Depois de ficar ‘Livre de LGBT’, cidade polonesa de Krasnik descobre que o preconceito custa caro

Prefeito de Krasnik tenta revogar medida depois de ver recursos da União Europeia minguarem
Andrew Higgins, do New York Times

Cezary Nieradko, em sua casa na cidade de Lublin, na Polônia, depois de ser mudar de Krasnik, onde foi discriminado por ser gay. A cidade polonesa de Krasnik votou para “ser livre de LGBT” há dois anos. A medida, que satisfez conservadores, está sendo rechaçada pelo prefeito, para quem o preconceito tem feito a cidade perder recursos da União Europeia Foto: KASIA STREK / NYT

KRASNIK, Polônia. Quando os vereadores locais aprovaram uma resolução há dois anos declarando sua pequena cidade no sudeste da Polônia “livre de LGBT”, o prefeito não viu muito mal no que parecia ser um gesto simbólico e legalmente sem sentido. Hoje, está lutando para conter os danos.

A decisão de maio de 2019, que inicialmente parecia uma concessão inócua aos conservadores na fronteira rural e religiosamente devota com a Ucrânia, tornou-se um embaraço caro para a cidade de Krasnik. Pôs em risco milhões de dólares em financiamento estrangeiro e, segundo o prefeito Wojciech Wilk, “transformou nossa cidade em sinônimo de homofobia”, o que ele insiste em dizer que não é verdadeiro.

Uma cidade francesa no ano passado cortou uma parceria com Krasnik em protesto. E a Noruega, da qual o prefeito esperava receber quase US$ 10 milhões a partir deste ano para financiar projetos de desenvolvimento, divulgou em setembro que não daria subsídios a nenhuma cidade polonesa que se declarasse “livre de LGBT”.

— Nós nos tornamos motivo de chacota na Europa, e quem mais sofre são os cidadãos, não os políticos locais — lamentou Wilk, que agora está pressionando os vereadores a revogar a resolução que colocou os 32 mil habitantes da cidade no meio de um debate furioso sobre valores tradicionais e modernos.

A situação também é um exemplo das consequências reais da postura política nas trincheiras das guerras culturais da Europa.

Quando Krasnik se declarou “livre de LGBT”, estava se juntando a dezenas de outras cidades da região que haviam adotado medidas semelhantes com o forte apoio do partido de direita Lei e Justiça e da Igreja Católica.

As declarações, parte dos esforços do partido para reunir sua base antes de uma eleição presidencial em 2020, não impediram a entrada de gays nem ameaçaram de expulsão aqueles que já estavam lá. O que houve de fato foi a promessa de manter afastada a “ideologia LGBT”, termo usado pelos conservadores para descrever ideias e estilos de vida que veem como ameaças à tradição polonesa e aos valores cristãos.

Cezary Nieradko, estudante de 22 anos que se descreve como o “único gay declarado” de Krasnik, considera o termo “ideologia LGBT” como uma cortina de fumaça para a homofobia. Ele se lembrou de como, depois que a cidade aprovou a resolução, seu farmacêutico local se recusou a lhe vender um medicamento para o coração.

Nieradko se mudou recentemente para a cidade vizinha de Lublin, onde o conselho regional também adotou uma resolução “livre de LGBT”, mas cujos moradores, segundo ele, têm, em geral, a mente mais aberta.

Jan Albiniak, membro do conselho de Krasnik que elaborou a resolução, comentou que, pessoalmente, não tinha nada contra os gays, a quem descreveu como “amigos e colegas”, e que queria apenas debelar ideias que “perturbassem a maneira normal e regular como nossa sociedade funciona”.

Ele revelou que havia redigido a resolução depois de assistir a um vídeo on-line de ativistas dos direitos do aborto discutindo com homens cristãos na Argentina. Embora isso não tenha nada a ver com questões LGBT ou com a Polônia, Albiniak disse que o vídeo mostrou que “estamos lidando com algum tipo de mal e podemos ver mundialmente manifestações de comportamento demoníaco que devem ser interrompidas”.

Em resposta a uma onda de resoluções anti-LGBT no coração da Polônia, a União Europeia, da qual a Polônia é membro, assim como a Noruega e a Islândia, divulgaram que cortarão o financiamento para qualquer cidade polonesa que viole o compromisso da Europa com a tolerância e a igualdade.

O Parlamento Europeu também aprovou uma resolução em março declarando todos os 27 países do bloco como uma “Zona da Liberdade” LGBT, embora a declaração não tenha força legal, como as resoluções polonesas que afirmam o contrário.

Essa postura, no entanto, começou a ter consequências concretas. O prefeito de Krasnik admitiu estar preocupado com o fato de que, a menos que o status “livre de LGBT” seja rescindido, haverá poucas chances de garantir fundos estrangeiros para financiar ônibus elétricos e programas para jovens, que são particularmente importantes porque a juventude continua deixando a cidade.

— Minha posição é clara: quero que essa resolução seja revogada, porque é prejudicial para a cidade e seus habitantes.

Será uma luta difícil. Diante da perda de subsídios estrangeiros, várias outras cidades polonesas que se declararam “livres de LGBT” ou adotaram uma “carta familiar” alardeando valores tradicionais mudaram de ideia nos últimos meses. Mas o conselho de 21 membros de Krasnik, tendo votado no ano passado contra a revogação, recentemente rejeitou um recurso do prefeito para outra votação.

Apenas um membro expressou abertamente a prontidão para mudar de lado.

— Cometi um erro — disse Pawel Kurek, que se absteve na votação original, mas que agora diz que a resolução foi tola e deve ser rescindida.

Em nível nacional, Jaroslaw Kaczynski, presidente do Lei e Justiça, afirmou ao jornal “Gazeta Polska” que a Polônia deve resistir a ideias LGBT que estão “enfraquecendo o Ocidente” e que são “contra todo o senso comum”.

Por trás do impasse em Krasnik estão as realidades políticas e demográficas de uma região cujos jovens saem para encontrar trabalho no exterior ou em Varsóvia, a capital, e onde a Igreja Católica continua sendo uma força poderosa.

Enquanto muitas pessoas mais velhas gostam que sua cidade esteja “livre de LGBT”, os jovens que permaneceram estão chocados. Amanda Wojcicka, de 24 anos, funcionária de uma loja de conveniência, comentou que a ideia era embaraçosa.

Mas Jan Chamara, ex-operário de construção de 73 anos, disse que preferia viver de uma dieta de apenas batatas do que ceder à pressão econômica de fora para revogar a resolução.

— Não quero o dinheiro deles. Vamos sobreviver — garantiu Chamara, que declarou nunca ter visto gays em Krasnik, mas ainda assim sentia que as precauções eram necessárias.

Quando Krasnik e outras cidades adotaram resoluções “livres de LGBT” no início de 2019, poucas pessoas prestaram atenção ao que foi amplamente visto como um golpe político de um partido governista que se deleita em ofender o “politicamente correto” de seus adversários.

Mas isso mudou no início do ano passado, quando Bartosz Staszewski, ativista LGBT de Varsóvia, começou a visitar cidades que prometeram banir a “ideologia LGBT”. Staszewski, que é documentarista, levou consigo uma placa amarela de aparência oficial na qual estava escrito em quatro idiomas: “ZONA LIVRE DE LGBT”. Colocou a placa falsa ao lado da placa real de cada cidade, tirando fotos que postou nas redes sociais.

A ação, que ele chamou de “arte performática”, provocou indignação em toda a Europa ao evidenciar o que Staszewski descreveu em uma entrevista em Varsóvia como uma tentativa dos conservadores de “transformar os direitos humanos básicos em ideologia”.

O primeiro-ministro Mateusz Morawiecki acusou Staszewski de gerar um falso escândalo sobre as “zonas proibidas” que não existem. Várias cidades, apoiadas por um grupo de direita parcialmente financiado pelo governo, abriram processos de difamação contra o ativista, que, segundo elas, estava ligando a proibição de uma “ideologia” à proibição de pessoas LGBT.

Para Wilk, o prefeito de Krasnik, a disputa semântica é um sinal de que é hora de abandonar as tentativas de tornar a cidade “livre” de qualquer um ou qualquer coisa. Mas Albiniak, que iniciou a resolução, prometeu resistir ao que denunciou como chantagem de estrangeiros com a ameaça de retenção de fundos:

— Se eu votar pela revogação, vou votar contra mim mesmo.

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