‘Podemos ter a próxima Apple ou Amazon’, diz diretora Camilla Junqueira da Endeavor Brasil

Chefe de rede que reúne grandes nomes do empreendedorismo há duas décadas no País fala sobre mudanças no ecossistema nacional
Por Giovanna Wolf – O Estado de S. Paulo

Camilla Junqueira, diretora-geral da Endeavor Brasil
Camilla Junqueira, diretora-geral da Endeavor Brasil

De origem americana, a Endeavor é uma organização global sem fins lucrativos, presente em mais de 30 países, com o objetivo de acelerar o crescimento da economia por meio de empreendedores. Quando ela chegou ao Brasil em 2000, ainda falava-se pouco sobre empreendedorismo e startups. Era um cenário bem diferente daquele de duas décadas depois: de acordo com a ABStartups, o Brasil já conta hoje com mais de 13 mil startups – destas, 14 já valem mais de US$ 1 bilhão e são unicórnios.

Aqui no Brasil, a entidade tem uma equipe de cerca de 90 pessoas para promover iniciativas empreendedoras. E mais importante: o trabalho é realizado com a ajuda de grandes empreendedores brasileiros, como Paulo Veras, fundador do app de transporte 99, e de executivos de grandes corporações como Frederico Trajano, do Magazine Luiza. Hoje, a rede da Endeavor no Brasil reúne 121 empreendedores e, entre eles, estão executivos de unicórnios como LoftEbanxCreditas e Vtex.

No ano passado, as empresas da rede tiveram faturamento de R$ 8 bilhões. E o plano é acelerar o crescimento. Ao Estadão, Camilla Junqueira, diretora da Endeavor Brasil, relembra a transformação da ONG nos últimos 20 anos e fala sobre a estratégia da organização para manter o laço estreito com o empreendedor, oferecendo acesso a capital e conselhos necessários. “A Endeavor é como se fosse um sócio que não tem equity, tiramos um pouco a solidão do empreendedor”, afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista. 

Como vocês conseguiram reunir uma rede de empreendedores tão forte no Brasil?

Normalmente, são os grandes empresários de cada país que decidem levar o modelo da Endeavor para suas regiões. E eles patrocinam esse começo: a primeira fonte de receita de qualquer operação da Endeavor são os conselheiros. No caso do Brasil, algumas dessas pessoas foram Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Pedro Passos. Com eles, foi mais fácil convencer que o projeto fazia sentido. A partir daí, a rede cresceu naturalmente. Também há muita troca entre outros países, o que incentiva a entrada de empreendedores e faz com que eles queiram estar perto desse movimento. Um processo importante ao longo dos últimos anos também foi atrair empreendedores que são referências na área de tecnologia – se não tivéssemos feito isso, teríamos ficado ultrapassados.

Qual a diferença da Endeavor em relação a outros agentes do ecossistema de inovação, como investidores e aceleradoras?

Cada organização do ecossistema tem um papel importante. Acho que uma coisa que a Endeavor tem de muito única é o fato de estar sempre ao lado do empreendedor, de uma forma mais “neutra”. Há outra relação com o investidor, porque foi colocado dinheiro no negócio. A Endeavor é como se fosse um sócio que não tem equity. Tiramos um pouco essa solidão do empreendedor.

Nas últimas duas décadas, as startups brasileiras ganharam força. Como a Endeavor acompanhou isso?

Quando começamos nos EUA, já existia a referência da ‘máfia do PayPal’. No Brasil, algo do tipo era quase inexistente. Por aqui, antes de falar de tecnologia e inovação, tínhamos de falar sobre empreendedorismo. Nos últimos sete anos, porém, surgiram empreendedores de tecnologia. A Endeavor ajudou a construir uma nova geração de exemplos. Tivemos de valorizar a velocidade de crescimento para virar um unicórnio, por exemplo. Foi uma coisa que mudou a característica da rede da Endeavor. Mas foi uma mudança que partiu do ecossistema. 

Vocês têm focado em ajudar startups a ganharem escala e a se internacionalizarem. Por que este é o momento para isso?

A Endeavor sempre teve a responsabilidade de ajudar os empreendedores a pensar globalmente. No começo, era natural que as empresas brasileiras fossem mais fechadas, considerando o tamanho do mercado nacional e as características dos negócios. Os próprios mentores falavam que era importante crescer por aqui primeiro. Porém, houve uma transformação do ecossistema. Os empreendedores hoje começam criando soluções inovadoras que têm a capacidade de competir globalmente. Podemos ter grandes companhias de um tamanho de Apple e Amazon – mas, para isso, precisamos ter empreendedores se ajudando cada vez mais.

Muitos negócios sofreram na pandemia. Como a Endeavor conseguiu ajudar?

A primeira coisa que fizemos foi apoiar as empresas da nossa rede. Fizemos mentorias coletivas e individuais. Cada empreendedor teve um desafio diferente: um estava em um setor muito prejudicado, mas tinha dinheiro no caixa, enquanto outro estava em um setor beneficiado pela pandemia, mas não tinha caixa. Entendemos também que tínhamos uma responsabilidade com o ecossistema como um todo. Temos uma rede com muito conteúdo e disponibilizamos digitalmente para qualquer empreendedor os principais materiais de referência de como eles poderiam lidar com a crise – desde como negociar com o banco, até como entrar em trabalho remoto com todos os funcionários. Foram quase 300 mil acessos. 

Quais são os principais planos da Endeavor para 2021?

Neste ano, temos como foco melhorar o acesso a capital e estimular o trabalho de inovação aberta com grandes corporações e startups. Outro plano é em diversidade. Estamos estimulando as empresas do nosso portfólio a olharem para esse tema. Se queremos construir um ecossistema diverso em dez anos, precisamos começar hoje. A Endeavor nasceu dos maiores empresários do Brasil, que são homens brancos. É natural que ela tenha se formado assim, mas isso não quer dizer que a gente não possa olhar para isso com mais atenção para tentar reverter o quadro. 

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