O Oscar deveria enxergar o atual momento como uma oportunidade

A Academia precisa encontrar novas formas de louvar a excelência do cinema
A. O. Scott, The New York Times

Oscar
Estatuetas do Oscar Foto: Monica Almeida/The New York Times

92º Oscar aconteceu há pouco menos de um ano, em 9 de fevereiro de 2020, colocando-se como um dos últimos eventos públicos normais do ano passado. Um monte de gente se aglomerou – sem máscara! – num espaço fechado, cantou canções e fez discursos, espalhando aerossóis em todas as direções. Depois se amontoou em limusines e partiu para festas sem nenhum distanciamento social. Dá para imaginar? Muitos de nós fizemos nossas próprias festas, depois de termos visto pelo menos alguns dos filmes indicados em cinemas de verdade.

Aconteça o que acontecer no Dolby Theatre em 25 de abril, não será nada parecido com isso. Mesmo que as projeções mais otimistas sobre a pandemia se concretizem, o caminho para o Oscar deste ano está praticamente irreconhecível. O Festival de Cinema de Cannes, onde o vencedor de Melhor Filme do ano passado (Parasita, de Bong Joon-ho, caso você não se lembre) fez sua estreia, não aconteceu em 2020 – e já adiou o de 2021. Nem Telluride, um dos trampolins para candidatos ao Oscar. Outros grandes festivais, como Veneza e Toronto, foram só sombras de sua velha vida sempre agitada.

Os tipos de filmes que tradicionalmente disputam prêmios – dramas de orçamento médio com estrelas conhecidas e assuntos históricos respeitáveis ou temas sociais – foram escassos ao longo do ano, embora alguns tenham aparecido na Netflix. O público e a indústria ficaram flutuando num estranho limbo pandêmico. Eram muitos filmes para ver nas plataformas de streaming ou de vídeo sob demanda e até, para os cinéfilos intrépidos ou irresponsáveis, nos cinemas. Mas os ciclos usuais de burburinho e reação, o boca a boca e o hype retumbante que definiam a temporada de premiações, para o bem e para o mal, não se materializaram. Como resultado, ninguém sabe exatamente o que esperar, e mesmo os apostadores profissionais mais descarados estão de boca fechada.

Claro, é possível que os produtores da transmissão da cerimônia e os membros votantes da academia elaborem alguma versão do espetáculo de sempre, imaginando que é isto o que as pessoas querem. Afinal, eles são vendedores de faz-de-conta profissionais, e seria uma resposta compreensível à situação atual tentar fazer todos nós acreditarmos, mais uma vez, na velha religião: no glamour das estrelas, no poder de Hollywood, na magia do cinema.

Mas espero que não. Seria uma pena se a Academia desperdiçasse essa crise. Como em tantas outras áreas da vida contemporânea, o desejo de retorno à normalidade pode ser um mecanismo de nostalgia e negação total, uma desculpa para esconder o que havia de errado com o velho normal. E vamos encarar os fatos: antes de o coronavírus virar tudo de cabeça para baixo, o Oscar já estava uma bagunça.

Sim, sim, eu sei. Aconteceram muitos momentos de verdadeiro deleite – as vitórias de Parasita, a consagração de Moonlight em 2017, os triunfos em série dos Três Amigos –, mas esses momentos sempre chegavam numa maré de esperada decepção. Por pelo menos uma década, os prêmios vêm tentando cumprir uma série de imperativos cada vez mais incompatíveis.

A transmissão em si deve atrair uma boa audiência global, para se posicionar como um dos últimos e mais orgulhosos eventos de exibição em massa num universo de consumo cultural cada vez mais fragmentado e assíncrono. Ao mesmo tempo, supõe-se que a transmissão glorifique um ideal especificamente americano de produção cultural: popular e comercial, mas também altivo e de alta qualidade, não estritamente nacionalista, mas acolhedor. A Academia defende um imperialismo amigável e inclusivo, construído sobre um alegre consenso.

Nos últimos tempos, as rachaduras na superfície e na fundação do edifício ficaram cada vez mais aparentes. A audiência diminuiu a firme compasso e então se tentaram várias soluções. Apresentadores antigos, apresentadores novos, nenhum apresentador, dois apresentadores (não necessariamente nessa ordem). Os discursos de aceitação ficaram mais curtos, ainda que, de algum jeito, a cerimônia em si nunca tenha se encurtado. O trabalho de mestre de cerimônias virou uma roubada para as celebridades, em vez de uma grande honraria. Eles ficaram muito provocativos ou muito domados, muito esquisitos ou muito meigos, muito políticos ou muito pouco políticos.

Mas não foi apenas o espetáculo comprido demais – um retrocesso cada vez mais estranho a uma forma de entretenimento de que ninguém se lembrava, de que ninguém gostava muito, para falar a verdade – que teve problemas para encontrar um ritmo. Os prêmios em si acabaram prejudicados por demandas concorrentes. À medida que a indústria investe cada vez mais talento e capital em franquias, seus produtos de prestígio se especializam. Os orçamentos e as receitas de bilheteria de filmes dignos do Oscar diminuíram, um fato que muitas vezes é culpado pelo declínio da audiência e pela notável perda de relevância.

Alguns anos atrás, a academia tentou resolver esse problema lançando uma nova categoria de melhor filme popular. A ideia foi rapidamente abandonada diante do escárnio geral. Mas os verdadeiros vencedores de Melhor Filme vêm formando um balaio de gatos. A categoria forneceu alguns destaques e descobertas (MoonlightParasita), junto com momentos de confusão e exasperação. O desenlace caótico da cerimônia de 2017 – é La La Land! Não, espere aí, é Moonlight! – pode ser tomado como metáfora. Uma velha guarda sem noção, um procedimento burocrático desajeitado, um momento de indefinição carregado de um reconhecimento apenas parcial das questões raciais e geracionais: tudo que o Oscar continuava errando e tentando consertar.

O novo estava fazendo de tudo para nascer, mas o velho não estava pronto para ir embora. O esforço da Academia para deixar seus membros mais jovens e diversificados pareceu se justificar com a vitória de Moonlight, mas, dois anos depois, o triunfo de Green Book soou como uma regressão – quando não como uma reação direta. No meio do caminho, A Forma da Água surgiu como um meio-termo bem estranho – eu gostei do filme, mas ainda não entendi muito bem o que era. E aí Parasita lançou o pêndulo para uma direção radicalmente nova, sem necessariamente consertar os problemas estruturais subjacentes.

Artes. E agora? O prestígio e a autoridade do Oscar sempre se apoiaram em duas premissas fundamentais: que o cinema é o carro-chefe das artes populares e que a eterna capital do cinema é Hollywood. Talvez esses axiomas sempre tenham sido discutíveis, mas, em 2021, eles são evidentemente falsos.

Está na hora de rasgar os planos e começar do zero. O que isso significa, na prática? Por um lado, significa continuar a expandir o número de membros da Academia rumo à diversidade geográfica, geracional e cultural. Quanto mais membros votantes, melhor. Por outro lado, acho que significa tratar a vitória de Parasita não como uma exceção, mas como um evento precursor. O filme, um thriller cheio de reviravoltas, com atuações brilhantes e direção impecável, tudo misturado com uma crítica social ácida e humanista, cumpriu os ideais do Oscar melhor do que qualquer produção mainstream de Hollywood desde, sei lá, Silêncio dos Inocentes, talvez? Se Meu apartamento falasse? Casablanca? E tem muito mais de onde o filme veio. Não estou falando só da Coreia do Sul nem da imaginação deslumbrante de Bong. A academia deveria abolir o gueto da categoria Melhor Filme Internacional, com seus critérios misteriosos e sua duvidosa confiança no gosto das instâncias governamentais, e fazer do Melhor Filme uma categoria explicitamente internacional.

Ou então – e além disso – encontrar novas formas de louvar a excelência. Ficar, a um só tempo, menor e maior, dando espaço e atenção ao diferente, ao experimental e ao artesanal, bem como ao exagerado e ao grandioso. Desfazer a hierarquia embrutecedora de gêneros que quase sempre exclui comédia, terror, ação e arte. Esse momento pode envolver uma simples mudança de atitude ou gosto, mas também pode exigir uma mudança formal nas regras. E se houvesse categorias de acordo com o gênero ou a faixa de orçamento (melhor filme de quadrinhos, melhor filme de um milhão de dólares) e estes filmes também pudessem concorrer a Melhor Filme? E se o Oscar se inspirasse na mania de previsão da imprensa esportiva e na obsessão da mídia por listas para abrir o pensamento dos eleitores? Milhões de fãs de cinema dão votos falsos todos os anos. E se houvesse uma maneira de transformar essas cédulas numa coisa de verdade?

O Dolby Theatre não é um templo. É um bazar. E a resposta aos anos de mal-estar do Oscar pode ser mais ênfase no comércio, e não menos – se entendermos que comércio não significa o consumo passivo de mercadorias mortas, mas a troca animada de ideias e informações. Quando digo que o Oscar está uma bagunça, acho que quero dizer que o Oscar não está bagunçado o bastante, que projeta uma imagem consensual e branda do cinema que se vê cada vez mais em conflito com a anarquia que é a única esperança de sobrevivência do cinema. Já vivemos o conto de fadas. Agora, precisamos do descarrilhamento de trem. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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