Telegram e Signal são os próximos refúgios da desinformação?

Serviços criptografados, que mantêm confidenciais as conversas, estão cada vez mais populares; colunistas de tecnologia do New York Times discutem se isso pode se tornar um problema
Por Brian X. Chen e Kevin Roose – The New York Times

Telegram e Signal (Photo : TechTimes)

Aplicativos de mensagens criptografadas, que protegem a privacidade das conversas digitais, já foram ferramentas especializadas, usadas principalmente por trabalhadores de áreas em que a confidencialidade sempre foi um ponto de muita atenção, como direito, jornalismo e política. Agora nos EUA, todo mundo está embarcando nessa – nada muito diferente daquilo que os brasileiros se acostumaram a fazer. 

No mês passado, dezenas de milhares de pessoas baixaram os apps Telegram e Signal, rivais do WhatsApp. Alguns dos novos usuários são grupos de extrema direita que foram impedidos de postar no Facebook e no Twitter após o ataque ao Capitólio dos Estados Unidos.

A mudança para os aplicativos de mensagens privadas renovou um debate a respeito da criptografia como uma faca de dois gumes. Enquanto a tecnologia evita que as pessoas sejam espionadas, ela pode também facilitar que a atuação de criminosos e disseminadores de desinformação cause dano de maneira impune.

Então, decidimos apresentar as diferenças entre redes sociais públicas e aplicativos de mensagens privadas para discutir seus prós e contras. Vamos ao nosso debate. 

BRIAN CHEN: Olá, Kevin! Você chegou já faz um tempo no país das maravilhas da desinformação. Há muito falatório entre jornalistas e estudiosos a respeito da migração em massa de redes sociais públicas, como Facebook e Twitter, para serviços de mensagens privadas. Em geral, existe a preocupação de que a luta contra a desinformação possa ficar muito mais difícil em canais privados. Então venha para o mundo real um pouquinho. Você consegue explicar o que está acontecendo?

KEVIN ROOSE: Eu posso tentar! No mundo de extremistas e teóricos da conspiração em que eu vivo, houve uma espécie de fuga frenética em massa de plataformas maiores, como Facebook, Twitter e YouTube, após essas plataformas terem reprimido a disseminação de desinformação e discursos de ódio. Muitas das maiores figuras desse mundo – incluindo grupos como Proud Boys e os teóricos da conspiração do QAnon – se mudaram para plataformas mais privadas, onde há menos perigo de serem excluídos da plataforma. 

Então, agora existe um debate a respeito de ser bom ou ruim o fato desses repugnantes personagens das profundezas da internet estarem desaparecendo das grandes redes sociais – ou se é perigoso que eles se congreguem em espaços nos quais pesquisadores, jornalistas e agentes da lei não conseguem acompanhar suas atividades tão facilmente. Sucinto o suficiente?

CHEN: Perfeito. A migração é em direção ao Signal e ao Telegram. Os aplicativos oferecem “criptografia de ponta a ponta”, que é um jargão para descrever mensagens que são embaralhadas para serem indecifráveis para qualquer um exceto o emissor e o receptor. O benefício óbvio é que as pessoas têm a privacidade garantida. O possível inconveniente é que fica mais difícil para empresas e forças de segurança responsabilizar disseminadores de desinformação e criminosos por causa de suas mensagens, que não estarão acessíveis.Então, qual é a sua opinião? Você está preocupado?

ROOSE: Honestamente, não muito. Obviamente não é muito legal para a segurança pública que neonazistas, milícias de extrema direita e outros grupos perigosos encontrem maneiras de se comunicar e se organizar – nem que essas maneiras envolvam cada vez mais a criptografia de ponta a ponta. Vimos isso acontecer há anos, já, desde a época do Isis, e isso com certeza dificulta as coisas para agentes de forças de segurança e combate ao terrorismo.

Ao mesmo tempo, existe um benefício real em expulsar esses extremistas das principais plataformas, onde eles conseguem encontrar novos simpatizantes e tirar vantagem de mecanismos de transmissão de informações para disseminar suas mensagens a milhões de extremistas em potencial.

A maneira como tenho pensado nisso é como em um modelo epidemiológico. Se alguém está doente e pode infectar outras pessoas, idealmente você gostaria de tirá-lo do convívio geral e colocá-lo em quarentena, mesmo que isso signifique levá-lo para um lugar como um hospital, onde há muitos outros doentes.

É uma metáfora bem ruim, mas você entende o que quero dizer. Sabemos que, quando extremistas estão nas plataformas maiores e principais, como Facebook, Twitter e YouTube, eles não conversam somente entre si. Eles recrutam. Juntam-se a grupos pouco relacionados a eles e tentam semear por lá suas teorias de conspiração. De certa maneira, prefiro ter mil neonazistas linha-dura espalhando maldades entre si ou num aplicativo de conversas criptografadas do que deixá-los se infiltrar em mil grupos de diferentes temáticas.

CHEN: Entendi onde você quer chegar. Quando abrimos o Facebook ou o Twitter, a primeira coisa que vemos é nossa timeline, um feed geral que inclui posts de nossos amigos. Mas também podemos ver posts de desconhecidos se nossos amigos os compartilharem ou se os “curtirem”.

Quando abrimos o Signal ou o Telegram, vemos uma lista de conversas que mantemos com indivíduos ou grupos. Para conseguir nos alcançar com uma mensagem, um desconhecido precisaria do nosso número de telefone.

Então, para completar nossa analogia, o Facebook ou o Twitter são, essencialmente, como um enorme anfiteatro com bilhões de pessoas amontoadas. Aplicativos de mensagens criptografadas como Signal e Telegram são como grandes edifícios, com milhões de pessoas, mas cada uma delas vivendo em um quarto privado. As pessoas têm de bater nas portas umas das outras para mandar mensagens, então, disseminar desinformação requer mais esforço. Já no Facebook e no Twitter, uma peça de desinformação pode viralizar em segundos, porque todas as pessoas nesses anfiteatros conseguem escutar o que todos estão gritando.

ROOSE: Correto. Facebook e Twitter são anfiteatros repletos de germes, e Signal e Telegram são como dormitórios de faculdade. Você consegue contaminar seu companheiro de quarto com facilidade, mas espalhar a doença para o andar inteiro requer algum esforço.

CHEN: Confesso que estou preocupado com o Telegram. Além das mensagens privadas, as pessoas adoram usar o Telegram para conversas em grupo – até 200 mil pessoas podem participar de uma sala de chat do Telegram. Isso parece problemático.

ROOSE: Acredito que as intervenções nas grandes plataformas vão tornar mais difícil para esses grupos se congregar publicamente. Mas compartilho sua preocupação quanto aos aplicativos criptografados se tornarem, essencialmente, enormes redes sociais clandestinas. Esses aplicativos são desenvolvidos para conversas um a um, mas a adição de mecanismos como encaminhamento de mensagens, combinados com as grandes capacidades máximas de integrantes das salas de chat, os tornam vulneráveis aos mesmos tipos de fenômenos de contágio, de uma pessoa para muitas, das grandes plataformas de transmissão.

É interessante notar que o WhatsApp restringiu o encaminhamento de mensagens justamente por esse motivo. As pessoas estavam usando o mecanismo para espalhar desinformação a milhares de pessoas ao mesmo tempo, e isso estava provocando inúmeros episódios de caos em lugares como a Índia. Não sei ao certo por que o Telegram não fez algo similar, mas isso parece com algo que eles terão de lidar, juntamente com talvez repensar o limite de tamanho de suas salas de chat.

Você está preocupado com o Signal, de alguma forma?

CHEN: Não estou tanto. Assim como o WhatsApp, o Signal determinou um limite de encaminhamento de mensagens para cinco pessoas por vez. Então, tomaria muito tempo dos disseminadores de desinformação viralizar mensagens. O Signal também limita a mil pessoas a participação nas salas de chat. É muita gente, mas não tanta quanto nos grupos do Telegram.

Tentei conversar, aliás, com o Signal e o Telegram.

Moxie Marlinspike, fundador do Signal, afirmou que é mínimo o risco de desinformação se tornar um grande problema no aplicativo, porque ele não expõe as pessoas a algoritmos como do Facebook, que exibem posts de outras pessoas e atiçam a disseminação de desinformação.

O Telegram não respondeu a vários pedidos de entrevista. O website da empresa não contém informações sobre limites de encaminhamentos de mensagens. Isso me deixa aflito.

Eu me preocupo com o Telegram, em geral, e é importante notar que as conversas em grupo por lá não são criptografadas de ponta a ponta. Nem as mensagens encaminhadas. Então, se o Telegram ou autoridades de segurança quiserem investigar o conteúdo de um grande grupo de chat, poderiam fazê-lo, em teoria. Se o Telegram se tornar o próximo refúgio da desinformação, teremos como nos defender. Posso estar matando nossa analogia, mas haverá maneiras de fazer um rastreamento de contatos!

ROOSE: Correto. E o restante de nós, não extremistas, poderá ficar mais tranquilo sabendo que nossos feeds não serão invadidos pelos Proud Boys nem por neonazistas, porque, pelo menos, o Facebook, o Twitter e o YouTube estão se esforçando um pouquinho para filtrar o conteúdo maligno, correto? Isso talvez não seja uma máscara n95 perfeitamente sob medida, mas é pelo menos uma máscara de pano.

OK, agora estou oficialmente abrindo mão dessa metáfora.

CHEN: Quero terminar com uma nota de otimismo, o que é raro para mim. Aplicativos de mensagens privadas são um ponto positivo na rede. Todo aplicativo e todos os produtos que se conectam com a internet têm a capacidade de nos espionar, então, precisamos desesperadamente de ferramentas que mantenham nossas conversas online privadas. Não vamos deixar que bandidos arruinem isso.

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