Zezé Motta fala de trajetória na TV e novo amor aos 76: “Sou movida a paixões”

Chamada por suas colegas de “rainha”, Zezé Motta foi, por décadas, uma das raras referências de mulher negra na arte no Brasil, ao mesmo tempo que viveu as dores e delícias de ser uma sex symbol. Mãe de quatro filhos – sem nunca ter gestado –, ativista antirracista, não acredita na vida sem paixão. Aos 76 anos, com energia e vida de sobra, não se cansa de trabalhar e acaba de começar um namoro
PAOLA DEODORO

Zezé Motta para Marie Claire (Foto: Caroline Lima)

Deitada de lado em um sofá em seu icônico apartamento no Leme, o mesmo onde morou Clarice LispectorZezé Motta conversou com a reportagem de Marie Claire por meio de uma videochamada. Segurando o celular próximo ao rosto, a atriz e cantora ia buscando na memória histórias para ilustrar cada pergunta. Das lembranças mais profundas, trouxe as sensações de ter sofrido um racismo tão extremo que desencadeou um processo de embranquecimento, uma total negação de suas raízes durante a adolescência: “Dos 6 aos 12 anos, vivi em um colégio interno porque meus pais não tinham como cuidar de mim e trabalhar ao mesmo tempo. Quando saí, nos mudamos para um prédio de classe média baixa no Leblon, com todos os vizinhos brancos, e com adolescentes muito cruéis, que diziam que meu cabelo era ruim, meu nariz era chato, e o bumbum grande demais”, lembra. “Passei muito tempo com vontade de mudar tudo em mim. Queria ter dinheiro para operar o nariz, comprar lentes de contato verdes, cheguei a pesquisar sobre cirurgias para diminuir o bumbum”, desabafa.

Como única negra nos lugares que frequentava no início da carreira, Zezé normalizava o fato de que não era considerada bonita. Mas bastou pisar na Nova York de 1969, durante a turnê da peça Arena Conta Zumbi, de Augusto Boal, no auge do movimento Black Is Beautiful, para entender as chagas do racismo brasileiro. “Comecei a olhar para os negros nas ruas e via que eles eram muito bonitos. E mais: percebi que eles se achavam bonitos, tinham orgulho de seu visual, estavam sempre arrumados, com seus black power enormes. Então comecei a questionar por que me achava tão feia. A resposta: ouvia isso dos brancos e acreditava neles”, diz.

O mergulho de Zezé nas próprias raízes não parou por aí. Na peça que apresentavam nos EUA, os atores se revezavam, empunhavam o braço e falavam “Sou Zumbi!”. Na época, Zezé usava uma peruca de cabelos lisos na altura do queixo. “Em uma apresentação no Harlem, o diretor foi questionado sobre o meu cabelo”, lembra. “Quando veio falar comigo, fiquei constrangida e percebi que não fazia mesmo o menor sentido usar aquilo. Tirei a peruca, fui para debaixo do chuveiro. Embaixo dela, meu cabelo era alisado. Mas, com qualquer chuvinha, voltava a ficar crespo. Permaneci embaixo da água até o meu ‘toin nhoin nhoin’ voltar todinho.” Apesar disso, Zezé se sentiu frustrada: os fios estavam curtos demais. Foi então que uma amiga brasileira que morava em Nova York contou que muitos americanos também vestiam perucas. Só que, em vez de lisas, eram em formato black power. “Entendi uma nova relação com a beleza. Deixei de alisar, troquei a peruca e comecei a cuidar do cabelo natural para ter meu próprio black grandão. Estava começando a cura do processo de negação da minha origem naquele momento”, lembra, emocionada. Junto com esse despertar, Zezé tornou-se uma personagem importante no debate sobre racismo e do movimento negro no Brasil, ainda no início dos anos 1970.

Ao mesmo tempo, também nasceu – ou melhor, renasceu – como Xica da Silva. O filme de Cacá Diegues, de 1976, levou sua carreira para outro patamar em termos de reconhecimento e visibilidade. A conquista do protagonismo foi um feito inédito para uma menina preta de sua geração e a transformou em uma estrela, além de um símbolo sexual. O Brasil nunca tinha visto nada parecido. “Quando começaram a me chamar para fazer fotos sensuais, achava divertido”, recorda. “Mas depois começou a me incomodar, porque para alguns virei só aquilo. Meus parceiros – e foram uns tantos porque, afinal, estávamos nos anos 1970, em plena revolução sexual – começaram a confundir a personagem e a pessoa. Ouvia de homens: ‘Não acredito que transei com a Xica da Silva’.

Entre a Zezé de Xica e a de hoje existe um universo de histórias. Com sua trajetória, é possível traçar um paralelo com o Brasil dos anos 1970 e o de 2020. Embora nunca tenha parado de trabalhar (nem de lutar) desde então, Zezé viu sua voz ficar ainda mais forte com o fortalecimento do movimento Black Lives Matter e das discussões sobre etarismo. Nos últimos meses, em plena pandemia, esteve com a agenda lotada. Participou de 70 lives (ainda que apenas três remuneradas) e reacendeu sua ligação com o universo da beleza. “Fui escalada para uma campanha da Avon. Só que, na véspera, testei positivo para Covid-19. Fiquei assintomática, me sentindo bem, mas não pude ir ao estúdio. Então só fiz uma parte do projeto, fotografei em casa. Em dezembro, também fiz uma campanha sobre bem-estar para a Natura, além de trabalhos para outras marcas. Adorei, fazia muito tempo que não era chamada para campanhas do tipo”, conta.

Canceriana e extremamente amorosa, Zezé também é filha de Oxum. O que explica muito bem o tamanho de seu coração de mãe, que abriga quatro filhos: Luciana, Carla, Cíntia e Rob­son. Nenhum gestado por ela, também nenhum adotado legalmente. Segundo Zezé, eles foram acontecendo. Na verdade, já era seu olhar materno em ação. Conheceu Luciana com 4 anos, durante um show na Casa da Criança. Primeiro tornou-se madrinha e aos poucos a relação foi se intensificando, até que se tornaram uma família. Carla tinha 11 anos e chamou a atenção de Zezé porque estava chorando na praia. Fazia um ano que a mãe tinha morrido e morava com uma madrinha desde então. Em pouco tempo, também passou a fazer parte integralmente da vida de Zezé. Depois veio Cíntia, que morava em um abrigo e aos 12 anos foi escolhida para fazer um curso de teatro com a professora que, logo em seguida, se tornaria sua mãe. E, mais recentemente, chegou Robson. Ela era conselheira de Direitos Humanos no governo de Fernando Henrique Cardoso e conheceu a história do menino que havia sido abandonado na casa de uma vizinha com 1 ano, morado na rua e passado por muitas dores até encontrar Zezé, aos 15.

Apesar de gostar de casa cheia, Zezé prefere ter tempo de qualidade com cada filho. “Eles se revezam para vir aqui, meus sobrinhos também.” Ela mora sozinha e anda bastante reclusa por causa da pandemia. Mas não solitária. Em meio à conversa, Zezé fez uma revelação íntima: a de que começou a namorar recentemente. “Estava sozinha havia bastante tempo, mas não estou mais solteira. Ele é reservado, e por respeito a ele não vou dar muitos detalhes, mas estamos juntos há três meses. Ele é mais jovem do que eu, tem 60 anos”, conta. “Estou muito feliz pois sou movida a paixões, sem amor a vida não tem graça nenhuma.”

DAQUI PARA A FRENTE

Além de um bom fluxo de trabalho, o ano passado reservou outra surpresa para Zezé. Em maio, junto com a dor da morte de sua mãe, que tinha 95 anos, veio a notícia de que ela tinha deixado alguns investimentos em quatro bancos diferentes para os dois filhos, Zezé e Romilton. “Sempre impliquei com a minha mãe porque dizia que ela era pão-dura. E ela me repreendia dizendo que eu não sabia economizar dinheiro, não guardava e ainda dividia com os outros o que eu tinha. E aí, quando já não está mais aqui, me vem com essa novidade… Ela sempre foi muito organizada, tinha pensão dos ex-­maridos, mas por essa eu não esperava”, conta.

Como vice-presidente do Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, ela convive de perto e entende bem a fragilidade da carreira artística no Brasil. “Acabei de renovar o contrato. Serão mais seis anos! Me sinto muito bem com essa missão. É um trabalho voluntário, faço com muito prazer. Afinal de contas, são pessoas importantes para a história do país, para a nossa cultura, que se doaram para a arte e que merecem carinho, cuidado e acolhimento. Então, cuidar da minha saúde, do meu bem-estar, é minha prioridade, para que eu possa continuar trabalhando e produzindo o máximo possível”, revela.

Depois de quase duas horas de bate-papo e de recordações, Zezé fecha com a frase perfeita para encerrar a entrevista. “Foi tanta história, né? Vai ficar muito engraçada essa matéria. A vantagem de ter certa idade é que a gente tem muita vida para contar.” A única diferença, Zezé, é que nem todo mundo vive tão profundamente como você!

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