Falta de investimento em mulheres vira dor de cabeça para o mercado de startups

Pandemia prejudicou a capacidade de captação de startups com liderança feminina; iniciativas tentam reverter o cenário
Giovanna Wolf, Bruna Arimathea e Nina Gattis

Rafaela Bassetti e Itali Collini, da WisheTIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Foram mais de 100 apresentações para investidores no ano passado. Em nenhuma delas Aline Lefol, 36, conseguiu o aporte que queria para sua startup, chamada Lilu, que oferece serviços de banho e tosa a animais de estimação em domicílio. O crescimento de 400% da empresa em receita em 2020 e o momento de “boom” do setor pet pareciam não chamar a atenção dos investidores — todos homens. “Era notória uma certa desconfiança, mesmo eu apresentando resultados excelentes de indicadores de crescimento comprovados”, conta Aline. A saída foi buscar o cheque em uma via nada tradicional: um reality show voltado para startups.

Frustrações como a de Aline são comuns para mulheres que atuam no ecossistema de inovação e tecnologia: se o mercado de trabalho como um todo já é marcado por desigualdade de gênero, a ferida se alarga em um setor que reúne profissionais das áreas de computação e engenharia, tradicionalmente masculinas. Apesar de o mercado ter avançado nos últimos anos para incluir cabeças femininas no segmento, com capacitação e treinamento, ainda falta um componente essencial para as startups de mulheres ganharem espaço: dinheiro.

Aline Lefol, da startup Lilu, teve de buscar investimento em um reality showWERTHER SANTANA/ESTADÃO

A diferença entre homens e mulheres pode ser verificada no topo do ecossistema. Segundo levantamento da empresa de inovação Distrito, entre os 36 fundadores de “unicórnios” brasileiros (startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão), há apenas duas mulheres. Olhando para frente, a situação piora ainda mais: os 21 fundadores das startups candidatas a unicórnio em 2021 são homens. Apesar de serem minoria entre as startups brasileiras existentes hoje, empresas de inovação lideradas por mulheres existem. Um mapeamento da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) feito com 3 mil startups no ano passado mostrou que 378 empresas tinham fundadoras mulheres — esse número não conta as startups que têm mulheres como cofundadoras.

“Unicórnios” masculinos
Presença de mulheres em “unicórnios” (startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão)

Além disso, dados globais mostram que o cenário de investimento em startups de mulheres piorou na pandemia. De acordo com o Crunchbase (plataforma usada para encontrar informações comerciais sobre empresas privadas e públicas), apenas 2,3% do total de aportes de capital de risco em startups no mundo em 2020 foi destinado a empresas fundadas por mulheres — em 2019, essa proporção era maior, de 2,8%. Quanto ao volume de investimento, houve uma queda de 27% em 2020, chegando a US$ 4,9 bilhões.

Para especialistas, um dos motivos para o agravamento da situação foi a carga horária infinita atribuída à mulher na pandemia. “As mulheres estavam começando a ir para o meio do jogo, mas olhar para as crianças dentro de casa foi um golpe na produtividade”, afirma Dani Junco, presidente executiva da aceleradora B2Mamy, focada em mães empreendedoras. “Mulheres que já tinham suas startups ficaram sobrecarregadas, sem energia para sair para captar (investimento), e quem tinha o sonho de criar uma startup teve de adiar”. Foi um efeito sentido na economia como um todo: em 2020, a participação das mulheres no mercado de trabalho atingiu o menor patamar em 30 anos, segundo dados do IBGE.

Para Dani Junco, da B2Mamy, a pandemia impactou a produtividade das mulheresB2MAMY

LENTE DE GÊNERO

De olho no problema, estão começando a surgir no Brasil iniciativas de investimento focadas em startups de mulheres. Uma delas é a Wishe Women Capital, um hub de investimentos que conecta startups lideradas por mulheres a investimentos — o projeto conta com uma rede de investidores e também uma plataforma de crowdfunding. Com operação iniciada no ano passado, a Wishe já intermediou dois cheques, que somam juntos R$ 1 milhão.

“Há bastante capital disponível no ecossistema, mas ainda existe uma dificuldade de investidores em se aproximar e se conectar com as mulheres que estão no mercado. Queremos ajudar a direcionar os primeiros cheques para essas startups”, afirma Rafaela Bassetti, presidente executiva da Wishe.Antes de criar essa iniciativa, Rafaela, que é mãe, chegou a empreender na área de inovação. “Estudos no mundo inteiro comprovam que diversidade é um estímulo a resultados financeiros e também à inovação. Estamos querendo simplesmente abrir os olhos dos investidores para oportunidades que eles não estavam olhando”, explica. Além do fator gênero, a Wishe tem como objetivo olhar para o tema de inclusão e diversidade de forma geral, incluindo questões raciais e LGBTs, que também enfrentam graves dificuldades.

Para 2021, a meta da Wishe é realizar entre seis e 12 aportes já neste primeiro semestre. Há também o plano de captar um fundo de cerca de R$ 30 milhões para aumentar o alcance dos investimentos.

Quem também atua nesse sentido é a We Impact, uma empresa no formato “venture builder”, que ajuda no investimento e na construção de startups de mulheres. Criada em 2019, a iniciativa tem o apoio da Microsoft e investiu em 71 startups em 2020 — os cheques variam entre R$ 50 mil e R$ 500 mil. “Vemos muitas boas intenções no ecossistema de startups hoje. Mas a intencionalidade só vai se tornar realidade quando houver consciência de que esse é um tema que de fato precisa ser olhado com atenção”, comenta Lícia Souza, fundadora da We Impact.

Itali Collini e Rafaela Bassetti, da WisheTIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Mesmo que ainda tímidos, fundos de investimento tradicionais começam a dar os primeiros passos para quebrar essas barreiras. No mês passado, a Bossa Nova Investimentos anunciou o lançamento de um comitê focado em investir R$ 5 milhões em cerca de 15 negócios liderados por mulheres. “A ideia nasceu antes da pandemia, mas, no ano passado, vimos que precisávamos acelerar. Além do investimento, queremos realmente acelerar esses negócios e atuar de uma forma bem ativa no dia a dia dessas startups”, diz Carol Paiffer, que participa do comitê da Bossa Nova.

Iniciativas de investimento voltadas a mulheres no Brasil 

WE IMPACT
● Data de criação: 2019
● Número de startups de mulheres investidas: 76 (2020)
● Volume investido em startups de mulheres: R$ 1 milhão (2020)

WISHE WOMEN CAPITAL
● Data de criação: 2020
● Número de startups de mulheres investidas: 2 (2020)
● Volume investido em startups de mulheres: R$ 1 milhão (2020)

COMITÊ DA BOSSA NOVA INVESTIMENTOS
● Data de criação: 2021
● Número de startups de mulheres que serão investidas: cerca de 15
● Volume que será investido em startups de mulheres: até R$ 5 milhões

RODINHAS MASCULINAS

Para as mulheres ascenderem nesse mercado, mudanças no mundo dos investimentos são fundamentais: uma das principais reclamações das empreendedoras do setor ouvidas pela reportagem é a dificuldade de se inserir no círculo de contatos de investidores. “A minha startup precisava de um aporte para escalar em 2021, mas tivemos de pensar muito em qual porta bater. Eu não tinha conexão nem amigos investidores”, conta Andrezza  Rodrigues, fundadora da startup HerMoney, que acabou conseguindo levantar um investimento de R$ 600 mil por meio da Wishe.

“A tendência do investidor é escolher o homem que já está na sua rede, porque ele já o conhece e já sabe desenvolvê-lo. Na pandemia, isso se agravou ainda mais: muitos não querem arriscar em um momento de instabilidade e crise, e acabam investindo em perfis já conhecidos”, afirma Itali Collini, diretora do fundo americano 500 Startups no Brasil e conselheira da Wishe. “Um caminho importante para resolver isso é ter mais mulheres investidoras, que hoje são poucas. Isso acontece porque as mulheres continuam tendo menos patrimônio e mais medo de começar a investir”.

A startup de Andrezza levantou R$ 600 mil por meio da WisheSTARTUP HER MONEY

Com as chances restritas, a sensação, no fim das contas, é de que os chamados “pitches” (apresentações a investidores) precisam ser perfeitos. “Nossas apresentações precisam ser bem pensadas e engajadas: qualquer indício de insegurança já gera mais desconfiança para o investidor que está do outro lado. O pitch da mulher não pode falhar”, diz Aline, da startup Lilu.

MUDANÇA PROATIVA

Iniciativas especializadas em diversidade, porém, não vão dar conta de resolver o problema sozinhas — os seus cheques ainda são pequenos. “A temática da mulher é uma questão que todo o ecossistema precisa se mobilizar”, diz Lícia, da We Impact.

O primeiro passo para aportes maiores é entender quais são as suas barreiras. Em janeiro, a Distrito, a Endeavor e a B2Mamy anunciaram parceria para uma pesquisa chamada Female Founders, cujo objetivo é compreender os diferentes aspectos do empreendedorismo feminino no País — dos desafios para a entrada à permanência e à ascensão de mulheres no universo da inovação. “Precisamos entender as necessidades primeiro, ouvindo as mulheres para isso. Talvez seja necessário ainda mais estímulos anteriores para ter mais startups fundadas por mulheres”, diz Lilian Natal, diretora de comunidade da Distrito.

Ingrid Barth assumiu neste ano o cargo de vice-presidente da ABStartupsABSTARTUPS

Outra mudança é na mentalidade. Para Ingrid Barth, que assumiu em 2021 o cargo de vice-presidente da ABStartups, o esforço de transformar esse cenário passa também por valorizar quando há uma mulher à frente da empresa. “Quando há dois negócios iguais, resolvendo o mesmo problema, deveria ser um critério de desempate para investimento a startup ter uma mulher como fundadora”, afirma.

Não é algo que acontecerá naturalmente. “É difícil atrair diversidade. Se você abre um programa de aceleração hoje, por exemplo, aparecem inscrições principalmente de startups fundadas por homens. É preciso ir atrás dessas mulheres: o processo exige intencionalidade e proatividade”, diz Itali, do 500 Startups.


ENTREVISTA

Maria Rita Spina Bueno,
DIRETORA EXECUTIVA DA ASSOCIAÇÃO ANJOS DO BRASIL

‘PRECISAMOS DE MAIS MULHERES COMO INVESTIDORAS-ANJO E GESTORAS DE FUNDO’

Não foi só a pandemia que teve reflexos no financiamento de startups lideradas por mulheres. A falta de capital tem origem também do outro lado da mesa de negócios: o mundo dos investimentos é majoritariamente masculino.

Para Maria Rita Spina Bueno, diretora executiva da Anjos do Brasil, entidade de fomento ao investimento-anjo, reverter esse quadro é essencial para que mais startups de mulheres tenham acesso a capital. “O universo de investidores não pode ser mais só de homens. Investidoras mulheres conseguem fazer uma leitura melhor de negócios de outras mulheres”, afirma.

Em entrevista ao Estadão, Maria Rita, que também fundou em 2013 o movimento Mulheres Investidoras-Anjo, falou sobre a desigualdade de gênero no ecossistema de startups, a importância da diversidade para a inovação, e os caminhos para incluir mulheres no mercado.

Maria Rita fundou o movimento Mulheres Investidoras-AnjoCAROL KAPPAUN/ANJOS DO BRASIL

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

● Por que startups lideradas por mulheres têm mais dificuldade para  conseguirem levantar investimento?Infelizmente, problemas complexos não têm respostas simples. Vejo que existem algumas coisas que impactam muito. O primeiro aspecto que afeta é que todos nós, homens e mulheres, temos um viés inconsciente de leitura do mundo. Historicamente, foi criada a ideia de que mulheres são menos efetivas, mais suaves, mais delicadas e não trazem tantos resultados em negócios. Então, quando um investidor olha para uma fundadora de startup, ele faz uma leitura enviesada. Outra coisa que acontece muito é que mulheres tendem a querer estar com tudo muito pronto e perfeito na hora de fazer qualquer coisa — e isso inclui a busca de investimento para a sua startup. Olhando para os investimentos que a Anjos do Brasil fez no último ano, apenas cinco entre 19 startups têm fundadoras mulheres. Já é possível ver que algo está errado.

● Avaliando os últimos anos, a sra. percebe que o debate sobre falta de investimento em startups lideradas por mulheres ganhou espaço no mercado brasileiro?Vejo avanço, mas acho que poderíamos acelerar isso. O primeiro ponto é esse mesmo, de consciência. Percebo que investidores estão começando a se abrir para tentar entender a apresentação de uma mulher e tentar fazer uma análise mais isenta. Porém, ainda percebo que muitas pessoas não enxergam isso como um problema. Continuo ouvindo de investidores que eles analisam tudo igual e não olham para gênero — isso não é verdade porque não é assim que a gente se comporta no mundo. Reconhecer que existe o problema é o primeiro passo e, agora, precisamos trabalhar para quebrar isso.

● Por que a pandemia foi especialmente cruel com as startups fundadas por mulheres?Houve um impacto muito grande para as mulheres, porque a casa ainda recai no colo da mulher. E todos nós tivemos de voltar para nossas casas, cuidar mais do lar e estar em casa com crianças — culturalmente, isso recai mais no colo da mulher. As mulheres ficaram ainda mais sobrecarregadas e conseguiram se dedicar menos aos seus negócios. A dupla jornada virou tripla.

● Como reverter essa situação?Precisamos apoiar mais as mulheres fundadoras. Do ponto de vista dos investidores, é preciso estar mais próximo delas, ajudar a estruturar e abrir esse caminho. Também é necessário transformar o mundo de investidores, que não pode ser mais só de homens: precisamos ter mais mulheres como investidoras-anjo e gestoras de fundos. Além disso, precisamos de instrumentos de capital dedicados a investir em mulheres. Com isso, de forma alguma estou dizendo que vamos abaixar a régua. Quando falamos que é importante existir instrumentos de investimento, sejam os fundos ou os próprios investidores determinando uma parte do capital para investir em negócios de mulher, gera incômodo — alguns dizem que isso tira a meritocracia. Eu não estou falando que é investir pior, mas sim fazer um esforço maior para encontrar essas mulheres que estão empreendendo e têm uma visibilidade menor. Isso é necessário para que a gente possa investir em negócios tão bons quanto. Eles existem.

“Não é investir pior, mas sim fazer um esforço maior para encontrar essas mulheres que estão empreendendo”Maria Rita Spina Bueno

Por que é importante ter mulheres no papel do investidor?Mulheres nesse papel conseguem fazer uma leitura melhor do status da startup. Além disso, ter mulheres nesses cargos ajuda a resolver um problema que são os negócios voltados ao público feminino. Muitos investidores homens têm dificuldade de entender esses mercados. Há também a questão da identificação: temos a tendência de nos relacionarmos com pessoas parecidas com a gente. Ter mais mulheres investidoras facilita para que haja investimento em mais mulheres.

● Nos últimos anos, surgiram vários programas de capacitação voltado a mulheres. O momento agora é de focar em aumentar o acesso a capital?É um processo de amadurecimento do ecossistema. Um negócio precisa de muitos apoios diferentes ao longo do tempo: programas de capacitação, aceleração, capital semente e outros investimentos. E, normalmente, isso vai sendo construído ao longo do tempo. Precisamos, claro, continuar com o que a gente já tem, e ampliar cada vez mais esse trabalho todo de aceleração e capacitação. Mas o capital é fundamental: em dado momento só apoio, mentoria e capacitação não resolvem o problema. Precisa de dinheiro. Estamos começando a construir isso, mas ao longo do tempo vamos precisar de dinheiro em volumes muitos maiores.


Como fazer uma apresentação para investidores

Diante da dificuldade de mulheres em conseguir investimento, pedimos a investidores e investidoras dicas de como encarar o desafio dos “pitches”, apresentações em que o fundador da startup exibe seu negócio para conseguir um aporte. Confira abaixo.

DICAS DE PITCH

1Confiança: Além dos negócios, investidores olham para o empreendedor. Seja você mesma, tenha confiança e saiba do seu potencial para conseguir o investimento.

2Audiência: Prepare sua apresentação pensando em qual público irá ouvi-la. Se a plateia já conhece seu negócio, foque em outros pontos e sempre destaque o que sua audiência ainda não sabe.

3Treine: Antes de fazer a exposição aos investidores, faça sua apresentação para amigos ou familiares para chegar no dia com o discurso afiado.

4Foco: Geralmente, os investidores antecipam os assuntos que querem ver abordados na apresentação. Foque em atender a todos esses tópicos.

5Não fuja: Não desvie dos temas propostos pelos investidores nem das perguntas feitas durante a apresentação.


EXPEDIENTE

Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo, Carlos Marin e William Mariotto / Designer multimídia Lucas Almeida / Edição Bruno Romani / Reportagem Giovanna Wolf, Bruna Arimathea e Nina Gattis / Foto do abre Tiago Queiroz/Estadão / Infografista multimídia Gisele Oliveira

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