Documentário ‘The face of ball’ retrata a cena voguing a partir de encontros com artistas LGBTQI+ da periferia carioca

Filme dirigido pela artista Backyva será exibido por meio de site neste sábado
Eduardo Vanini

Participantes vestem figurino de Fernando Torquatto Foto: Charles Pereira

Logo nas primeiras cenas do documentário “The face of ball”, a bailarina Brainer Lua, de 24 anos, caminha diante da Igreja da Penha, na Zona Norte do Rio. Ela não está ali à toa. “Não fomos até lá para a guerra, mas para ocupar aquele espaço”, resume Blackyva, cantora e atriz carioca que dirige a produção. “É como se disséssemos: ‘Aqui se faz presente também a vida e o corpo de uma travesti’. Trata-se de um lugar tão pertencente a ela quanto a qualquer outro.”

Fruto de uma série de encontros com artistas LGBTQI+, o filme de 50 minutos será lançado neste sábado e mergulha na realidade de dez personagens, ao retratar a cena dos ballrooms. Esses eventos dedicados ao voguing, dança marcada por poses inspiradas em revistas de moda, surgiram na década de 1960, no Harlem, em Nova York, e começaram a ganhar força no Brasil nos últimos cinco anos. Muito mais do que uma festa, trata-se de uma celebração a corpos e culturas marginalizados, em que pessoas pretas, periféricas e LGBTQI+ são protagonistas em batalhas pautadas em figurinos glamourosos e danças ágeis. “A cultura ballroom ocupa um lugar de comunidade e troca”, define Blackyva, que viabilizou o filme por meio do projeto Entrando na Dança, com direito a narração da atriz Júlia Lemmertz e figurinos de Fernando Torquatto. “Esse movimento é sobre pisar num lugar e ser você verdadeiramente.”

A diretora do documentário, Blackyva Foto: Jonas Tucci


A presença de Brainer Lua no projeto não poderia ser mais precisa nesse sentido. Além de bailarina, a jovem moradora do Complexo da Maré é estudante de Teoria da Dança, técnica em administração, produtora cultural e artista visual. Com a chegada da pandemia, boa parte dos trabalhos cessaram, e ela se fechou em casa para concluir a transição de gênero. A participação no projeto, portanto, é uma celebração à nova vida. “Foi muito renovador. É como se meu corpo estivesse num estágio embrionário e agora começasse a se expandir”, comemora.

Para outros participantes foi um momento de resgatar algo a que vinham se dedicando com tanto empenho. O bailarino Lucas Weslley Almeida, de 21 anos, estava angustiado, depois de tanto tempo longe dos ballrooms. “No começo da pandemia, fiquei bem mal. Estávamos no auge, e os primeiros meses de isolamento seriam de muito trabalho”, lamenta o morador do Morro da Mangueira. “Com esse projeto, me senti forte para voltar, entendendo que estamos atravessando um período sombrio passageiro.”

Desse encontro de personalidades nasceu uma troca tão forte que as histórias se entrelaçaram. A própria Blackyva se sentiu encorajada a iniciar a transição de gênero depois da experiência. “Foi marcante porque estava o tempo todo convivendo com pessoas iguais a mim. Olhava para meninas e me sentia confortável”, diz a cantora, moradora da Rocinha.

Outro aspecto evidenciado nessa imersão foi a capacidade de reinvenção da turma, já que a pandemia não fez com que a cultura ballroom arrefecesse. O espaço virtual mostrou-se bastante produtivo nos últimos meses. “As batalhas on-line começaram a rolar em setembro”, comenta Brainer Lua. “Um lado positivo foi que as pessoas ganharam dinheiro dentro de casa, conforme venciam as disputas.”

Cena do filme “The face of ball” Foto: Charles Pereira

Toda essa conexão transcende até mesmo as barreiras geográficas. Lucas Weslley faz parte de um grupo de WhatAspp que reúne 146 participantes de ballrooms de toda a América Latina. Pioneiro da cena no Rio, ele observa com gosto a expansão da cultura. “Para mim e para os meus filhos, não se trata apenas de um hobby. Também tem a ver com militância, respeito, carinho e família”, diz ele, que é father da Kiki House of Império, sob o alter ego Lucky Roh. Para quem não tem intimidade com a cena, vale a explicação: cada “house” configura um grupo de participantes da cena ballroom e sempre é liderada por uma “mother” e um “father”. Eles, por sua vez, se referem aos colegas como filhos. Mais família, impossível.

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