Tempos difíceis podem não trazer amor, mas oferecem clareza sobre você mesmo

A pandemia chegou. Mas a mensagem de texto dele não
Jenna Klorfein, The New York Times – Life/Style

Ilustração de Brian Rea/The New York Times

“Quer vir até aqui e manter a distância de dois metros hoje à noite?”, foi a mensagem de texto que enviei. Nenhuma resposta. Uma semana se passou. Limpei todo o meu apartamento, mas não tive resposta. Comecei a encarar os fatos. Todas comunicações cessaram durante a quarentena. Há padrões claros, implícitos, de namoro por aplicativo.

O primeiro é mudar o namoro virtual para offline. A menos que você seja muito indesejável, um segundo encontro normalmente é garantido. Um terceiro e quarto são cruciais. Mas então já não poderá ter a mesma conversa sobre irmãos e trabalho. Você realmente tem de começar a conhecer a pessoa.

Neste ponto pode começar a mostrar outras partes da sua vida. Apresentar a ele seu grupo seleto de amigas nas quais confia para se vestir bem e papear tranquilamente. Você pode levá-lo àqueles locais secretos onde o garçom já sabe o que você vai pedir, preparar o café da manhã com suas colegas de quarto. Pode realmente funcionar.

Mas o problema é este cronograma. Não funciona na pandemia. Nós nos vimos durante três meses, foi meu relacionamento mais longo até agora e o mais tranquilo. Ele foi o primeiro namorado do qual não tinha o ímpeto de fugir na manhã depois de passarmos a noite juntos; pelo contrário, passávamos mais um tempo juntos, assistindo um episódio atrás do outro de Curb Your Enthusiasm.

Ele estava treinando para correr uma maratona e, com frequência, os seus treinos já programados acabavam com nossa maratona de TV. Ficava olhando meu calendário, contando as semanas desde o nosso primeiro encontro e me preparando para o inevitável fim de namoro como já ocorrera com todos outros homens que conheci em Nova York. Cada dia era sentido como uma pequena vitória – um passo mais perto de uma relação de verdade. Duas semanas antes de Nova York ser fechada, eu estava com dois casais de amigos num restaurante indiano em West Village.

Entre garfadas de tikka masala de frango, minhas amigas disseram que estava na hora de me abrir e falar dos meus sentimentos. Era uma conversa restrita? Definir a relação? Não tinha muita certeza, mas meus amigos insistiram que chega um ponto em todas as relações em que os sentimentos não podem mais ser guardados.

Não queria ser eu a iniciar esta conversa. Queria passar por aquela garota fria, misteriosa que não discute seus sentimentos ou que tem necessidade de se abrir. Mas minhas amigas deixaram claro que minha ansiedade cada vez mais intensa sinalizava que, na verdade, eu não era a garota fria e estava na hora de me expor. Equipada com os conselhos delas, eu me senti pronta: enviei uma mensagem de texto para ele dizendo que precisávamos conversar – uma mensagem direta, mas vaga. Como me instruíram. “Vamos almoçar depois da corrida”, ele respondeu.

Ele estava sempre correndo! Coloquei uma base à prova d’água no rosto, vesti meu melhor jeans de cintura alta e me dirigi para minha execução. Dividimos um sanduíche, frango e waffles enquanto falamos sobre o emprego que ele não conseguiu, mas não perguntou nada a meu respeito.

Várias vezes, ele olhou o seu Apple Watch. Pagamos e fomos para o parque do outro lado da rua. Depois de alguns momentos de silêncio pontuados por minhas observações sobre raças de cães, expus a ele os meus sentimentos. Tínhamos passado um fim de semana intenso juntos, depois do qual ele não me contatou durante vários dias.

Então eu queria saber onde ele se inseria nisso tudo. Se eu estava sentindo alguma coisa por ele, queria saber se era recíproco. A resposta que tive foi confusa. Ou talvez perturbadora. Ele me disse que gostava de mim, mas não queria apoiar uma pessoa emocionalmente, ou que alguém o apoiasse emocionalmente.

Ele valorizava sua independência, os limites e a corrida. E que tinha tempo para mim uma vez por semana. Fiquei firme, não me descontrolei. E nos despedimos com um beijo. E depois encontrei minha melhor amiga na escada da Brooklyn Public Library e chorei. No dia seguinte, enviei a ele uma mensagem de texto falando de uma peça que havia assistido. Disse a ele que precisava de tempo, só nos veríamos na semana seguinte.

Mas foi naquela semana que a cidade de Nova York adotou medidas de distanciamento social. O mundo pareceu bem diferente durante a pandemia. Mas as minhas preocupações principais continuaram as mesmas. Como muitos nova-iorquinos, fiquei horrorizada ao ler as manchetes dos jornais. Diariamente lia com nervosismo as notícias, reconhecendo que a gravidade da crise continuaria a se fazer sentir.

Mas meus pensamentos às duas horas da madrugada continuavam os mesmos de antes da covid-19: estou sozinha, incapaz de ser amada. E se ficar só para o resto da vida? A crise se intensificou e também o pânico. Não havia tempo para procurar alguém mais adequado. Você tinha de se agarrar o que estivesse disponível.

E então o corredor e eu começamos a trocar mensagens de texto de novo. E depois ele desapareceu. O lockdown foi uma reviravolta total para muitas pessoas. Como determinava o bom senso, se vocês são um casal, continuem assim. Ou passam a quarentena juntos ou se separem. Nós nos separamos.

Olhava com inveja minhas amigas superando o obstáculo que não consegui. Minha colega de quarto, também num relacionamento que durava três meses, comprou um walkie-talkie para se comunicar com o novo namorado. Se outros conseguiam, porque eu não ? Isolada, mergulhei em hipóteses. Se mantivesse o mito da garota fria por mais tempo ainda estaríamos juntos, protegendo um ao outro da desgraça exterior?

Na quarentena, você não tem desculpas para muitas distrações da vida. Não existe essa alegação de que “talvez ele esteja focado no trabalho ou saiu com os amigos”. Você tem de encarar a verdade: ele está sentado no sofá, olhando para o telefone e decidindo não atender, você também fica drasticamente limitado em termos de diversão, o que torna a rejeição mais dolorosa. Não há nenhum bartender com quem flertar, nada de cinema onde se esconder e nem música ao vivo para afogar seus pensamentos frenéticos. É uma realidade dura, mas esclarecedora.

Nossa necessidade de contato e reciprocidade aumenta em tempos de crise. Mas mesmo quando o distanciamento social apresenta desafios, as oportunidades para apoiar entes queridos são enormes. E tem duas formas: telefonar para amigos que estão do outro lado do país, compartilhar playlists e participar de happy hours virtuais Estes momentos de contato oferecem o respaldo que necessitamos.

Sentimos que estamos sendo abraçados, mesmo quando ninguém está fisicamente presente para dar o abraço. Fui forçada a confrontar minhas próprias necessidades. Estava esquecendo algo mais importante do que essa pessoa que eu ainda teria de conhecer realmente.

A dor não era só da rejeição, mas a decepção de achar que alguém poderia oferecer o que eu buscava desesperadamente em todos os relacionamentos: reciprocidade, correspondência emocional, segurança. O amor durante a quarentena não é diferente do amor em qualquer outro período: os feeds do Instagram sugerem um aumento enorme nas relações de amizade, mas a quarentena não produz amor do nada, também não rompe um relacionamento que já estava desestruturado. Ela apenas deixa isso claro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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