No centenário de Cacilda Becker, dossiê traz fotografias inéditas, vídeos e depoimentos

Homenagens à atriz que morreu no palco em 1969 serão, por enquanto, pelos meios digitais
Maria Eugênia de Menezes – Estadão

Cacilda Becker
A atriz Cacilda Becker abraçada ao marido, o ator, diretor e produtor Walmor Chagas Foto: Acervo Estadão

Foi uma morte teatral. Carregada do palco depois de ter um aneurisma em cena, Cacilda Becker (1921-1969) ainda vestia os trajes do clown Estragon, quando foi levada ao Hospital São Luiz, em São Paulo. Dizia-se que a montagem de Esperando Godot, que ela apresentava naquele ano de 1969, era o ponto máximo de uma carreira brilhante. O Brasil vivia sufocado pelo AI-5. O casamento com Walmor Chagas havia chegado ao fim, mas ela, ainda apaixonadíssima, contracenava com ele na peça de Samuel Beckett. 

Tinha apenas 48 anos. Nesse curto tempo, atuou em cerca de 70 peças. O suficiente para que se tornasse estrela máxima do teatro nacional. “A nossa maior artista”, sentenciou Alfredo Mesquita, fundador da Escola de Arte Dramática. A ponto de Drummond ter considerado mudar a gramática por sua causa. “Morreram Cacilda Becker”, escreveu. “Era uma pessoa e era um teatro. Morreram mil Cacildas em Cacilda.” A menina de Pirassununga, que encantou o País com o porte altivo, o rosto anguloso e a voz musical, faria cem anos nesta terça, 6. 

Esteve em apenas dois filmes: Luz dos Meus Olhos (1947) e Floradas na Serra (1954). Na época das mocinhas de Hollywood, “fui considerada pessoa não feita para o cinema, antifotogênica”, dizia. Daí que boa parte de seu talento pode ser intuída hoje somente pelas fotografias de suas encenações. Verdade que a atriz teve a sorte de ser retratada por fotógrafos da qualidade de Fredi Kleemann. Mas não deixam de ser imagens estáticas e silentes – o exato oposto do que é o teatro – que nos oferecem não mais do que um vislumbre de sua personalidade singular. 

Outra possibilidade para reconstituir um pouco do que foi Cacilda é ouvir e ler aqueles que – invariavelmente estupefatos – tiveram a chance de vê-la em cena. No livro em que contam a história do teatro de São Paulo, Sábato Magaldi e Maria Thereza Vargas tentam dar conta da sua magnitude: “Cacilda impressionava pela sinceridade, pela funda emoção alcançada com os meios mais simples e diretos. Impossível ver no palco maior magnetismo e vibração do que em Cacilda. Um verdadeiro feixe de nervos, ela deixava transparecer uma lúcida e dolorida experiência de vida”.

O percurso da intérprete teve batalhas, drama e lances de heroísmo. Quando seus pais se separaram, as irmãs Becker Yáconis eram ainda muito crianças. Ao lado da mãe, mudaram-se para a casa dos avós religiosos. Em seu depoimento para o Museu da Imagem e do Som, em 1967, a atriz resumia assim a infância: “Nós sofríamos muito. Todos os sofrimentos. Era uma vida cheia de mentiras e que anteciparam meu amadurecimento (…), os crentes protestantes, a escola dominical e o lanche de domingo. O amanhecer de vovô e vovó lendo em voz alta, à mesa do café, os capítulos da Bíblia, o pecado”.

Ainda criança, enfrentou o avô para fazer sua estreia no teatro Polytheama de Pirassununga. Ela mesma havia concebido coreografia e fantasia da história de uma lagarta que se transforma em borboleta. Ainda no colégio, a normalista ouviu pela primeira vez falar em Isadora Duncan – a bailarina norte-americana considerada a precursora da dança moderna. Já morava em Santos nessa época, e fazia das praias o cenário para seus primeiros passos de balé. Miroel Silveira foi o primeiro a perceber seu talento e lhe descortinar um mundo novo. 

Sem ter condições de seguir carreira como bailarina profissional, descobriu o teatro – que lhe oferecia um meio de subsistência – no Rio de Janeiro. O rádio também foi um alento nesse período. O ponto de inflexão é o encontro com Zbigniew Ziembinski. O diretor polonês, que inaugurara a modernidade do teatro no Brasil com sua revolucionária montagem de Vestido de Noiva, ofereceu a Cacilda em termos práticos, um aprofundamento das lições intelectuais que tivera com Décio de Almeida Prado. 

Em 1948, a abertura de um teatro no bairro do Bexiga, em São Paulo, mudaria outra vez seu destino. A entrada no Teatro Brasileiro de Comédia inaugurava um tempo de alguma estabilidade, com salário fixo, e muitas descobertas. O trabalho era intenso e os diretores – Adolfo Celi, Ruggero Jacobi, Maurice Vaneau –, de perfis e formações diversas. 

Foi depois desse período de aprendizado que abriu a sua própria companhia: o Teatro Cacilda Becker reunia Ziembinski, Cleyde Yáconis, sua irmã, Walmor Chagas, e contou com a participação de outros diretores, como Gianni Ratto e Antonio Abujamra. Ali, sentia-se livre para fazer suas escolhas em montagens como Auto da Compadecida (1959).

Caracterizada como um frágil e solitário menino, Cacilda parecia ter atingido certo paroxismo em Pega Fogo (1950). Eram tais a complexidade e a sutileza com a qual construíra aquele débil personagem. Como imaginar algo além daquilo em termos de representação? Mas, em Esperando Godot, dirigida por Flávio Rangel, foi ainda mais longe. Movida por uma inesgotável curiosidade, sabe-se lá o que teria alcançado se a vida lhe tivesse dado mais tempo.

Itaú Cultural exibe fotos e vídeos online

No centenário de nascimento de Cacilda Becker, os teatros estarão fechados. A situação é certamente pouco propícia para se comemorar o aniversário daquela que disse: “todos os teatros são o meu teatro”. Mas será possível marcar a efeméride com algumas ações virtuais. Em seu site, o Itaú Cultural prepara um dossiê especial sobre a artista. O pacote inclui fotografias inéditas, vídeos, além de depoimentos nos quais artistas e familiares relembram sua trajetória. 

“Foi ela quem cunhou a expressão classe teatral”, conta o diretor José Celso Martinez Côrrea em um dos depoimentos, lembrando que a atriz também esteve à frente da Comissão Estadual de Teatro e enfrentou as ações de repressão da ditadura militar. Sua atuação por um teatro livre, aliás, não se deu apenas após 1964. Antes disso, reuniu a classe para enfrentar a censura imposta à montagem de Boca de Ouro, pela Companhia Brasileira de Comédia e para defender a atriz Nydia Licia, ameaçada de perder seu teatro, em 1960. 

Zé Celso reúne reminiscências a respeito de Cacilda não apenas por ter conhecido e convivido com ela, mas por ser um apaixonado pela trajetória da grande diva do teatro brasileiro. Em 1998, montou Cacilda!, espetáculo livremente inspirado na biografia da atriz. A peça, uma das grandes realizações do Oficina, mereceu sequências nos anos seguintes. É um pouco em torno dessa pesquisa de Zé Celso que se organiza o material do Itaú Cultural, que traz dez entrevistas. Além do encenador, foram ouvidas as intérpretes que viveram Cacilda em cena, como Bete Coelho, Leona Cavalli e Camila Mota. 

A partir do texto do diretor do teatro Oficina, surgiu ainda Viva Cacilda! Felicidade Guerreira, monólogo que Lenise Pinheiro dirigiu recentemente, tendo Isabela Lemos como protagonista. Ambas falam sobre a influência da grande atriz para as artistas que a sucederam. 

Neto de Cacilda, Guilherme Becker é responsável pela guarda de seu acervo e compartilha com o público curiosidades. “Ela era magérrima, de pernas muito finas, o que fez com que alguns a chamassem de ‘Palafita do Teatro’. Mais tarde, já aplaudida nos palcos, lançava moda com seu elã.” Também surgem imagens até agora inéditas dos ensaios de Esperando Godot, último espetáculo de Cacilda, feitas pelo fotógrafo Amancio Chiodi, em 1969.

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