Dave Grohl: ‘A gente tinha que espalhar positividade’

Grupo lança ”Medicine at midnight”, álbum mais dançante do Foo Fighters, que foi adiado pela pandemia da Covid-19 e teve algumas músicas compostas no Brasil
Silvio Essinger

O grupo americano Foo Fighters, com o líder Dave Grohl à frente Foto: Divulgação

RIO – “Eu nem estava pensando em vacina ainda!”, exalta-se Dave Grohl, líder dos Foo Fighters, ao comentar sobre “Medicine at midnight” (“Remédio à meia-noite”), faixa-título do novo álbum da banda americana, que chega ao streaming na sexta-feira. Em entrevista por Zoom ao GLOBO, ele explica como essa composição surgiu, meses antes de começar a pandemia de Covid-19:

— A palavra “remédio” implica algum tipo de alívio, de cura. Compus essa canção no meio da noite, porque não conseguia dormir. E eu só pensava: do que a minha mente precisa? Do que o meu corpo precisa? Do que eu preciso para ter uma fuga? Poderia ser um uísque, um baseado, um filme… qualquer coisa! — discorre. — Eu tinha outros possíveis títulos para o álbum mas preferi esse, não só porque as palavras tinham uma certa cadência, mas porque ele trazia essa ideia de alívio.

Segundo Grohl (baterista do Nirvana, que começou os Foo Fighters após a morte do cantor Kurt Cobain, em 1994), a banda iniciou o trabalho no disco dois anos atrás, “porque sabíamos que 2020 ia ser um ano danado de incrível”.

— Era o nosso aniversário de 25 anos, aquele ia ser nosso décimo álbum e faríamos uma enorme celebração… então começamos a compor essa música toda e planejamos uma turnê mundial gigantesca. Aliás, eu estava compondo algumas delas enquanto estava no Brasil, para o Rock in Rio (em setembro de 2019) — conta.

As gravações de “Medicine at midnight” foram feitas até fevereiro do ano passado, em uma casa dos anos 1940, em Los Angeles, bem perto de onde o músico mora. Um lugar que, segundo ele, acabou revelando ter “uma energia muito estranha”:

Capa de "Medicine at midgnight", álbum do grupo Foo Fighters Foto: Reprodução
Capa de “Medicine at midgnight”, álbum do grupo Foo Fighters Foto: Reprodução

— De cara, ninguém realmente disse nada, mas aí você chegava no estúdio e algumas coisas tinham mudado de lugar, os instrumentos desafinavam, arquivos no computador tinham sido modificados… Mas fomos adiante e gravamos nove canções e nos mandamos dali. E, bom, a verdade é que também nos divertimos muito ali!

O clima otimista (apesar das assombrações) ficou impresso nas músicas de “Medicine at midnight”, um álbum dançante, bem diferente daquele que os fãs dos Foo Fighters estão acostumados a ouvir.

— Pensamos que, ao invés de fazer um disco acústico bonito e etéreo porque estávamos envelhecendo (Dave, por exemplo, completou 52 anos no último dia 14), era melhor deixar tudo de lado e começar logo a festa — diz o cantor-guitarrista-baterista. — Nós crescemos ouvindo música que tinha balanço, um rock que você podia dançar: David Bowie, Rolling Stones, Sly & The Family Stone, as bandas da Motown… e nunca tínhamos experimentado esse lado! Pensei: já fizemos rock pesado, música distorcida e pesada, música acústica e suave… vamos fazer algo que nunca fizemos.

Tédio na quarentena

Mas aí veio a Covid-19. O lançamento de “Medicine at midgnight” foi adiado e cada um dos músicos do Foo Fighters foi buscar o seu próprio remédio para o vazio dos dias que viriam pela frente:

— A primeira coisa que fiz foi garantir que a minha família estivesse segura, saudável e feliz. Todo mundo buscou isso. Eu cozinhei todos os dias, brinquei com meus filhos… e aí comecei essa página no Instagram (@davetruestories) porque adoro escrever, mas nunca tinha tido muito tempo para isso. E eu tinha um milhão de histórias engraçadas, tocantes e importantes para mim, que eu queria contar.

Em agosto, Dave Grohl aceitou um duelo virtual de baterias proposto por Nandi Bushell, uma fã inglesa de 10 anos de idade. Uma distração que acabou sendo inspiradora.

— Eu estava travando um duelo com alguém que estava a seis mil milhas de distância, nunca tínhamos nos encontrado. E a única razão para aquilo era espalhar felicidade — conta. — Essa conectividade proporcionou energia positiva enquanto as notícias eram só nuvens negras. Por três minutos e meio você via essa garota tocar bateria com todo o coração e a energia… e você sorria! Por isso que eu liguei para o nosso empresário e falei: vamos lançar esse disco! Eu não me importava se íamos ou não fazer shows, porque a gente tinha que espalhar essa positividade.

E os ventos mudaram mesmo — de forma bastante simbólica. Os Foo Fighters apresentaram a nova canção “Shame shame” e a antiga “Times like these” no programa de TV “Saturday Night Live”, em 7 de novembro, o mesmo dia do anúncio de que Joe Biden tinha sido eleito presidente dos Estados Unidos, derrotando Donald Trump. E no último dia 20, na posse de Biden, a banda tocou novamente “Times like these”. Dessa vez, Grohl dedicou a canção a “todos os nossos professores inabaláveis que continuam a iluminar as crianças de nossa nação todos os dias”.

— Eu conheço um monte de gente que esperava por isso, que esperava por mudanças. Quando Joe Biden foi eleito, houve esse enorme suspiro de alívio. Fui para a sacada do quarto do hotel e pude sentir a cidade festejando, ouvir o barulho das ruas —  relata Dave Grohl. — Eu cresci em Washington, meu pai escrevia discursos políticos, e o ambiente era favorável às pessoas que traziam ideias diferentes… isso é a política, isso é o que deve acontecer. Você deveria ajudar as pessoas a trabalharem juntas, mas não foi isso o que aconteceu nos últimos quatro anos. O lugar onde chegamos como país é o melhor exemplo de que precisávamos de mudança.

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