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Nos 80 anos da morte de Virginia Woolf, especialistas comentam atualidade de sua obra

Tradutores, pesquisadores, escritores e editores explicam por que a obra de Woolf ainda se faz necessária
Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

Virginia Woolf
A escritora britânica Virginia Woolf, morta há 80 anos Foto: Domínio público

A cena é trágica: no dia 28 de março de 1941, angustiada com as vozes que voltava a ouvir e com a certeza de que não poderia combater seu estado psíquico, Virginia Woolf saiu de casa em direção ao rio Ouse, encheu os bolsos do casaco com pedras pesadas e caminhou rio adentro. As cartas de despedida foram logo encontradas. Seu corpo, só dias mais tarde. Ela tinha 59 anos. Hoje, 80 anos depois de sua morte, e quase 10 anos desde a entrada de sua obra em domínio público, Virginia Woolf é mais lida do que nunca. Sua atualidade é assombrosa, e muitas das questões que ela levantou um século atrás, em sua ficção ou na não ficção, ainda estão para ser resolvidas.

O poeta Leonardo Fróes, tradutor da escritora inglesa nascida em 25 de janeiro de 1882, relembra que em seus textos de não ficção, que ele traduziu para a Cosac Naify e foram organizados em O Valor do Riso e Outros Ensaios, ela nos fala por exemplo, após uma visita ao Parlamento, “do caráter ridículo e anacrônico que os políticos profissionais assumem ao discutir solenes bobagens cujo sentido escapa ao comum dos mortais”. Fróes, que nasceu no ano em que Virginia morreu, completa: “Ela também demonstra, nesse mesmo livro, como o machismo doentio, inoculado desde cedo nos meninos, é um estímulo devastador para manter a fé nas guerras, e tudo em nome de um patriotismo que ninguém sabe muito bem o que é”.

Tomaz Tadeu, responsável pelas traduções de Virginia Woolf publicadas pela Autêntica, editora que mais tem se dedicado à autora desde que sua obra entrou em domínio público em 2012, também comenta uma passagem escrita pela autora, a quem chama de “vidente” por escrever, em 1939, no começo da 2ª Guerra, algo que ainda ressoa em nossos ouvidos. Ele cita: “Está tudo extremamente sombrio. As ruas estão escuras. Voltou-se ao século 18. A natureza prevalece. (…) É o prelúdio ao barbarismo. O centro da cidade se transformou num mero amontoado de prédios habitados por pessoas que trabalham. Não há nenhuma sociabilidade, nenhum requinte, não há ninguém flanando, passeando à toa. Tudo é sério e concentrado. É como se o canto tivesse parado – a melodia, o supérfluo, o voluntário. Estranho se isso devesse ser o fim da vida urbana.”

Em seus ensaios, Virginia Woolf refletiu sobre tudo, como comenta Ana Carolina Mesquita, que estudou seus diários no doutorado e os traduziu em cinco volumes – o primeiro, que cobre os anos de 1915 a 1918, será publicado em abril pela Nós. Tudo: as questões de seu tempo, a arte, a guerra, a violência, o autoritarismo, o sentido histórico, a literatura. “E ela foi uma das mais importantes precursoras do feminismo atual – uma das primeiras a pensar a condição das mulheres como estando atrelada às condições materiais e sociais. Ela exorta as mulheres a escapar dos papéis construídos pelo patriarcado e que se tornam prisões internas (principalmente para as artistas)”, diz a pesquisadora. 

Para o leitor de seus textos pessoais, comenta Ana Carolina, impressiona a resiliência de Virginia. “Ela sobreviveu a duas guerras, a muitas mortes na família, a uma doença mental, possivelmente a um abuso sexual, e a constantes dores físicas, sem se queixar. Viveu em uma época em que a morte e o horror ameaçavam destruir a arte, mas continuou escrevendo. Pacifista, mesmo quando seus amigos próximos iam pelo caminho contrário, dizia que pensar era sua arma, e que poderiam colocar trancas em portas, mas não em seu pensamento.” 

Vida e obra. Coragem de ousar. “Virginia Woolf para mim, além de ser um dos maiores escritores de sua época, é também um permanente enigma. Parece ter várias facetas e, quanto mais a lemos, mais temos a aprender sobre seu espírito vivo e fabuloso”, conta Leonardo Fróes, tradutor também de seus contos, a quem a obra de Virginia toca por seu “valor de poesia”. “Tudo o que ela escreveu, sejam romances, contos ou ensaios, transita por espaços inovadores onde a distinção entre gêneros literários se mostra mera convenção antiquada.” Seu estilo, ele afirma, nunca é banal.

O ritmo das frases e seus longos e elegantes períodos são outras marcas da autora. Tomaz Tadeu começou seu mergulho por Mrs Dalloway (1925), o romance mais popular de Virginia. “Depois, como diz um dos personagens de As Ondas (1931; sua tradução sai em maio), fui pegando o jeito da coisa, fui entrando na batida dela. E, para mim, em literatura, o ritmo é tudo. No caso da ficção, o ritmo da prosa. É isso que, sobretudo, faço quando traduzo Virginia: tentar entrar no ritmo dela e passar isso para a nossa língua. Esta é a parte, digamos assim, recreativa, lúdica, sensual da coisa, toda concentrada nos lábios, nos ouvidos, na fala, na escuta. Não há como não ter um gozo estético, um orgasmo espiritual, um êxtase literário, quando deslizamos, sem atritos, sem travas, sem estorvos por um longo período, todo ele melodioso, calibrado, exato, como o que abre o ensaio Sobre Estar Doente, publicado em O Sol e O Peixe.”

Outra marca, na opinião de Ana Carolina: dizer e desdizer, para novamente dizer de modo diferente. “Sua escrita parece ter o efeito de, ao mesmo tempo, ampliar a nossa experiência da realidade (tanto a do mundo quanto a de nós mesmos) e colocar essa mesma realidade em xeque, observando como é impermanente, como é questionável.” O que é desafiador ao traduzir sua obra, ela diz, tem a ver com suas maiores qualidades – justamente esse seu ‘método’ de sugerir de modo oblíquo, de não dizer diretamente. “Há um ímpeto natural de tentar aplainar as frases, de organizá-las, trazer legibilidade para onde muitas vezes só há pistas. Porque a frase de Virginia, com todas as suas idas e vindas, suas repetições, suas voltas, exerce em quem lê ao mesmo tempo o efeito de um raciocínio profundo e de uma sensorialidade: o som importa, o ritmo importa.”

Ana Carolina, tradutora também de Maya Angelou e Joan Didion, conta que com Virginia, entre tantas outras coisas, aprendeu a cultivar a disposição de aceitar as contradições humanas. “Ela era alguém extremamente contraditória. Principalmente ao lermos seus textos pessoais, somos surpreendidos com visões por vezes chocantes, que não parecem conviver com a mesma Virginia que submerge tão fundo na experiência da vida. Mas convivem. E isso a torna imensamente humana. As muitas Virginias se alternando a cada texto nunca oferecem um quadro inteiro.”

Redescoberta

Desde o domínio público, o leitor brasileiro encontra livros de Virginia Woolf em diferentes edições, das de bolso às de luxo, nas livrarias. Mas há um novo movimento em torno da obra dela, que vem inspirando novos editores e até livreiros. Em abril, por exemplo, São Paulo ganha uma livraria que só vai vender livros escritos por mulheres. Seu nome foi emprestado do texto Um Quarto Só Seu (ou Um Teto Todo Seu), de 1929: Gato Sem Rabo. “Nele, a personagem é surpreendida pela visão do gato no gramado. Ele não devia estar ali, e ainda lhe falta uma parte. Com essa imagem, a escritora parece remeter ao estranhamento que as mulheres causam nos ambientes de produção intelectual”, comenta a proprietária Johanna Stein. O nome, então, é uma homenagem às mulheres que escrevem, ou, como ela coloca, esses “animais estranhos e deslocados que, desfalcados de tempo, espaço e legitimidade, tiveram o atrevimento e a coragem de escrever – ou não encontraram outra saída senão essa”. 

A Gato Sem Rabo será palco (virtual) do lançamento de Um Quarto Só Seu E Três Ensaios Sobre as Grandes Escritoras Inglesas: Jane Austen, Charlotte & Emily Brontë e George Eliot, livro de estreia do Clube F., o clube de assinatura feminista da Bazar do Tempo. A obra ganhou tradução de Julia Romeu, especialista em literatura inglesa. “Desde o seu primeiro livro de ficção, lançado em 1915, Virginia cria uma série de personagens femininas fortes e insere o debate sobre a educação feminina, o sufragismo, a falta de representatividade das mulheres no mundo intelectual e da escrita e cria imagens que depois aprofundaria em Um Quarto só Seu, como a dos homens que se enxergam bem maiores do que são apenas porque a sua lupa é a sociedade patriarcal”, ressalta a editora Ana Cecilia Impellizieri Martins, que vai lançar ainda um volume com contos traduzidos por Froés.

Simone Paulino, da Nós, é outra nova editora de Virginia. Ela sempre achou que autora devia ser lida ou relida por ser uma das maiores escritoras do século 20, e foi se envolvendo com a obra e se espantando com sua atualidade. Começou a publicá-la no ano passado, com o ensaio inédito e autobiográfico Um Esboço do Passado. Em junho, lança o segundo volume dos diários traduzidos por Ana Carolina Mesquita e o romance histórico Virginia, de Emmanuelle Favier. E estão no prelo o infantil A Cortina da Tia Bá e um volume com cartas que trocou com Vita Sackville-West.

Os livros saem em junho para coincidir com a segunda edição do Dalloway Day (com esperança, a primeira presencial). Lembrando que foi numa quarta-feira do mês de junho que Clarissa Dalloway, protagonista deste romance pioneiro por ser narrado em fluxo de consciência, sai para comprar flores e perambula pelas ruas de Londres.

Rejane Dias, diretora da Autêntica, sente que há mais demanda agora para a leitura desses clássicos do que quando começou a publicá-los em 2012 e que já vendeu 75 mil exemplares dos oito volumes que lançou. O best-seller é Ao Farol, com 8.700 cópias. Depois, com números similares, aparecem Mrs. Dalloway e Orlando. “Os clássicos estão com tudo, ainda mais em tempos de pandemia, em tempos que pedem uma viagem pela ficção.”

Virginia Woolf por suas leitoras

“Impossível ficar indiferente a uma autora como ela e a romances como Mrs Dalloway ou Passeio ao Farol ou a seus ensaios. Ao longo dos anos, reli quase todos os seus livros algumas vezes. Depois parei. Recentemente, a Nova Fronteira me encomendou um prefácio para a nova edição de Um Quarto Todo Seu. Com a pandemia, achei que era uma boa ocasião para mergulhar num projeto de releitura da autora. Sempre espantosamente inteligente e admirável.”

Ana Maria Machado, escritora

“Por que ler Virginia Woolf hoje? Porque ela é uma das mais importantes escritoras modernistas, porque sustentou um olhar radicalmente lúcido e crítico em relação aos seus leitores, inclusive os seus críticos contemporâneos, expondo com ironia e sagacidade as suas enormes limitações. Porque soube recolocar em pauta, num enquadramento original e decisivo, a discussão sobre a mulher escritora e intelectual.” 

Laura Erber, escritora

“Ela fica cada dia mais atual com seu feminismo precursor. Um Teto Todo Seu continua absolutamente válido – e sua dupla sexualidade.”

Marina Colasanti, escritora 

“Um quarto só nosso é, em última instância, uma mente só nossa: arrojada, criativa, corajosa, independente. Já está bem claro o que representa o comportamento de manada, e temos visto dele o suficiente para voltar a valorizar a inteligência humana.”

Adriana Lisboa, escritora e tradutora de Virginia Woolf

Yasuke, novo anime original da Netflix, ganha pôster com visual dos personagens

Estreia na plataforma está marcada para abril
CAMILA SOUSA

Foi divulgado o primeiro pôster de Yasuke, novo anime da Netflix que adapta a lenda do primeiro samurai negro. A arte, que pode ser vista abaixo, dá mais detalhes sobre o visual dos personagens (via Collider):

Divulgação

O projeto é do estúdio Mappa, mesmo de Dorohedoro e da temporada final de Attack on Titan. A produção-executiva será de LeSean Thomas (A Lenda de Korra). Leia a sinopse oficial do catálogo da Netflix: “Ele veio da África para lutar ao lado de um poderoso senhor feudal no violento Japão do século 16 – e se tornou uma lenda”. Lakeith Stanfield (Atlanta, Death Note) faz a voz do personagem, inspirado em uma figura real.

Vale mencionar que esse não é o primeiro projeto sobre a história de Yasuke nos últimos anos: Doug Miro, cocriador de Narcos, desenvolvia em 2019 um filme que teria Chadwick Boseman (Pantera Negra) no papel principal. O longa nunca saiu do papel, e se torna ainda mais improvável com a morte do ator. Na época, porém, Boseman deixou claro seu interesse no projeto: “A lenda de Yasuke é um dos maiores segredos da história e ele é a única pessoa não-asiática a virar um samurai. Não é apenas um filme de ação, é um evento cultural, uma troca e estou animado a fazer parte disso”, falou quando foi escalado ao papel.

A estreia de Yasuke está marcada para 29 de abril na Netflix.

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Todd Speakman – Flying Lizard/Kulu

Livros de Yukio Mishima, Kenzaburo Oe e Kazuo Ishiguro revelam facetas distintas do Japão

Avalanche de literatura nipônica atinge o mercado editorial brasileiro
Paulo Nogueira, Especial para o Estadão

O escritor japonês Kenzaburo Oe, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1994  Foto: Yuriko Nakao/Reuters

Se ainda existe alguém tão besta para pensar que japonês fala como o Cebolinha, basta se vacinar com a literatura nipônica contra esse terraplanismo étnico. Uma autora japonesa – Murasaki Shikibu – inventou o romance 500 anos antes de Cervantes. O Japão tem dois Nobel literários – e Haruki Murakami todo ano bate na trave da Academia Sueca. Em 2021, editoras brasileiras servirão um banquete de sushis ficcionais. E com um bolinho da sorte o mais talismânico possível. 

Comecemos de modo literalmente patibular. Há 50 anos, Yukio Mishima – autor de 40 romances, peças de teatro, contos,  ensaios, roteiros de filmes e libretos – era o VIP mais badalado do Japão, causando não apenas na cultura como no fisiculturismo. Naquele dia, ele estarreceu o mundo ao cometer seppuku, o suicídio ritual dos samurais. 

Mishima se ajoelhou seminu no gabinete do comandante do Exército japonês, que acabara de render, cravou uma espada curta (a wakizashi) em seu ventre e deslizou-a pelas entranhas, eviscerando-se. Um acólito, Masakatsu Morita, de 25 anos, daria o golpe de misericórdia, decapitando Mishima com a espada samurai (a katana). Mas Morita pisou na bola bisonhamente, falhando três vezes, trinchando em vez de degolando. Outro acólito interveio, matando dois coelhos com uma cajadada: decepou não apenas a cabeça de Mishima como a do inepto Morita. E assim terminou de modo tragicômico um ritual que deveria ser tão hierático quanto a cerimônia do chá. 

Momentos antes, Mishima se perfilava na varanda do QG do exército, em Tóquio, arengando uma embasbacada plateia de mil oficiais. Trajando o uniforme de seu exército particular (o Totenokai, ou “Sociedade Escudo”), exortou-os a repudiar os tratados com os EUA e a restaurar a divindade do imperador Hirohito. A reação foi um fiasco: uma zoeira de vaias e risos. Com um último grito de “Banzai! Vida longa ao Imperador!”, Mishima voltou para o gabinete do general e se imolou. 

Para compreender não apenas Mishima mas o pathos da literatura japonesa, um tiquinho de contexto. A peculiaridade nipônica deriva tanto de sua posição geográfica como de uma política de auto-isolamento chamada Sakoku (“país fechado”) durante o governo do shogunato Tokugawa. Esse clã instituiu uma ditadura que governou o país por dois séculos e meio, de 1600 até a chegada da esquadra norte-americana do comodoro Matthew Perry, em 1853, que obrigou o Japão a negociar com o exterior. 

E tudo mudou na era Meiji (1868-1912), com a industrialização acelerada, permitindo que o Japão aniquilasse a Marinha Russa em 1905 e se tornasse a primeira nação asiática a derrotar uma potência europeia.  Nas décadas de 1920 e 30, mortificados com a erosão dos valores tradicionais, os milicos japoneses perfilaram o fascismo. Em 1932, uma tentativa de golpe assassinou o primeiro-ministro Tsuyoshi – quase matando também Charlie Chaplin, que no auge da fama visitava Tóquio. Por sorte, Carlitos preferiu assistir a uma luta de sumô em vez de comparecer à recepção onde o que era dele estava guardado. 

Mishima, então um molequinho, faria do golpe o seu fetiche. Em 1960, dirigiu e protagonizou o filme Patriotismo, no qual um tenente golpista dá com os burros n’água e depois se mata. O filme realça alguns temas do autor: comunhão de amor e morte, Eros e Tanatos, sadomasoquismo.

Desgraça pouca é bobagem: o Japão se aliou a Hitler na 2ª Guerra e foi vencido precisamente quando Kimitke Hiraoka atingia a maioridade (Yukio Mishima é um pseudônimo escolhido pelos editores da revista onde ele publicou seu primeiro conto).  Criança enfermiça, Mishima foi criado em reclusão pela sua avó paterna e só brincava com bonecas. O menino se refugiou na leitura e aos doze anos escreveu uma narrativa que o pai dele rasgou em confetes, porque literatura era coisa de maricas. 

Mishima mandou o pai catar coquinho e em 1947 virou um colunável das letras com Confissões de Uma Máscara, relato de um homossexual trancado no armário. A própria sexualidade do escritor era prismática: ele se casou e teve dois filhos e até rolou um clima com a futura imperatriz Michiko. Mas sua obra palpita de homoerotismo. Em sua última década de vida, Mishima – magrelo e baixinho – praticou obsessivamente artes marciais e musculação, malhando até virar um Schwarzenegger oriental. Foi fotografado em poses narcisistas, peladão em cima de uma moto ou amarrado e flechado como São Sebastião (ícone gay), sempre com barriga tanquinho. 

Mundialmente famoso, Mishima percorreu a Europa e os EUA (onde visitou a Disneylândia), mas esnobou o Japão hightech, que considerava filisteu. Até que em 25 de novembro de 1970, aos 45 anos, enviou à editora o último volume da trilogia O Mar da Fertilidade (a ser publicada pela Estação Liberdade) e se mandou para o quartel com sua milícia, coreografando o performático seppuku.

Outra deprê: o Nobel de literatura fora para o mentor de Mishima, Yasunari Kawabata, e era improvável que tão cedo o atribuíssem a outro autor japonês. E Mishima, como professou no ensaio sobre James Dean, não admitia a ideia de um enfant-terrible tiozinho. No Japão, o suicídio pode ser encarado como uma forma de honra suprema – daí o seppuku, o haraquiri e os kamikazes. O próprio Kawabata, no discurso do Nobel de 1968, condenou o suicídio, para depois se matar em 1972.

Como notaram Marguerite Yourcenar e John Gray, em Mishima transparecem itens modernos como o niilismo e a subjetividade exacerbada. Em Vida à Venda (Estação Liberdade), na primeira página o protagonista acorda num quarto de hospital, depois de ingerir uma baciada de sedativos. 

A sedução do suicídio assoma igualmente na obra de Kenzaburo Oe, Nobel de 1994 e o mais importante autor japonês vivo – que a Estação Liberdade também irá publicar, e de quem a Companhia das Letras acaba de lançar Morte Na Água. Os romances de Oe exprimem a proverbial ambiguidade do Japão: tradição e modernidade, veneração do Imperador e democracia pluralista. Mas a obra dele é ainda autobiográfica, com um tropo recorrente: o seu filho. Hikari nasceu com uma anomalia cerebral e povoa vários livros do pai. 

Hikari, hoje com 57 anos, tem autismo, epilepsia e visão limitada e só começou a falar no fim da infância. Despertado por Bach, aprendeu piano e notação musical e se tornou um notável compositor, ganhando o principal prêmio japonês de música clássica. O primeiro CD dele, nos anos 1990, vendeu 400 mil cópias – “Mais do que qualquer um dos meus romances”, diz orgulhosamente Kenzaburo Oe.

Morte na Água conta a história de Kogito Choko (alusão ao “cogito” cartesiano), personagem cíclico nos livros de Oe. Kogito é um velho escritor (Oe tem 87 anos), que se irrita com o filho autista de meia-idade e o chama de “idiota”, por este ter rabiscado notas musicais numa manuscrito do escritor palestino Edward Said (de quem Oe foi amigo por 20 anos).  A prosa de Oe é mais expositiva do que cênica, mais contemplativa do que dramática. 

Se ser japonês é apaziguar as antinomias “modernismo” e “tradição”, e Ocidente e Oriente, nada mais emblemático que Kazuo Ishiguro. Nasceu em Nagasaki, em 1954. A mãe dele sobreviveu à bomba atômica quando era adolescente – o novo romance do autor, Klara e o Sol (o primeiro desde o Nobel de 2017), é dedicado a ela.

Ishiguro chegou à Inglaterra aos cinco anos – os pais prendiam regressar, mas nunca o fizeram. Resultado: ele escreve em inglês, mas sempre com os pés em várias canoas. O primeiro romance dele se ocupa de Nagasaki, mas a notoriedade veio com Os Vestígios do Dia, cujo protagonista é um arquétipo britânico tanto quanto o chá das cinco: o mordomo fleumático (no cinema, Anthony Hopkins). 

Ishiguro é versátil: vai desde uma distopia com clones (Não Me Abandone Jamais) a uma saga na Bretanha arturiana, com ogros e dragões (O Gigante Enterrado). Klara e o Sol rola num futuro evanescente e é protagonizado por uma Amiga Artificial, um robô destinado a crianças. 

Máquinas com alma são um tema clássico da FC, de Brian Aldiss (cujo conto Spielberg filmou A.I., a partir de um projeto de Stanley Kubrick) a Isaac Asimov e suas leis da robótica – sem falar em Frankenstein ou Pinóquio. Porém, neste caso talvez Ishiguro – ao combinar futurismo e tradição, tecnologia e emoção – esteja falando de polaridades mais realistas. Como ele explicou ao The Times: “Nas sociedades britânica e japonesa, as emoções são confundidas com fraqueza, e por isso a capacidade de controlá-las é considerada digna e elegante”. O país do sol nascente se encontra com o ex-império onde o sol nunca se punha.