‘Como Britney Spears, fui manipulada e sexualizada quando criança’, revela Mara Wilson, atriz mirim de ‘Matilda’

Em artigo publicado no ‘New York Times’, a atriz Mara Wilson, que protagonizou o filme ‘Matilda’ em 1996, aos 8 anos de idade, fala sobre o tratamento que atrizes mirins recebem em Hollywood. Leia na íntegra
Mara Wilson*

‘Hollywood decidiu combater o assédio na indústria, mas a verdade é que nunca fui assediada no set de filmagem; isso sempre aconteceu pelas mãos da imprensa e do público’, diz atriz de ‘Matilda’ Foto: Reprodução/NYT

Comemorei meu 13º aniversário trancada em um quarto de hotel em Toronto.Era julho de 2000, e eu estava em turnê para promover o filme “Thomas e a Ferrovia Mágica”. Tinham me prometido o dia de folga, mas, quando cheguei de Los Angeles, na noite anterior, fiquei sabendo que teria de falar com a imprensa o dia todo. Trabalhar nesse dia para mim não era novidade: eu já tinha comemorado meus oito anos no set de “Matilda”, e os nove filmando “Um Passe de Mágica”, mas mesmo assim ainda era decepcionante. Se não fosse pela babá, eu estaria sozinha.

Na manhã seguinte me levantei, ainda meio zonza por causa do fuso horário, e coloquei minha melhor roupa da Forever 21. Dois coordenadores de imprensa vieram me ver antes de eu começar a maratona de entrevistas, e perguntaram se eu queria que desligassem o ar, se eu queria um refrigerante. Eu disse que estava tudo bem, porque não queria ficar com fama de resmungona, mas, quando a jornalista me perguntou como eu estava, cometi um dos maiores erros da minha vida: eu lhe disse a verdade.

Não sei por que me abri, mas eu nunca fora muito boa em esconder o que sinto. (Para mim, atuar é bem diferente de mentir.) E ela parecia realmente interessada.

No dia seguinte, o jornal de referência do Canadá me colocou na primeira página do caderno de entretenimento. O artigo começava assim: “A entrevista nem começara com Mara Wilson, a Estrela Mirim, e ela já reclamava com o pessoal da equipe.”

Daí para a frente, o artigo me descrevia como uma “fedelha mimada” que agora estava “passada da idade”. Falava dos caminhos sombrios que os astros mirins como eu volta e meia trilhavam. Adotava aquilo a que hoje me refiro como “A Narrativa”, a ideia de que qualquer um que tenha crescido aos olhos do público terá um fim trágico.

Aos 13, eu já sabia tudo sobre ela. Atriz desde os cinco anos e protagonista desde os oito, eu fora treinada para parecer e ser tão normal quanto possível – e fazer o que fosse preciso para evitar minha queda inevitável. Eu dividia o quarto com minha irmã caçula. Estudava em escola pública. Era escoteira. Quando alguém me chamava de “estrela”, eu devia insistir que era só atriz, e que as estrelas estão no céu. Ninguém mexeria no meu dinheiro até eu completar 18 anos. Mas eu tinha 13 e já estava arruinada, como todos esperavam.

Tem um trechinho da matéria que se destaca para mim hoje, em meio a comentários de agentes dizendo que as meninas de 12 anos tinham de ter uma “aparência inocente” e “cara de garota-propaganda de sabão em pó” para serem escaladas, além das descrições sensacionalistas de astros mirins lutando contra o vício; a repórter tinha me perguntado o que eu achava da Britney Spears, e aparentemente eu disse que a “detestava”.

Na verdade, eu não odiava Britney Spears, mas jamais admitiria gostar dela. Havia um traço forte de “não gostar de outras garotas” em mim nessa época que hoje me constrange – embora, cá entre nós, não fosse nisso que eu tinha de acreditar depois de ter passado a maior parte da infância competindo com outras meninas? Em parte, era pura inveja por ela ser bonita e descolada como eu jamais seria, mas principalmente porque já absorvera a versão da “Narrativa” que a cercava.

Mara Wilson in 2019.Credit…Elizabeth Weinberg for The New York Times

O jeito como as pessoas falavam de Britney Spears me apavorava na época, e ainda hoje me assusta. Sua história é o exemplo mais gritante de um fenômeno que testemunhei durante anos: nossa cultura cria essas garotas apenas para poder destruí-las. Por sorte, as pessoas estão se conscientizando do que fizemos a ela e começaram a se desculpar, mas continuamos convivendo com as consequências.

Em 2000, Spears já era considerada uma “Menina Má” – rótulo que, segundo notei, era dado às garotas que mostrassem qualquer indício de sexualidade. Acompanhei o alvoroço causado pela matéria de capa da “Rolling Stone”, cuja primeira linha descrevia suas “coxas de mel”, e o furor nos fóruns do AOL por causa da camiseta dela, que revelava seus mamilos. Vi muitas atrizes e cantoras adolescentes usarem a sexualidade como um rito de passagem, aparecendo nas capas de revistas masculinas ou em videoclipes tórridos. Decidi que jamais me submeteria a tal coisa.

De qualquer maneira, porém, eu já tinha sido sexualizada e odiava aquilo. Praticamente só havia atuado em filmes para a família: o remake de “De Ilusão Também Se Vive”, “Matilda”, “Uma Babá Quase Perfeita”; nunca usara nada mais revelador do que um vestido de verão na altura do joelho. Tudo intencional, pois meus pais achavam que assim eu estaria mais segura. Pena que não tenha adiantado.

Desde que eu tinha seis anos, os repórteres me perguntavam nas entrevistas se eu tinha namorado, quem eu achava o ator mais sensual e qual minha opinião sobre a prisão de Hugh Grant por ter contratado uma prostituta. Era fofo quando os meninos de dez anos me mandavam cartas se dizendo apaixonados por mim, mas aterrador quando quem escrevia era um homem de 50. Antes de completar 12 anos, havia fotos minhas em sites podólatras e imagens adulteradas envolvidas com pornografia infantil. E toda vez eu morria de vergonha.

Hollywood decidiu combater o assédio na indústria, mas a verdade é que nunca fui assediada no set de filmagem; isso sempre aconteceu pelas mãos da imprensa e do público.

Boa parte da “Narrativa” é a presunção de que os famosos mirins merecem o que sofrem. “Pedem” para passar por isso ao se tornarem estrelas cheias de privilégios; portanto, tudo bem atacá-los. De fato, ela tem menos a ver com a criança do que com as pessoas à sua volta.

A MGM dava remédio para manter Judy Garland acordada e emagrecer quando ela ainda estava no começo da adolescência. A ex-estrela mirim Rebecca Schaeffer foi assassinada por um fã obcecado. Drew Barrymore, que foi para a reabilitação ainda adolescente, tinha um pai alcoólatra e uma mãe que a levava para a famosa casa noturna Studio 54 em vez de deixá-la na escola.

E esses são exemplos que nem começam a levar em consideração os abusos do público sobre atores não brancos, principalmente negros. Amandla Stenberg, por exemplo, foi assediada depois de ter sido escalada para encarnar uma personagem de “Jogos Vorazes” que no livro era negra, mas que alguns leitores da série tinham imaginado como sendo branca.

O mais triste do “colapso” de Spears é que ele não precisava ter acontecido. Quando ela se separou do marido, raspou a cabeça e atacou os carros dos paparazzi furiosamente com um guarda-chuva, a “Narrativa” lhe foi imposta, mas a verdade é que tinha se tornado mãe recentemente e estava lidando com mudanças enormes de vida. A pessoa precisa de espaço, tempo e carinho para lidar com essas coisas, mas ela não teve nada disso.

Muitos momentos da vida de Spears me são familiares. Também fui manipulada feito boneca, tive amigos íntimos e namorados que saíram espalhando segredos meus e havia homens adultos fazendo comentários sobre meu corpo. Mas minha vida foi um pouco mais fácil não só porque não fui tão famosa a ponto de ser alvo dos tabloides, mas porque, ao contrário dela, sempre tive o apoio da família. Eu sabia que havia dinheiro sendo guardado para mim, e que era meu. Quando eu precisava fugir dos olhos do público, desaparecia na segurança de casa ou da escola.

Quando o artigo que se referia a mim como mimada foi publicado, meu pai me deu a maior força. Ele me lembrou de ser mais positiva e contida nas entrevistas, mas deu para perceber que também não achou o comentário justo. Sabia que eu era muito mais do que a jornalista escrevera a meu respeito, o que acabou me ajudando a ter a mesma percepção.

Às vezes me perguntam como consegui me transformar em uma adulta “normal”. Uma vez, uma pessoa que eu considerava amiga me perguntou, com um sorrisão: “Qual a sensação de já ter chegado ao auge?” Na hora, eu não soube o que responder, mas hoje eu diria que foi porque a pergunta estava errada. Não cheguei ao auge porque para mim a “Narrativa” não é mais a história que outras pessoas escrevem. Eu mesma posso fazê-lo.

*Mara Wilson é atriz, tem 33 anos, e fez filmes como “Matilda” e “Uma Babá Quase Perfeita”

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