‘Traidoras’: pesquisa resgata perseguição a judias que casaram com árabes na Palestina

Episódios documentados ocorreram durante o Mandato Britânico, em meio à grande emigração judaica para a região antes da criação de Israel; rejeitadas pelas famílias e pela sociedade, algumas das mulheres precisaram fugir e outras foram assassinadas
Paola de Orte, O GLOBO

Peixaria em Umm al-Fahm, cidade árabe no Norte de Israel; os casamentos entre judeus e árabes continuam sendo raros no país, segundo a pesquisadora Idit Erez Foto: Dan Balilty / NYT

TEL AVIV — Em 1944, quando a Palestina ainda estava sob o domínio britânico, um casamento abalou a cidade de Haifa, hoje em Israel. Séfora Arbel, judia, e Suhail Shukri, árabe, se conheceram trabalhando para uma firma de seguros ligada ao Império Britânico. Decidiram se casar, mas a família de Séfora não aceitou a união e rompeu laços com a jovem, só retomando o contato quando a primeira filha do casal nasceu.

Casamentos entre mulheres judias e homens árabes não eram comuns antes de 1948 —  ano da criação do Estado de Israel após a Partilha da Palestina pela ONU —, apesar da grande emigração judaica para a região a partir do final do século XIX, com a perseguição dos judeus na Europa e o crescimento do movimento sionista. A história desses casais aparece agora em uma pesquisa conduzida por Idit Erez na Universidade de Haifa, e que foi primeiro divulgada pelo jornal israelense Haaretz. Ela mostra que centenas, talvez milhares, de judias se relacionaram com árabes no período, levando-as a serem tachadas de “traidoras”.

— A reação das famílias, do público, de todo mundo, era muito ruim. Ninguém gostava. Era inaceitável, tabu para todos, se você era religioso ou nacionalista — disse ao GLOBO Erez, que afirma que casamentos mistos ainda não são comuns ou populares em Israel hoje. — As mulheres que tinham ou que eram suspeitas de terem relações com homens árabes eram consideradas traidoras.

A rejeição a essas uniões vinha da família e da sociedade. Em 1948, Séfora e Suhail foram forçados a mudar de Haifa para Alexandria, no Egito, após ameaças de árabes que acusavam Suhail de cooperar com judeus. Após a declaração de independência de Israel, os dois voltaram com a ajuda da sogra.

Cafés e comunismo

A proliferação de cafés ao fim do Império Otomano, antes do Mandato Britânico (1920-1948), contribuiu para a aproximação. Neles, judeus, muçulmanos e cristãos se encontravam para ouvir música, assistir a apresentações de dança e jogar cartas. Nos cafés de Jafa, o hábito era jogar dominó e fumar narguilé, ópio e maconha, segundo relato encontrado por Idit — que faz a ressalva de que, oficialmente, só café, chá e limonada eram consumidos. “Aqui os povos de Nazaré e de Albion [antigo nome do Reino Unido] vão beber juntos com as meninas de Tel Aviv sem traço de ódio entre eles”, dizia um jornal de 1939.

Relato da imprensa da época chama os árabes que frequentavam cafés de “pessoas iluminadas de Jafa que passam as noites em Tel Aviv. Durante o dia, são antijudeus e antissionistas, como todos os árabes educados de Jaffa. À noite, quanto se sentam nas festas em Tel Aviv, amam Israel e seus amigos sionistas”.

As reuniões do Partido Comunista da Palestina também favoreciam os encontros. A ideologia internacionalista de seus membros, árabes e judeus, enfatizava a luta de classes ao invés da religiosa ou nacional. Um dos casais formados nas reuniões foi Muhammad Najati Sidqi e Lutka Loberboim, cuja filha recebeu o nome de Internationale.

O navio Exodus, com centenas de judeus da Europa, chega ao porto de Haifa, em maio de 1947 Foto: Frank Shershel / Reuters/22-5-1947
O navio Exodus, com centenas de judeus da Europa, chega ao porto de Haifa, em maio de 1947 Foto: Frank Shershel / Reuters/22-5-1947

Muitas histórias tiveram fins trágicos. Lea Rosenthal, nascida na Alemanha, vivia em Jerusalém e deixou a casa dos pais para morar com um árabe cristão. Foi assassinada a tiros por árabes e encontrada morta com uma cruz no peito.

Outra história é a de Esther K. e Mahmoud al-Kurdi, casados em 1940 depois de terem se conhecido em um café de Jerusalém — ele com 45 anos e ela com 17. Os dois oficializaram o casamento poucos dias depois de se conhecerem, sem o consentimento dos pais de Esther, que conseguiram sua anulação, em um processo em que a jovem declarou à Justiça que tinha se apaixonado “à primeira vista”. “Em alguns meses, vou fazer 18 anos e volto para você, meu querido”, disse ela ao fim do depoimento, pouco antes de descobrir que estava grávida e ser forçada a fazer um aborto.

Muitas jovens vinham de famílias mizrahim, originárias de países do Oriente Médio, como Iraque e Iêmen. Elas compartilhavam com os árabes muçulmanos e cristãos o idioma e a cultura, tendo mais em comum com eles do que com outros pretendentes da própria religião.

Depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, o rabino Hanania Dery ajudou a levar de volta a Israel centenas de mulheres que viviam em cidades como Hebron, Nablus, Gaza e Khan Yunis, nos territórios que foram ocupados pelos israelenses no conflito com os vizinhos árabes. “Muitas delas são de famílias que precisam de ajuda. São também meninas inteligentes procurando aventuras”, dizia o rabino, citando também rebeldia e provocação como motivos para os casamentos.

Pnina Bechor desapareceu de sua casa em Tiberíades em 1943, aos 14 anos, para fugir com um árabe com quem se casou. Depois de se converter ao Islã, trocou o nome para Lulu, teve oito filhos e, em 1948, deixou o país com a família. Acabou se tornando uma refugiada palestina no campo de Askar al-Jadid em Nablus.

Em 1951, a imprensa relatava que dezenas de mulheres judias que fugiram com seus maridos árabes em 1948 para a então Transjordânia estavam vivendo em Amã. Muitas se sentiam hostilizadas e queriam voltar. “Os pioneiros olhavam de maneira condescendente para meu tataravô porque ele parecia árabe”, disse à época a irmã de Pnina.

O termo usado na imprensa para o caso de Pnina foi “sequestro”. Em casos de fugas com árabes, mesmo voluntárias, essa terminologia era preferida para preservar a “dignidade da família sob o olhar do público”. Na imprensa, as mulheres judias que casavam com homens árabes eram descritas como traidoras, abandonadas e “destruídas”. “Esses casos de casamentos mistos são dos mais tristes da história do nosso povo”, dizia à época o jornalista Isaac Ramba. “As mulheres judias que casam com membros de outra religião de Jesus ou de Maomé não nos ajudam.”

Conversão e repressão

Algumas mulheres se convertiam ao Islã e cortavam os laços com as famílias, outras mantinham e se encontravam nos feriados judaicos. Idit encontrou relatos de que, entre os muçulmanos da época, o entendimento sobre o casamento com estrangeiros era liberal e era permitido o casamento com uma mulher não muçulmana desde que fosse de religião monoteísta.

Nos relatos da época, as expressões para se referir a essas mulheres evocavam a diáspora judaica e as vulnerabilidades dos judeus em uma terra sem proteção. No auge da Segunda Guerra, com a notícia dos campos de extermínio na Alemanha, as mulheres eram duplamente acusadas: de autodestruição, ao casar com estrangeiros e se converter à sua religião, e de destruição coletiva, por contribuir para o desaparecimento do povo judeu.

Nos arquivos das organizações paramilitares sionistas que lutavam pela independência, como a Haganá e o Irgun, Idit identificou indícios de que algumas dessas mulheres eram vigiadas de perto. A jovem Chaya Zeidenberg chegou a ser morta por uma dessas organizações, que afirmava que ela havia confessado em um julgamento extrajudicial que planejava colocar uma bomba em Tel Aviv, sob orientação do amante árabe.

— Não sabemos o que aconteceu, mas a reação da sociedade foi ruim. Todos disseram: como isso pode acontecer? Uma execução? Não é certo — conta Idit Erez. — Por outro lado, diziam: não podemos ter orgulho dela, estava por aí, andando com um árabe.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.