Cineastas Kirby Dick e Amy Ziering contemplam as acusações de abuso contra Woody Allen numa série de quatro episódios

Kirby Dick e Amy Ziering são conhecidos por filmes expondo o abuso sexual em instituições. Por que agora decidiram examinar uma polêmica história familiar? ‘Constatamos que a história completa nunca foi exposta’
Nicole Sperling, The New York Times

Woody Allen, Mia Farrow e os filhos – Dylan no colo da atriz e Soon-Yi à direita. Foto: ANN CLIFFORD/DMI/TIME LIFE PICTURE

Os documentaristas Kirby Kick e Amy Ziering passaram a década passada abordando acusações de abuso sexual em instituições, como em A Guerra Invisível (2012), em universidades, caso de The Hunting Ground (2015) e no setor fonográfico em On The Record (2020). Agora contemplam as acusações de abuso que têm sido feitas há décadas por Dylan Farrow contra seu pai adotivo, Woody Allen.

Allen versus Farrow, é um documentário em quatro episódios que será lançado este mês e aborda as acusações de abuso feitas publicamente por Dylan Farrow contra um homem famoso e poderoso, mas também expõe detalhes do caso que jamais foram levados a público.

Inicialmente, a história não se adequava às costumeiras investigações de maior amplitude feitas pelos cineastas, mas examinando o caso mais de perto eles concluíram que ela oferecia a oportunidade de discutirem questões de abuso infantil e incesto, tópicos que sobreviventes desses abusos têm pedido consistentemente para os dois abordarem.

“Fiquei assombrada com essa história”, disse Amy Ziering. “Existe uma parte intocada, que ninguém fala a respeito”.

Mas todo mundo fala de Woody Allen e Mia Farrow. O casal, que foi um dia poderoso em Hollywood, manteve uma relação que durou 12 anos. Mia e Allen nunca se casaram e mantiveram residências separadas, realizaram 13 filmes juntos, adotaram duas crianças (Dylan e Moses) e da união nasceu Satchel (que mudou seu nome para Ronan após o divórcio dos pais). Eles se separaram em 1992.

Em questão de oito meses Mia Farrow descobriu fotos nuas da sua filha, então na universidade, Son-Yi Previn, no apartamento de Allen; e nesse mesmo ano sua filha Dylan, de sete anos de idade, disse que Woody abusara sexualmente dela. Essas acusações resultaram numa medonha batalha pela custódia dos filhos e uma família permanentemente despedaçada. Woody Allen sempre negou as acusações e depois de concluídas as investigações em Connecticut e Nova York ele não foi acusado de nenhum crime.

Com o lançamento previsto para 21 de fevereiro na HBO, a série mostra cenas de vídeos domésticos gravados por Mia Farrow quando seus filhos estavam crescendo, em Connecticut, e gravações de áudio que ela sub-repticiamente fez de algumas conversas que manteve com Woody Allen. E pela primeira vez vemos o relato feito por Dylan, então com sete anos de idade, num vídeo gravado por Mia logo após as acusações feitas. O vídeo se tornou uma espécie de botão vermelho nas últimas duas décadas, caracterizado de um lado como prova da veracidade da menina e do outro lado como prova de que Mia treinou a filha nas suas respostas.

Os cineastas também levantam dúvidas sobre um relatório crucial emitido pela Yale Child Sexual Abuse Clinic, do Hospital Yale-New Haven, que concluiu não ser possível acreditar em Dylan depois de entrevistá-la nove vezes num período de sete meses.

Nem Allen, Soon-Yi Previn, nem Moses Farrow, participam do documentário (a maioria dos outros filhos vivos de Mia aparecem). E se recusaram a fazer comentários sobre a série, que ainda precisam assistir.

Perguntei a Dick e Ziering qual foi a razão de se envolverem nessa história. Abaixo trechos editados da entrevista.

Há muito tempo esta história tem sido retratada como um drama familiar confrontando a palavra dele contra a dela, com muita gente declarando que ‘jamais saberemos a verdade’.

ZIERING: À medida que você se aprofunda no caso, observa isto o tempo todo. Mas não sabíamos. Ninguém sabia. Quando você analisa este caso numa determinada perspectiva e uma determinada narrativa, não se dá conta da fonte. Isto foi interessante à medida que analisamos o caso. E à medida que começamos a ouvir a parte do que “ela disse” e checar os fatos do lado dele, ficou extremamente interessante.

Desde que teve início o movimento #MeToo, Woody Allen tem sido ostracizado de muitas maneiras: a Amazon cancelou seu contrato para realização de vários filmes. Seu filme mais recente ainda não encontrou distribuidores nos Estados Unidos. O primeiro editor do seu livro de memória se afastou. Alguns atores disseram que não querem mais trabalhar com ele. Por que este documentário agora?

ZIERING: Nosso objetivo nunca é sobre quem perpetrou o crime. Tem mais a ver com compreender esses crimes, como todos somos cúmplices desses delitos, e quero dizer todos nós, conscientemente ou não. E também como você fala sobre algo que ocorre o tempo todo nos Estados Unidos e ninguém se sente à vontade para discutir a respeito. Não é uma exploração completa do fato. Mas uma maneira de levar as pessoas a pensarem a respeito.

DICK: Como o documentário On the Record, onde as pessoas viram o que ocorre quando uma pessoa decide se abrir e a repercussão imediata, Allen vs Farrow Mia se atém à experiência das pessoas envolvidas. E por isto não se trata apenas de uma pessoa que é acusada.

Kirby Dick
Kirby Dick, que com sua colega Amy Ziering fez o documentário em quatro partes ‘Allen v. Farrow’. Foto: Rozette Rago/The New York Times

Seja pela mídia, ou pelo próprio Woody Allen, Mia Farrow tem sido qualificada como uma pessoa instável. Esta foi sua percepção ao entrarem no assunto, e ela mudou?

DICK: Eu afirmo que a suspeita e as críticas às mães em geral nesta sociedade são apenas evidência de misoginia. As pessoas gostam de “acusar” as mães por tudo. De modo que desde o início eu fiquei muito desconfiado dessa narrativa porque é uma narrativa misógina – a noção da mulher histérica, da mulher louca. E isto é citado frequentemente em crimes de incesto, e também de abuso sexual. No caso de Mia, ao ouvir isto fiquei bastante desconfiado.

ZIERING: Há testemunhos surpreendentes e as pessoas verão os vídeos domésticos que Mia gravou dos filhos enquanto cresciam. Foram muitas expressões de amor e muitos elogios das pessoas que entrevistamos sobre as qualidades de Mia como mãe.

No final do documentário Mia afirma que ainda tem medo de Woody, e na verdade está preocupada quanto ao que ele fará quando assistir a esta série. Então, por que ela decidiu participar? Qual foi seu objetivo?

ZIERING: Ela não queria tomar parte nisso. Ela o fez por sua filha, Dylan. Na verdade, na entrevista você a vê com minha camisa. Literalmente, pedi emprestado uma camisa para uma pessoa e dei a Mia a minha porque quando ela apareceu não queria ser entrevistada, estava muito infeliz. O que ela estava vestindo? Não me lembro.

Ela me disse: “minha filha afirmou que isto é muito importante para ela, que eu preciso fazer isso por ela. E eu apoio os meus filhos. Não a conheço, Amy, não conheço Kirby. Mas conheço o seu trabalho. E tenho sido execrada por não fazer nada”.

Amy Ziering
Amy Ziering, que realizou com Kirby Dick o documentário em quatro partes ‘Allen v. Farrow’.  Foto: Rozette Rago/The New York Times

Na série muita investigação foi feita sobre a clínica Yale-New Haven, desde o número de vezes que os responsáveis entrevistaram Dylan até o fato de que todas as anotações das entrevistas naquelas sessões foram destruídas quando o relatório final foi emitido. Nas investigações que vocês realizaram anteriormente sobre abuso sexual, viram alguma vez uma situação em que anotações deste tipo foram destruídas?

DICK: Não. Foi realmente chocante ver que elas foram destruídas, mas esta é uma das razões pelas quais a história plena nunca foi divulgada. Se tudo tivesse sido transparente não teríamos produzido a série.

O quão energicamente tentaram falar com Soon-Yi, Moses e Woody? Tiveram alguma resposta deles?

DICK: Nós os procuramos. Não esperávamos que se manifestassem. E se a ideia fosse fazer um filme sobre a carreira de Woody Allen ele provavelmente falaria conosco. Isto não nos surpreendeu.

Tradução de Terezinha Martino 

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