Acusação de Meghan sobre racismo na realeza estremece laços da comunidade britânica

Commonwealth, associação de de 54 países, não reagiu bem à repercussão da entrevista de Meghan Markle e Harry

Meghan Markle e príncipe Harry
Meghan Markle e príncipe Harry durante encontro com um grupo de surfistas, em outubro de 2018, para conscientizar sobre saúde mental na Austrália. Foto: Dominic Lipinski/Pool via AP

CIDADE DO CABO, ÁFRICA DO SUL – Em países com laços históricos com o Reino Unido, as alegações do príncipe Harry e de Meghan de que um membro da realeza tinha “preocupações” sobre a cor da pele de seu bebê levantaram o questionamento: essas nações ainda querem estar tão intimamente conectadas com o Reino Unido e sua família real? 

Esperava-se que a entrevista exporia mais divisões na família real, mas agora também está dividindo a Commonwealth, uma associação de 54 países, a maioria ex-colônias britânicas, unidos por laços históricos. Por décadas, a rainha Elizabeth II foi a força motriz por trás da comunidade.

Mas após a entrevista na TV, exibida nos EUA na véspera do Commonwealth Day, o ex-primeiro-ministro da Austrália Malcolm Turnbull citou-a como motivo para o país cortar seus laços constitucionais com a monarquia britânica. “Após o fim do reinado da rainha, é a hora de dizermos: OK, passamos por aquele divisor de águas”, afirmou. “Realmente queremos ter o rei ou rainha do Reino Unido automaticamente (como) nosso chefe de Estado?”

“É uma instituição vergonhosa. Foi responsável pela escravidão de milhões de nós que viemos aqui para trabalhar nas plantações. É parte de todo o legado do colonialismo e precisamos nos livrar dele”, afirmou Carolyn Cooper, professora aposentada da Universidade West Indies, na Jamaica. “O que deve significar para nós é que devemos nos livrar da rainha como chefe de Estado.” 

A entrevista não foi exibida na TV na Índia, país mais populoso da Commonwealth, com 1,3 bilhão de pessoas, mas foi coberta pela mídia e despertou reações negativas em relação à realeza. “Por trás de toda essa fachada elegante estão pensamentos que não são tão elegantes”, disse o escritor de moda Meenakshi Singh.

A advogada Sunaina Phul comentou que a Commonwealth “é relevante para a família real porque mostra que eles governaram muitos lugares. Mas não sei porque ainda fazemos parte dela”. 

O valor da comunidade já foi questionado antes, com críticos perguntando se países e pessoas uma vez colonizadas – e muitas vezes oprimidas – deveriam permanecer em tal associação com um ex-colonizador. O objetivo declarado é melhorar as relações internacionais, mas a relação do Reino Unido com os integrantes da associação foi obscurecida por erros diplomáticos e o legado do império.

Na África, repercussão negativa

A entrevista desta semana “abriu os olhos ainda mais” sobre possíveis méritos da comunidade, escreveu Nicholas Sengoba, um colunista de jornal em Uganda. Ele citou “questões não resolvidas” relacionadas aos abusos de colonialismo em Uganda e questionou se os chefes dos países da Commonwealth deveriam ter “orgulho de jantar” com membros da família real britânica após essas acusações.

Meghan disse na entrevista que um membro não identificado da família real havia levantado “preocupações” sobre a cor de seu bebê com Harry quando ela estava grávida de seu filho, Archie. Também disse que o palácio não a ajudou quando teve pensamentos suicidas. O Palácio de Buckingham disse na terça que as alegações de racismo eram “preocupantes” e seriam tratadas com seriedade. 

Meghan e Harry viajaram para a África do Sul em 2019, onde sua separação da família real ficou mais clara. Eles até falaram da possibilidade de viver lá. Mohammed Groenewald, que mostrou a eles uma mesquita na Cidade do Cabo, disse que as falas da entrevista despertaram memórias dos “racismo colonial dos britânicos”. 

Visita
O príncipe Harry e a duquesa de Sussex, Meghan Markle, são recebidos com dança na chegada para uma visita ao “Justice desk”, uma ONG no município de Nyanga, na Cidade do Cabo. Foto: Betram Malgas / AFP

No Quênia, ex-colônia em que a jovem princesa Elizabeth estava visitando em 1952 quando soube da morte de seu pai e, portanto, tornou-se rainha, a notícia da entrevista também não foi bem aceita. “Sentimos muita raiva de ver nossa irmã africana sendo assediada porque ela é negra”, disse Sylvia Wangari, moradora de Nairóbi, referindo-se a Meghan. Ela acrescentou que os quenianos em 1952 não mostraram a Elizabeth “qualquer (ato de) racismo”. “Ela permaneceu aqui sem qualquer discriminação’.” 

Primeiro-ministro canadense contemporiza

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, não quis comentar a entrevista. Ele disse que muitas instituições no Canadá são construídas em torno do colonialismo e racismo sistêmico, incluindo o Parlamento, e disse que a resposta é ouvir canadenses que enfrentam discriminação para que as instituições possam ser reparadas.

“A resposta não é de repente jogar fora todas as instituições”, disse. “Meu foco é superar esta pandemia. Se as pessoas quiserem falar mais tarde sobre mudança constitucional e mudança em nosso sistema de governo, tudo bem, e eles podem ter essas conversas, mas agora eu não estou tendo essas conversas.”

Jagmeet Singh, líder do opositor Novo Partido Democrático, disse que a monarquia “não é de forma alguma benéfica para os canadenses”. “E com o racismo sistêmico que vimos, parece estar naquela instituição também”, disse ele.  / AP

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