‘Nomadland’ é o grande vencedor do Bafta, com quatro estatuetas; confira a lista completa de vencedores

Longa levou o prêmio de melhor filme e melhor direção para Chloé Zhao

O longa Nomadland, da diretora Chloé Zhao, se consagrou como o grande vencedor da 74ª cerimônia de premiação da Academia Britânica de Artes do Cinema e da Televisão (Bafta) neste domingo, 11. O drama sobre uma comunidade de pessoas que moram em vans levou quatro estatuetas: melhor filme, melhor direção, melhor fotografia e melhor atriz principal, com Frances McDormand.

Anthony Hopkins levou o prêmio de melhor ator principal por sua performance como um homem com Alzheimer em Meu Pai. Nas categorias de ator e atriz coadjuvante, os vencedores foram o inglês Daniel Kaluuya, por Judas e o Messias Negro, e a sul-coreana Yuh-Jung Youn, por Minari.

O longa dinamarquês Druk – Mais uma Rodada foi coroado o melhor filme em língua não-inglesa. O diretor Ang Lee recebeu o Bafta Fellowship, homenagem pelo conjunto da obra.

Neste ano, a premiação foi realizada ao longo de dois dias, começando no sábado, 10. O primeiro dia da cerimônia, realizada virtualmente por causa da pandemia de covid-19, se concentrou principalmente nas categorias técnicas e entregou nove prêmios.

A Voz Suprema do Blues, com Viola Davis e o falecido Chadwick Boseman, venceu figurino e maquiagem e penteado. Mank, filme histórico sobre Hollywood, levou direção de arte.

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Viola Davis como Ma Rainey Foto: Netflix

Após críticas no ano passado de que o Bafta apresentou uma lista de indicados apenas com atores brancos, mais da metade dos 24 indicados desta edição são atores de minorias étnicas. Nomadland e Rocks lideraram as indicações, com sete cada um.

Confira a lista completa dos vencedores do Bafta 2021

  • Melhor filme: Nomadland
  • Melhor direção: Chloé Zhao, por Nomadland
  • Melhor ator: Anthony Hopkins, por Meu Pai
  • Melhor atriz: Frances McDormand, por Nomadland
  • Melhor ator coadjuvante: Daniel Kaluuya, por Judas e o Messias Negro
  • Melhor atriz coadjuvante: Yuh-Jung Youn, por Minari
  • Ator/atriz revelação: Bukky Bakray, por Rocks
  • Melhor roteiro original: Emerald Fennell, por Bela Vingança
  • Melhor roteiro adaptado: Christopher Hampton e Florian Zeller , por Meu Pai
  • Melhor filme britânico: Bela Vingança
  • Melhor filme em língua não-inglesa: Druk – Mais Uma Rodada
  • Melhor documentário: Professor Polvo
  • Melhor filme de animação: Soul
  • Melhor curta-metragem britânico: The Present
  • Melhor curta de animação: The Owl and the Pussycat
  • Melhor estreia de roteirista, diretor ou produtor britânicos: His House
  • Melhor trilha sonora original: Soul
  • Melhor som: O Som do Silêncio
  • Melhor fotografia: Joshua James Richard, por Nomadland
  • Melhor figurino: A Voz Suprema do Blues
  • Melhores efeitos visuais: Tenet
  • Melhor cabelo e maquiagem: A Voz Suprema do Blues
  • Melhor edição: Mikkel Nielsen, para O Som do Silêncio
  • Melhor design de produção: Mank
  • Maior contribuição ao cinema britânico: Noel Clarke
  • Melhor elenco: Rocks

 /Com informações de Reuters e EFE.

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Kelly Mac – Flashin Lights

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Martin Felix Kaczmarski – Exuma/Afterglow Spirit/Neon Feels

Raquel Zerbib | Resort 2021 | Full Show

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Kelly Mac – Get In

Valeurs Absolues – Vogue Paris February 2021 –  Mariam de Vinzelle & Lola Nicon By Alasdair McLellan

Valeurs Absolues   —   Vogue Paris February 2021   —   www.vogue.fr

Photography: Alasdair McLellan Model: Mariam de Vinzelle & Lola Nicon Styling: Aleksandra Woroniecka Hair: Anthony Turner Make-Up: Lynsey Alexander Manicure: Sophie A.  Set Design: Giovanna Martial

Poder Black

Símbolo de orgulho da beleza negra, o cabelo afro tem sua história resgatada depois de virar polêmica nas mídias – a atriz Lucy Ramos e a jornalista Luiza Brasil comentam o tema e seu significado
Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

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Identidade. Muito além de estética. A atriz Lucy Ramos  Foto: Itta

Em sua 21ª edição, o reality show Big Brother Brasil chegou quebrando recordes de audiência e causando furor nas redes sociais. Entre polêmicas, paixões e brigas, um assunto de grande importância social ligado a causas antirracistas ganhou força nesta última semana e foi motivo para uma quebra de protocolo do apresentador Tiago Leifert, que interrompeu o programa para fazer um discurso para os participantes falando sobre o tema. 

Um comentário do cantor sertanejo Rodolffo sobre o cabelo de outro participante, o professor de geografia João Luiz Pedrosa, deu início a essa série de conversas sobre o Black Power e sua importância identitária para pessoas negras. 

O estilo, também conhecido como afro, surgiu, como conhecemos hoje, nos Estados Unidos, no final da década de 1950, início dos 1960, como uma forma de expressar orgulho da beleza negra. Com o tempo, o penteado que exalta as características naturais do cabelo crespo e cacheado se tornou uma mensagem política de força e resistência. 

“Muito além da estética ou de apenas um penteado, o black resgata a nossa ancestralidade. Ele me conecta às minhas raízes e celebra a cultura, a luta e a resistência do nosso povo. Pra mim, tem um significado muito grande. Sempre que coloco meu black pra jogo, tenho em mente que estou mantendo a minha identidade”, comenta a atriz e influenciadora Lucy Ramos, que exibe com orgulho toda a beleza do seu cabelo nas telas da TV, revistas e redes sociais. 

“Durante minha vida, fui entendendo que o meu cabelo dizia muito sobre quem eu era. Ao ter acesso à informação, compreendi que o meu crespo é uma característica minha que muito me orgulha. Não tenho motivos para escondê-lo. Hoje temos uma representatividade maior do que eu tinha na minha época de criança e torço para que desde a infância os pequenos e pequenas já possam nutrir esse sentimento de orgulho pela sua coroa”, complementa. 

Além de sua conta pessoal no Instagram, Lucy também comanda o perfil Segundas Cacheadas, no qual compartilha imagens inspiradoras e dicas de cuidado com o cabelo afro. “Carinhosamente sempre fui apontada como alguém que inspira muitas mulheres no seu processo de transição capilar e aceitação do afro. Pensando nelas, decidi criar um espaço específico para que pudéssemos trocar diretamente cuidados, dicas e experiências sobre o nosso cabelo. E assim nasceu o Segundas Cacheadas, com o propósito de fortalecer cada vez mais a nossa autoestima e também provocar reflexões e debates sobre as nossas vivências”, explica. O perfil é um dos destaques entre as inúmeras fontes de informação que encontramos na internet, em livros, jornais e programas de televisão. 

A pesquisa e a busca de conhecimento são fatores de extrema importância para que situações em que falas ofensivas – feitas com intenção ou não – que machucam pessoas e desvalorizam uma cultura deixem de acontecer. 

Segundo Luiza Brasil, profissional de moda e comunicação com mais de 12 anos de experiência, a autonomia para aprender é primordial. “Quando entrei [no mercado], o cenário era bem diferente. Havia ainda menos pessoas pretas. Eram espaços quase solitários. Essa pauta era trabalhada de um jeito diferente. Então sei do meu lugar articulista com o outro e não me incomodo de ser uma pessoa que produz essa informação”, conta.

“Mas acredito sim que o outro precisa ter a boa vontade de entender que hoje em dia existem materiais de todos os tipos, tamanhos e acessos para usufruir e ter conhecimento. Isso não é mais desculpa. Obras da Djamila, falas da Joice Berth, Carla Akotirene. Enfim, muita gente que fala sobre negritude e questões raciais com maestria. Acredito também que a gente não pode fazer com que o negro seja servil à pauta. Como se o negro só falasse de racismo e questões raciais. Precisamos cada vez mais nos tornar autônomos na nossa busca por conhecimento, nesse caso, raciais. Para que a gente entenda que o lugar do negro hoje em dia, mais do que buscar representatividade por conta do seu tom de pele, é gerar pertencimento em suas vivências. Isso que nos dá humanidade para seguirmos e ocuparmos espaços. Para sermos quem sempre sonhamos ser”, comenta.

“Atualmente, minha relação com meu cabelo é pautada em liberdade. Em fazer e usar do jeito que eu quero. Se eu quiser usar trança, vou usar. Se quiser natural, vou usar. Se eu quiser uma lace [peruca] lisa, vou usar. Porque tem um lugar identitário, de entender que nosso crespo é um cabelo bonito, é lindo. Mas agora acredito muito nesse lugar do poder da nossa escolha.” 

À frente do ‘Jornal Hoje’, Maju Coutinho reflete sobre os desafios de ocupar o posto em tempos de crise sanitária e turbulências políticas

Apresentadora fala também sobre infância, casamento e relação com o cabelo: ‘Estou numa relação de amor profundo’
Mariana Weber

Maju Coutinho Foto: Cassia Tabatini; styling Larissa Lucchese
Maju Coutinho Foto: Cassia Tabatini; styling Larissa Lucchese

Quando criança, Maju Coutinho brincava de ser o que é. Pilão virava microfone, mesinha servia de bancada de telejornal, miojo fazia as vezes de prato de programa de receitas. A menina cresceu, estudou Jornalismo, tornou-se repórter e apresentadora. Realizou tudo aquilo que imaginava, com exceção da parte da culinária — “Minha relação com a cozinha não é amigável”. O que não imaginava é que, aos 42 anos, seria a âncora do “Jornal Hoje” em um momento sem precedentes de crise sanitária, tensão política e proliferação de fake news. “É um desafio e tanto.”

E também um lugar exposto a ataques. “Eu me sinto às vezes em um looping em que não tenho muito sossego”, diz. Em março, Maju foi criticada por comentar “o choro é livre” ao discorrer sobre a necessidade de isolamento social no pico da pandemia. Voltou ao ar para se desculpar pela “expressão infeliz”. “Eu não estava de maneira nenhuma querendo me referir às pessoas que têm que sair para trabalhar, aos milhares de brasileiros que estão passando necessidade, que não recebem auxílio”, explica. “Fiz Jornalismo para lutar pela vida melhor de todos.” Os ataques também podem vir na forma de fake news. Como em fotos da jornalista na Praia do Leblon sem máscara que circulam nas redes — tiradas em 2019, antes de se falar em Covid. Ela até faz graça: “Gente, eu sou sustentável, mas há três anos que apareço com o mesmo biquíni!”

Já as postagens racistas de que foi alvo em 2015 tiveram como resposta uma ação judicial — que levou à condenação de dois acusados no ano passado. “Para quem está acostumado a sofrer racismo desde pequena, apesar de ser uma coisa horrorosa não é algo que derrube, porque você já está meio com a casca dura de levar no lombo”, diz. “Não significa que eu não sofra.” O apoio dos colegas e do público, com o movimento #somostodosmaju, ajudou a passar pelo caso, assim como a terapia que faz desde a época de faculdade. Também foi fundamental a formação que teve em casa. “Tive pais ligados ao movimento negro, muito conscientes.”

Maju Coutinho: equilíbrio perfeito Foto: Cassia Tabatini
Maju Coutinho: equilíbrio perfeito Foto: Cassia Tabatini

Filha de professores, Maju cresceu na Vila Matilde, Zona Leste de São Paulo, em uma família de classe média baixa. “Tive uma infância normal, boa, com comida em casa, estudei em escola particular, viajei.” Para ela, é preciso tomar cuidado com os rótulos de sofredora, batalhadora e vencedora. “É uma armadilha, em dois sentidos. Primeiro porque você vende que só podemos sair de uma condição, e não é verdade, apesar de ainda sermos maioria nas classes pobres. Depois, porque vende a questão da meritocracia: se a Maju conseguiu todas conseguem. Mas eu já saí de um patamar distante de outras meninas negras. O que não significa que elas não possam chegar, mas talvez tenham um caminho mais duro.”

Elas têm, pelo menos, um exemplo diário na TV. E mandam fotos para a apresentadora, mostrando seus cabelos parecidos com os dela. “É um impacto muito bacana. Já valeu a vinda.”

Maju: à frente do do Jornal "Hoje" Foto: Cassia Tabatini
Maju: à frente do do Jornal “Hoje” Foto: Cassia Tabatini

A seguir, trechos da conversa que Maju teve por videoconferência a partir da sua casa no bairro do Campo Belo (SP), onde vive com o publicitário Agostinho Moura, 57 anos — os dois se conheceram na fila de um show e estão casados desde 2009.

O GLOBO: O “Jornal Hoje” está fazendo 50 anos. Como é assumir como âncora nesse momento tão desafiador para o jornalismo?

 Saí da previsão do tempo, em que dificilmente tinha um assunto muito pesado, e caí no “JH” no final de setembro de 2019. Então, passei poucos meses tranquila. E tranquila naquelas, porque a gente já tinha uma tensão política. Aí, em março de 2020, decretou-se a pandemia, com o jornal num horário estendido, de 45 para 85 minutos. Foi desafiante e ao mesmo tempo sinto um orgulho danado. Todo dia temos um esqueleto do que vai ser o jornal, mas enquanto apresento vão chegando notas, e vou entendendo o que está pegando no momento. É uma adrenalina.

Maju Coutinho Foto: Cassia Tabatini
Maju Coutinho Foto: Cassia Tabatini


Muitas pessoas comentam o mesmo: eu nunca imaginei passar por um momento assim. Como é transmitir isso quando você está no jornal?

É difícil. Ainda vou levar um tempo para digerir, porque agora estou na onda. E estou tentando me sustentar a cada dia, respirando, meditando, mas não tenho ainda clareza para fazer uma avaliação. Até falei no ar esses dias que parece aquele filme “Feitiço do tempo”, em que você está sempre no mesmo dia, mas com alguns detalhes mais macabros, as informações de morte escalando. É uma linha tênue. Não posso ser fria a ponto de ignorar o que está acontecendo nem ser dramática demais. Às vezes acerto, às vezes não, mas sinto essa corda bamba na comunicação de um negócio que é tão trágico que você também às vezes pode se anestesiar de tanto medo.

Como apresentadora negra, você ainda é minoria. Sente-se solitária?

Não tanto quanto há três anos. E a partir dos protestos antirracistas do ano passado, houve uma virada. Mas ainda tem um caminho pela frente. Já fico feliz de olhar para a tela e ver cabelos parecidos com os meus. Tento até disfarçar quando vai ao ar alguém parecida comigo, faço um sorrisinho de lado. Nunca tive isso. Glória Maria, Dulcineia [Novaes] e Heraldo [Pereira] eram praticamente os únicos, e não apareciam todos os dias. Estou diariamente entrando aqui com meu cabelo assim do jeito que é, cacheado, crespo.

Apresentadora enfrenta desafio diário Foto: Cassia Tabatini
Apresentadora enfrenta desafio diário Foto: Cassia Tabatini

Em um post no Instagram, escreveu “Meus cachos, minha vida”. Sua relação com eles sempre foi boa?

Não. Apesar de meus pais serem do movimento negro, minha mãe era uma mulher que alisava o cabelo. Olha, a Glória Maria foi mesmo corajosa, bato palmas, porque usou o blackzinho dela por muito tempo como repórter. Cresci vendo uma enxurrada de cabelos lisos e loiros. Não tinha consciência de que meu cabelo era assim. Minha mãe fazia trancinhas nele quando eu era pequena, depois alisei. Quando saiu a revista Raça, vi um cabelo todo trançado e pus trança. Aí tirei a trança e vi meu cabelo mais ou menos assim, mas ainda passava babyliss, que estragou os fios. Tive que colocar um aplique para eles crescerem. Agora que tirei e o cabelo está natural, estou numa relação de amor profundo. De entender quem ele é, como eu trato. Nunca tive isso antes.

Como era o envolvimento dos seus pais com o movimento negro?

Eles eram professores da rede pública — minha mãe coordenadora pedagógica, meu pai professor de português. Nos anos 1980, fizeram parte de um conselho de desenvolvimento da comunidade negra. Iam muito a reuniões, e eu ia junto. Isso foi importante na minha trajetória. Conheço outras pessoas que só se deram conta de que são negras quando chegaram à idade adulta. Eu não, já sabia desde que me entendo por gente, já fui colocada como negra pela família, no sentido de que nós somos uma comunidade. Quando nasci, minha mãe virou para uma amiga e falou: “Nossa, que medo, porque eu estou colocando uma mulher negra no mundo. Eu acho que vai ser muito difícil para ela”.

Quando foi alvo de ataques racistas (em 2015), você disse que já tinha criado uma casca dura. tinha sofrido isso em outros momentos da vida?

Desde pequena. Espero que as crianças que estão chegando agora encontrem um caminho diferente. Pequenininha, estudava em pré-escola particular e era a única negra, então a coleguinha achava que a minha casa, a minha comida, o meu xixi, tudo era preto. Hoje dou risada, mas para uma criança é dolorido. Tem também a questão de, quando se é negra como eu, com a pele mais escura, se é mais animalizada: macaco, essas coisas, é muito comum ouvir. Teve uma marcante, de um amigo-secreto, que hoje acho inimigo-secreto, mandar um bilhetinho: “Por que você não passa um condicionador nesse cabelo?”. Nesse nível. São essas coisas que fazem parte do racismo estrutural e que podem minar a confiança, a autoestima.

Maju: relação de amor com os cachos; Edição de moda: Patricia Tremblais. Beleza: Robson Jovino. Assistente de luz: Victor Cazuza. Digitec: Magu Mariotto. Produção executiva: André Storari e Christiano Mattos. Coordenação de moda: Andre Puertas. Set Design: LSet. Tratamento de imagem: André Kawa. Agradecimentos: Estúdio Bob Wolfenson. Foto: Cassia Tabatini
Maju: relação de amor com os cachos; Edição de moda: Patricia Tremblais. Beleza: Robson Jovino. Assistente de luz: Victor Cazuza. Digitec: Magu Mariotto. Produção executiva: André Storari e Christiano Mattos. Coordenação de moda: Andre Puertas. Set Design: LSet. Tratamento de imagem: André Kawa. Agradecimentos: Estúdio Bob Wolfenson. Foto: Cassia Tabatini

Tem vontade de ter filhos?

Nunca tive aquela vocação, aquele sentimento de ser mãe. Adoro crianças, as crianças gostam de mim. Meu marido tem dois filhos, né? Já é avô, inclusive, tem dois netinhos. Ele já tinha filhos adolescentes quando a gente se conheceu. E a gente se dá muito bem do jeito que a gente tá, então eu nunca tive essa supernecessidade de ser mãe. De repente, mude de ideia, adote ou engravide. Não estou falando que é um jogo fechado, mas no momento é isso.


Como está a sua rotina? Quem é você na pandemia?

Eu sou uma mulher monástica. Acordo cinco e pouco porque tenho que ler o máximo que eu puder de jornal, me inteirar, e tenho que me exercitar um pouco, então eu vou lendo numa bike aqui em casa. Quando dá para correr, saio. Chego na Globo às 8h15 e já começa: é fazer maquiagem acompanhando a reunião de pauta pelo celular, depois produzir várias chamadas. Então é me preparar, meditar três minutos e às 13h25 entro no ar e vou até às 15h. Chego às 15h com fome — acabei ganhando cinco quilos e tive que perder na pandemia, porque ano passado a gente ainda não estava habituado com essa tensão de ficar presa, então eu comi mesmo, comi doce, tudo. Vou para casa e, agora que tem o “Papo de Política” (na GloboNews), descanso um pouco e tento falar com as fontes para ter alguma coisa para o programa. E durmo cedo. Terminou o “JN” eu meio que já estou dormindo para dar conta.

Maju Coutinho diz que não pensa em ter filhos: ‘Nunca tive essa necessidade’

Jornalista também falou sobre racismo e sua relação com o cabelo

A jornalista Maju Coutinho – Mathilde Missioneiro/Folhapress

Ser mãe, por enquanto, não está nos planos da jornalista Maju Coutinho, 42. Em entrevista ao jornal O Globo, a apresentadora do Jornal Hoje disse que nunca sentiu ter vocação para ter filhos.

“Meu marido tem dois filhos, né? Já é avô, inclusive, tem dois netinhos. Ele já tinha filhos adolescentes quando a gente se conheceu. E a gente se dá muito bem do jeito que a gente está, então eu nunca tive essa supernecessidade de ser mãe”, afirmou.

Maju é casada com o publicitário Agostinho Paulo Moura desde 2009. “De repente, eu mude de ideia, adote ou engravide. Não estou falando que é um jogo fechado, mas no momento é isso”, completou.​

Na entrevista, a jornalista também falou sobre a relação com o seu cabelo, que nem sempre foi boa. “Cresci vendo uma enxurrada de cabelos lisos e loiros. Não tinha consciência de que meu cabelo era assim. Minha mãe fazia trancinhas nele quando eu era pequena, depois alisei”, afirmou.

Ela contou que resolveu usar tranças depois que viu um cabelo todo trançado na revista Raça. Depois de tirar as tranças, Maju disse que teve que usar um aplique, porque havia estragado os fios com um babyliss.

“Agora que tirei e o cabelo está natural, estou numa relação de amor profundo. De entender quem ele é, como eu trato. Nunca tive isso antes.”

A apresentadora, que já foi alvo de ataques racistas em 2015 e em outros momentos de sua carreira, falou teve que criar uma casca dura para enfrentar o preconceito, do qual é vítima desde criança.

“Quando se é negra como eu, com a pele mais escura, se é mais animalizada: macaco, essas coisas, é muito comum ouvir. Teve uma marcante, de um amigo-secreto, que hoje acho inimigo-secreto, mandar um bilhetinho: ‘Por que você não passa um condicionador nesse cabelo?’. Nesse nível. São essas coisas que fazem parte do racismo estrutural e que podem minar a confiança, a autoestima.”

Zezé Motta fala de trajetória na TV e novo amor aos 76: “Sou movida a paixões”

Chamada por suas colegas de “rainha”, Zezé Motta foi, por décadas, uma das raras referências de mulher negra na arte no Brasil, ao mesmo tempo que viveu as dores e delícias de ser uma sex symbol. Mãe de quatro filhos – sem nunca ter gestado –, ativista antirracista, não acredita na vida sem paixão. Aos 76 anos, com energia e vida de sobra, não se cansa de trabalhar e acaba de começar um namoro
PAOLA DEODORO

Zezé Motta para Marie Claire (Foto: Caroline Lima)

Deitada de lado em um sofá em seu icônico apartamento no Leme, o mesmo onde morou Clarice LispectorZezé Motta conversou com a reportagem de Marie Claire por meio de uma videochamada. Segurando o celular próximo ao rosto, a atriz e cantora ia buscando na memória histórias para ilustrar cada pergunta. Das lembranças mais profundas, trouxe as sensações de ter sofrido um racismo tão extremo que desencadeou um processo de embranquecimento, uma total negação de suas raízes durante a adolescência: “Dos 6 aos 12 anos, vivi em um colégio interno porque meus pais não tinham como cuidar de mim e trabalhar ao mesmo tempo. Quando saí, nos mudamos para um prédio de classe média baixa no Leblon, com todos os vizinhos brancos, e com adolescentes muito cruéis, que diziam que meu cabelo era ruim, meu nariz era chato, e o bumbum grande demais”, lembra. “Passei muito tempo com vontade de mudar tudo em mim. Queria ter dinheiro para operar o nariz, comprar lentes de contato verdes, cheguei a pesquisar sobre cirurgias para diminuir o bumbum”, desabafa.

Como única negra nos lugares que frequentava no início da carreira, Zezé normalizava o fato de que não era considerada bonita. Mas bastou pisar na Nova York de 1969, durante a turnê da peça Arena Conta Zumbi, de Augusto Boal, no auge do movimento Black Is Beautiful, para entender as chagas do racismo brasileiro. “Comecei a olhar para os negros nas ruas e via que eles eram muito bonitos. E mais: percebi que eles se achavam bonitos, tinham orgulho de seu visual, estavam sempre arrumados, com seus black power enormes. Então comecei a questionar por que me achava tão feia. A resposta: ouvia isso dos brancos e acreditava neles”, diz.

O mergulho de Zezé nas próprias raízes não parou por aí. Na peça que apresentavam nos EUA, os atores se revezavam, empunhavam o braço e falavam “Sou Zumbi!”. Na época, Zezé usava uma peruca de cabelos lisos na altura do queixo. “Em uma apresentação no Harlem, o diretor foi questionado sobre o meu cabelo”, lembra. “Quando veio falar comigo, fiquei constrangida e percebi que não fazia mesmo o menor sentido usar aquilo. Tirei a peruca, fui para debaixo do chuveiro. Embaixo dela, meu cabelo era alisado. Mas, com qualquer chuvinha, voltava a ficar crespo. Permaneci embaixo da água até o meu ‘toin nhoin nhoin’ voltar todinho.” Apesar disso, Zezé se sentiu frustrada: os fios estavam curtos demais. Foi então que uma amiga brasileira que morava em Nova York contou que muitos americanos também vestiam perucas. Só que, em vez de lisas, eram em formato black power. “Entendi uma nova relação com a beleza. Deixei de alisar, troquei a peruca e comecei a cuidar do cabelo natural para ter meu próprio black grandão. Estava começando a cura do processo de negação da minha origem naquele momento”, lembra, emocionada. Junto com esse despertar, Zezé tornou-se uma personagem importante no debate sobre racismo e do movimento negro no Brasil, ainda no início dos anos 1970.

Ao mesmo tempo, também nasceu – ou melhor, renasceu – como Xica da Silva. O filme de Cacá Diegues, de 1976, levou sua carreira para outro patamar em termos de reconhecimento e visibilidade. A conquista do protagonismo foi um feito inédito para uma menina preta de sua geração e a transformou em uma estrela, além de um símbolo sexual. O Brasil nunca tinha visto nada parecido. “Quando começaram a me chamar para fazer fotos sensuais, achava divertido”, recorda. “Mas depois começou a me incomodar, porque para alguns virei só aquilo. Meus parceiros – e foram uns tantos porque, afinal, estávamos nos anos 1970, em plena revolução sexual – começaram a confundir a personagem e a pessoa. Ouvia de homens: ‘Não acredito que transei com a Xica da Silva’.

Entre a Zezé de Xica e a de hoje existe um universo de histórias. Com sua trajetória, é possível traçar um paralelo com o Brasil dos anos 1970 e o de 2020. Embora nunca tenha parado de trabalhar (nem de lutar) desde então, Zezé viu sua voz ficar ainda mais forte com o fortalecimento do movimento Black Lives Matter e das discussões sobre etarismo. Nos últimos meses, em plena pandemia, esteve com a agenda lotada. Participou de 70 lives (ainda que apenas três remuneradas) e reacendeu sua ligação com o universo da beleza. “Fui escalada para uma campanha da Avon. Só que, na véspera, testei positivo para Covid-19. Fiquei assintomática, me sentindo bem, mas não pude ir ao estúdio. Então só fiz uma parte do projeto, fotografei em casa. Em dezembro, também fiz uma campanha sobre bem-estar para a Natura, além de trabalhos para outras marcas. Adorei, fazia muito tempo que não era chamada para campanhas do tipo”, conta.

Canceriana e extremamente amorosa, Zezé também é filha de Oxum. O que explica muito bem o tamanho de seu coração de mãe, que abriga quatro filhos: Luciana, Carla, Cíntia e Rob­son. Nenhum gestado por ela, também nenhum adotado legalmente. Segundo Zezé, eles foram acontecendo. Na verdade, já era seu olhar materno em ação. Conheceu Luciana com 4 anos, durante um show na Casa da Criança. Primeiro tornou-se madrinha e aos poucos a relação foi se intensificando, até que se tornaram uma família. Carla tinha 11 anos e chamou a atenção de Zezé porque estava chorando na praia. Fazia um ano que a mãe tinha morrido e morava com uma madrinha desde então. Em pouco tempo, também passou a fazer parte integralmente da vida de Zezé. Depois veio Cíntia, que morava em um abrigo e aos 12 anos foi escolhida para fazer um curso de teatro com a professora que, logo em seguida, se tornaria sua mãe. E, mais recentemente, chegou Robson. Ela era conselheira de Direitos Humanos no governo de Fernando Henrique Cardoso e conheceu a história do menino que havia sido abandonado na casa de uma vizinha com 1 ano, morado na rua e passado por muitas dores até encontrar Zezé, aos 15.

Apesar de gostar de casa cheia, Zezé prefere ter tempo de qualidade com cada filho. “Eles se revezam para vir aqui, meus sobrinhos também.” Ela mora sozinha e anda bastante reclusa por causa da pandemia. Mas não solitária. Em meio à conversa, Zezé fez uma revelação íntima: a de que começou a namorar recentemente. “Estava sozinha havia bastante tempo, mas não estou mais solteira. Ele é reservado, e por respeito a ele não vou dar muitos detalhes, mas estamos juntos há três meses. Ele é mais jovem do que eu, tem 60 anos”, conta. “Estou muito feliz pois sou movida a paixões, sem amor a vida não tem graça nenhuma.”

DAQUI PARA A FRENTE

Além de um bom fluxo de trabalho, o ano passado reservou outra surpresa para Zezé. Em maio, junto com a dor da morte de sua mãe, que tinha 95 anos, veio a notícia de que ela tinha deixado alguns investimentos em quatro bancos diferentes para os dois filhos, Zezé e Romilton. “Sempre impliquei com a minha mãe porque dizia que ela era pão-dura. E ela me repreendia dizendo que eu não sabia economizar dinheiro, não guardava e ainda dividia com os outros o que eu tinha. E aí, quando já não está mais aqui, me vem com essa novidade… Ela sempre foi muito organizada, tinha pensão dos ex-­maridos, mas por essa eu não esperava”, conta.

Como vice-presidente do Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, ela convive de perto e entende bem a fragilidade da carreira artística no Brasil. “Acabei de renovar o contrato. Serão mais seis anos! Me sinto muito bem com essa missão. É um trabalho voluntário, faço com muito prazer. Afinal de contas, são pessoas importantes para a história do país, para a nossa cultura, que se doaram para a arte e que merecem carinho, cuidado e acolhimento. Então, cuidar da minha saúde, do meu bem-estar, é minha prioridade, para que eu possa continuar trabalhando e produzindo o máximo possível”, revela.

Depois de quase duas horas de bate-papo e de recordações, Zezé fecha com a frase perfeita para encerrar a entrevista. “Foi tanta história, né? Vai ficar muito engraçada essa matéria. A vantagem de ter certa idade é que a gente tem muita vida para contar.” A única diferença, Zezé, é que nem todo mundo vive tão profundamente como você!