girl, um curta-metragem que, por um lado, zomba de um dos maiores clichês do cinema pornô e, por outro, atende às expectativas do gênero.

Ela o rodou com suas economias –”Os atores me custaram muito!”– no loft que dividia com seu parceiro. “Foi tão ingênuo que usei uma música do U2 como trilha sonora e assinei com meu nome verdadeiro. Não tinha ideia de que poderia vendê-lo!”

Durante uma festa em casa, eles o exibiram para amigos, que a incentivaram a enviá-lo para festivais. No ano seguinte, o curta ganhou mil euros (cerca de R$ 6,4 mil, em valores atuais) do primeiro prêmio no Festival Internacional de Cinema Erótico de Barcelona. “Aí entendi que era esse o caminho.”

No entanto, quando Erika pediu a um produtor pornô que assumisse a distribuição, eles responderam que não havia mercado para esse tipo de produto. “Mulheres não pagam por pornografia”, disseram-lhe, “mulheres são pagas para fazê-la.”

Naquela época, início de 2005, as principais redes sociais eram os blogs e Erika tinha uma conta no Blogspot, uma das plataformas de blogs online mais populares. Ela então subiu o filme para a plataforma que, em poucos dias, foi baixado mais de 2 milhões de vezes. Foi assim que “a mágica” aconteceu, diz, referindo-se ao sucesso comercial do curta.

Logo depois, nasceu Erika Lust (Luxúria, em português), um sobrenome que definiria seu destino. Nos anos seguintes, Erika fundou, com seu sócio Pablo, sua própria produtora especializada em “pornografia feminista”, dirigiu outros filmes e os comercializou em DVD em lojas especializadas em entretenimento adulto na Europa e América do Norte.

Assim como aconteceu com a Netflix, com a disseminação da internet banda larga e a popularização dos dispositivos móveis, o modelo de negócios passou do DVD para o streaming online.

Atualmente, a empresa ErikaLustFilms conta com quatro plataformas –XConfessions, LustCinema, ElseCinema e The Store– e seus catálogos oferecem mais de uma centena de filmes. As três primeiras são acessíveis por meio de uma assinatura que custa entre US$ 70 e US$ 100 (R$ 360 e R$ 525) por ano. Na quarta, é possível pagar por cada filme individualmente.

Nos últimos 15 anos, a empresa vem crescendo paulatinamente e hoje conta com dezenas de milhares de usuários e assinantes, distribuídos principalmente entre Alemanha, Estados Unidos, França e Canadá, mas com presença significativa também no Brasil e na Argentina.

‘POR QUE ESCOLHI UMA CARREIRA NA PORNOGRAFIA’

Neste ano, a receita ficará em torno de US$ 7 milhões (R$ 37 milhões), mais do que nunca, diz Pablo Dobner, ao fato de muitas pessoas terem ficado mais tempo em casa por causa da pandemia de covid-19. “Minha mãe não conseguia entender como uma mulher com boas notas, ‘nerd’, determinada, pudesse querer se dedicar a isso”, desabafa Erika, com um misto de alegria e angústia. “E ela ainda não entendeu.”

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‘AS MULHERES QUEREM VER OUTRAS MULHERES SE DIVERTINDO’

Atrás da mesa na enorme casa modernista onde estamos, Erika defende sua visão. Ela faz isso com a mesma facilidade que mostra os livros que publicou, as dezenas de entrevistas que deu, os muitos programas de televisão dos quais participou, o capítulo de uma série de documentários da Netflix em que apareceu e até uma palestra Ted, que acumula 1 milhão de visualizações no YouTube.

Erika diz que foi seu parceiro que convenceu a ativista determinada, mas introvertida, de que ela deveria vestir a carapuça de Erika Lust e entrar no mundo da comunicação. Natascha Tucek, que a conheceu no início de 2000 e segue sendo uma de suas amigas mais próximas, também confirma esse embate entre a natureza introvertida e a faceta pública extrovertida de Erika.

“Ela sabia que se quisesse atingir seu objetivo, se quisesse mudar algo neste mundo, tinha que sair. Com o tempo, ela criou uma personalidade pública, como se fosse uma atriz”, diz Tucek, que também trabalha na produtora. “Ela veste a fantasia de Erika Lust e sobe ao palco.”

Com essa fantasia, Erika me explica que seus filmes são chamados de “pornografia” por mostrarem sexo explícito, mas ela imediatamente esclarece que a palavra é altamente estigmatizada e associada às cenas extremas e violentas que estão disponíveis em sites gratuitos.

É por isso que prefere falar do seu trabalho como “pornografia alternativa”, “cinema adulto independente” ou “cinema erótico”. “Porque meus filmes”, explica, “também lidam com a compreensão erótica, como as pessoas se conectam, de onde vem o desejo.”

A poucos metros de nós, pelas janelas por onde entra uma luz diáfana de outubro, estão alguns dos funcionários da sua produtora. Eles têm cerca de 30 anos e são quase todas mulheres, Erika me diz com orgulho.

“Não temos uma política de não contratar homens”, esclarece, “mas temos muito cuidado com quem entra na nossa organização. Fazemos questão de que entendam nossos valores”. “Meu principal objetivo”, diz ela, “é retratar mulheres que estão cientes de seu poder e de seus limites, que são inteligentes, que têm uma atitude positiva em relação ao sexo e que não têm vergonha de mostrar seu eu erótico.”

“E como você faz isso?”, questiono. “Estamos acostumados com filmes adultos feitos por homens, focados no prazer masculino e no atletismo sexual”, diz ela. “Mas quero retratar o sexo emocionante e realista com uma visão cinematográfica e capturar todos os sentimentos: a química entre os artistas, seus corpos se tocando e a evolução de suas sensações durante o sexo”, acrescenta.

É por isso que eu só faço o pornô que eu apreciaria como espectadora e com o qual prefiro que minhas filhas se envolvam.” Para conseguir isso, primeiro ela teve que “despornotisar” seus atores, pedindo-lhes que fizessem sexo “como fazem em sua vida normal”.

Além disso, assegura que haja mulheres atrás das câmeras, que tenham seu olhar e que decidam como o filme é produzido e apresentado. “Penso muito sobre de onde vem esse olhar para definir o que é erótico, o que é sexy, o que queremos ver.” “E o que as mulheres querem ver?”, pergunto.

“Elas querem ver mil coisas diferentes, assim como os homens. Somos muito diferentes entre nós, mas temos uma coisa em comum: gostamos de ver o prazer feminino. As mulheres querem ver outras mulheres desfrutando e vivendo livremente sua sexualidade!”

De repente, o tom de voz de Erika sobe, seu sotaque escandinavo fica mais pronunciado. “Estamos cansadas de ver todas aquelas situações falsas nas quais as mulheres estão tendo aqueles orgasmos irreais sem nem ser estimuladas!”.

O volume da sua voz aumenta ainda mais. “É por isso que insisto tanto no olhar. Como mulheres, como vemos o mundo? O que queremos? Como queremos? Tudo está dentro de nós e por isso é tão importante para mim ter tantas mulheres no meu time”.

“É por isso que seu pornô foi definido como feminista?”, pergunto. “Sempre disse que sou feminista e naturalmente meus valores estão injetados em tudo que faço”.

“Para mim, o feminismo está tentando lutar por uma verdadeira igualdade de gênero, a fim de ter mulheres com vozes relevantes nas decisões sociais e políticas, além de protagonismo nas relações e no sexo”. “Não é disso que trata o feminismo? Se não, bem… Isso significa que eu sou uma feminista indecente!”, finaliza.

***

ESTRATÉGIA DE MARKETING?

“É puro absurdo. Erika Lust diz que está capacitando mulheres ao redor do mundo para desfrutar do sexo, quando o que ela está fazendo é explorá-las.” Gail Dines, professora emérita de sociologia e estudos femininos no Wheelock College em Boston, no Estado americano de Massachusetts, esbraveja comigo.

A reação de Dines foi a uma pergunta que lhe fiz. “O que você pensa sobre a pornografia feminista de Lust? Você realmente acha que se trata de um instrumento de empoderamento das mulheres?”. Dines não mede palavras: “O que conta é marketing puro. Não compre dele. Não compre”.

O jornal britânico The Guardian a definiu há alguns anos como “a principal acadêmica e ativista antipornografia do mundo” e ela orgulhosamente usa a descrição em seu site. A pornografia é, de acordo com Dines, “a crise de saúde pública da era digital” com duas consequências “terríveis”.

Uma é a “degradação e humilhação” das mulheres, que são “reduzidas a objetos descartáveis”. Isso e a linguagem usada –chamá-las de “prostitutas” ou “vadias”– reforçam estereótipos sexistas de dominação de gênero e legitimam a violência contra elas, diz a especialista.

A outra é que a pornografia se tornou a “principal forma de educação sexual” para milhões de menores de idade. “As crianças estão aprendendo que a violência, a degradação e a humilhação são fundamentais para o sexo. E tudo isso em uma sociedade patriarcal em que a violência contra a mulher está totalmente fora de controle, seja por estupro, incesto ou agressão. “

Aos que a acusam de ser contra o sexo, Dines responde que não, pelo contrário, que as mulheres merecem absolutamente o seu prazer sexual. Segundo ela, o papel do feminismo é dar às mulheres o direito de encararem o sexo da forma como quiserem, sem tabus.

Mas isso é muito diferente de transformá-lo em um produto industrial, ressalva, e para explicar por que, ela faz um paralelo com o McDonald’s.

“Não há nada de errado em fazer seus próprios hambúrgueres e desfrutar deles, mas você compra os produtos de uma indústria que está destruindo o meio ambiente, causando obesidade”, diz. “Ninguém está dizendo que quem se opõe ao McDonald’s é contra comer, você só é contra essa corporação”, continua.

Da mesma forma, “não somos contra o sexo. Na verdade, eu diria que, se você é a favor da sexualidade feminina, precisa ser antipornografia”.

Dines diz que comprou assinatura de uma das plataformas da Erika Lust, mas a única coisa que se destaca positivamente é que mais beijos são vistos em seus filmes. “Mas isso não muda o fato de que o que ela faz é monetizar os corpos das mulheres para que possa ter seus lucros”, diz.

Na opinião de Dines, Erika planejou “uma estratégia de relações públicas muito inteligente” para se destacar em um mercado saturado. “Consiste em se envolver em uma bandeira feminista e dizer que o que você faz é ético, para que as pessoas que compram seus produtos se sintam melhor. Mas é como dizer que você está comendo um McDonald’s ético, e isso não é possível.”

O PORNÔ DE QUE AS MULHERES GOSTAM

Rosa Cobo, diretora do Centro de Estudos Feministas e de Gênero da Universidade de La Coruña, na Espanha, também diz acreditar que a pornografia, seja de que tipo for, nada mais é do que “erotização da violência contra a mulher” .

A autora de Pornografía. El placer del poder (Pornografia. O prazer do poder, em tradução livre para o português)”, livro que acaba de publicar, afirma que o gênero “está fortalecendo a cultura do estupro” e também “leva à prostituição, ao alimentá-la, nutri-la e legitimá-la” . “A pornografia é uma parte fundamental da indústria da exploração sexual”, completa.

***

Calcular o valor de mercado da indústria pornográfica online não é fácil. Primeiro, por causa de um problema de definição. Onde estão os limites do que é considerado “conteúdo adulto”? A segunda razão é que as empresas privadas que atuam neste setor tendem a ser nebulosas, tanto no que diz respeito a seus proprietários como a seus dados de faturamento.

No entanto, de acordo com estimativas de 2018 da revista econômica Quartz sobre o mercado de entretenimento dos Estados Unidos, a indústria pornográfica americana teria faturado entre US$ 6 bilhões e US$ 15 bilhões naquele ano.

Para efeitos de comparação, a Netflix registrou no mesmo ano receita de US$ 11,7 bilhões, enquanto a indústria cinematográfica de Hollywood como um todo gerou US$ 11,1 bilhões. Em outras palavras, o negócio da pornografia online é enorme.

***

‘NOSSO PORNÔ É COMO UMA COZINHA DE AUTOR’

“Não jantamos, então temos que comer bem”, diz Pablo Dobner diante de uma mesa repleta de pratos de sushi em um restaurante japonês localizado próximo à sede da produtora. “A pornografia é realmente como comida”, acrescenta Erika. “Mas nem tudo é igual. O que fazemos você não pode engolir como um saco de batatas.”

“É mais como uma cozinha de autor”, destaca Pablo. “Na nossa, cada detalhe é visto, os sabores são provados”, interrompe Erika. E “estamos focados em um consumo mais responsável, algo que acontece cada vez mais no pornô”, completa. “As pessoas se perguntam: ‘O que estou vendo corresponde aos meus valores? É bom ou ruim para mim?'”

Quando pergunto se ela conhece Gail Dines, Erika me olha com um sorriso irônico. Claro que a conhece. No entanto, Erika and Dines concordam em uma coisa: que há um problema com a disseminação da pornografia online entre os adolescentes.

De acordo com relatório da ONG Save The Children de junho deste ano, com a disseminação dos smartphones e das redes sociais, a idade em que os adolescentes acessam a pornografia é cada vez menor, em torno dos 12 anos, e quase uma em cada 10 crianças faz isso antes dos 10 anos.

O estudo revela que, em muitos casos, o primeiro contato com conteúdo pornográfico é acidental. “Não se busca pornografia, se encontra pornografia”, afirma um menino entrevistado. E o fato de ser tão facilmente acessível em plataformas gratuitas cria o risco de que meninos e meninas moldem seus desejos com base no que veem neles.

Neste sentido, torna-se “um terreno fértil para o surgimento de várias formas de violência –gênero, cyberbullying, discriminação, bem como relações baseadas na violência, na desigualdade e na homofobia”, conclui o estudo.

“É assim”, confirma Erika, preocupada, ao me contar sobre o dia em que sua filha e suas amigas encontraram um homem se masturbando enquanto navegavam em um chat online sem necessidade de registro.

“Ela reagiu na hora e fecharam. O que acontece é que, como ela é minha filha, ela sabe muito sobre isso.” “Você lhe explicou o que você faz?”, pergunto. “Sim, claro”, responde Erika. “E como você fez isso?”, prossigo.

“Ela sabe disso desde a infância, como algo natural. Houve uma conversa em que me sentei com ela e lhe expliquei. ‘Sabe o que a sua mãe faz?’ O que fazemos faz parte de quem somos e eu faço o que faço sem nenhuma vergonha, sem nenhum medo. E procuro comunicar isso às minhas filhas”, explica Erika.

“E como você acha que ela vai reagir quando se deparar com algumas imagens pornográficas convencionais?”, pergunto. “É preciso ajudar as crianças, dando-lhes ferramentas para serem capazes de pensar criticamente, saber distinguir entre o que é correto e o que não é”, diz.

“Mas você não deve insultar a inteligência delas, você não pode tratá-las como se elas não pudessem controlar suas emoções. Você não pode lhes dizer que a pornografia online irá pervertê-las e que elas não serão capazes de desenvolver uma vida sexual normal”, acrescenta.

Para Erika, ao contrário de Dines e várias outras ativistas, o remédio para o problema da facilidade de acesso à pornografia não está em estabelecer uma regulamentação mais rígida, muito menos em bani-la. “O desejo de ver gente fazendo sexo é muito forte nos humanos, então o problema se tornaria ainda mais sério, pois ficaria confinado à dark web, na qual os controles são muito mais difíceis”, explica.

Uma medida para consertar isso, diz Erika, é fazer com que todo o conteúdo pornográfico seja pago, como é o seu. E a outra já é uma de suas frases mais emblemáticas e repetidas: a única resposta para “o pornô ruim é fazer pornô melhor”, tanto para o consumidor quanto para quem trabalha nessa área.

“A realidade das pessoas que se dedicam ao trabalho sexual é muito diferente das teorias daqueles que têm visões utópicas do mundo”, diz. “Conheço pessoalmente muitas profissionais do sexo e a grande maioria tem uma preocupação acima de tudo: que seus direitos sejam garantidos para que não temam os clientes, a polícia ou o estigma dessa profissão”, acrescenta.

***

RELAÇÃO COM OS ATORES

“E aqui está um trio e uma cena com Sylvan.” Sentada atrás de sua enorme mesa, Erika ouve atentamente sua funcionária. Entre pilhas de papéis e vários envelopes de cartas manuscritas, bem ao lado de uma bolsa de maquiagem, uma placa vermelha lembra quem toma a decisão final neste escritório. “Girl Boss”, diz a placa.

A funcionária apresenta o resultado do casting (formação de elenco) do filme que vão rodar daqui a algumas semanas. Mas algo preocupa Erika.

O filme conta a história de amor e sexo entre uma jornalista, um professor de história e uma coreógrafa — “um trio poliamoroso”, esclarece, erguendo os olhos atrás da tela do computador — e uma das atrizes é lésbica.

“Quero ter certeza de que ela quer fazer esse filme”, reforça Erika a sua colaboradora. “Não quero começar a filmar e ter momentos estranhos.” “Ela disse que sim”, responde a funcionária. “Não quero ser chata, mas quero ter certeza”, insiste Erika. “Não se preocupe. Vamos perguntar a ela de novo”, diz a funcionária.

As dezenas de atrizes, atores e diretores que trabalharam com Erika Lust e com quem falei para esta reportagem destacam sua coragem como pioneira de um novo gênero, seu profissionalismo e empatia no set de filmagens, e o respeito pelas condições de trabalho e financeiras que muitos definem como satisfatórias.

Mas apesar dos muitos elogios, há críticas –de fato, em menor número. Mas os críticos só concordam em compartilhá-las comigo sob condição de anonimato. Uma atriz que trabalhou por muitos anos na indústria pornográfica e que decidiu parar há um tempo, acredita que “Erika e seu produtor estão aproveitando o rótulo feminista para faturar”.

Essa atriz rodou vários filmes dirigidos por Erika Lust e considera que, se realmente respeitam os princípios éticos de que falam, deviam pagar aos atores royalties sobre venda dos seus filmes e das suas fotos.

“Há muitas empresas que estão produzindo muito e não recebem a metade da atenção porque não são um império”, escreve-me mensagem.

Outros lamentam que não haja maior variedade em termos de representação racial e orientação sexual. Em 2018, Erika Lust estava envolvida em um caso polêmico devido a supostos ataques de uma diretora de sua produtora.

Enquanto Erika está ocupada em uma sessão de fotos no escritório, pergunto a Pablo Dobner, seu sócio e CEO da empresa, os motivos dessas acusações.

“Algumas pessoas querem obrigar Erika Lust a fazer coisas que nunca pediram a outras empresas com as quais trabalharam”, protesta Pablo. “Existem muitos ativistas no mundo das profissionais do sexo que são contra Erika Lust porque se trata de uma empresa capitalista.”

Após o caso de 2018, a ErikaLustFilms publicou uma “Declaração de Direitos do Artista” e “Diretrizes para Diretores Convidados” que seus colaboradores devem seguir.

Esses documentos estabelecem as diretrizes a serem respeitadas antes, durante e após as filmagens, desde a alimentação no set de filmagem até o consentimento explícito para a realização de determinadas práticas sexuais e o direito de recusa em praticá-las.

***

BARBIES E PÔNEIS

Erika está prestes a terminar uma sessão de fotos promocional em seu escritório. Ele usa jeans e uma camiseta branca, e um brinco em forma de E brilha em suas orelhas. “Quando sua mãe a viu hoje de manhã, ela perguntou: ‘Você vai vestida assim?'”, Pablo diz, enquanto Erika posa deitada na cama.

“Quando a BBC a escolheu como uma das 100 mulheres mais relevantes de 2019, sua mãe não entendeu por que ela estava na lista”, lamenta o marido. A sessão de fotos acabou e Erika se senta para descansar.

Pergunto se Erika já considerou atuar em um de seus filmes. Ela rapidamente responde que não, que não combina com sua personalidade. “Sou muito mais voyeur do que exibicionista”, diz com um sorriso que revela alguma modéstia. “O que gosto é de estar atrás das câmeras, criando as imagens que vejo e imagino.”

“Quando era criança, minha irmã e eu brincávamos com muitas Barbies. Aprendi a criar narrativas e dirigir personagens em cena. Também andava a cavalo e escrevia artigos para uma revista de equitação”, lembra. “Sabe?”, acrescenta ela, “Acho que no fundo nunca parei de brincar de Barbies e pôneis”, e dá uma gargalhada.

Pergunto se há limites que impôs em seus filmes. De repente, Erika fica séria. Diz ser muito clara sobre eles: nunca faria uma cena de violência contra uma mulher ou ousaria representar uma cena de discriminação racial.

“Tento incorporar meu ativismo à minha vida”, assinala. “Se vejo algo de que não gosto, paro e protesto”, mesmo que isso tenha consequências para ela. “Você tem que nadar mais forte quando vai contra a corrente”, diz ela, fixando o olhar em mim. “Mas acho que todos nós que vamos contra a corrente estamos fazendo uma revolução.”BBC NEWS BRASIL

Edição: Leire Ventas

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