Quem é Nicolas Di Felice, o novo diretor artístico da Courrèges

60 anos depois que as criações da era espacial do falecido André Courrèges viraram febre no mundo, o estilista belga está apresentando sua coleção de estreia para a casa. Aqui, ele compartilha sua visão para o futuro
LIAM FREEMAN

Nicolas Di Felice (Foto: Divulgação)

Se uma casa Le Corbusier é uma máquina para moradia, uma roupa de André Courrèges é uma máquina para movimentar-se. Discipulo de Cristóbal Balenciaga com formação em engenharia, Courrèges criou roupas que libertaram o corpo das modelagens ampulheta que eram moda anteriormente. Vestidos suspensos a partir dos ombros, muitas vezes usados sem sutiã, saias com que iam até o joelho e, claro, as go-go boots. O futurismo da era espacial de Courrèges foi um sucesso imediato, com fãs que incluíam Jackie Kennedy, sua irmã Lee Radziwill, a herdeira da L’Oréal Liliane Bettencourt e a cantora e compositora Françoise Hardy. 

Agora, 60 anos depois de Courrèges fundar sua casa parisiense, Nicolas Di Felice faz sua estreia como o diretor artístico dela. O estilista belga trabalhou duas vezes com Nicolas Ghesquière, primeiro na Balenciaga e depois na Louis Vuitton – graduando-se de designer júnior a sênior – com passagem pela Dior da era Raf Simons no meio tempo. Antes de sua nomeação ser anunciada em setembro e desde que a Courrèges foi relançada em 2015, a direção criativa foi transferida da dupla da Coperni, Arnaud Vaillant e Sébastien Meyer, para Yolanda Zobel. Di Felice descreve a coleção de inverno 2021 como “uma homenagem ao ateliê e aos arquivos da Courrèges, mas com um pouco mais de ‘Bélgica’. Como se eu tivesse sido levado de um clube em Bruxelas para o 6º Arrondissement de Paris.” 

 (Foto: Automne-Hiver)
Courrèges (Foto: Divulgação)

Antes do desfile da Semana de Moda de Paris no dia 3 de março – pré-gravado algumas horas antes da transmissão, nós conversamos com o rapaz de 37 anos via Zoom para conhecer o novo homem à frente da Courrèges. 

Di Felice cresceu muito longe das quatro grandes capitais da moda 
“Venho de uma região próxima a Charleroi, na Bélgica, que é conhecida por ser ‘a cidade mais feia do mundo’, mas não vejo dessa forma. Ela foi construída perto das indústrias de mineração de carvão e aço – meus avós mudaram-se para cá vindos da Itália para trabalhar nas minas, então aqui é intenso e pós-industrial. O vento cobre os prédios com pó de carvão, recebendo a cidade o apelido de “terra negra” ou la terre noire. Eu acho que isso é poético e bonito.” 

 (Foto: Automne-Hiver)
Courrèges (Foto: Divulgação)


A música despertou seu interesse pela moda 
“Minha janela para a moda foi a MTV. Cada banda tinha um estilo próprio por meio do seu som, mas também pela maneira que construíam seus visuais através das roupas. Eu cresci com a música dance na TV, o movimento belga New Beat tinha atingido seu ápice, então eu ouvia Confetti’s, Speedy J, LA Style, e minha irmã mais velha gostava de bandas de rock e metal (The Doors, Nirvana, Korn). É uma loucura quando você pensa sobre isso, esses universos na parede de uma casa no interior da Bélgica; os pôsteres da minha irmã ao lado dos meus.” 

… e ele se envolveu casualmente com a criação musical por conta própria 
“Aos 12 anos, comecei a fazer música eletrônica. Implorei ao meu pai pelo software. Gosto muito de techno e dance e até me mudar para Paris, quando tinha 23 anos, fazia música o tempo todo, a cada segundo depois da escola.” 

 
Di Felice estudou na escola de artes visuais La Cambre em Bruxelas antes de estudar com Nicolas Ghesquière 
“A cada temporada com o Nicolas, mergulhávamos fundo na pesquisa, então aprendi muitas novas referências culturais – de artistas a designers de móveis. Mas se eu tivesse que escolher algo que aprendi, seria a precisão. Lembro-me das peças do desfile – tudo foi feito tão perfeitamente que pareciam que tinham sido ‘photoshopado’.” 

 (Foto: Printemps-Ete)
Courrèges (Foto: Divulgação)


Ele fez uma viagem pelos Estados Unidos entre sua saída da Louis Vuitton em dezembro de 2019 e a chegada à Courrèges 
“Viajei com meu melhor amigo. Foi a primeira vez apenas nós dois – geralmente, meu namorado ou a namorada dele vem vamos com um grande grupo. Teve uma vibe meio Jim Jarmusch (o cineasta americano) a respeito disso; fomos para New Orleans, Texas e acabamos na Cidade do México para a feira de arte Material Art Fair. Tivemos sorte – assim que voltamos para Paris, entramos direto em lockdown.” 

Ele não tinha ambições de ser um diretor artístico… 
“Quero estar confortável no meu trabalho, mas meus principais objetivos não estão relacionados ao trabalho – eles relacionam-se em ser um homem feliz, um bom homem e talvez ter filhos um dia.” 

…mas Courrèges pareceu o lugar perfeito 
“Não há muitas casas que eu pudesse ter assumido. [André] criou um mundo inteiro, é uma estética, uma vibração [que pode ser sentida] nos móveis e o design de interiores – não é apenas um vestido bonito e isso sempre me tocou. Courrèges vai direto ao ponto: é uma tonalidade, é geometria, é um tecido, é simples. E estou em um momento da minha vida em que realmente aprecio as coisas simples.” 


Espere um preço mais baixo da Courrèges de Di Felice 
“Um dos meus primeiros objetivos é conversar com os mais jovens. Não faz sentido vender roupas caras demais para eles. Desenvolvemos um novo vinil ecológico aumentando o poliuretano biológico reciclado para 70 por cento. Esse tecido foi originalmente criado pela Courrèges em 1970 e reduzimos o preço dos casacos de €1.000 para €750.” 

Ele quer que Courrèges seja para toda a vida, não para apenas uma estação 
“Courrèges não mudou a cada temporada, algumas coisas continuaram as mesmas. Vejo tantas pessoas com peças da Courrèges que foram de suas mães ou avós; você nunca as joga fora e acho que essa é a melhor maneira de ter consciência ecológica. Não tenho interesse em fazer “greenwashing” ou fazer coleções que são [de marcas] ‘ecológicas’. É 2021, é natural fazer o nosso melhor para ser sustentável. Estou produzindo roupas novas, mas vou tentar criar roupas que não saiam de moda.” 

…e ele está fundando um coletivo Courrèges, com estilo diferente 
“Para o inverno 2021, nós elencamos muitos rostos novos. Na próxima temporada, continuaremos a trabalhar com eles. Sou fiel e próximo de meus amigos e família. Trabalhei com Bernard Dubois, que é um amigo arquiteto da época da faculdade, no projeto da loja na 40 Rue François 1er, e iremos abrir um segundo espaço em Paris este mês. Cobrimos tudo – pisos, teto, paredes – com tecido branco similar a veludo. Ela tem espelhos prateados, tem uma verdadeira vibe de clube.”

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