Livros de Yukio Mishima, Kenzaburo Oe e Kazuo Ishiguro revelam facetas distintas do Japão

Avalanche de literatura nipônica atinge o mercado editorial brasileiro
Paulo Nogueira, Especial para o Estadão

O escritor japonês Kenzaburo Oe, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1994  Foto: Yuriko Nakao/Reuters

Se ainda existe alguém tão besta para pensar que japonês fala como o Cebolinha, basta se vacinar com a literatura nipônica contra esse terraplanismo étnico. Uma autora japonesa – Murasaki Shikibu – inventou o romance 500 anos antes de Cervantes. O Japão tem dois Nobel literários – e Haruki Murakami todo ano bate na trave da Academia Sueca. Em 2021, editoras brasileiras servirão um banquete de sushis ficcionais. E com um bolinho da sorte o mais talismânico possível. 

Comecemos de modo literalmente patibular. Há 50 anos, Yukio Mishima – autor de 40 romances, peças de teatro, contos,  ensaios, roteiros de filmes e libretos – era o VIP mais badalado do Japão, causando não apenas na cultura como no fisiculturismo. Naquele dia, ele estarreceu o mundo ao cometer seppuku, o suicídio ritual dos samurais. 

Mishima se ajoelhou seminu no gabinete do comandante do Exército japonês, que acabara de render, cravou uma espada curta (a wakizashi) em seu ventre e deslizou-a pelas entranhas, eviscerando-se. Um acólito, Masakatsu Morita, de 25 anos, daria o golpe de misericórdia, decapitando Mishima com a espada samurai (a katana). Mas Morita pisou na bola bisonhamente, falhando três vezes, trinchando em vez de degolando. Outro acólito interveio, matando dois coelhos com uma cajadada: decepou não apenas a cabeça de Mishima como a do inepto Morita. E assim terminou de modo tragicômico um ritual que deveria ser tão hierático quanto a cerimônia do chá. 

Momentos antes, Mishima se perfilava na varanda do QG do exército, em Tóquio, arengando uma embasbacada plateia de mil oficiais. Trajando o uniforme de seu exército particular (o Totenokai, ou “Sociedade Escudo”), exortou-os a repudiar os tratados com os EUA e a restaurar a divindade do imperador Hirohito. A reação foi um fiasco: uma zoeira de vaias e risos. Com um último grito de “Banzai! Vida longa ao Imperador!”, Mishima voltou para o gabinete do general e se imolou. 

Para compreender não apenas Mishima mas o pathos da literatura japonesa, um tiquinho de contexto. A peculiaridade nipônica deriva tanto de sua posição geográfica como de uma política de auto-isolamento chamada Sakoku (“país fechado”) durante o governo do shogunato Tokugawa. Esse clã instituiu uma ditadura que governou o país por dois séculos e meio, de 1600 até a chegada da esquadra norte-americana do comodoro Matthew Perry, em 1853, que obrigou o Japão a negociar com o exterior. 

E tudo mudou na era Meiji (1868-1912), com a industrialização acelerada, permitindo que o Japão aniquilasse a Marinha Russa em 1905 e se tornasse a primeira nação asiática a derrotar uma potência europeia.  Nas décadas de 1920 e 30, mortificados com a erosão dos valores tradicionais, os milicos japoneses perfilaram o fascismo. Em 1932, uma tentativa de golpe assassinou o primeiro-ministro Tsuyoshi – quase matando também Charlie Chaplin, que no auge da fama visitava Tóquio. Por sorte, Carlitos preferiu assistir a uma luta de sumô em vez de comparecer à recepção onde o que era dele estava guardado. 

Mishima, então um molequinho, faria do golpe o seu fetiche. Em 1960, dirigiu e protagonizou o filme Patriotismo, no qual um tenente golpista dá com os burros n’água e depois se mata. O filme realça alguns temas do autor: comunhão de amor e morte, Eros e Tanatos, sadomasoquismo.

Desgraça pouca é bobagem: o Japão se aliou a Hitler na 2ª Guerra e foi vencido precisamente quando Kimitke Hiraoka atingia a maioridade (Yukio Mishima é um pseudônimo escolhido pelos editores da revista onde ele publicou seu primeiro conto).  Criança enfermiça, Mishima foi criado em reclusão pela sua avó paterna e só brincava com bonecas. O menino se refugiou na leitura e aos doze anos escreveu uma narrativa que o pai dele rasgou em confetes, porque literatura era coisa de maricas. 

Mishima mandou o pai catar coquinho e em 1947 virou um colunável das letras com Confissões de Uma Máscara, relato de um homossexual trancado no armário. A própria sexualidade do escritor era prismática: ele se casou e teve dois filhos e até rolou um clima com a futura imperatriz Michiko. Mas sua obra palpita de homoerotismo. Em sua última década de vida, Mishima – magrelo e baixinho – praticou obsessivamente artes marciais e musculação, malhando até virar um Schwarzenegger oriental. Foi fotografado em poses narcisistas, peladão em cima de uma moto ou amarrado e flechado como São Sebastião (ícone gay), sempre com barriga tanquinho. 

Mundialmente famoso, Mishima percorreu a Europa e os EUA (onde visitou a Disneylândia), mas esnobou o Japão hightech, que considerava filisteu. Até que em 25 de novembro de 1970, aos 45 anos, enviou à editora o último volume da trilogia O Mar da Fertilidade (a ser publicada pela Estação Liberdade) e se mandou para o quartel com sua milícia, coreografando o performático seppuku.

Outra deprê: o Nobel de literatura fora para o mentor de Mishima, Yasunari Kawabata, e era improvável que tão cedo o atribuíssem a outro autor japonês. E Mishima, como professou no ensaio sobre James Dean, não admitia a ideia de um enfant-terrible tiozinho. No Japão, o suicídio pode ser encarado como uma forma de honra suprema – daí o seppuku, o haraquiri e os kamikazes. O próprio Kawabata, no discurso do Nobel de 1968, condenou o suicídio, para depois se matar em 1972.

Como notaram Marguerite Yourcenar e John Gray, em Mishima transparecem itens modernos como o niilismo e a subjetividade exacerbada. Em Vida à Venda (Estação Liberdade), na primeira página o protagonista acorda num quarto de hospital, depois de ingerir uma baciada de sedativos. 

A sedução do suicídio assoma igualmente na obra de Kenzaburo Oe, Nobel de 1994 e o mais importante autor japonês vivo – que a Estação Liberdade também irá publicar, e de quem a Companhia das Letras acaba de lançar Morte Na Água. Os romances de Oe exprimem a proverbial ambiguidade do Japão: tradição e modernidade, veneração do Imperador e democracia pluralista. Mas a obra dele é ainda autobiográfica, com um tropo recorrente: o seu filho. Hikari nasceu com uma anomalia cerebral e povoa vários livros do pai. 

Hikari, hoje com 57 anos, tem autismo, epilepsia e visão limitada e só começou a falar no fim da infância. Despertado por Bach, aprendeu piano e notação musical e se tornou um notável compositor, ganhando o principal prêmio japonês de música clássica. O primeiro CD dele, nos anos 1990, vendeu 400 mil cópias – “Mais do que qualquer um dos meus romances”, diz orgulhosamente Kenzaburo Oe.

Morte na Água conta a história de Kogito Choko (alusão ao “cogito” cartesiano), personagem cíclico nos livros de Oe. Kogito é um velho escritor (Oe tem 87 anos), que se irrita com o filho autista de meia-idade e o chama de “idiota”, por este ter rabiscado notas musicais numa manuscrito do escritor palestino Edward Said (de quem Oe foi amigo por 20 anos).  A prosa de Oe é mais expositiva do que cênica, mais contemplativa do que dramática. 

Se ser japonês é apaziguar as antinomias “modernismo” e “tradição”, e Ocidente e Oriente, nada mais emblemático que Kazuo Ishiguro. Nasceu em Nagasaki, em 1954. A mãe dele sobreviveu à bomba atômica quando era adolescente – o novo romance do autor, Klara e o Sol (o primeiro desde o Nobel de 2017), é dedicado a ela.

Ishiguro chegou à Inglaterra aos cinco anos – os pais prendiam regressar, mas nunca o fizeram. Resultado: ele escreve em inglês, mas sempre com os pés em várias canoas. O primeiro romance dele se ocupa de Nagasaki, mas a notoriedade veio com Os Vestígios do Dia, cujo protagonista é um arquétipo britânico tanto quanto o chá das cinco: o mordomo fleumático (no cinema, Anthony Hopkins). 

Ishiguro é versátil: vai desde uma distopia com clones (Não Me Abandone Jamais) a uma saga na Bretanha arturiana, com ogros e dragões (O Gigante Enterrado). Klara e o Sol rola num futuro evanescente e é protagonizado por uma Amiga Artificial, um robô destinado a crianças. 

Máquinas com alma são um tema clássico da FC, de Brian Aldiss (cujo conto Spielberg filmou A.I., a partir de um projeto de Stanley Kubrick) a Isaac Asimov e suas leis da robótica – sem falar em Frankenstein ou Pinóquio. Porém, neste caso talvez Ishiguro – ao combinar futurismo e tradição, tecnologia e emoção – esteja falando de polaridades mais realistas. Como ele explicou ao The Times: “Nas sociedades britânica e japonesa, as emoções são confundidas com fraqueza, e por isso a capacidade de controlá-las é considerada digna e elegante”. O país do sol nascente se encontra com o ex-império onde o sol nunca se punha.

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