Zezé Motta: “Se existe reencarnação pode me mandar negra de novo”

Por Raquel Pinheiro (@raquelpinheiroloureiro) | Fotos: Chico Cerchiaro (@chicocerchiaro) | Design de capa: Eduardo Garcia (@eduardogarda)

Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)

Entrevistar Zezé Motta é uma delícia. Não só porque a atriz tem histórias de sobra para contar, mas porque, aos 76 anos, é uma mulher bem-resolvida, confortável na própria pele e com quem se tornou. As respostas vêm muitas vezes às gargalhadas, e mesmo quando as lembranças são ruins e a voz embarga, ela continua. Zezé segue em frente, sempre, e promete que não vai parar tão cedo. “Eu me sinto realmente realizada. Agradeço a Deus todos os dias. Me sinto bem com quem eu sou”, diz.

Zezé conversou com Quem em duas etapas: na sessão de fotos no Parque Lage (feito com todo protocolo de segurança), cercada pelo verde aos pés do Corcovado, e em seu apartamento no Leme, o mesmo onde morou Clarice Lispector. Ali, entre um cafezinho e outro – que ela prefere tomar em copo de boteco -, Zezé lembrou a infância passada em um colégio interno, as primeiras experiências como atriz, a censura na ditadura, os muitos amores e as tentativas de ser mãe. Desejo esse que realizou criando quatro filhos adotivos, a empresária Luciana, a produtora cultural Carla, a cabeleireira Cíntia e o administrador Robson.

Também falou sobre o racismo que fez com que fosse presa, de propósito, dentro de um elevador social por se recusar a entrar no de serviço. O mesmo racismo que a levou acreditar que era feia, de tanto ouvir que tinha “nariz chato, bunda grande, cabelo ruim”. “Se alguém te diz que você é feio e você acredita, você sempre se sente feio”, explica. Precisou ir a Nova York, no auge do movimento Black is Beautiful, para se livrar da prisão imposta pela peruca chanel que usava, entender que tinha o direito de usar o cabelo como queria e começar a discutir o assunto, que em sua casa não existia. “Na minha família não se discutia questões sobre o preto”, lembra ela, que descobriu a negritude e foi ter aulas para se aprofundar no tema.

Ativista e primeira negra símbolo sexual empoderada: em 1976, Zezé ganhou fama mundial com Xica da Silva, conquistou o imaginário masculino e feminino, e serviu como exemplo possível para atrizes negras que vieram depois. Com a fama de Xica veio o fardo de não decepcionar o parceiro na cama, que carregou por um bom tempo. “Ficava tão preocupada com minha performance que eu esquecia do meu prazer. Já fingi várias vezes, com certeza me arrependi de vários relacionamentos”, assume ela, que tem namorado, faz reposição hormonal e continua ativa. “A minha vida sexual é muito importante. Pendurar as chuteiras jamais”, avisa.

Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)
Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)

Zezé, que perdeu um primo para a Covid-19, virou influencer na pandemia e tem quase 700 mil seguidores apenas no Instagram. Vai gravar a segunda temporada de Arcanjo Renegado, está nos cinemas com M-8, tem três longas para filmar e um novo projeto musical, Zezé canta Caetano, com o repertório dedicado a Caetano Veloso. Música é uma paixão; ela, que foi crooner de boate, tem mais de 13 álbuns lançados e um piano de cauda na sala. Ao longo da conversa, canta uma música e outra. “Tenho momentos de tristeza. Não dá para ser feliz 24 horas por dia nesse mundo em que a gente está”.

Você abriu o caminho para toda uma geração de atores e atrizes negras e é sempre citada como inspiração. É uma sensação de dever cumprido?
Eu queria muito que os jovens atores soubessem que é uma troca. Quando chegam em mim fico muito emocionada e feliz, quando me pedem um conselho eu falo ‘foco, perseverança, não desista do seu sonho mesmo com todas as dificuldades’. Eu também me inspirava na geração anterior à minha, era Ruth de Souza, Abdias do Nascimento, Léa Garcia, Zózimo Bulbul, Antonio Pitanga. Eles me inspiraram no sentido do ‘I can’, do ‘eu posso’, do é possível. Se ele chegaram lá, eu também poderia. Em todos os segmentos é mais complicado para o negro, e eu fico orgulhosa de ver tanta gente boa chegando. É gratificante ver que valeu a pena.

Já te chamaram de diva, orixá das artes…
Eu estou virando uma entidade (gargalhadas). Quando atores jovens, negros ou brancos contracenam comigo, ficam um pouco tensos, mas queria dizer que aprendo com eles. Da escola de 1960 quando me formei para hoje, tem mil novidades. Um dia fiz uma cena com Erika Januza, uma fala que tinha muita informação. Estava cansada, muito calor, eu gaguejava. E ela disse ‘Zezé, vai por associação, que isso aqui leva a isso e isso àquilo’. E eu tinha aprendido essa técnica e esquecido. Por isso a troca. 

Fazendo a pauta para essa entrevista, me impressionou muito ler, mais de uma vez, que você se achava feia por ser negra. Foi ter virado símbolo sexual que mudou isso?
Não, foi a vida. Minha família veio de Campos para o Rio em busca de uma vida melhor. No dia em que meus pais compraram um barraco no Morro do Cantagalo (Zona Sul do Rio) presenciaram uma menina descendo no colo do pai porque tinha acabado de ser estuprada. Em pânico, me mandaram para a casa do meu tio e de lá fui para um colégio interno kardecista. Eu chorava, não gostava, mas era uma oportunidade incrível de educação, porque não pagávamos. Só fui entender isso quando minha mãe, que começou a trabalhar como empregada aos 7 anos, me contou sua história de vida. Fiquei nessa escola dos 6 aos 12, e ao sair, ela, que não curtiu minha infância, me embonecava como criança. Ali eu já me sentia inadequada.

“As minhas colegas brancas falavam ‘engraçado, você é diferente, seu nariz é chato, sua bunda é grande, seu cabelo é ruim, seu cabelo é duro”

Como esse sentimento de inadequação virou certeza de feiura?
Depois do colégio interno fui morar em um prédio de classe média bem baixa, com poucos negros. Alguns deles, inclusive, não sabiam que eram negros, porque negro no Brasil é muito pelo tom da pele. As minhas colegas, na sua maioria brancas, falavam ‘engraçado, você é diferente, seu nariz é chato, sua bunda é grande, seu cabelo é ruim, seu cabelo é duro’. Elas não achavam que estavam me ofendendo, mas fazendo uma comparação. Aquilo me incomodava, me olhava no espelho e pensava ‘é, meu nariz é diferente, é chato, nossa esse cabelo realmente é mais áspero, nossa como minha bunda é grande’.

E isso entrou na sua cabeça.
Sim. Comecei a me rejeitar, internalizei como sendo feia. Tudo em mim era feio. Passei a alisar o cabelo com 16, 17 anos. Minha mãe já alisava; naquela época era um pente de ferro, botava no fogão, esquentava, passava uma vaselina e fritava o cabelo. Assim que pude, comprei uma peruca chanel, que era a moda. Eu me sentia, mexia na franjinha. Um dia vi um filme com uma atriz birracial de olhos verdes. Quando me disseram que eram lentes vendidas no exterior, decidi que quando tivesse dinheiro ia importar. Foi um processo tão maluco que investiguei se tinha cirurgia para diminuir o bumbum. Era um processo de embranquecimento.

Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)
Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)

E quando você descobriu que negro era bonito?
Com 25 anos, em uma viagem com o Augusto Boal aos Estados Unidos, em 1969. Cheguei em Nova York no auge do movimento Black is Beautiful. Comecei a olhar para aqueles homens e aquelas mulheres negras, aqueles negões lindos com aquele cabelão black power, e eu de peruca chanel. Aquele povo de cabeça erguida para mim, num primeiro momento era ‘eles são metidos mesmo, né?’ (gargalhadas). Só depois fui entender que se trata de autoestima em dia. Pensei ‘porque eu acho os negros aqui lindos e lá no Brasil ninguém acha que negro é bonito?’. Mas é que se alguém te diz que é feio e você acredita, você sempre se sente feio.

Então alguém lá disse que você era bonita?
Não! Após um espetáculo no Harlem, o Boal foi chamado e perguntaram o que ‘aquela alienada está fazendo no seu elenco?’. Tinha um momento na peça em que cada um de nós era zumbi e falava um texto de punho cerrado. Já imaginou Zumbi dos Palmares de peruca chanel? Aí Boal falou ‘ela não é alienada, ela prefere deixar o cabelo assim’, mas eles insistiram que era um absurdo. E o Boal, muito sem graça, veio conversar comigo. Subi para meu apartamento, me enfiei debaixo do chuveiro e tomei um banho que foi um batismo. Foi uma libertação. Saí do banho com o cabelo crespo, mas não era um superblack e comprei uma peruca black power. Fizeram até uma reportagem, indo para Nova York de peruca chanel e voltando de black. (Zezé mostra o braço arrepiado).

“Me enfiei debaixo do chuveiro e tomei um banho que foi um batismo. Foi uma libertação. Saí do banho com o cabelo crespo”

A construção da sua autoestima veio junto com a conscientização de que a negritude não é inferior?
Olha, na minha família não se discutia questões sobre o preto. Era uma geração mais antiga; minha mãe passava a água do arroz no rosto para clarear a pele. Lembro de ouvir conversas como ‘você viu, a prima tal está namorando um branco, vai limpar o sangue da família’. Por que isso? Porque acreditavam que existe um grupo superior apenas pela cor da pele.

De que forma o racismo afetou sua carreira?
Eu sofri um pouco no início da carreira porque era chamada sempre para fazer o mesmo personagem que era a empregada doméstica. E na época a empregada não era parte da trama, não tinha família, vida. Antes de ser famosa, tive comercial recusado por cliente, depois de um dia inteiro fotografando. Nunca me disseram o nome da loja, mas alegaram que era uma clientela de classe média e que a classe média não ia aceitar sugestão de uma negra. Na minha época, bastava você ser negro para não entrar na porta da frente.

Aconteceu com você?
Claro. Uma vez fui visitar o (ator) André Valli, e o porteiro me apontou o elevador dos fundos. Disse que era convidada e que ia pela frente, e ele falou ‘não’, e eu falei ‘sim’ e entrei. André morava no último andar, e o porteiro desligou o elevador. Fiquei presa entre os andares, tenho claustrofobia num grau altíssimo. Achei que eu ia morrer sufocada, chorei, gritei bati na porta. O porteiro fez o elevador descer, e eu tive que subir pelo outro. Cheguei na casa do André aos prantos, descabelada, nervosa. Foi terrível. A fama hoje protege, mas demorou. 

Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)
Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)

Você já recusou papel?
É muito raro. Mas já aconteceu. Xica da Silva tinha estourado no mundo, e eu viajei divulgando o filme. Me chamaram para um personagem em um seriado baseado em um conto de Clarice Lispector. Mas quando vi, era para servir doces e salgados em uma festa de aniversário. Recusei. ‘Pode convidar outra atriz que eu cansei, não quero mais, chega, não fiz um curso de arte dramática para ficar abrindo porta, fechando porta e servindo docinho, sim, senhor, não, senhora.’

Quando veio a virada?
No cinema com a Xica, mas na televisão foi com a novela A Próxima Vítima, já em 1995. Mas isso foi depois de muita ralação. Eu fiz parte do Movimento Negro Unificado Contra Discriminação Racial, queria preparar um mundo melhor para meus filhos, meus netos, com menos desigualdades, preconceito. Quando a discussão sobre o racismo deixou de ser tabu, fiquei realmente feliz, ‘nossa eu estou viva e vendo uma virada’. Mas fico muito chocada porque depois de todo um avanço, agora em pleno 2021, você vê atletas sendo discriminados no exercício de seu trabalho, atores e apresentadores negros incomodando por se destacarem. É inacreditável que a gente ainda esteja vivendo isso.

“Em algumas culturas as pessoas mais velhas são muito respeitadas. No Brasil, o idoso é tratado como inválido”

Você não desanima quando vê todo esse retrocesso?
É com o país, né? Como é que as pessoas votaram no Jair Bolsonaro? Já quando ele estava fazendo campanha dava para perceber que ele é louco, alienado. É muito triste.

Você passou por um processo de embranquecimento, precisou se desconstruir para erguer a Zezé Motta que é hoje. Se sente bem com quem é?
Com absoluta certeza. Se existe outra reencarnação pode me mandar negra de novo que vou adorar. Eu me sinto bem com quem sou, com a mulher que me tornei. Um dos problemas na minha vida era uma dificuldade de dizer não e tempos para cá estou conseguindo. E isso é importante porque você dizer sim só para agradar o outro não fecha a questão, fica uma relação capenga e mentirosa.

Os personagens foram diminuindo com a idade?
Não posso reclamar, não tem faltado trabalho. Cinema, por exemplo, eu não paro de fazer. Mas é preocupante, sim. Eu lembro que a Ruth de Souza antes de morrer estava muito triste. Ela dizia ‘gente eu não estou andando, mas eu estou lúcida e com muita disposição para trabalhar e ninguém me chama mais’. É uma carreira que não depende da idade. É só haver interesse dos autores.

Falta a representatividade de pessoas de mais idade no audiovisual?
Existe uma limitação no mercado, e sem dúvida, existe um preconceito com os atores de mais idade. É uma coisa cultural. Em algumas culturas as pessoas mais velhas são muito respeitadas. No Brasil, o idoso é tratado como inválido. A Ruth de Souza falava ‘como trapo velho’.

Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)
Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)

Você se sente com qual idade?
Nunca pensei nisso, mas raramente me lembro que tenho 76 anos. Eu tenho muita disposição. Mas as pessoas tentam me limitar. Outro dia fui pegar um vaso e uma das minhas filhas veio com um ‘mãe, para com isso’. Há quem ache que o velho é incapaz e precise ser tratado como uma criança. Eu já percebi isso, mas chamo atenção mesmo quando isso acontece comigo: ‘para com isso’.

Você tinha medo da velhice?
Não tenho medo. Só não sei se eu quero viver 95 anos como minha mãe, que antes de morrer ficou com a saúde bem comprometida. Não quero passar por isso. Eu me cuido bem, a dor está lá na esquina e já estou indo ao médico. Eu me preocupo inclusive em não envelhecer sozinha no departamento afetivo (risos).

Você tem alguém no momento?
Tenho, mas é segredo, sagrado, sacramentado no meu coração. É algo recente.

Zezé então você conseguiu desenrolar um amor na pandemia…
(Gargalhadas) É um namoro pandêmico. Eu sou movida a paixão, quando eu não estou apaixonada, eu invento. Mas por acaso no momento não é invenção. Gosto desse movimento. Casei cinco vezes, com Rinaldo, Osmar, Marcos, Beto e Jaq. Nos intervalos tive namorados.

Quando você percebeu que o lado afetivo era tão importante na sua vida?
Eu lembro que eu era criança e tinha um vizinho, o José. Eu tinha 6 anos, nós éramos namorados, mas só eu levava a sério a história. Mas percebi mesmo interesse no outro já na escola, fui apaixonada pelo Ary, pelo Francisco, meu primeiro namoradinho assumido é nessa época. Já adulta foi o Pitanga, por quem tenho muito carinho. Somos muito amigos.

Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)
Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)

Você se dá bem com os seus ex?
Sou conciliadora. Fico espantada de ver o contrário. Claro que quando isso acontece tem razões, mas eu fico amiga mesmo.

Com tanto amores, pensava em encontrar um para a vida inteira?
Toda vez que a gente começa um relacionamento tem envolvimento forte sempre acha que é para sempre. Hoje eu sei que não é assim.

Imaginou isso com o Pitanga também?
Não. Pitanga eu sabia que não, porque ele sempre foi muito escorregadio (risos). A primeira vez que a gente namorou eu era menina, virgem e tal, e nos afastamos porque ele foi trabalhar em São Paulo e eu fiquei no Rio. Quando fui para lá, também a trabalho, voltamos. Terminamos para valer quando ele conheceu a mãe dos filhos dele (a atriz Vera Manhães). Foi até uma cena de cinema.

Como foi?
Estávamos discutindo no camarim, após uma apresentação de Roda Viva, porque ele tinha ido para o Rio, e me contaram que tinha sido visto em tudo que é lugar com uma loira lindíssima, a (atriz) Darlene Glória. Aí a Vera, que era bailarina e queria ser atriz, entrou. Me lembro de ter pedido para ela voltar outro dia. Continuei a conversar com o Pitanga, a gente estava quase juntando nossos trapinhos, falei, falei e ele não respondeu nada. ‘Peraí, eu estou falando do nosso futuro e você não está interessado’. E a resposta dele foi ‘quem é aquela moça?’ (risos). Fui na porta e chamei ‘Vera, volta aqui que esse rapaz quer te conhecer’, e fui embora. Ele ficou com ela, depois voltou para mim meio arrependido, e descobri que estava com as duas ao mesmo tempo. Pitanga deu trabalho!

Hoje o que uma pessoa precisa ter para te atrair?
Sempre digo que preciso me orgulhar do meu príncipe encantado. Aquela louca de 76 anos falando em príncipe encantado, né (gargalhadas)? Eu preciso me orgulhar, tem que ter admiração. Perder a admiração é das primeiras coisas que atrapalha o relacionamento. Não ligo para idade, cor, peso, mas tem que ser gentil, feminista.

Há quem se surpreenda quando percebe que você tem uma vida afetiva e sexual ativa aos 76 anos?
Existe um preconceito, sim. Mas não me lembro de ter sentido isso. Meus filhos torcem por mim a não ser que percebam uma coisa estranha em relação à pessoa. Aí me encostam na parede. A diferença entre um amor aos 40 e aos 76 é que eu sofro menos. A autoestima é mais bem-resolvida.

Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)
Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)

Você já disse para Quem que os homens queriam namorar Xica da Silva, mas quem estava ali era Zezé. Ser símbolo sexual atrapalhou sua vida?
Tive parceiros que falavam ‘nossa ninguém vai acreditar que eu dormi com Xica da Silva’. Psicologicamente teve momentos bem desconfortáveis, porque como na Xica a sexualidade era bem aflorada e as pessoas misturam atriz com personagem, eu me sentia no dever de ser a Mulher-Maravilha na cama. Isso era ruim porque interferia no meu prazer. Eu estava tão preocupada em não decepcionar o parceiro, tão preocupada com minha performance, que eu esquecia do meu prazer. Era muito chato.

Já precisou fingir?
Muitas vezes.

Seu desejo e libido foram diminuindo com o tempo?
Não sou mais tão fogosa como aos 20, 30, 40 anos. Dá uma acalmadinha, mas sou uma mulher saudável e eu me cuido muito bem, faço reposição hormonal. Realmente a minha vida sexual é importante. Comigo acontece assim: se eu estiver disponível, sozinha, às vezes olho para alguém e falo ‘puxa se fosse não sei quantos anos atrás não me escaparia’. Sou muito danadinha.

Há mulheres na sua idade que dizem ‘já não quero mais isso’…
Eu não consigo entender isso. Pendurar as chuteiras jamais!.

“Não sou mais tão fogosa como aos 20, 30, 40. Mas sou uma mulher saudável e minha vida sexual é importante”

Sentiu a pressão da sociedade de que entrou na menopausa a vida acabou?
Eu não dou abertura para isso. Passei tranquilamente pela menopausa, único problema foi acertar a reposição hormonal

Sempre foi aberta às pessoas à sua volta? Em algum momento percebeu dentro de você algum tipo de discriminação com o outro?
Não, de jeito algum. No início da carreira, teve uma entrevista com uma provocação, me perguntaram sobre homossexualidade, e eu disse ‘não tenho preconceito, a minha preferência é homem, mas, se um dia me apaixonar por uma mulher, eu vou me casar com ela’.

Alguma mulher já se apaixonou por você?
Já, mas prefiro não entrar em detalhes para preservar a pessoa. Também já recebi cantadas, me diziam ‘você não sabe o que está perdendo’. Eu brincava: ‘você que não sabe o que está perdendo’.

Você falou que viveu a época do sexo, drogas e rock ‘n roll. Sexo acabou de contar como era e como é. E o resto?
Rock ‘n’ roll teve muita festa. Quando era jovem eu experimentei maconha, mas a minha pressão ia para o pé, ficava gelada, tinha arritmia e decidi que não ia usar uma coisa que em vez de me dar prazer me dava desconforto. Drogas mais pesadas eu sempre tive medo. O Daime hoje eu não tomaria novamente.

Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)
Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)

Como foi sua experiência com o Daime?
Frequentei o Santo Daime durante 10 anos, tomei o chá durante 10 meses. É um exercício de autoconhecimento incrível. Não pude ter filhos biológicos, mas numa das idas ao Daime, tomei o chá e visualizei os meus dois fetos. Comecei a chorar e a gritar ‘meus filhos me perdoem, me perdoem, me perdoem’. Eu já sabia que perdia os bebês porque tinha útero infantil. Eu me lembro de ficar aos prantos e pensei muito de onde veio essa culpa, porque tive abortos espontâneos. Acho que foi pelo fato de não ter investigado antes porque meus filhos não vingavam.

Chegou a fazer algum tratamento para conseguir levar a gravidez até o fim?
Um dos meus maridos, Jaq Dadesqui, queria muito ter um filho comigo. Com ele tive uma terceira gravidez, da qual eu não tenho muita certeza até hoje e talvez não tenha aparecido nas visões do Daime porque era muito cedo. Fomos a um ginecologista, que descobriu que eu tinha útero infantil, e fiz um tratamento para, dali a um ano, poder engravidar. Só que nesse tempo meu casamento deu uma esfriada, passei cinco meses longe filmando Quilombo, me encantei platonicamente por outra pessoa no set… Quando o médico falou ‘tá liberada’, eu ia fazer 39 anos, a relação estava vai não vai, e as meninas estavam surgindo na minha vida.

Elas preencheram a maternidade em você.
Tinha muita vontade de ter filhos, para mim era fundamental ser mãe, acabei sendo de outras formas. Minha filha mais velha eu adotei quanto eu tinha 20 e poucos anos. Eles não gostam muito que eu entre em detalhes (sobre como entraram na vida de Zezé), mas é um amor incondicional. Não imagino minha vida sem meus filhos.

Como é a Zezé mãe?
Todos moraram comigo. O que eu posso destacar como mãe é a questão do diálogo e que também observava muito cada um porque eu sabia que todos tinham uma história muito triste ou porque perderam os pais ou porque foram abandonados. Ficava muito preocupada com o psicológico deles, sentia todos muito carentes e ciumentos. A queixa de todos era minha ausência porque eu viajava muito. Sempre procurava reforçar a autoestima, prestava muita atenção no que afligia eles. Foi todo mundo para a terapia.

Você faz terapia?
Já fiz quase todas as vertentes. Me ajudou muito a me conhecer melhor, aconselho a todo mundo. Eu diria que a terapia salvou minha vida no sentido de que quando a gente é jovem derrapa muito, pensa muita besteira, se subestima, acha que não vai dar conta, que não é capaz, que é melhor parar por aí. A primeira vez que fiz terapia foi com 22 anos, em um grupo só de artistas. Foi sempre uma busca para me conhecer e me colocar no mundo. No momento estou fazendo análise virtual porque achei que não ia dar conta da pandemia e das perdas.

O que houve?
Minha mãe morreu em setembro, de causas naturais. Eu sabia que ia doer, mas não sabia que seria tanto. Eu era muito coruja dela porque foi uma grande mulher, uma guerreira, vencedora (se emociona). Perdi também um sobrinho e um primo que era como um irmão e teve Covid-19. Meu irmão também teve Covid, a ponto de ser internado, fiquei muito assustada. Também testei positivo, mas não tive nada.

Você já foi vacinada.
Sim, todos os dias acordo, levanto as mãos para o céu e digo ‘gratidão’. Descobri que tive Covid ao fazer um teste antes de um comercial. Fiquei em pânico, testava minha respiração. Chorei de felicidade quando outro teste mostrou que o vírus não estava mais no meu organismo.

Você fez quase 70 lives em 2020, inclusive musicais, e chegou a quase 700 mil seguidores no Instagram. A pandemia te transformou em uma influencer?
Não parei, né? Foi legal porque passou mais rápido a quarentena, mas estava meio cansada, tinha lives que duravam mais de uma hora. Uma das que mais gostei foi com atrizes de vários países da América Latina sobre assédio no meio artístico. Mais falei do que ouvi, porque não tinha uma história para contar.

“Minha experiência de assédio não foi no meio artístico, foi fora. Era um amigo de infância. Empurrei ele, ameacei gritar, mas foi muito doloroso e decepcionante”

Você nunca foi assediada?
Minha experiência de assédio não foi no meio artístico, foi fora. Eu tinha um amigo de infância que foi preso político, e ia visitá-lo no Frei Caneca (presídio no centro do Rio, já demolido). Eu ficava chocada com a revista, porque sempre tinha uma coisa de apalpar. O assédio já começava na entrada, percebia que tinha umas revistas que não eram apalpadas normais. E numa das visitas aconteceu realmente do colega me assediar… Foi… (a voz treme)… É muito ruim. Eu empurrei ele, ameacei gritar, mas foi muito doloroso e decepcionante. Foi muito complicado porque não consegui voltar mais lá.

Perdoou seu colega?
Sim. Depois ele saiu da cadeia, ficou cheio de problemas financeiros, procurando trabalho, sem contatos e me procurou, pediu perdão e ajuda. E perdoei.

Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)
Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)

Você foi atriz na ditadura. Tinha consciência política?
Eu tinha uma consciência rasa, mas estudei em uma escola da Cruzada São Sebastião (conjunto habitacional da Zona Oeste do Rio), que foi construída por Dom Hélder Camara (bispo defensor dos direitos humanos durante a ditadura).  Era bem ativa no grêmio recreativo, fiquei atenta aos temas pela própria história da Cruzada. Foi muito importante ter estudado lá porque éramos incentivados a ir a museus, teatro, ópera. Eu ia a tudo. Já fazia teatro e, por conta da dedicação, ganhei uma bolsa para o Tablado.

Você poderia ter pagado o curso?
Nunca, não tinha condições. No dia da apresentação da peça de formatura, um ator, ex-aluno, foi no camarim e perguntou ‘pretende seguir carreira, vai ter um teste semana que vem’. Eu me formei numa sexta-feira e na segunda-feira estava fazendo o teste. Já estreei censurada em Roda Viva, do Chico Buarque com direção do José Celso Martinez Correa.

Sofreu violência física?
Em São Paulo fomos perseguidos pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC). No dia em que nos atacaram, as últimas pessoas do público já saíram meio que empurradas por eles. Vi aqueles brutamontes com cassetetes na mão, soco inglês, e pensei ‘até chegar no meu camarim eles me pegam’. Entrei no camarim do Rodrigo Santiago, tinha um casal com ele, e gritei ‘eles estão vindo aí!’. A porta não tinha chave, ficamos segurando para não entrarem até que acionaram um extintor de incêndio pela fresta. Perdemos as forças, saímos correndo. Levei uma cacetada no braço, mas teve gente que se feriu sério.

Teve mais problemas depois?
No meu caso era mais a censura das peças. Quando iniciei minha carreira de cantora, fui censurada uma vez. Em um show incluí a música Estranho Sorriso, que já fazia parte do meu primeiro álbum, e falava ‘dedico essa música a um amigo que é preso político’. Só que toda a movimentação cultural sofria censura prévia e no ensaio geral tinha um censora. Ela disse ‘bonito seu show, mas aquela dedicatória pode cortar’. Aí mudei para ‘ dedico para um amigo, não posso falar o motivo, vocês sabem porque’. Era um clima pesado, tenso. Eu me interessava por política e acompanhava.

“Estamos em um momento de retrocesso. É como se tudo aquilo que a gente fez tivesse ido por água abaixo”

Acredita na política ainda?
Eu tive uma participação política bem ativa, fiz campanha para o Lula, fui petista. Hoje digo que meu partido é o Brasil. Não tenho mais partido, não acredito mais. Não tenho muito estímulo nem disposição. Mas não tem jeito, se pinta alguma coisa que me incomoda muito lá estou eu.

Como vê o momento atual do país?
Eu vejo com muita tristeza esse quadro que está aí porque para quem vivenciou tudo que eu vivenciei, estamos em um momento de retrocesso. É como se tudo aquilo que a gente fez tivesse ido por água abaixo. Tudo que a gente batalhou…

Em que ou em quem você se agarra nos momentos difíceis?
Nos momentos de desespero é ‘ai, meu Deus, me ajuda’. Antes de entrar em cena, eu rezo e peço uma proteção para minha mãe Oxum, para minha mãe Iansã. Me identifico muito com o kardecismo, que faz com que você não passe o tempo inteiro olhando por seu próprio umbigo. Mas sou muito adaptada à cultura brasileira, até dois anos atrás tinha minha mãe de santo na Bahia que era Mãe Stella. Acredito nas entidades da natureza e digo que estou cada vez mais carola, rezo o dia inteiro. Ultimamente digo que minha religião é Deus.

Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)
Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)

É uma pessoa realizada?
Eu me sinto realmente realizada. Eu agradeço a Deus todos os dias por, aos 76 anos, estar com vários roteiros de cinema para ler, projetos. Mas tenho momentos de tristeza, sim. Não dá para ser feliz 24 horas por dia nesse mundo que a gente está.

Pensou em desistir em algum momento na carreira?
No início da carreira, nas duas vezes eu fiquei sem trabalho, como fui ajudante de costura da minha mãe eu comecei a fazer roupas para vender. Me lembro de Marieta Severo e Marília Pêra comprarem coisas minhas. ‘Olha não estou trabalhando estou vendendo isso posso passar aí para mostrar’.

Você sempre conseguiu pagar suas contas com a sua profissão?
Sim. É um privilégio. Teve um momento muito difícil que quis desistir mesmo. Dividia apartamento com o André Valli e uma amiga, e ela não quis mais morar nesse esquema. Saímos e alugamos outro. A gente passava muito aperto porque a prioridade era o aluguel para não ficar na rua. Comemos muito macarrão e pão com pão. Falei ‘quer saber, vou voltar para o Rio, tenho pai, mãe, casa’. Marília não deixou, levou eu e André para a casa dela. Viramos amigas, irmãs e comadres.

Alcançou estabilidade financeira?
Não me falta nada. Pago aluguel, comprei um apartamento uma vez, mas teve confusão com a Caixa Econômica porque a pessoa que me vendeu não podia ter vendido. Sempre que entrava uma grana boa, tentava comprar um apartamento, mas me acomodei um pouco. O que me salva é o fato de ser “cantriz”, porque quando não estou atuando a cantora socorre a atriz. Tem sempre propostas para cantar.

Você é comedida?
Eu sou consumista, mas com a idade ando um pouco mais preocupada em segurar a onda, mas dando uma escapulida aqui e ali. Sou canceriana e sou filha de Oxum, eu sou muito da casa, do ninho. Eu me preocupo em não desperdiçar, é gasto consciente. Se não estiver precisando, pode ser lindo que não compro. É primeiro pagar aluguel, plano de saúde, gás, luz.

O que te estimula a continuar trabalhando?
Quando eu era jovem sempre dizia que quando tivesse a idade que eu tenho iria querer sombra e água fresca e uma rede. Mas não rola. Se não trabalhar, vou acordar para quê?

Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)
Zezé Motta (Foto: Chico Cerchiaro)

Créditos:
Reportagem: Raquel Pinheiro (@raquelpinheiroloureiro)
Fotos: Chico Cerchiaro (@chicocerchiaro)
Beleza: Gabriel Ramos (@gabrielramos6)
Produção de moda: Milton Castanheira (@castanheiras)
Agradecimentos: Parque Lage, Angela Brito, Carol Nasser, Henriete Moreira, Hugo Boss, Lenny Niemeyer e Sara Joias.

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