Afogado em dívidas, Peixe Urbano não tem dinheiro nem para demitir

Por Rennan Setti

Peixe Urbano | Divulgação

Em meados de janeiro, Nicolás Leonicio, sócio e CEO do Peixe Urbano, foi direto com os funcionários.

—Não temos dinheiro nem sequer para demiti-los — admitiu o executivo chileno em reunião virtual, registrada em áudio ao qual a coluna teve acesso. — Mas negociamos com potenciais investidores uma injeção de recursos. Até semana que vem teremos uma resposta. 

Há oito meses, os 150 empregados do site de cupons ouviam essa promessa. O rumor de que um cheque milagroso de US$ 1 milhão cairia nas contas do Peixe Urbano circulava há semanas, sem jamais se concretizar. Mas a paciência havia acabado. 

Com pelo menos R$ 50 milhões em dívidas, os salários estavam atrasados e o 13º não havia sido pago. A reunião era para contar aos celetistas que eles só receberiam 40% do pagamento, enquanto os PJ ficariam sem um tostão. E isso embora fossem assediados e até ameaçados de morte por parceiros do Peixe Urbano. Metade das dívidas é com mais de 12 mil estabelecimentos com os quais o site tinha contrato. 

Mais uma vez, a injeção de recursos não veio. Alguns dias após aquela reunião, acabou o dinheiro do Peixe Urbano até para pagar os servidores que hospedavam o site, que está fora do ar há três semanas. Os salários de janeiro não foram pagos, e os empregados tentam na Justiça uma rescisão indireta, espécie de justa causa ao contrário, com intermediação sindical. Seria a única saída para conseguirem sacar o FGTS.

Sem recursos para recuperação judicial 

Há anos o Peixe Urbano dava prejuízos, mas chegava a vender até R$ 1,5 milhão em cupons por dia. Na pandemia, isso acabou, já que 95% estavam associados a cinemas, viagens e restaurantes. No fim de março, quando 200 empregados foram demitidos, as vendas já estavam abaixo de R$ 100 mil por dia. Logo os escritórios de Rio e São Paulo foram fechados, enquanto a sede em Florianópolis é alvo de ação de despejo.

Quase todos os diretores já se demitiram. Muitos pressionavam Leonicio a pedir recuperação judicial, como fez em dezembro a operação no Chile, que deve US$ 35 milhões. Mas o braço brasileiro não teria como pagar o procedimento judicial, nem o que dar em garantia.

Com receita zerada e sem saída à vista, Leonicio se agarra à esperança de achar um comprador — embora ex-executivos questionem sua capacidade para encontrar interessados em um modelo de negócios aparentemente esgotado. No passado, ele rejeitou ofertas que pagariam o valor simbólico de R$ 1, assumindo as dívidas. 

Procurados, Peixe Urbano e Nicolás Leonicio não se manifestaram.

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