A marca de acessórios Cura ganha o reforço de estilistas e lança linha de biquínis e roupas

Raissa Colela se junta às designers Amanda Mujica e Ana Voss e lança a coleção Itá, que investe na valorização dos saberes tradicionais; são roupas com produção artesanal e tecidos naturais
Lívia Breves

Ensaio da coleção Itá, da marca carioca Cura Foto: Helena Cooper

Unir potências para crescer juntas. Foi pensando nisso que a designer carioca Raissa Colela resolveu ampliar o rol de produtos de sua marca Cura, inicialmente focada em sapatos e bolsas. No novo passo, ela realizou a vontade antiga de fazer parceria com as estilistas Amanda Mujica, da Amu, e Ana Voss, da Nós+Voss. Juntas, criaram a coleção Itá, que, além dos acessórios, que ganharam pedras brutas como amuletos, tem roupas e biquínis, assinados pelo trio que entende muito bem como levar a elegância cool das cariocas para todo o mundo.

A partir da esquerda, as estilistas Amanda Mujica, Ana Voss e Raissa Colela Foto: Helena Cooper
A partir da esquerda, as estilistas Amanda Mujica, Ana Voss e Raissa Colela Foto: Helena Cooper

“Empreender sozinha é muito difícil. Estávamos sentindo falta de trocar, de se fortalecer”, comenta Raissa. “Nosso processo criativo se deu assistindo a filmes, focamos nos protagonizados pela atriz Helena Ignez e nos dirigidos por Rogério Sganzerla e Godard. Na pandemia, inspirações precisam ser encontradas dentro de casa.”

Ensaio da coleção Itá, da marca carioca Cura Foto: Helena Cooper
Ensaio da coleção Itá, da marca carioca Cura Foto: Helena Cooper

O resultado é uma coleção completíssima com vestidos, maiôs, biquínis, macaquinhos, sandálias, bolsas, calças, camisetas, tudo usando muito algodão, linho, lyocel e lycra CO2, para reduzir o impacto ambiental. Esta semana, elas lançam peças em pré-venda pelo site curaacessorios.com e pelo Instagram @cura_acessorios com entregas para todo o Brasil. As estampas foram desenhadas por uma quarta amiga, Alice Gelli. “A força dessa coleção é algo que eu não encontraria sozinha”, diz Raissa.

A coleção conta com biquínis e maiôs Foto: Helena Cooper
A coleção conta com biquínis e maiôs Foto: Helena Cooper

Na produção, ainda há a aliança com uma série de cooperativas e pequenos grupos de artesãs. A ideia é que todas cresçam juntas. “O foco da Cura sempre foi investir em novas ecologias sociais, na valorização dos saberes tradicionais. Temos a linha de palha de buriti crochetada das parceiras maranhenses, os detalhes feitos pelas bordadeiras de Caxias e as peças de piaçava produzidas na Bahia. Planejo incluir o tecido resinado encauchado da Amazônia, a renda de bilro de Alagoas, o capim dourado do Jalapão e muito mais”, adianta Raissa.

Moda positiva é isso.

Facebook quer “causar dor” à Apple por guerra de privacidade

Apple e o Facebook estão em um arranca-rabo público ao longo dos últimos meses por conta (finjam surpresa) de privacidade. Como temos relatado incansavelmente, o Facebook está implicando com um novo recurso do iOS o qual exige que apps peçam permissão de usuários para rastreá-los em sites e apps — o chamado App Tracking Transparency, ou ATT.

Ainda que essa “guerra fria” permaneça no âmbito ideológico, em algumas ocasiões a coisa ficou séria e partiu para outros meios; mais recentemente, por exemplo, o Facebook atacou a Apple com anúncios em jornais americanos, sem contar as inúmeras vezes em que os CEOs1 das respectivas empresas cutucaram um ao outro.

Fato é que, indignado com muitos desses comentários direcionados implicitamente para o Facebook e a “má influência” que a Apple atribui à empresa, Mark Zuckerberg teria comunicado aos membros da sua equipe que o Facebook precisa “infligir dor à Apple”, de acordo com uma nova reportagem do The Wall Street Journal2.

Apesar dos golpes e ataques pessoais, um porta-voz do Facebook refutou a ideia de que a tensão entre as empresas é pessoal, sugerindo que isso se tratava “do futuro da internet gratuita”.

O Facebook afirma que escolher entre rastrear usuários para oferecer anúncios personalizados e proteger a privacidade é uma “troca falsa”, alegando que acredita que pode fornecer ambos. O porta-voz também reiterou comentários anteriores do Facebook, dizendo que os recursos de privacidade da Apple “não visam preservar a privacidade do usuário, mas sim aumentar o lucro”, e que o Facebook se juntará a outras empresas para destacar o “comportamento preferencial e anticompetitivo” da Apple.

Atualmente, o Facebook está simultaneamente cedendo às mudanças na política de privacidade da Apple em relação ao rastreamento de anúncios, bem como lutando contra a empresa — tanto é que a gigante de Menlo Park estaria preparando um processo antitruste contra a Apple sobre as regras da App Store.

A Apple não comentou as alegações do Facebook, de acordo com o WSJ. Será que ainda mais farpas serão trocadas? [MacMagazine]

VIA BUSINESS INSIDER

Stylebop Campaign SS21 by Andreas Ortner

Campaign: Stylebop SS21. Photographer: Andreas Ortner at SCHIERKE Artists. Video: Björn Baasner. Creative Direction: Andreas Ortner, Elke Dostal and Julia Ünlu. Fashion Stylist: Elke Dostal. Hair and Makeup: Sacha Schuette & Anna Neugebauer. Set Design: Studio Tina Hausmann. Models: Edge, Jade Muller and Mariana Santana.

Ashley Judd descreve o acidente que sofreu em floresta no Congo: ‘Quase perdi minha perna’

Atriz e ativista acredita que só teve o tratamento adequado por ser uma pessoa famosa
Mark Kennedy, AP

A atriz Ashley Judd 

Ashley Judd relatou que passou por uma provação dolorosa, que acredita quase ter custado sua perna depois de tropeçar e cair de mal jeito durante caminhada em uma floresta tropical no Congo e ter que ser resgatada em uma moto.

Em entrevista virtual, na sexta-feira, 12, ao colunista do New York Times Nicholas Kristof, Judd contou que ficou no chão por cinco horas com uma perna quebrada, mordendo um pedaço de pau por causa da dor e ‘uivando como um animal selvagem’.

O acidente ocorreu quando Judd e os pesquisadores, que estavam junto com ela na floresta congolesa, saíram em busca de bonobos (chimpanzés pigmeus) e ela tropeçou em um tronco e, com a queda, quebrou a tíbia. Sem poder se mexer, a atriz e ativista foi carregada pela floresta em uma rede de volta ao acampamento.

A única alternativa para sair do local foi na garupa de uma moto, com um motorista dirigindo e outro homem “segurando a parte superior da minha perna”. Essa viagem durou seis horas.

A atriz descreveu o momento como um “acidente catastrófico” e acrescentou que “quase perdi minha perna”. 

Ashley Judd estava em uma cama de hospital na África do Sul, durante a entrevista, e afirmou que se ela não fosse uma atriz famosa, acha que podia ter perdido a perna e a vida durante as 55 horas de provação.

Como cultivar gerânios

Grupo de plantas encanta por ser resistente e também por florescer praticamente o ano todo
LUIZA QUEIROZ | FOTOS: GETTY IMAGES

(Foto: Reprodução / Pinterest)

O gerânio é o tipo de planta que você com certeza já viu, mesmo que não a tenha identificado. Famosas por suas flores em tons vibrantes, estas espécies são campeãs no paisagismo, sobretudo em varandas e em áreas externas — mas também podem ser cultivadas em ambientes internos. Além de serem perfumadas, resistentes e fáceis de cuidar, elas são capazes de oferecer flores o ano inteiro, motivo pelo qual são consideradas queridinhas. Para saber tudo sobre como cultivar gerânios, Casa Vogue conversou com o botânico Samuel Gonçalves, à frente do canal no Youtube “Um Botânico no Apartamento” e também do perfil no Instagram de mesmo nome. Vamos lá?

Para começar, é importante entender que “gerânio” é o nome popular dado para as plantas dos gêneros Geranium e Pelargonium, que, juntos, abragem diversas espécies. “No Brasil, basicamente encontramos o Gerânio ereto ou Gerânio ferradura (Pelargonium hortorum) e o Gerânio pendente (Pelargonium peltatum) nas floriculturas. Como seus nomes populares indicam, o ereto cresce mais para cima, formando lindos maciços em canteiros e vasos coloridos, enquanto o pendente forma lindas cascatas. Felizmente o cultivo de ambos é similar”, explica Samuel. Ou seja, é interessante identificar as espécies antes de escolher onde posicionar os vasos, para aproveitar ao máximo todo o potencial paisagístico da plantinha!

Origem e luminosidade

“Os gerânios são plantas que dão flores nativas da África do Sul. São perenes, ou seja, não possuem ciclo de vida curto, permanecendo vivas por vários anos em cultivo e florescendo em praticamente todo o ano, exceto em regiões muito frias — onde florescem basicamente na primavera e no verão. São muito rústicas, não necessitando de muitos cuidados específicos”, diz o botânico. 

Para garantir que sua planta floresça da melhor forma, Samuel recomenda deixar os gerânios de quatro à seis horas sob sol direto. “Plantas cultivadas em ambientes mais sombreados não vão te presentear com lindas e coloridas flores”, informa.

Outra dica geral de manutenção é realizar podas de limpeza, eliminando folhas amareladas e flores secas para evitar a proliferação de pragas e doenças.

Flowering geraniums on the windows of a house, Guarda, Scuol, Engadin, Canton of Graubunden, Switzerland. (Photo by Albert Ceolan / De Agostini Picture Library via Getty Images) (Foto: De Agostini via Getty Images)
 Foto por Albert Ceolan / De Agostini Picture Library via Getty Images

Substrato e adubação

O cultivo de gerânios exige uma boa drenagem. O ideal, segundo o botânico, é usar um vaso com furos protegidos por uma manta geotêxtil ou utilizar até mesmo filtro de café usado. “O substrato para o cultivo deve ser fértil e drenável. Terra vegetal ou terra adubada misturada com areia ou perlita são excelentes opções para garantir a saúde das raízes”, diz. 

Para potencializar o florescimento dos gerânios, o ideal é fazer uma adubação rica em fósforo, com adubo líquido NPK 4-14-8. Samuel recomenda começar a adubação no fim do inverno e continuar mensalmente até o fim do verão, sempre seguindo as instruções de diluição da embalagem e aplicando, preferencialmente, sobre o substrato. 

Rega

Os gerânios devem ser regados com mais intensidade logo após o plantio no vaso e substrato. Depois, regue apenas quando o substrato estiver seco, já que o excesso de água pode apodrecer as raízes e o caule.

Mudas

“Apesar de poder ocorrer polinização e, consequentemente, o desenvolvimento dos frutos e de suas sementes, esse processo é bastante demorado. Portanto, a melhor forma de ter mais plantas é fazendo mudas”, explica Samuel. “Basicamente, corte um pedaço do caule e coloque uma ponta para enraizar na água ou no substrato adequado, mantendo-o levemente úmido. É realmente muito fácil!”

Stylebop Campaign SS21 by Andreas Ortner

Campaign: Stylebop SS21. Photographer: Andreas Ortner at SCHIERKE Artists. Video: Björn Baasner. Creative Direction: Andreas Ortner, Elke Dostal and Julia Ünlu. Fashion Stylist: Elke Dostal. Hair and Makeup: Sacha Schuette & Anna Neugebauer. Set Design: Studio Tina Hausmann. Models: Edge, Jade Muller and Mariana Santana.

Google pagará US$ 76 milhões a publicações francesas após acordo

Nos próximos três anos, gigante pagará US$ 22 milhões anuais no total a um grupo de 121 veículos jornalísticos da França; além disso, outro acordo de US$ 10 milhões foi firmado entre as partes
Por Agências – O Estado de S. Paulo

Na França, Google fecha acordo com publicações jornalísticas 

O Google pagará US$ 76 milhões ao longo de três anos a um grupo de editoras francesas para encerrar uma disputa sobre direitos autorais que já dura mais de um ano, mostraram documentos vistos pela Reuters.

Os dois documentos incluem uma estrutura que estipula que o Google pagará US$ 22 milhões anuais no total a um grupo de 121 veículos jornalísticos da França após, assinar acordos de licenciamento individuais com cada um deles.

O segundo documento é um acordo sob o qual o Google concorda em pagar US$ 10 milhões ao mesmo grupo de veículos em troca de seu compromisso de encerrar todos os litígios potenciais presentes e futuros vinculados a reivindicações de direitos autorais durante o contrato de três anos.

O Google se recusou a comentar. A empresa e as publicações anunciaram que chegaram a um acordo no mês passado, mas os termos financeiros não foram divulgados.

“Esses acordos opacos não garantem o tratamento justo de todas as publicações de notícias, uma vez que a fórmula de cálculo não é tornada pública”, disse o sindicato dos editores de notícias online independentes Spiil no início desta semana.

Também disse lamentar que o setor não tenha formado uma frente unida nas negociações com o Google. “O Google aproveitou nossas divisões para promover seus interesses”.

L’Alliance de la presse d’information generale (APIG), o grupo de lobby que assinou o acordo com o Google, não estava imediatamente disponível para comentar.

Para receber uma parte dos US$ 22 milhões que serão divididos entre as publicações, cada organização será obrigada a assinar um contrato de licenciamento individual com o Google.

As taxas variam de US$ 1,3 milhão para o jornal Le Monde no topo da lista a US$ 13.741 para a publicação local La Voix de la Haute Marne, mostraram documentos. O documento não especifica como esses valores são calculados.

O acordo ocorre após a implementação na França de um novo tipo de regra de direitos autorais sob uma recente lei da União Europeia, apelidada de “direitos vizinhos”. Isso força o Google e outras grandes plataformas de tecnologia a abrir negociações com publicações para remunerá-las pelo uso de seu conteúdo noticioso online.

Aos 80 anos, Sergio Mendes terá vida contada em documentário

Com o mesmo nome de seu recente álbum, ‘In The Key of Joy’ mostra a força de um músico que criou uma sonoridade tão poderosa quanto a próprio bossa nova
Julio Maria, O Estado de S.Paulo

Sergio Mendes, 80 anos Foto: KATSUNARI KAWAI

É curioso ouvir Sérgio Mendes dizer que errou o tempo. “Foi o pior timing do mundo”, fala ao Estadão, por telefone, de sua casa, em Los Angeles. Ele, o músico criador da sonoridade que bateu nos norte-americanos como o “groove brasileiro”, um derivado mais dançante do que a bossa nova, embaixadora inconteste no exterior até o lançamento de sua versão de Mais que Nada, de Jorge Ben, lançada em 1966, no álbum Herb Alpert Present’s Sergio Mendes & Brasil’ 66.

Sérgio, vendedor à época de assustadores 1 milhão de discos nos Estados Unidos e dono de um hit com alto poder de contágio nas rádios enquanto os Beatles lançavam Revolver, falando de tempo errado. Não é verdade. O tempo estava certo. Era 2020, às vésperas de completar 80 anos, bem apropriado para colocar nas plataformas um álbum cheio de convidados especiais e composições novas a fim de confirmar o quanto seu som se tornou uma marca ainda reverenciada por um extenso arco de artistas da nova geração, de rappers a astros do reggaeton, que o querem por perto.

Mas a covid-19 atropelou o mundo e os planos de Sergio. O álbum In The Key Of Joy saiu em 28 de fevereiro de 2020, ganhou boas críticas, mas não fez um terço do barulho esperado. Muita gente no Brasil nem sabe de sua existência. A imprensa especializada nos Estados Unidos, como sempre, estava atenta a Mendes. “Não me interpretem mal”, escreveu o crítico Ad Amorosi, da publicação norte-americana JazzTimes, antes de pisar em um campo minado com um dos comentários mais intrigantes das análises: “Mendes tem sido um rosto para os sons alegremente sofisticados do Brasil desde que se afastou de seu mentor Antônio Carlos Jobim e trouxe a bossa nova jazz para a proeminência do rádio pop AM dos anos 60”, disse, referindo-se às diferenças de sua festiva fase norte-americana em comparação com o álbum instrumental de 1963, que Sergio Mendes tanto preza, Você Ainda Não Ouviu Nada!, gravado com o grupo Bossa Rio. 

Jobim nunca se afastou de seu repertório, mas talvez o jornalista se refira ao tratamento das gravações. E ele acerta ao falar do “rosto para os sons alegremente sofisticados do Brasil.” Seu novo álbum, lançado 55 anos depois de Mas Que Nada, preserva o otimismo dos tempos em que levou um outro sol à Califórnia. De produção volumosa e com muitas participações, como gosta Mendes, ele não tem as sutilezas preservadas no passado de 1966, como Going Out Of My Head, ou reverências mais delicadas, como sua versão de O PatoIn The Key of Joy tem bases rítmicas poderosas e arranjos transbordantes para a série de convidados que chegam reforçando a ideia de Brasil turístico de Sergio Mendes com a qual o pianista construiu sua marca.

Sobre o fato de ter feito sua carreira à base de encontros, ele diz: “É isso mesmo, sempre foi assim.” E de ter extraído seu Brasil de uma ideia paradisíaca que, na prática, pode nem mais existir, fala o seguinte: “Eu cheguei aqui (aos Estados Unidos) em 1964. Já foram tantos governos (no Brasil) de lá para cá… Como não estou aí, fica difícil fazer um julgamento à distância.” 

Mas os dias de pandemia parecem ter escancarado um pouco mais o que é esse Brasil distante de sua música. “Vejo de longe como o País está sendo administrado e dá uma grande tristeza, triste ver ainda esse negacionismo (com relação à pandemia). Passamos por isso aqui também. Eu acredito que não posso deixar isso afetar o meu trabalho, não podemos perder a esperança. Precisamos continuar dando prazer às pessoas.”

Assim, à parte de uma crítica que pode vê-lo com certo alienismo, Mendes revela seu engajamento como embaixador não oficial de um lugar que precisa resistir ainda que seja apenas na ideia. “A música se torna o único refúgio no qual você pode se expressar.”

Repertório. As bases de samba de seu álbum, e ele está sempre apoiado a elas, foram gravadas no Brasil para receberem a voz do engajado rapper norte-americano Common (em Sabor do Rio), do sambista Rogê e da mulher de Mendes, Gracinha Leporace (em Bora Lá), da jovem Sugar Joans (em Samba in Heaven), de Hermeto Pascoal e Gracinha (em This is It) e de seu talismã das restaurações will.i.am em Água de Beber, uma escolha talvez estratégica se lembrarmos da revisão estrondosa que o Black Eyed Peas, de will.i.am, fez com Sérgio em 2006 ao relançar Mas Que Nada no disco Timeless.

Água de Beber tem um potencial de pista incontestável e vem pronta para as adorações cool que permeiam a carreira de Mendes, mas não havia clima em fevereiro de 2020 para que os volumes fossem aumentados. “Quero fazer uma turnê com esse repertório no ano que vem”, ele diz, já vacinado com a primeira dose do imunizante contra a Covid-19. Seu tempo de isolamento foi aproveitado para assistir a muitos filmes das plataformas de TV e fazer em casa tudo mais o que a estrada não o permitiu que fizesse por anos.

Documentário. Ao mesmo tempo em que pode falar do álbum como novidade, Sergio anuncia um documentário com o mesmo nome do disco, feito pelo diretor John Scheinfeld, autor de filmes sobre as vidas de Harry Nilsson, John Lennon e John Coltrane. “Eu senti fortemente que este filme precisava ser um contraponto à toda escuridão vinda de Washington e à polarização política que domina a paisagem cultural hoje em dia”, disse o cineasta, antes da eleição de Joe Biden. Além de depoimentos de Quincy Jones, will.i.am, John Legend e Carlinhos Brown, há histórias de encontros com Frank Sinatra, Elvis Presley e Stevie Wonder. “Sergio traduziu o que estava acontecendo no Brasil para o resto do mundo”, diz will.i.am. 

Sergio fala que seu contato com músicos jovens, como Sugar Joans ou a dupla colombiana Cali Y El Dandee, com quem faz La Noche Entera, vem da mesma curiosidade que o levou aos Estados Unidos nos anos 60. “Tudo tem a ver com essa minha vontade de conhecer gente nova. Recebo muitas coisas de outros países. Às vezes, esse encontro existe, às vezes não.” Uma de suas histórias mais saborosas, que recorda na entrevista, foi a que se passou logo depois de sua gravação da canção assinada por Lennon e McCartney, mas feita de fato por Paul, The Fool on The Hill, do LP de mesmo nome, lançado por Sergio em 1968. Os Beatles haviam lançado a música em Magical Mystery Tour um ano antes. Paul ouviu a versão de Sérgio e escreveu uma carta ao brasileiro, dizendo ser aquela a mais bela regravação de sua música. Ao menos, até ali. Imaginário ou real, o Brasil de Sergio Mendes segue indestrutível aos olhos de um mundo que, da tríade carnaval, futebol e samba, parece estar comprando apenas a música.

Novo filme com Tom Hanks, ‘Relatos do mundo’ é western com tintas políticas

Produção do diretor Paul Greengrass, disponível no Netflix, tem ótima química entre atores; crítico do GLOBO aplaude o longa
Mario Abbade

Tom Hanks e Helena Zengel em “Relatos do Novo Mundo”, de Paul Greengrass. Foto: Photo Credit: Bruce W. Talamon/U / Divulgação

Da mesma maneira que filmes futuristas sobre comunidades distópicas têm como objetivo fazer um comentário ou estimular debates sobre a nossa realidade, os westerns, ao remeter ao passado, muitas vezes seguem esse norte. Assim, o que parece ser somente sobre pistoleiros, xerifes, duelos, tiroteios e perseguições a cavalo, entre outras características do gênero, tem frequentemente ambições de grande reflexão. Cineastas como John Ford, Howard Hawks e Clint Eastwood, para citar alguns, utilizaram o gênero para falar sobre idiossincrasias do povo americano. “Relatos do mundo”, do diretor Paul Greengrass, trilha o mesmo caminho dos faroestes clássicos.

Apesar de ter sido filmado antes da recente invasão ao Capitólio em Washington, o filme de Greengrass parece ter se inspirado no acontecimento pela maneira como apresenta o permanente estado de confronto que prevalece na terra do Tio Sam — o que pode trazer à memória, por exemplo, a Guerra de Secessão entre o Norte liberal e o Sul escravocrata.

Mas, na polarização que retrata, Greengrass ilustra o radicalismo de certos grupos que compõem a sociedade sem maniqueísmos, demonstrando que os diferentes lados têm suas falhas. Mesmo entre problemas como xenofobia e racismo, o diretor leva em conta o que faz parte do cardápio, sugerindo que um diálogo desarmado possa ser a solução.

Para conduzir essas ideias, Greengrass conta a história do capitão Jefferson Kyle Kidd (Tom Hanks), que, cinco anos após o fim da Guerra Civil, cruza o caminho de uma menina (Helena Zingel) de 10 anos levada pelo povo Kiowa. Com a criança forçada a voltar para sua tia e seu tio, Kidd concorda em escoltá-la pelas planícies implacáveis do Texas. Essa jornada acaba inserindo o projeto em outro gênero americano bastante popular: o road movie, os filmes de estrada nos quais um personagem faz uma viagem que altera sua perspectiva de vida.

Além das tintas políticas, “News of the world” (no original) também é um longa sobre culpa e sobre paternidade. Para isso, Greengrass conta com belas performances da dupla Tom Hanks e Helena Zingel. A química entre os dois é um dos trunfos do projeto. Hanks imprime a costumeira credibilidade ao papel, e Zingel demonstra que seu ótimo desempenho em “Transtorno explosivo” (2019) não foi por acaso — ela foi indicada a atriz coadjuvante do Globo de Ouro deste ano. A trilha sonora de James Newton Howard também está na disputa pelo prêmio.

Greengrass já havia trabalhado com Hanks em “Capitão Phillips” (2013) com um belo resultado. Em “Relatos do mundo”, o que se vê comprova a parceria azeitada da dupla, e, apesar das características díspares entre os dois personagens do ator sob a batuta do diretor, numa coisa eles são semelhantes: não hesitam em se questionar sobre o que fazer quando se deparam com uma situação que foge à cartilha do dia a dia.

Cotação: ***** Excelente!