Entenda o flerte atual da moda com os anos 1990

Há um milhão de coisas que separam a geração X da Z. Mas a moda é cíclica e revive agora a estética de 20 e poucos anos atrás, dos primórdios da internet, em busca de formas de expressão mais autênticas e menos frívolas
MARIA RITA ALONSO – EM COLABORAÇÃO PARA MARIE CLAIRE

EM SENTIDO HORARIO: 1. DESFILE JIL SANDER VERÃO 2021 2. CLAUDIA SCHIFFER EM DESFILE DA CHANEL EM 1995 3. DESFILE BOTTEGA VENETA VERÃO 2021 4. HELENA CHRISTENSEN NA PASSARELA DA CHANEL EM 1995 5. JULIA ROBERTS EM LOS ANGELES EM 1995 6. KATE MOSS EM CAMPANHA DA
ELLUS DE 2000 7. 9 E 13. LOOKBOOK DA VERSACE VERÃO 2021 8. NORMCORE, MINIMALISMO E STREETWEAR DOS ANOS 1990 11. LOOKBOOK DA ANTEPRIMA VERÃO 2021  12. MIU MIU VERÃO 2021 13. MILA JOVOVICH EM CAMPANHA DA ELLUS DOS ANOS 1990 (Foto: Mariana Simonetti)

Minha mãe nunca jogou fora as roupas que amava muito. Ela costumava guardar as peças preferidas em caixas de papelão. Uma vez por ano, eu e minhas duas irmãs já adolescentes revirávamos essas caixas e tirávamos o que achávamos legal. Tinha muita coisa interessante ali: vestidos de algodão, roupas de veludo, collants, blusas justas de gola alta, tubinhos, tops que deixavam a barriga de fora, macacões… Tínhamos, assim, uma espécie de brechozinho particular. E valorizávamos cada calça boca de sino, cada blazer com ombreira, principalmente porque carregavam história.

Eram os anos 1990 e, magicamente, as peças de décadas passadas que saíam daquelas caixas pareciam atuais ou com potencial para uma atualização após pequenos reparos. Assim, desde cedo entendi que a moda é cíclica. Está sempre revendo o passado para poder projetar o futuro. Isso amplia as nossas perspectivas em vários aspectos, nos instiga e, de certa forma, nos humaniza.

Agora, por exemplo, há um milhão de coisas que separam a geração Z, que é a geração dos meus filhos, daqueles de nós que testemunhamos todos os modismos dos anos 1990, os primórdios da internet, a era pré-celular. Nós da geração X, que costumávamos tirar foto com rolo de negativo, discar uma roleta pra falar ao telefone e colocar cartas no correio quando viajávamos porque a ligação interurbana era cara demais. No entanto, apesar de todas as diferenças, é curioso constatar como as tendências e as atitudes de hoje ecoam estéticas de 20 e poucos anos atrás. Nenhuma roupa do passado ficou no passado.

Nos lançamentos internacionais, por exemplo, há o ressurgimento de linhas minimalistas, com a valorização dos vestidos camisolas, das túnicas, de peças unissex e de várias outras modinhas do início dos anos 2000 – olá, cintura baixa, bem-vinda de volta – em coleções como a da Balmain e a da Miu Miu.

Nas ruas, a volta do jeans com camiseta branca e tênis, clássicos do streetwear, corroboram essa tese. Está tudo aí de novo, nas rodas da vanguarda, de gente que defende o upcycling, que tem consciência social e ambiental e que rechaça os padrões do estilo de vida ultraconectado, numa busca intensa por algo que ainda não passou pela fase de normatização.

Conhecida como “nativos digitais”, a geração Z é nascida e criada depois do ultracapitalismo dos 1990 e do comecinho de 2000, já com a internet, com a China como potência econômica, com a ameaça terrorista concretizada no 11 de setembro de 2001, com as fast fashion metralhando tendências para todos os gostos a preços possíveis (muitas vezes, às custas da exploração de costureiros). Passar a infância nesse contexto faz com que essa turma tenha uma mentalidade diferente. Ela é a primeira a ser radicalmente a favor da transparência em suas relações, mantendo uma postura inabalável em relação a valores de responsabilidade ambiental e social, à luta antirracismo e à liberdade sexual e de escolha de gênero. Em 2019, o Facebook divulgou um estudo confirmando que pelo menos 68% dos indivíduos da geração Z “esperam que as marcas contribuam de alguma forma para deixar a sociedade melhor”. Nesse sentido, a mídia social dá a essa geração o poder de aplicar pressão como nenhuma outra fez antes. Assim, marcas de moda correm para se ajustar às demandas vindas desse novo ativismo. Ninguém quer ser cancelado.

Por outro lado, a promessa de audiência potencialmente ilimitada fez das redes sociais o lugar ideal para a prática da autoexpressão. Atualmente, são quase 4 bilhões de pessoas ao redor do planeta, mais da metade da população mundial, ligadíssimas em celulares. Só é preciso ficar atento porque, em um mundo onde as relações virtuais contam tanto quanto as pessoais, existe a armadilha de ficarmos presos ao nosso “eu digital”.

Quem reflete bem sobre essa questão é a jornalista Jia Tolentino, considerada pela crítica norte-americana como a Joan Didion dos nossos tempos. Ela diz: “A internet é um meio em que o incentivo à performance é inerente. Mesmo quando nos tornamos cada vez mais tristes e feios, a miragem de nosso melhor eu virtual continua a brilhar”. Crítica mordaz da forma como nossas vidas ficaram sujeitas à manipulação, à monetização e à vigilância nas redes, Jia Tolentino, jornalista canadense criada no Texas, escreve para sites e revistas respeitáveis, como a New York Magazine, nos quais fala sobre sua frustação com a frivolidade que as coisas acabaram tomando com as mídias sociais.

No alvorecer da internet, na década de 1990, o sonho era que a rede derrubasse fronteiras culturais, possibilitando conexões que melhorassem o mundo. Nessa época, o webdesign era simples e ingênuo, quase rudimentar. Curiosamente nostálgicos, os designers gráficos mais modernos vêm imitando hoje as interfaces dessa época. A Adidas fez um hotsite nessa pegada recentemente. A Gucci também montou uma interface vintage para apresentar a coleção Cruise de 2020. A campanha de Gift Giving deles, de carona nesse movimento, traz PCs brancos e telefones grandes como parte da cenografia. Em outra frente, várias coleções bebem dessa mesma fonte. Adorei uma declaração da estilista inglesa Sarah Burton, diretora criativa da Alexander McQueen, sobre essa dualidade entre o resgate de partes boas de outras épocas para a criação de algo melhor: “É nossa responsabilidade proteger as coisas do passado que amamos, preservar nossos valores, assinaturas e história, mas também é nosso trabalho inovar. Há conforto na familiaridade e entusiasmo na experimentação. Os dois coexistem”. Concordo profundamente com ela. E você?

Maria Rita Alonso é jornalista e consultora de moda. Para ela, falar de moda é falar de como as pessoas vivem, se posicionam, se reúnem e se expressam. (@mariaritaalonso)

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