Já ouviu falar da F.O.D.A.? Do inglês ‘fear of dating out’, a sigla é caracterizada pelo medo de se relacionar na pandemia

A síndrome vem no embalo de outras disfunções contemporâneas, como a F.O.M.O (fear of missing out), que é o medo de estar perdendo alguma coisa
Lívia Breves

Nova síndrome contemporânea F.O.D.A se caracteriza pelo medo de ter novos encontros amorosos Foto: ShutterStock

No fim do ano passado, depois de meses batendo papo com pretendentes em aplicativos de relacionamento, a publicitária Clara*, de 30 anos, tomou coragem de sair do mundo virtual e marcar um encontro. As questões foram várias: onde seria, se fariam teste para Covid-19, em que momento tirariam a máscara e tantas outras dúvidas sobre como proceder em um date outrora tão comum mas que agora precisa se adaptar a uma situação de pandemia. A angústia foi tanta que Clara desmarcou de última hora. E nunca mais ousou marcar outro. Esse é só mais um de tantos casos semelhantes que estão acontecendo com os solteiros que passaram o último ano seguindo à risca os protocolos de segurança. A síndrome de quem está com esse bloqueio tem nome: F.O.D.A., que não é sacanagem e sim a sigla para fear of dating again (em tradução literal, o medo de se relacionar novamente) criada pela cientista comportamental inglesa Logan Ury.

A cientista comportamental inglesa Logan Ury foi quem criou a sigla Foto: Reprodução

O termo, que poderia ter alguma graça, ganha contornos trágicos por ser mais uma doença causada pela pandemia. “Na hora H não consegui ir. Me deu medo de ser contaminada ou de contaminá-lo. Estou isolada desde março do ano passado, perdi o traquejo para a paquera ao vivo também. Esqueci até como se passa batom. Foram várias aflições juntas que me paralisaram”, conta a publicitária. Date desmarcado, Clara voltou para a rotina: assistir a séries, ficar de pijama e conversar on-line. “Foram tantos meses repetindo para todos meus amigos e familiares que era preciso manter o distanciamento que me achei fake de sair com um cara. Imagina na hora de tirar a máscara para beijar? Tenso. Além disso, com os números cada vez maiores de contaminados e de mortes fica difícil sublimar tudo isso e conseguir relaxar. Sei que a minha carência está gigantesca, que passo por momentos difíceis por conta da solidão, mas o medo acabou sublimando tudo isso e me senti melhor ficando em casa”, completa.

A síndrome vem no embalo de outras disfunções contemporâneas, como a F.O.M.O (fear of missing out), que é o medo de estar perdendo alguma coisa. A doença, descrita pela primeira vez nos anos 2000, surgiu com o advento das redes sociais. As pessoas ficavam com inveja por não estarem em tal festa ao ver os convidados postando o evento, chegando a casos graves de depressão. Como desdobramento, veio a J.O.M.O (joing of missing out), atingindo os mais caseiros. Trata-se do prazer de estar no sofá em vez de curtir o agito, quando determinado evento bomba nas redes.

A psicanalista Anna Beatriz Medici: "Se antes da pandemia vivíamos um excesso de possibilidades de relações, o isolamento social trouxe como um de seus efeitos também um exagero, no entanto, inverso" Foto: Reprodução
A psicanalista Anna Beatriz Medici: “Se antes da pandemia vivíamos um excesso de possibilidades de relações, o isolamento social trouxe como um de seus efeitos também um exagero, no entanto, inverso” Foto: Reprodução

A psicanalista Anna Beatriz Medici observa que tudo começou quando o isolamento social fez com que todos precisassem ressignificar suas relações consigo mesmos, recolher-se e criar um lugar de segurança. “Se antes da pandemia vivíamos um excesso de possibilidades de relações, o isolamento social trouxe como um de seus efeitos também um exagero, no entanto, inverso. Por causa da extensão e das incertezas da pandemia, as síndromes começam a dar notícias. Se no passado nada era exigido, tudo era pensado para ser fluido, leve, hoje, escuto um certo receio em voltar a se lançar em algo sem garantia, que exigiria, de certa forma, renunciar a uma vida voltada, há um longo período, apenas para si”, analisa Anna Beatriz. “Percebo uma angústia de abrir mão dessa organização toda em torno do cuidado consigo mesmo, narcísica, mas segura”.

Aos 38 anos, o advogado Paulo* viu que estava perdendo sua inteligência emocional com o passar dos meses isolado em casa, sem contato com outras pessoas. Uma demora em receber uma resposta de alguém que está trocando ideia nos aplicativos e paquera já mexia com a sua autoestima. Ficou carente e inseguro. “Sempre fui divertido, conquistava com minha descontração. Então essa insegurança atual está sendo algo muito novo para mim. Ainda estou aprendendo a lidar. Confesso que fiz dois encontros durante o isolamento social e ambos foram estranhos. Existe uma ansiedade em escolher o local, porque é difícil estar à vontade encontrando com alguém pela primeira vez já na sua casa ou na casa do outro. Os motivos passam pela intimidade de expor o lar até o medo de estar a portas fechadas com um desconhecido”, comenta ele. “Em um dos dates, a moça chegou a brincar dizendo que não tinha certeza se ainda sabia fazer sexo depois de tantos meses sozinha. Nas duas vezes, demoramos para conseguir relaxar e, antes de decidirmos que nos encontraríamos aqui em casa, combinamos de fazer dez dias de isolamento total para nos mantermos seguros. É preciso dar um voto de confiança a um desconhecido, e isso pede coragem.”

Entre um e outro encontro atrapalhado, a dúvida que fica é: será que quando todos estiverem vacinados os dates voltam ao normal? Torcemos que sim!

*Os nomes foram trocados a pedidos dos entrevistados.

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