Lana Del Rey canta Joni Mitchell no triste e belo ‘Chemtrails Over The Country Club’

Atacada nas redes por frases infelizes em entrevistas recentes, cantora responde com um belo álbum de canções uniformes mas intensas incluindo uma versão para ‘For Free’
Julio Maria, O Estado de S.Paulo

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Lana Del Rey, com seu ‘canto do Meio-Oeste’ Foto: Universal Music

Lana Del Rey poderia apenas cantar. Sua voz atinge um nível de sussurro inebriante em White Dress e sua versão ao lado de Zella Day e Weyes Blood para For Free, a linda canção que Joni Michell mostrou ao mundo em 1970 no álbum Ladies of the Canyon, tem uma sensibilidade que preencheria por si todo seu novo álbum. Mas uma artista de suas ambições precisa em algum momento, e isso faz parte do processo, falar. E sempre que Lana fala, algo que não desce bem. Em entrevista recente à BBC Radio 1, ela comentou sobre os anos de Donald Trump de quem, para muitos nos Estados Unidos, foi apoiadora. Lana disse: “A loucura de Trump, por pior que fosse, realmente precisava acontecer. Nós realmente precisávamos de uma reflexão sobre o maior problema do nosso mundo, que não é a mudança climática, mas a sociopatia e o narcisismo. Principalmente na América. Isso vai matar nosso mundo. Não é capitalismo, é o narcisismo.”

Uma tempestade de críticas com relação à ideia de que “a loucura de Trump precisava acontecer” caiu sobre sua cabeça instantes depois da entrevista e, antes mesmo que passasse, veio outra. Lana foi contestada pelo fato de seu novo álbum, Chemtrails Over the Country Club, ter uma capa apenas com mulheres brancas (embora uma delas seja negra, como se vê). Mas sua resposta de que falta de diversidade é algo que não acontece em sua vida, já que ela é amiga de muitos negros e já namorou vários rappers, trouxe mais ataques pela infelicidade da ideia do “tenho amigos que são”. Instantes tensos provocados por frases ingênuas que toda a música que chega agora em seu novo álbum pode ter força para recolocá-la em equilíbrio.

Chemtrails Over the Country Club é um álbum em que Lana volta a se interiorizar ainda mais do que fez em Norman Fucking Blackwell, de 2019. Ela mesma já definiu seu novo som como uma dissidência do que as cantoras fazem no Meio-Oeste de seu país, lugares como Minnesota, Missouri e Nebraska, em que o country ganha um acento especial. Filha de empresário norueguês, dono de uma grande agência de marketing, e de mãe advogada e professora, Lana cresceu com suas ascendências europeias em Lake Placid, uma vila nas Montanhas Adirondack, no Condado de Essex, Nova York. Algo que diz muito de seus traços artísticos.

Seu álbum traz uma delicadeza de camadas acústicas e palavras – o que deve em parte ao produtor Jack Antonoff, que já trabalhou com LordeTaylor Swift e a própria Lana no disco anterior – e uma inteligência vocal mais apurada, algo mais importante do que ter potência, alcance, volume e outras habilidades. Lana sabe onde sua voz pequena fica à vontade e, nesse lugares, a faz crescer. Seria uma cantora de country se viesse com um ou dois violinos, uma steel guitar e mais violões do que piano, mas seu caminho, mesmo em baladas como Let Me Love You Like a Woman, nunca a aproxima das graciosas Dixie Chicks. Sinais da importância de um bom produtor.

Não há exceções em Chemtrails... São todas canções invernais de solidão, silêncio e noite. Há uma obsessão, ou uma limitação mesmo, em apostar no formato quase único de se fazer harmonia das primeiras partes com três acordes, algo que marca a estrutura de pelo menos Chemtrails Over de Country Club, Let Me Love Wild a Heart. Nenhum problema com a quantidade de acordes, mas a repetição da estrutura passa a sensação de repetição e linearidade. É o que faz alguém dizer: “Mas parece a mesma música”. Todas soam como filhas da mesma matriz. Ao lado das igualmente lamuriosas Dark But Just a GameTulsa Jesus Freak e a própria White Dress, o single com um clipe iniciado ontem no YouTube, dirigido por Constellation Jones, elas fazem o álbum de Lana se tornar uniforme, plano e constante. E não é ruim que seja assim. Lana vive seu momento de reflexão, mais um deles, e não faria sentido ir ao rock só para criar picos de uma emoção falsa. Chemtrails é o que ela e boa parte do mundo sente nesse momento.

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