Brasileiros aumentam a mobilização em torno do movimento #FreeBritney

Grupos organizados em aplicativos de mensagens chegam a reunir 300 pessoas para promover a causa, que pede o fim da tutela do pai sobre Britney Spears
Eduardo Vanini

Jovens participam de manifestação nos Estados Unidos, em defesa da liberdade de Britney Spears Foto: John Parra / Getty Images

A certa altura do documentário “Framing Britney Spears” (“Enquadrando Britney Spears”, em tradução livre), o crítico de cinema Wesley Morris, do jornal “The New York Times”, diz: “Ninguém estava discutindo saúde mental, quando Britney passou por aquelas coisas em público. Havia muito dinheiro a se ganhar com o seu sofrimento”. A fala alude a episódios como aqueles em que a cantora raspou a cabeça e atacou paparazzi com um guarda-chuva, em 2007. Imagens que, na época, foram exaustivamente exploradas em manchetes levianas e postagens debochadas nas redes sociais.

Mais de dez anos depois, um grupo cada vez maior de pessoas mostra-se finalmente disposto a uma compreensão mais humana e racional do que aconteceu ali. Aos 39 anos, a cantora que já teve o título de princesinha do pop parece aprisionada a um pesadelo, do qual seus fãs estão empenhados em libertá-la. O movimento #FreeBritney, cuja capilaridade não para de crescer, defende a tese de que ela vive permanentemente submetida aos desejos de seus empresários e de seu pai, Jamie Spears, que desde 2008 tem a custódia e a tutela legal e financeira da filha, obtida sob a alegação de que ela sofre de “problemas de saúde mental”. A própria artista acionou, no ano passado, a Suprema Corte da Califórnia, nos Estados Unidos, para que o pai fosse removido da tutela, mas não obteve sucesso.

A situação é um dos principais temas explorados pelo documentário, lançado no começo do mês e exibido pelo canal FX, com produção do próprio “The New York Times”. Mas o filme vai além. Mostra como a cantora enfrentou, desde cedo, a voracidade de paparazzi e as abordagens sexistas de jornalistas com perguntas constrangedoras sobre os seus seios, além de acusações de ser um mal exemplo. Nessa trajetória, a jovem sorridente foi sucumbindo a uma melancolia perturbadora.

Britney Spears acompanhada pelo pai, em Beverly Hills, em 2008 Foto: Hector Vasquez / Getty Images
Britney Spears acompanhada pelo pai, em Beverly Hills, em 2008 Foto: Hector Vasquez / Getty Images

O professor de comunicação Alan Mangabeira, que estudou o comportamento de fãs de Britney em sua tese de doutorado pela Universidade Federal de Pernambuco, está entre os criadores de um dos maiores sites brasileiros dedicados à pop star, o britneyonline.com.br. Ele começou a desconfiar de que havia algo de errado antes mesmo de o movimento #FreeBritney ganhar corpo. Quando a cantora veio ao Brasil, em 2011, para uma turnê, Mangabeira trabalhou na produção de um documentário sobre a passagem dela pelo país. Durante a apuração, descobriu que fotógrafos recebiam, da equipe da artista, horários e locais onde poderiam produzir “flagras”. “Chamou atenção porque ela já estava sob tutela e vivia uma vida mais reservada. Essa era, certamente, uma agenda que não podia controlar”, afirma. “Como que, numa passagem rápida pelo Brasil, em que ela fez questão de trazer os filhos, os fotógrafos recebiam detalhes do horário em que ela estaria na piscina do Fasano tomando sol, para que pudessem produzir cliques do prédio vizinho?”

O fato é que, de lá para cá, as turnês internacionais minguaram e a artista passou fazer shows em temporadas fixas em Las Vegas, nas quais o playback era usado do começo ao fim. Em alguns casos, até a interação com público era pré-gravada, segundo Mangabeira. “Acho muito simbólico o fato de a Britney ser uma artista sem voz no palco”, avalia. “Certa vez, houve uma apresentação em que ela pegou um microfone de mão, conversou com a plateia e cantou uma canção ao vivo. Nesse dia, disse que se sentia como se estivesse cometendo um crime.”

Grupo faz protesto diante de Tribunal em Los Angeles, em setembro de 2020 Foto: Frazer Harrison / Getty Images
Grupo faz protesto diante de Tribunal em Los Angeles, em setembro de 2020 Foto: Frazer Harrison / Getty Images

Acostumado a entrevistar celebridades internacionais, o jornalista e apresentador Zeca Camargo presenciou uma situação, cujo relato também contribuiu para que Mangabeira ficasse em alerta sobre a cantora. O apresentador havia voado para Nova York, no início dos anos 2000, onde faria uma entrevista com Britney e, enquanto aguardava a sua vez de encontrá-la, a viu cruzar os corredores aos prantos, dizendo que havia sido ofendida e não daria mais entrevistas. “Parece que o jornalista a tinha questionado sobre o fato de não ser uma pessoa autêntica”, recorda-se Zeca. “Mais tarde, recebi um comunicado de que todas as demais entrevistas haviam sido canceladas.”

Com visão privilegiada do showbiz, o apresentador acredita numa espécie de pacto entre celebridades e a cobertura midiática. Mas isso, na visão dele, vira um problema quando a pessoa não consegue sustentá-lo. “Não digo que a Britney é culpada”, ressalta. “Mas essa relação é supersimbiótica. No caso dela, como acontece com tantas outras, perdeu-se esse controle. E, quando isso acontece, a pessoa deixa de ter a sua própria narrativa.”

A perda de controle, na opinião de Mangabeira, tem a ver, inevitavelmente, com a ação opressiva do pai. Mas ele discorda da teoria de que Britney esteja pedindo ajuda em suas redes sociais, por meio de mensagens cifradas, como teorizam muitos fãs. Uma pessoa que vive nessas condições, acredita, certamente não tem livre acesso às próprias contas. De todo modo, o professor é entusiasta do movimento #FreeBritney e ajuda difundi-lo no Brasil, promovendo mutirões e acionando influenciadores para que subam a hashtag. Grupos no Telegram chegam a reunir até 300 pessoas em torno do tema e, graças a essa organização, a cantora está frequentemente entre os assuntos mais comentados no Twitter.

O desfecho desse enredo ainda é incerto, mas um fato é incontestável: o exército aliado de Britney não vai recuar tão cedo. O barulho tem sido tanto, que outros documentários produzidos por gigantes do audiovisual estão a caminho. Uma história sem precedentes no mundo pop.

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