Depois de um feminicídio que chocou o país, mulheres denunciam a cultura do estupro nas escolas do Reino Unido

Dados da Agência Britânica Nacional de Estatísticas mostram que meninas e mulheres entre 16 e 19 anos são as vítimas mais comuns de violência sexual na Inglaterra e no País de Gales
Megan Specia, do New York Times

Soma Sara, em Londres (28/03/2021), fundou a plataforma "Everyone’s Invited": um espaço para que meninas e jovens mulheres compartilhem seus relatos de violência sexual. Milhares de relatos online jogaram luz sobre o tema recentemente no país Foto: MARY TURNER / NYT
Soma Sara, em Londres (28/03/2021), fundou a plataforma “Everyone’s Invited”: um espaço para que meninas e jovens mulheres compartilhem seus relatos de violência sexual. Milhares de relatos online jogaram luz sobre o tema recentemente no país Foto: MARY TURNER / NYT

Londres – Há semanas, os depoimentos anônimos, perturbadores, vêm chegando em sequência: acusações de violência sexual contra meninas de 9 anos; garotas constrangidas pelos colegas de classe por causa de fotos íntimas que circulam sem seu consentimento. Uma inclusive foi responsabilizada pelo pessoal com quem estudava depois de denunciar o estupro de que foi vítima em uma festa.

Em uma plataforma chamada “Everyone’s Invited” (Estão todas convidadas), milhares de garotas e jovens mulheres do Reino Unido começaram recentemente a compartilhar relatos honestos de violência sexual, sexismo e misoginia durante os tempos de escola — acusações de todo tipo, incluindo desde ataques até encontros coercivos, passando por assédio verbal e contato físico indesejado —, proporcionando discussões francas e sem censura de seus traumas pessoais.

Quando analisadas em conjunto, porém, as acusações revelam um quadro para lá de assustador da violência sexual contra as estudantes, dentro e fora da escola, principalmente em festas. Além dos relatos de violência, há também histórias de sexismo e misoginia.

— É um problema muito sério; a cultura do estupro é real — diz Soma Sara, a londrina de 22 anos que fundou a Everyone’s Invited.

Os testemunhos poderosos, embora pungentes e revoltantes, normalmente não passam por filtragem e não têm a veracidade confirmada; mesmo assim, são tantos que resumem a análise da violência nacional nas escolas, destacando o que as denunciantes chamam de cultura tóxica de constrangimento, que silencia e culpa as vítimas, e que a direção das escolas faz pouco ou nada para combater. E se dá em meio à conscientização do país depois do assassinato de Sarah Everard, cujo rapto em uma rua movimentada de Londres, no início de março, abriu espaço para um debate nacional sobre a violência enfrentada pelas mulheres.

As escolas e as autoridades locais e federais deram início a investigações. O governo encarregou um órgão educacional da realização de uma revisão imediata das políticas de proteção, tanto nas escolas públicas quanto nas particulares. Simon Bailey, líder do Conselho Nacional de Chefes de Polícia para proteção infantil admitiu à BBC: “Temos um problema real.”

O Departamento de Educação garante que as alegações criminosas serão investigadas, e a Polícia Metropolitana de Londres passou a encorajar as vítimas a dar queixa.

Embora os relatos omitam o nome das vítimas e o dos agressores, identificam a escola frequentada pelos alunos e se a suposta agressão foi cometida dentro ou fora do colégio, incluindo instituições de prestígio que não demoraram a surgir nas manchetes.

Alunas atuais e antigas de entidades de elite — Dulwich College, King’s College School, Highgate School, Latymer Upper School e outras — já escreveram cartas abertas às lideranças escolares, identificando-se e detalhando uma cultura de silêncio e constrangimento da vítima. Em um dos casos, uma ex-aluna afirmou ter sido “desaconselhada” a entrar na justiça em um caso de violência sexual; em outros, as meninas descrevem como foram agarradas nos corredores.

Em declaração, tanto a King’s College School como a Highgate School afirmaram ter dado início a revisões independentes das acusações e das políticas escolares; já a Latymer Upper School disse que passou a encorajar as estudantes a se reportar diretamente às autoridades escolares. Alguns dos colégios citados não atenderam aos nossos pedidos de entrevista, mas nos noticiários locais aparecem afirmando levar a questão a sério, investigando alguns casos.

Os especialistas concordam que os relatos, ainda que preocupantes, fazem parte de uma discussão há muito necessária sobre atitudes e comportamento em relação a gênero e sexualidade nas instituições que têm o efeito de normalizar e até trivializar a violência sexual ou a cultura do estupro.

Dulwich College, no sul de Londres: ex e atuais alunas em insituições de ensino de elite no Reino Unido, incluindo Dulwich College, King’s College School, Highgate School, Latymer Upper School, escreveram cartas abertas aos direitores, detalhando a cultura do estupro nas escolas Foto: MARY TURNER / NYT
Dulwich College, no sul de Londres: ex e atuais alunas em instituições de ensino de elite no Reino Unido, incluindo Dulwich College, King’s College School, Highgate School, Latymer Upper School, escreveram cartas abertas aos diretores, detalhando a cultura do estupro nas escolas Foto: MARY TURNER / NYT

Para Aisha Gill, professora de criminologia da Universidade de Roehampton de Londres e especialista em violência contra mulheres e meninas, o “tsunami de confissões” destaca a necessidade de mudança e de responsabilização dos culpados.

— Não é possível dizer que acontece apenas nos colégios particulares; além disso, é imprescindível que as instituições analisem cada uma das acusações para determinar se houve crime e como o caso foi abordado. Pela própria função, elas têm a obrigação de cuidar, proteger e promover o bem-estar dos alunos; portanto, algo está terrivelmente errado — resume.

O assassinato de Everard se tornou símbolo de todos os casos de mulheres que foram atacadas, mas que passaram basicamente despercebidos. Grande parte da discussão passou a girar em torno da mudança do foco — ou seja, em vez de as mulheres terem de se defender sozinhas, a responsabilidade de lhes garantir proteção deve ser da polícia, das instituições e dos homens.

Foi nesse cenário que Sara levantou a questão no Instagram e no site da “Everyone’s Invited”, criado no ano passado, ao lidar com as próprias experiências de violência sexual nos tempos de estudante: “Você sofreu algum tipo de violência sexual quando estudava? Conhece alguém que tenha passado por isso?” Praticamente todas as respostas foram afirmativas.

Embora os relatos variem, sejam anônimos e não possam ser confirmados, os números assustadores — mais de 11.500 e não param de crescer — não podem ser ignorados. Ao compartilhar os casos, Sara não revelou os nomes das vítimas ou os dos acusados, mas divulgou os colégios onde estudavam.

— As escolas ocupam lugar de destaque como palco dessa cultura de estupro, quando na verdade têm a responsabilidade de proteger as crianças. Afinal, o período que passarão ali é básico em sua formação — diz ela.

Os dados divulgados pela Agência Britânica Nacional de Estatísticas mostram que mulheres e garotas entre 16 e 19 anos são as vítimas mais comuns de violência sexual na Inglaterra e no País de Gales, seguidas do grupo entre 20 e 24 anos. Nos dois países, as negras e mestiças têm chances ainda maiores de ser molestadas.

Uma pesquisa recente da instituição de defesa infantil Plan International UK mostrou que, na Inglaterra, 58% das jovens entre 14 e 21 anos já foram assediadas sexualmente em público em instituições de ensino.

— A escola tem a obrigação de proteger as alunas e de criar um espaço seguro para que as vítimas de abuso se manifestem, de modo que possam educar os outros com esse comportamento. Como podem ensinar qualquer coisa sobre escolha, sobre respeito, sobre encorajar os jovens a construir relacionamentos saudáveis? — questiona Gill, concluindo: — O programa de educação sexual tem de se concentrar no consentimento e na troca mútua. Acho que agora é hora de uma mudança transformadora.

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