Casal hetero de modelos trans embaralha conceito de gênero

Com identidades feminina e masculina trocadas, Lana Santucci e Estevan Vicent militam no cotidiano por uma representatividade positiva de transgêneros e travestis

A modelo Lana Santucci, que nasceu menino e virou mulher trans, namora há sete meses o tatuador Estevan Vicent, nascido menina, mas em processo de transição ao se assumir homem trans
A modelo Lana Santucci, que nasceu menino e virou mulher trans, namora há sete meses o tatuador Estevan Vicent, nascido menina, mas em processo de transição ao se assumir homem trans Divulgação / Álbum de família

Depois de sete meses de namoro, Lana e Vicent fazem planos de casar e ter filhos. Ela sonha com uma cerimônia tradicional, com pompa e circunstância, sendo levada pelo pai ao altar, envergando um vestido de noiva preto.

“Vai ser lindo, delicado”, diz a modelo Lana Santucci, 24. Assim como os detalhes do que irá vestir, ela também pensa no simbolismo da união dela, nascida menino e que aos 20 anos se assumiu trans, com Estevan Vicent, 26, menina de nascimento, mas que desde o ano passado iniciou processo de transição como homem trans.

“Eu sempre me relacionava com meninos gays que tinham pênis, agora namoro um menino que tem vagina”, explica Lana.

Identidades trocadas

Ela também se define como travesti, pois não pretende se livrar do órgão sexual masculino com o qual nasceu. Lana é legalmente mulher, trocou o RG e não revela como se chamava antes.

“É um nome morto, que morreu judicialmente quando todos os meus documentos foram retificados.”

A modelo, que já fechou desfiles de Alexandre Herchcovitch na São Paulo Fashion Week e integrou o elenco do reality show “Born to Fashion”, faz terapia hormonal há cinco anos.

“Tomo hormônios femininos, como estrógeno, e também bloqueador de testosterona”, relata a loura de 1m83, gestos finos e voz aveludada, filha de uma família de classe média paulistana, de origem húngara.

A sua cara metade ainda está em pleno processo de transição do feminino para o masculino. O tatuador e modelo comercial exibe um físico malhado em seu 1m63, estilo condizente com sua nova identidade de gênero.

Para ele, não tão nova assim. Desde criança, quando tinha cabelos longos e usava vestidos comprados pela mãe evangélica, Vicent diz se sentir um menino.

Como um casal trans e heterossexual, Lana e Vicent reafirmam que não vieram para confundir, mas para explicar e conscientizar, em um ativismo calcado no cotidiano.

“Somo um casal hetero, pois eu gosto de meninas, e ela, de meninos”, pontua Vicent.

Com paciência e didatismo, eles diferenciam conceitos de identidade de gênero (“O que eu sou? Homem ou mulher?”) de orientação sexual (“Quem eu amo?” , “Eu me apaixonei por um homem ou uma mulher?”, “Sou hetero ou homossexual?).

E vão respondendo todas as curiosidades: Lana é mulher, Vicent é homem; eles se amam; ela se apaixonou por um homem trans e ele, por uma mulher trans; o relacionamento dos dois é, portanto, hetero.

As questões se sucedem e são explicadas ora por ela ora por ele. “Também somos um casal transgênero por não nos identificamos com nosso sexo biológico, mas sim com um gênero diferente daquele que nos foi atribuído ao nascer”, define Lana.

Ou seja, ela nasceu com o órgão sexual masculino, o que levou os pais a registrá-la no cartório como pessoa do sexo masculino, mas assumiu identidade de gênero oposta.

Ainda assim, Lana deseja manter o órgão sexual biológico em sua versão feminina. “Nunca cogitei fazer uma cirurgia para retirar o pênis. Seria uma mutilação.”

Para Vicent, gênero é construção social desse sexo biológico. O que vai além, enfatizam ambos, das distinções anatômicas, como genitálias e aparelhos reprodutivos, que definem o sexo masculino ou feminino.

Em seus perfis nas redes sociais, as duas metades do casal chamam atenção pela beleza dela, ao mesmo tempo forte e delicada, e as tatuagens e o rosto marcante dele.

Lana mora em São Paulo e Vicent ainda vive com os pais em Itajaí (SC), onde nasceu. Estão separados por 695 km, mas por pouco tempo. Planejam morar juntos e casar no futuro, com a benção das respectivas famílias.

“Eu aqui com o útero coçando e minha sogra fazendo sapatinhos de bebê, socorro!”, escreveu Vicent no Twitter, onde depois comemorou o fato de a mãe tê-lo tratado pela primeira vez pelo pronome masculino ele. “Hoje nada vai estragar o meu dia, amém”.

Lana também faz desabafos nas redes sociais, mandando recado para a galera que acha que trans é só trans, quase uma profissão.

“Amada, formada em moda, trabalho como modelo, já fiz SPFW, Casa de Criadores, duas campanhas pra M.A.C, desfiles de temporada da À La Garçonne e Renner”, enumera. Saiu na revista “Elle” três vezes e também na “Vogue” portuguesa.

A militância se dá ainda pelos fato de os dois se colocarem como transexuais para desmistificar a disforia de gênero, desconforto por não reconhecer na forma física sua verdadeira manifestação de gênero.

Vale um parêntese longo sobre a sopa de letrinhas que define a comunidade LGBTQIA+, ao dar visibilidade a todas as formas de ser. As três primeiras letras se referem a gays, lésbicas e bissexuais.

As demais dizem respeito a como a pessoa se identifica e vai além do gênero feminino ou masculino: transgêneros (travestis ou transexuais), queer (pessoas que transitam entre os dois gêneros).

Um léxico que cresce com intersexualidade, assexualidade, e panssexualidade.

Universo tratado no documentário “Disclosure”, gancho para Lana e Vicent falarem sobre preconceitos e violência que cercam a condição de trans no Brasil e no mundo.

“A pessoa transgênero, homem ou mulher, é associada à morte, uma vida que não é importante”, afirma Lana. O Brasil é o recordista mundial em assassinatos de travestis e transexuais, lembra, segundo a Antra, associação nacional que os representa.

E costumam ser mortes brutais. “Não é com tiro, mas com 20 facadas. São atos hediondos”, ressalta a modelo.

Filha de um advogado e uma dona de casa, Lana é exceção em uma realidade em que travestis são marginalizadas e fazem programa para sobreviver.

“O meu sucesso e de outras modelos trans abrem portas para outras meninas trabalharem na moda”, avalia. A mais conhecida é Lea T.

Vicent lembra que ao serem rejeitados pelos familiares, muitos transgêneros são empurrados para as ruas e buscam na prostituição uma saída. “A família mata primeiro, quando não acolhe um filho ou uma filha trans.”

Ele costuma assumir um ar protetor quando sai com a namorada. Lana chama muita atenção. E os olhares nem sempre são amigáveis ou de admiração.

Mostrar-se como casal apaixonado, que anda de mãos dadas, trabalha, viaja e faz planos é uma forma de reforçar uma representatividade positiva.

“Queremos a naturalização dos nossos corpos,” diz Lana. O namorado emenda: “Ensinam que nascemos em um corpo errado. Não vejo assim. Somos diferentes. ”

Diferenças que suscitam novas discussões na hora de falar de filhos. “Eu penso muito nisso”, confessa Vicent. “Ele leva jeito com crianças”, afirma Lana.

E como fica a questão da maternidade, que é sempre associada à mãe? “Será que só mulheres podem gerar um filho?”, indaga Lana.

Vicent responde: “Me assusta a ideia de uma criança crescendo dentro de mim”, confessa o futuro pai, a quem caberia gestar o bebê.

Uma decisão a ser tomada no futuro, caso a relação caminhe para a constituição de uma nova família.

No caso deles, não seria preciso apelar para uma barriga de aluguel nem doação de óvulos ou esperma, opções para casais de gays e lésbicas.

“Um filho nosso seria 100% biológico e do casal”, lembra Lana, que antes de virar pai, por ser o portador dos gametas masculinos, e mãe, como representação feminina do casal, pretende subir ao altar. E, claro, ultrafashion, em seu vestido negro. [Eliane Trindade]

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