A palavra do ano: deplataformizar

As redes sociais são veículos e suas regras são critérios editoriais
Por Pedro Doria – O Estado de S. Paulo

Como se vendem como plataformas neutras, sempre que banem alguém as redes são acusadas de censura

Há uma nova palavra na praça que é bom conhecer: deplataformização. É um anglicismo, vem de deplatforming, o verbo para impedir o acesso de uma pessoa ou grupo a uma plataforma digital. O ex-presidente americano Donald Trump foi expulso do Twitter e suspenso do Facebook. Na segunda rede, a suspensão ainda não tem prazo para acabar. Este é um processo de deplataformização. E, nos próximos meses e anos, falaremos muito sobre esta ação.

Já aconteceu antes, só não foi com alguém tão importante quanto um presidente americano. Mas, em agosto de 2018, o pseudojornalista Alex Jones foi banido da lista de podcasts da Apple e, então, na sequência, por Facebook, YouTube, até chegar ao Twitter. As plataformas todas dizem que têm regras próprias, cada qual a sua. Mas, nestes banimentos, é sempre assim. Uma tem coragem de fazer — e aí todas seguem juntas. Em semanas, a audiência de Jones caiu pela metade. E ele era daqueles teóricos da conspiração rábicos — a ponto de dizer que não havia massacres por armas de fogo em escolas americanas. As vítimas eram, segundo Jones, fictícias. Os sobreviventes, atores.

Há uma outra ficção que vivemos. Esta é mais complicada — e é um problema para as plataformas. Porque elas próprias se meteram numa armadilha. A ficção é de que as redes sociais são ambientes neutros que recebem a todos desde que cumpram certas regras. Não é verdade. Elas não têm como policiar. Os algoritmos de inteligência artificial são limitados e, com centenas de milhões de usuários — ou bilhões —, não há olhos e braços o suficiente.

As redes sociais são veículos, suas regras são critérios editoriais. E, como jornais, revistas ou tevês, quando alguém passa dos limites e tem acesso a muita gente, elas banem. Deplataformam. Ninguém acusa de censura o jornal que dispensa um jornalista. Alguns leitores podem cancelar assinaturas, claro, outros festejarão, mas todos compreendem que faz parte da ideia de um jornal definir quem tem acesso a sua audiência. Como se vendem como plataformas neutras, sempre que banem alguém as redes são acusadas de censura. Se fossem vistas pelo que de fato são — veículos com características novas, por serem digitais — esta acusação nunca surgiria.

Elas atuam como veículos e editam porque enfim compreenderam que escolher a quem dar voz, a quem ampliar a voz, é uma responsabilidade fundamental numa democracia. Não dá para dar de barato o que aconteceu neste início de ano. Selvagens invadiram o parlamento dos Estados Unidos da América para impedir que uma eleição presidencial fosse homologada. Se pode acontecer lá, pode acontecer em qualquer lugar. Em Paris. Em Londres. Em Brasília.

Quem faz dinheiro criando uma audiência grande e dando voz a quem quer encontrar este público não dirige um negócio qualquer. Está, isto sim, num ramo chave que faz a democracia se movimentar. Isto vem com responsabilidade: traçar uma linha de corte em quem atenta contra a democracia.

A mentira em grande escala é um atentado contra a democracia. ‘A eleição foi fraudada.’ ‘Cloroquina é remédio para Covid.’ ‘As escolas foram tomadas por marxistas.’ Estas mentiras não vêm por acaso. São construídas para confundir. Para dinamitar a confiança da sociedade na ciência, na academia, na cultura e no jornalismo. São as estruturas que geram informação e ajudam uma sociedade a se compreender. Quando perde esta bússola, se desestrutura e abre espaço para a tirania.

Criar uma audiência e fazer disto um negócio traz junto a responsabilidade de zelar pelo direito de um povo se informar. Só é possível escolher com verdadeira liberdade quem está informado por fontes não ligadas ao poder. Edição, no tempo digital, tem esse nome. Deplataformizar.  

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