Iniciativas lideradas por mulheres negras repensam padrões da arquitetura para reduzir desigualdades

Apesar de áreas periféricas serem povoadas, em sua maioria, por pessoas pretas e pardas apenas 30% dos estudantes nos cursos de Arquitetura do país são negros
Gisele Araújo

Arquitetas: Patrícia Oliveira, Gabriela de Matos e Patti Anahory Foto: Arte

Depois de reformar a lavanderia de sua casa, Jaqueline Martins, de 43 anos, viu sua vida mudar ao integrar um projeto que capacita mulheres na área da construção civil. Trabalhadora doméstica desde os 12 anos, ela ficou desempregada um pouco antes da pandemia de Covid-19 e decidiu se matricular nas aulas de azulejista que o Movimento Fazendinhando oferece em seu bairro, o Jardim Colombo, na Zona Oeste de São Paulo. Hoje, é ajudante de obras.

Além de poder reformar sua casa, Jaqueline e as outras 24 mulheres do curso, com idades entre 20 e 50 anos, também atuam em obras de melhoria da comunidade. Ester Carro, arquiteta e urbanista e idealizadora do Movimento Fazendinhando, acredita que os encontros fizeram surgir um grupo de mulheres sem rivalidades e de fortalecimento do sentido de comunidade. Como ela, outras arquitetas negras ajudam a pensar soluções para as necessidades dos moradores de periferia.

Movimento Fazendinhando, criado pela arquiteta Ester Carro Foto: Divulgação
Movimento Fazendinhando, criado pela arquiteta Ester Carro Foto: Divulgação

— Pensamos em um curso que ensinasse construção civil às mulheres. Além da parte teórica e prática sobre aplicação de azulejos e pintura, incentivamos essas mulheres a fazer a reforma da casa delas e a trabalhar onde quiserem. Nós as ajudamos a mudarem a realidade de onde vivem — diz Ester.

Apesar de áreas periféricas serem povoadas, em sua maioria, por pessoas pretas e pardas, segundo o Censo da Educação Superior de 2016, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apenas 30% dos estudantes nos cursos de Arquitetura do país são negros. O governo federal aprovou, em 2008, a Lei 11.888, que prevê gratuidade nos serviços de assistência técnica em habitação para famílias que recebem até 3 salários mínimos. A legislação, entretanto, não chega para todos, impedindo o exercício de direitos básicos.

A arquiteta Patrícia Oliveira, que participa do seminário Imersões Foto: Divulgação
A arquiteta Patrícia Oliveira, que participa do seminário Imersões Foto: Divulgação

— Falar em favela nas universidades é muito importante. Quando os projetos são para as comunidades, o que eu observo é que os arquitetos não dialogam com os moradores. Eu cito como exemplo o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Manguinhos (RJ). Se os moradores tivessem sido ouvidos, eles teriam resolvido o problema das enchentes, algo recorrente na região — explica a arquiteta Patrícia Oliveira, uma das participantes do seminário “Imersões: arte e arquitetura”, que acontecerá de 2 a 5 de março e discutirá, entre outros temas habitação social e alteridade.

O objetivo do evento é propor novos olhares sobre os padrões hegemônicos da arquitetura do Rio de Janeiro, a partir da visão feminina, negra e de moradoras das favelas. As participantes discutirão as relações sociais, a participação dos habitantes e sua circulação, os aspectos visuais e ambientais que são, ou deveriam ser, computados na elaboração de projetos que se proponham a redimensionar ou reconfigurar o espaço urbano.

A arquiteta Gabriela Matos, que participa do Seminário Imersões Foto: Divulgação
A arquiteta Gabriela Matos, que participa do Seminário Imersões Foto: Divulgação

— Temos muito o que discutir, os desafios são muitos. O maior de todos passa por não conhecermos nossas referências, como eram a arquitetura indígena e a que chegou com nossos ancestrais negros. É importante entender e assimilar com novas tecnologias, adaptar para lugares mais afastados e construir uma arquitetura que esteja 100% voltada para a redução das desigualdades — afirma Gabriela de Matos, arquiteta, urbanista e fundadora do projeto Arquitetas Negras, que participará do “Imersões” ao lado de Patrícia Oliveira.

O projeto liderado por Gabriela, atua desde 2018 mapeando a produção das arquitetas negras brasileiras. Até agora, foram mapeadas 624 arquitetas de todo Brasil, o que representa um dado inédito, já que o Conselho de Arquitetura e Urbanismo não realiza censo étnico racial.

— Iniciei uma pesquisa quase arqueológica, que eu chamo a princípio de “arquitetura da diáspora africana”. A partir daí, me perguntei sobre minhas colegas negras na minha área de atuação, mas tive dificuldade em encontrá-las. A gente passa pela formação sem essa referência e sem saber o que estava sendo produzido — afirma Gabriela.

O seminário também propõe um diálogo entre a arquitetura brasileira e aquela produzida em países da África. Ambos territórios enfrentam adversidades históricas parecidas, como a moradia, ou ausência total dela, a falta de saneamento básico e de tratamento de esgoto, entre outras. Além das questões estruturais, o evento também refletirá sobre os padrões hegmônicos na arquitetura, em sua maioria europeus.

Arquiteta Patti Anahory, que participa do Seminário 'Imersões' Foto: Divulgação
Arquiteta Patti Anahory, que participa do Seminário ‘Imersões’ Foto: Divulgação

A arquiteta cabo-verdiana Patti Anahory, que também participará do Imersões acredita que a Academia precisa se transformar. Ela foi a segunda mulher a vencer a Rotch Travelling Scholarship em 113 anos de existência do programa, e a primeira entre todos os selecionados, a viajar para estudar a África Subsaariana:

— Acredito que a transformação tem que começar mesmo na Academia como instituição de definição de valor e de produção de significados. Os currículos das universidades precisam ser reavaliados, pois há uma segregação social, espacial e de conhecimento. É preciso valorizar nossos outros saberes, que não necessariamente passam pela academia — afirma.

Serviço:

Seminário online Imersões: Arte e Arquitetura
Data e horário: 2 a 5 de março, das 17h às 20h
Inscrições gratuitas: https://imersoes.arq.br/
Os participantes previamente inscritos receberão certificado

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