Poder Black

Símbolo de orgulho da beleza negra, o cabelo afro tem sua história resgatada depois de virar polêmica nas mídias – a atriz Lucy Ramos e a jornalista Luiza Brasil comentam o tema e seu significado
Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

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Identidade. Muito além de estética. A atriz Lucy Ramos  Foto: Itta

Em sua 21ª edição, o reality show Big Brother Brasil chegou quebrando recordes de audiência e causando furor nas redes sociais. Entre polêmicas, paixões e brigas, um assunto de grande importância social ligado a causas antirracistas ganhou força nesta última semana e foi motivo para uma quebra de protocolo do apresentador Tiago Leifert, que interrompeu o programa para fazer um discurso para os participantes falando sobre o tema. 

Um comentário do cantor sertanejo Rodolffo sobre o cabelo de outro participante, o professor de geografia João Luiz Pedrosa, deu início a essa série de conversas sobre o Black Power e sua importância identitária para pessoas negras. 

O estilo, também conhecido como afro, surgiu, como conhecemos hoje, nos Estados Unidos, no final da década de 1950, início dos 1960, como uma forma de expressar orgulho da beleza negra. Com o tempo, o penteado que exalta as características naturais do cabelo crespo e cacheado se tornou uma mensagem política de força e resistência. 

“Muito além da estética ou de apenas um penteado, o black resgata a nossa ancestralidade. Ele me conecta às minhas raízes e celebra a cultura, a luta e a resistência do nosso povo. Pra mim, tem um significado muito grande. Sempre que coloco meu black pra jogo, tenho em mente que estou mantendo a minha identidade”, comenta a atriz e influenciadora Lucy Ramos, que exibe com orgulho toda a beleza do seu cabelo nas telas da TV, revistas e redes sociais. 

“Durante minha vida, fui entendendo que o meu cabelo dizia muito sobre quem eu era. Ao ter acesso à informação, compreendi que o meu crespo é uma característica minha que muito me orgulha. Não tenho motivos para escondê-lo. Hoje temos uma representatividade maior do que eu tinha na minha época de criança e torço para que desde a infância os pequenos e pequenas já possam nutrir esse sentimento de orgulho pela sua coroa”, complementa. 

Além de sua conta pessoal no Instagram, Lucy também comanda o perfil Segundas Cacheadas, no qual compartilha imagens inspiradoras e dicas de cuidado com o cabelo afro. “Carinhosamente sempre fui apontada como alguém que inspira muitas mulheres no seu processo de transição capilar e aceitação do afro. Pensando nelas, decidi criar um espaço específico para que pudéssemos trocar diretamente cuidados, dicas e experiências sobre o nosso cabelo. E assim nasceu o Segundas Cacheadas, com o propósito de fortalecer cada vez mais a nossa autoestima e também provocar reflexões e debates sobre as nossas vivências”, explica. O perfil é um dos destaques entre as inúmeras fontes de informação que encontramos na internet, em livros, jornais e programas de televisão. 

A pesquisa e a busca de conhecimento são fatores de extrema importância para que situações em que falas ofensivas – feitas com intenção ou não – que machucam pessoas e desvalorizam uma cultura deixem de acontecer. 

Segundo Luiza Brasil, profissional de moda e comunicação com mais de 12 anos de experiência, a autonomia para aprender é primordial. “Quando entrei [no mercado], o cenário era bem diferente. Havia ainda menos pessoas pretas. Eram espaços quase solitários. Essa pauta era trabalhada de um jeito diferente. Então sei do meu lugar articulista com o outro e não me incomodo de ser uma pessoa que produz essa informação”, conta.

“Mas acredito sim que o outro precisa ter a boa vontade de entender que hoje em dia existem materiais de todos os tipos, tamanhos e acessos para usufruir e ter conhecimento. Isso não é mais desculpa. Obras da Djamila, falas da Joice Berth, Carla Akotirene. Enfim, muita gente que fala sobre negritude e questões raciais com maestria. Acredito também que a gente não pode fazer com que o negro seja servil à pauta. Como se o negro só falasse de racismo e questões raciais. Precisamos cada vez mais nos tornar autônomos na nossa busca por conhecimento, nesse caso, raciais. Para que a gente entenda que o lugar do negro hoje em dia, mais do que buscar representatividade por conta do seu tom de pele, é gerar pertencimento em suas vivências. Isso que nos dá humanidade para seguirmos e ocuparmos espaços. Para sermos quem sempre sonhamos ser”, comenta.

“Atualmente, minha relação com meu cabelo é pautada em liberdade. Em fazer e usar do jeito que eu quero. Se eu quiser usar trança, vou usar. Se quiser natural, vou usar. Se eu quiser uma lace [peruca] lisa, vou usar. Porque tem um lugar identitário, de entender que nosso crespo é um cabelo bonito, é lindo. Mas agora acredito muito nesse lugar do poder da nossa escolha.” 

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