Com contraceptivos custando até 25 vezes o salário mínimo, mulheres venezuelanas perdem o controle sobre as próprias vidas

Em Caracas, um pacote com três preservativos custa quase o triplo do salário mínimo, e as pílulas anticoncepcionais cerca de dez vezes esse valor. DIU é mais de 25 vezes o salário mínimo do país, sem levar em conta a consulta médica necessária para o implante
Julie Turkewitz e Isayen Herrera, do New York Times

Mães, cujas famílias passam fome, esperam por uma refeição em Caracas, na Venezuela (08.12.2020). Contraceptivos não são acessíveis para a maioria das venezuelanas, o que as leva a gravidezes indesejadas em um momento em que mal conseguem alimentar os filhos que já têm Foto: Meridith Kohut/The New York Times

San Diego de los Altos, Venezuela – No momento em que Johanna Guzmán, de 25 anos, descobriu que estava grávida do sexto filho, começou a chorar, arrasada com a ideia de dar à luz outra vida em um país aos pedaços. Durante anos, conforme as dificuldades iam se agravando cada vez mais na Venezuela, ela e o marido vasculharam clínicas e farmácias em busca de qualquer método contraceptivo, quase sempre em vão. Foi assim que tiveram um terceiro filho. E o quarto. E o quinto.

Guzmán já preparava refeições paupérrimas em fogo de lenha, lavava roupa sem sabão, dava aulas sem papel. Já vivia o medo constante de não poder alimentar todo mundo. E agora, mais um filho? “Tive a sensação de estar me afogando”, descreve.

Enquanto o país entra no oitavo ano de uma crise econômica sem precedentes, um drama profundamente pessoal se desenrola dentro de casa: milhões de mulheres que já não conseguem encontrar contraceptivos ou não têm condições de comprá-los, levando muitas a encarar uma gravidez não planejada num momento em que mal podem alimentar os filhos que já têm.

Na região de Caracas, a capital, um pacote com três preservativos custa US$ 4,40, quase o triplo do salário mínimo mensal nacional, que é de US$ 1,50. As pílulas anticoncepcionais saem por cerca de US$ 11 por mês, enquanto o DIU (dispositivo intrauterino) pode chegar a mais de US$ 40, ou seja, mais de 25 vezes o salário mínimo – e isso sem incluir a consulta para a colocação do acessório.

Com o custo dos contraceptivos tão impraticável, as mulheres cada vez mais estão apelando para o aborto – que é ilegal e, na pior das hipóteses, pode lhes custar a vida.

A situação é bem diferente daquilo que o governo federal já chegou a prometer para mulheres e meninas: Hugo Chávez, “pai” da revolução nacional de inspiração socialista, declarou que sua gestão garantiria às mulheres um feito inédito: participação igualitária e integral na sociedade.PUBLICIDADE

O então presidente colocou as mulheres nos corredores do poder e estabeleceu na Constituição o direito feminino de “decidir livremente” quantos filhos o casal gostaria de ter. Em uma região onde o aborto é amplamente proibido, faltou pouco para que ele o legalizasse, mas os contraceptivos eram subsidiados e amplamente disponíveis.

Não só ele como seu sucessor, Nicolás Maduro, declararam-se publicamente como feministas – mas aos poucos o controle deste último sobre a nação foi se transformando em autoritarismo, e a economia da Venezuela desabou sob o peso da corrupção, da má administração e das sanções norte-americanas.

O país que já chegou a ser o mais rico da América Latina acabou amargando uma crise que os economistas consideram a pior do mundo das últimas décadas em tempos de paz, com a população castigada pela inflação galopante e pela carestia generalizada.

Os venezuelanos hoje enfrentam um sistema de saúde tão alquebrado que não tem condições nem de fornecer os contraceptivos mais básicos. Em meio ao colapso generalizado, estes praticamente sumiram das clínicas públicas, disponíveis apenas nas farmácias particulares a preços exorbitantes. As consequências disso mudaram e continuam alterando a vida das mulheres, que normalmente arcam com a maioria das responsabilidades do cuidado com os filhos em um momento crítico que só reforça o desafio parental.

Para Anitza Freitez, demógrafa da Universidade Católica Andrés Bello, de Caracas, essa dinâmica pode ditar as regras do país durante várias décadas, criando um “círculo vicioso de pobreza”: de acordo com dados do Ministério da Saúde, com o desmantelamento das maternidades a taxa de mortalidade materna subiu 65 por cento entre 2015 e 2016. Depois disso, o governo parou de divulgar dados.

Fexsibel Bracho tinha 24 anos e três filhos quando procurou uma clínica clandestina para interromper a gravidez, em janeiro. O procedimento, realizado com um gancho, perfurou-lhe o útero, causando uma hemorragia que a levou à morte em dois de fevereiro. “Ela não tinha condições de comprar anticoncepcional”, explica Lucibel Marcano, de 51 anos, que acompanhou as últimas horas de vida da filha, vendo seu rosto perder a cor.

Representantes dos ministérios da Saúde e da Mulher não responderam aos nossos pedidos de entrevista, feitos por carta e e-mail.

Quando Chávez foi eleito, em 1998, herdou um sistema no qual o controle de natalidade era amplamente disponível. Quando a economia nacional – que havia tempos era impulsionada pelas vastas reservas de petróleo – começou a tropeçar, em 2014, resultado da queda dos preços da matéria-prima em âmbito mundial e da má gestão, o poder de compra do governo despencou.

Em 2015, os contraceptivos, antes distribuídos gratuitamente nos hospitais públicos e vendidos a preços acessíveis nas farmácias, começaram a escassear. E as mulheres, que antes podiam planejar o futuro graças a eles, começaram a perder esse controle. Em 2018, já era praticamente impossível achar pílulas, implantes e adesivos nas maiores cidades, segundo um estudo feito pela coalizão pelos direitos reprodutivos Equivalencies in Action.

Muitas revelam que, com o agravamento da crise, a violência também passou a impedi-las de dizer não ao parceiro ou a sair do relacionamento.

Guzmán teve o sexto filho, Yorkeinys, em abril do ano passado, quando o país já sofria com a pandemia e seu marido, mecânico, estava desempregado fazia semanas. “Quando voltei do hospital, a única coisa que tinha na despensa era lentilha, as crianças famintas. Acabei entrando em depressão e passei 20 dias de cama. Nos piores dias, eu me sentia em um buraco sem saída, tudo escuro. Para onde quer que eu me voltasse, não via nada a não ser escuridão”, conta ela.

O sonho que acalentava desde criança – formar-se em farmácia – foi adiado indefinidamente.

Uma vez que passou a se tornar cada vez mais difícil ter filhos na Venezuela, o número de mulheres à procura de aborto foi aumentando, de acordo com entrevistas com profissionais da saúde e assistentes sociais de todo o país.

Antes da crise, alguns médicos faziam o procedimento de interrupção da gravidez ilegalmente, em condições mais seguras; acontece que metade desses profissionais, cerca de 30 mil pessoas, saiu do país nos últimos anos, segundo a Federação Médica da Venezuela, fazendo com que as mulheres apelassem para as clínicas improvisadas.

Às escondidas, algumas mulheres e uns poucos homens se tornaram parte de um grupo amplo de orientadores clandestinos, a maioria tentando ensinar às grávidas como encontrar e usar o misoprostol, remédio usado legalmente em outros países para induzir o aborto. O objetivo é mantê-las longe dos “açougueiros” que cobram preços extorsivos por procedimentos que podem ser fatais.

O Faldas-R, grupo ativista que oferece uma central de atendimento e apoio para questões relacionadas ao aborto, registrou um aumento de 40 por cento no número de chamadas entre 2018 e 2019. As mulheres que são presas por interromper a gravidez e os profissionais que as ajudam podem passar anos na cadeia.

Apesar do grande risco pessoal, alguns conselheiros levam misoprostol para elas – mas mesmo com acompanhamento a experiência pode ser arrasadora, geralmente envolvendo uma busca frenética pelos US$ 150 do custo do medicamento, seguida pela caçada a um lugar seguro onde a mulher possa sangrar por algumas horas.

Uma noite, no fim de 2019, Jessika, universitária de 21 anos, sofreu um aborto em um galpão de autopeças, na companhia de duas amigas. A moça, que nunca teve condições de comprar contraceptivos, conta que engravidou depois de ser atacada pelo namorado, e sabia que não teria condições de bancar um filho. “No país em que vivemos, a mulher não pode se dar ao luxo de ter mais uma boca para alimentar.”

Com sete semanas de gravidez, ela comprou o misoprostol on-line de um homem que se identificava como “José Vende Tudo”. Ela sabia que sua mãe não aprovaria, e que não podia fazer o aborto em casa; por isso foi para o galpão, alugado para uma amiga, escondendo-se num escritório em que, além das paredes brancas, havia apenas um sofá e uma única janela, que manteve fechada para que ninguém a ouvisse gritar.

Ela tomou os dois primeiros comprimidos às sete da noite, e a segunda dose duas horas depois; não demorou muito para começar a se contorcer de dor e a sangrar em profusão. Com as pernas tremendo, gritou e desmaiou em seguida.

Nem todos os abortos realizados com o remédio são tão dolorosos ou perigosos assim; os médicos recomendam que ele seja usado em combinação com a mifepristona, que prepara o organismo e facilita o processo. Mas, como é difícil encontrá-la na Venezuela, a maioria das mulheres não tem opção a não ser encarar a dor.

“Você diz a si mesma: ‘Bom, já foi, poderia ter sido muito pior, poderia ter sido diferente. Eu poderia ter morrido no processo, mas não morri, então maravilha.’ Só que de maravilha não tem nada”, conclui.

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