Crítica I Fate: A Saga Winx se inspira em desenho para criar série de fantasia adolescente

Apesar de ser cheia de clichês, produção executa bem sua proposta
CAMILA SOUSA

Imagine a seguinte história: um protagonista que cresceu longe do mundo ao qual realmente pertence. Há um mistério sobre seus pais biológicos e esse herói possui uma força imensa que o torna extremamente importante, mas ele ainda não sabe disso. Essa premissa é comum a várias obras do entretenimento e também a Fate: A Saga Winx, nova série da Netflix inspirada no desenho O Clube dos Winx. No entanto, a produção contorna a falta de criatividade ao entregar uma trama bem executada.

Bem diferente do desenho transmitido nos anos 2000 na TV aberta brasileira, o seriado tem um tom de suspense ao apresentar Bloom (Abigail Cowen) e sua chegada a Alfea, a escola para fadas e especialistas localizada em Otherworld. Com apenas seis episódios, o seriado acertou ao pular algumas etapas iniciais da apresentação de Bloom, que são apenas pinceladas em flashbacks. Aqui, acompanhamos a protagonista chegando na escola após descobrir que é uma fada e já conhecendo parte de seus poderes, embora tenha receio de usá-los em sua totalidade.

Além da protagonista, a série desenvolve bem grande parte dos personagens coadjuvantes, embora incomode com algumas construções. Do lado positivo, Stella (Hannah van der Westhuysen) tem um dos arcos mais interessantes da produção. Inicialmente apresentada como uma jovem arrogante e possível rival de Bloom, ela tem suas camadas desenvolvidas e explicadas ao longo dos episódios, desde a relação de codependência com Sky (Danny Griffin), até seus traumas e a pressão da mãe por perfeição. Musa (Elisha Applebaum) é outro bom exemplo de uma personagem que teve um espaço interessante, especialmente nos episódios finais.

Fate: A Saga Winx derrapa realmente ao construir Terra (Eliot Salt) e Aisha (Precious Mustapha). A primeira é extremamente carismática, mas causa muito incômodo no começo. O seriado da Netflix passa muito perto de cair no estereótipo da personagem “gorda e simpática”, que é constantemente vítima de bullying e faz amizades sendo meio “atrapalhada e fofa”. As primeiras interações entre Terra e Stella, por exemplo, são cheias desses clichês e por pouco não repetem o lugar-comum das comédias adolescentes dos anos 1990. Felizmente, os roteiristas parecem ter se dado conta de que precisavam oferecer mais e corrigiram esses pontos ao longo do caminho, fazendo de Terra um dos nomes mais queridos ao final da primeira temporada.

Já o caso de Aisha é mais complicado, já que a jovem não tem uma personalidade bem definida ao longo dos episódios. Tirando o fato de ser uma fada da água, pouco é dito sobre ela, que parece ter sido colocada no grupo apenas para movimentar o roteiro, mas sem ter espaço para uma narrativa própria. A jovem fica constantemente reclamando com Bloom sobre os planos para descobrir mais sobre seu passado e chega até a “dedurar” as amigas em certo momento. O problema é que nada disso tem uma construção clara. Não entendemos as motivações de Aisha e seus sentimentos sobre tudo o que está acontecendo. E, ao contrário do que acontece com Terra, isso não é corrigido ao longo do caminho.

Magia e transformação

Curiosamente, um dos pontos que mais perde espaço ao longo dos seis episódios de Fate: A Saga Winx é a contextualização do mundo das fadas. Com tanta coisa para explicar e o desenvolvimento do grupo de amigas, a série ficou sem tempo de falar mais sobre o mundo paralelo em que Alfea se encontra e até explicar mais sobre os Queimados, os grandes inimigos desta primeira temporada. Por conta disso, há certa sensação de que tudo é meio genérico, como se o mundo das Winx fosse apenas mais um universo pouco desenvolvido da cultura pop. Se for renovado para a segunda temporada, o seriado pode ganhar bastante ao explorar mais esses conceitos e dar ao público, de fato, uma sensação de imersão naquele mundo.

Colocando tudo isso na balança, Fate: A Saga Winx termina mediana, o que não é necessariamente ruim, especialmente para uma primeira temporada. A produção apostou em conceitos mais seguros e conhecidos dos fãs para desenvolver a base da história, mas fez isso com competência, incluindo um fan service que alegrou bastante os fãs do desenho no episódio final. No entanto, se quiser continuar relevante em uma realidade com cada vez mais séries lançadas a cada semana, a produção vai precisar arriscar mais no futuro, amadurecendo tanto personagens, quanto a trama.

Nota do crítico: *** Bom

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